Quero fazer os poemas das coisas materiais, pois imagino que esses hão de ser



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3.3. A METODOLOGIA CIENTÍFICA

Além das diferenças conceituais, há uma divergência com a ciência estabelecida quanto ao método científico. Percebe-se muitas vezes um afastamento do rigor tão valorizado pelos cientistas na análise de resultados experimentais e na avaliação crítica das fontes de referência.

Tome-se por exemplo o modo pouco rigoroso e nada crítico com que Reich lida com informações no mínimo questionáveis: “Por esse mesmo tempo, recebi um recorte de jornal que noticiava experimentos realizados em Moscou. Um cientista (esqueço-me do nome) conseguiu demonstrar que o óvulo e as células espermáticas produzem indivíduos masculinos ou femininos conforme a natureza da sua carga elétrica” (50, p. 241). Ou seja, ao comentar uma “demonstração” que confirmava suas próprias teorias, não há preocupação em verificar o nome do autor (não seria um charlatão ou um investigador não qualificado?), em verificar se a metodologia de investigação foi adequada, e se os resultados obtidos realmente permitem afirmar o que foi dito, a partir de artigo publicado em revista científica ou de comunicação direta com o autor, ou ainda questionar se o experimento foi repetido em outros laboratórios com os mesmos resultados. Isto fica ainda mais significativo se for levado em conta que estas considerações de Reich estão colocadas em um livro que expunha conceitos que desafiavam frontalmente a ciência estabelecida.

Outro exemplo de metodologia deficiente é o que acontece quando Reich faz afirmações extremamente abrangentes e inovadoras sobre a formação das galáxias e a gravitação, e afirma: “Até este ponto, deduzimos nossas conclusões a partir de uma única função celestial, o anel da aurora, e sua posição em relação aos planos galáctico e equatorial” (52, p. 258)

Lowen define a Bioenergética como “o estudo da personalidade em termos dos processos energéticos do corpo” (36, p. 40), e todo o raciocínio diagnóstico e terapêutico é fundamentado no conceito de bioenergia. Entretanto, este autor afirma: “Não acredito que seja importante para o estudo presente determinar com precisão o caráter real da energia da vida. Cada um desses pontos de vista (ciência, Reich, acupuntura) tem sua validade e eu não consegui ajustar as diferenças entre eles” (36, p. 40). é estranho que um conceito tão básico e fundamental seja deixado em tal grau de indefinição e incerteza, mesmo porque em outros locais são feitas afirmações que pressupõem uma teoria mais detalhada e específica do que seja a bioenergia.

Existe toda uma produção de trabalhos experimentais publicados por Reich sob a forma de artigos científicos em periódicos fundados por ele, como por exemplo o “Orgone Energy Bulletin”. Não cabe aqui um exame detalhado da metodologia utilizada, mas esta é uma tarefa a ser realizada futuramente para melhor compreensão da questão. Há aí uma contradição, que precisa ser passada a limpo, entre a descrição de experimentos aparentemente científicos, e as conclusões derivadas dos mesmos, frontalmente contrárias às concepções científicas vigentes.

Essa despreocupação com a metodologia científica parece ser uma constante em Reich e na grande maioria dos outros autores da área. Isto tem dado margem a críticas severas, como a de Rycroft, o qual afirma que “de um ponto de vista científico, há algo de patético nas descrições que Reich fez das suas experiências e teorias. Essas experiências parecem ter sido planejadas e realizadas de um modo totalmente amador e desvalioso sem, especialmente, qualquer compreensão da necessidade de controles adequados, enquanto suas teorias estavam repletas dos mais elementares erros de biologia e física. Fica-se com a impressão de que Reich ... não tinha a menor compreensão do método científico” (55, p. 104).

Reich rebate as críticas metodológicas afirmando que elas surgem devido à estrutura neurótica daqueles que o criticam. Segundo ele, “a pesquisa científica natural é uma atividade que se baseia na interação entre observador e natureza, ou, dito de outra maneira, entre funções orgonóticas dentro do observador e as mesmas funções fora dele. Deste modo, a estrutura de caráter e os sentidos de percepção do observador são ferramentas importantes, se não decisivas, da pesquisa natural.” “A estrutura do observador é importante dado que é a energia orgone organísmica em seus órgãos sensoriais que reage aos fenômenos orgônicos externos” (52, p. 157). Assim, “organismos humanos com baixa potência orgonótica ou com encouraçamento acentuado não percebem facilmente os fenômenos relacionados à energia orgone, ao contrário dos organismos saudáveis” (52, p. 156). “Eu temo que sejam as funções emocionais e, dentro do campo emocional, especialmente as funções biossexuais, que tenham impedido o pesquisador clássico de transpor o fosso entre a natureza que observa (biopsíquica) e a que é observada (biofísica)” (52, p. 157-8).

Reich relata o caso de um físico, um cientista talentoso e adepto das concepções científicas tradicionais, que se submeteu à terapia com ele. Com o tratamento, e conseqüente desbloqueio da couraça, emergiu uma profunda ansiedade. “Era a mesma ansiedade que ele havia desenvolvido quando criança devido às suas poderosas sensações de órgãos (organ sensations). Na sensação de órgão, o homem experiência a função orgone da natureza em seu próprio corpo. Agora esta função estava carregada de ansiedade, e portanto inibida. Nosso físico queria devotar-se à biofísica orgone porque ele estava convencido da sua exatidão e significado. Ele havia visto o orgone na sala metalizada e o havia descrito em detalhe. Mas sempre que ele considerava a possibilidade de fazer um trabalho prático, uma forte inibição se instalava, a mesma inibição baseada no medo de entrega total, de abandono incondicional às sensações do seu próprio corpo. No processo de orgonoterapia, a seqüência de avanço, e recuo por medo, se repetiu tão freqüentemente e tão tipicamente que não podia haver dúvida de que o medo das sensações de órgão e o medo da pesquisa científica sobre orgone eram idênticos. As reações de ódio que vinham à tona eram as mesmas que encontramos em contatos com físicos e médicos em relação ao orgone” (52, p. 85-6).

Em resumo, Reich afirma que os cientistas encouraçados não poderiam perceber os fenômenos descritos pela ciência orgonômica, e assim não estariam em condições de julgar seus resultados.

O que se pode concluir é que os conceitos reichianos no campo da energia orgone estão muito distantes da verdade científica tal como aceita nos dias de hoje. Muitos críticos de Reich consideram seus conceitos sobre orgone como meras bobagens de um autor mentalmente perturbado. Seus defensores podem argumentar que talvez ele tenha percebido, intuído ou verificado coisas que o futuro revelará como corretas, e que a ciência atual é rígida e estreita, um produto de mentes e corpos encouraçados e defendidos contra a vida. O que parece claro é que, na questão do orgone, Reich pode estar muito à frente ou muito atrás da ciência atual, mas certamente não está em concordância com ela.



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