Quero fazer os poemas das coisas materiais, pois imagino que esses hão de ser



Baixar 129.5 Kb.
Página21/31
Encontro27.05.2018
Tamanho129.5 Kb.
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   31
6.3. DIÁLOGO COM A CIÊNCIA

Acredito que o método científico possa trazer maior clareza e melhores critérios para a discussão sobre o que é bioenergia. Muito se poderia ganhar pela aplicação daquele que Popper considera “o único método de toda discussão racional, e, por isso, tanto das ciências da Natureza como da filosofia: me refiro ao de enunciar claramente os próprios problemas e de examinar criticamente as diversas soluções propostas” (47, p. 17).

Creio ser necessário desenvolvermos uma epistemologia das psicoterapias reichianas, nos moldes do que Gonçalves se propõe a fazer com o Psicodrama. Tomando, conforme Russel, a epistemologia ou teoria do conhecimento como um “escrutínio crítico do que é tido como conhecimento”, a autora busca “critérios para diferenciar o conhecimento (episteme) da opinião (doxa). Segundo uma interpretação contemporânea, podemos dizer que os juízos ou enunciados por meio dos quais a opinião se expressa não são verificáveis e que ... não se pode chegar a conclusão alguma a respeito de serem verdadeiros ou falsos” (24, p. 91-2). Em outras palavras, trata-se de sairmos do campo das “opiniões” e adentrarmos no do “conhecimento”, uma tarefa nada fácil, mas que pode ser muito útil. Certamente, na construção desta epistemologia das psicoterapias reichianas, a questão da bioenergia será um dos principais pontos a serem trabalhados, especialmente o campo da “fisiologia energética”, como já ressaltado anteriormente.

Neste sentido, é essencial a preocupação com a metodologia. O fato de Reich expressar opiniões exóticas, e até risíveis do ponto de vista científico oficial, não é necessariamente um demérito. Como afirma Magee, “quanto mais ousada a teoria, tanto mais ela nos diz - e mais atrevido o ato imaginativo. (Simultaneamente, contudo, torna-se maior a probabilidade de ser falso o que a teoria afirma e é preciso submetê-la a testes rigorosos para verificá-lo). A maior parte das grandes revoluções científicas deveu-se a teorias temerárias, que exigiram imaginação criativa, profundidade de visão, independência de espírito e um pensamento desejoso de aventurar-se em regiões inseguras” (37, p. 32). Ou seja, diálogo com a ciência não quer dizer jogar fora os conceitos e práticas reichianos que não se harmonizam com as teorias científicas vigentes. Significa sim o desenvolvimento metodológico: examinar criticamente, submeter a testes, debater a partir dos fatos e resultados com que lidamos em nossa prática (11).

Dentro da Homeopatia esta questão está bem mais adiantada, e já existem ensaios clínicos (53, 57) e pesquisas sobre os fundamentos homeopáticos (56) que buscam o desenvolvimento de uma metodologia, cientificamente rigorosa, que seja adequada às suas especificidades.

Além do aspecto conceitual, de desenvolvimento do conhecimento, existe também um aspecto prático: nossa cultura é, ou tenta ser, fundamentada na ciência como fonte principal, ou mesmo única, de legitimação do conhecimento. Assim, para que as práticas e os conhecimentos de psicoterapia reichiana possam se expandir e se difundir, é inevitável que haja um diálogo com a ciência. Senão, é inevitável que permaneçamos no gueto, no campo dos alternativos, como mais uma seita exótica que diz coisas absurdas, e que faz curas “milagrosas”, como a magia, o ocultismo, os médiuns espíritas e outros.

Enquanto nossas atividades e conceitos não forem cientificamente palatáveis, ficaremos de fora das universidades, das publicações científicas, das bolsas de estudo. Todo este conhecimento, que tanto poderia ajudar as pessoas, ficará fora do alcance dos profissionais encarregados de cuidar delas, ou seja, os médicos, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos etc. etc..

Dado que nossas práticas chegam a bons resultados, algo deve acontecer que leva a isso. Se for conseguido o esclarecimento científico do que é que propicia tal eficácia, pode ser que finalmente se faça luz sobre a existência de algo que tenha as características do que hoje conhecemos como bioenergia. Pode ser que seja outra a explicação, e que possamos explicar nossos resultados em termos de disciplinas científicas já existentes, como a neurofisiologia, a cinesiologia, a biomecânica. Pode ser que se revele que o que hoje conhecemos por bioenergia na verdade é o nome comum de uma multiplicidade de fenômenos diferentes. Ou pode ser ainda que a pesquisa nesse campo leve a novas descobertas, novos ramos do conhecimento, quem sabe?

Qualquer que seja o resultado, teremos mais clareza do que é que acontece no ser humano quando partimos nesta viagem em busca do seu íntimo através do corpo e da mente. Nosso conhecimento poderá fecundar e ser fecundado por outros ramos do conhecimento e de prática. Poderemos talvez sair do eterno conflito onde os reichianos criticam a cegueira dos cientistas, e os cientistas criticam o espírito supersticioso e irracional dos reichianos.

Um outro ponto a considerar é a questão do nome. Energia, ou bioenergia, talvez não seja um bom nome. A física, a química e a biologia já têm uma definição bastante precisa do que seja energia, e me parece que a “coisa” com a qual lidamos não é simplesmente mais um tipo de energia, nesta acepção. Com a desvantagem de que a insistência neste nome pode gerar conflitos e discussões inúteis. Tomando como referência o indivíduo deprimido, que todos os reichianos e neo-reichianos apontam como exemplo de “baixa energia”, podemos verificar que, se colocarmos nessa pessoa um soro glicosado por via endovenosa, e se o pusermos a respirar oxigênio puro, a energia fisiológica disponível aumentará, mas a depressão se manterá inalterada. Reich, em seus primeiros trabalhos, levantou a hipótese de uma qualidade bioelétrica da energia (50, p. 232), o que nos levaria a pensar num possível uso de pilhas elétricas na forma de supositório como terapêutica para depressão, o que é obviamente absurdo. Pelo exposto acima, talvez denominações como força vital ou semelhantes sejam mais adequadas.

Não poderíamos deixar de citar aqui os trabalhos de Gaiarsa (20, 21, 22), que apesar de não ter se constituído numa linha terapêutica específica, tem contribuições bastante originais e pertinentes ao tema aqui abordado. Trata-se, até onde vai o meu conhecimento, do único autor inspirado na herança reichiana que tenta fundamentar a psicoterapia de abordagem corporal em conceitos científicos. E é interessante notar que em seus textos ele praticamente não utiliza o conceito de bioenergia ou afins. Talvez seja este um dos motivos deste autor ter ficado mais ou menos à margem da corrente principal das teorias e práticas reichianas e neo-reichianas em nosso país.



Baixar 129.5 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   31




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual