Psicopedagogia clínica: caminhos teóricos e práticos makeliny Oliveira Gomes Nogueira, Daniela Leal



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Alicia Fernández (1991, p. 23)

O presente capítulo traz a análise de um estudo de caso para exemplificar as provas e/ou testes psicopedagógicos descritos nos dois capítulos anteriores, os quais descrevem as etapas que concernem à avaliação diagnóstica de um sujeito com dificuldades no processo de aprendizagem escolar.

O diagnóstico psicopedagógico clínico aqui apresentado é obje­to de um estudo de caso realizado por uma das autoras durante seus atendimentos clínicos. Esse diagnóstico foi escolhido para fazer parte integrante deste livro para que vocês, leitores e/ou futuros psicopedagogos, possam analisá-lo colocando em prática a discussão de suas angústias e dúvidas durante o processo
de análise, bem como suas ideias sobre como se estruturou a descrição das provas utilizadas e a possibilidade de pensar como estruturar tais dados de outra forma. Assim é que, com muito estudo, apresentamos o resultado do caso para análise e avaliação de novos conhecimentos.

5.1
Caso Carla da Silva Neves15

Trata-se de uma criança de 8 anos, que chamaremos de Carla, nascida em 12 de janeiro de 2002 e que hoje cursa o terceiro ano do ensino fundamental de uma escola particular da cidade de Salvador, Bahia. Seu pai, José Geraldo da Silva Neves, 42 anos, trabalha como encarregado de obra. Sua mãe, Maria Antonieta da ­Silva, 36 anos, trabalha com artesanato em uma loja-oficina de arte.
Carla tem uma irmã mais velha, de 14 anos, que está cursando o oitavo ano do ensino fundamental, e uma irmã de 5 anos de idade,
que fica com sua avó materna.

O primeiro contato foi realizado por telefone pela psicopedagoga responsável pelos casos de alunos da escola que apresentavam dificuldade no processo de escolarização. Nesse primeiro momento, o diálogo ocorreu entre a psicopedagoga e o pai de Carla, que demonstrou estar preocupado com a situação da família, bem como disposto a auxiliar no trabalho psicopedagógico que a escola realizava. Nesse contato, foi agendado o primeiro encontro da psicopedagoga com os pais.

Na entrevista inicial, a primeira etapa da psicopedagoga consistiu em explicar a natureza do trabalho realizado por ela, para que não ficasse nenhuma dúvida sobre a área que se pretendia atuar, bem como para que não se confundisse seu trabalho com o de um professor particular. Após a explicação de que o trabalho realizado ajudaria no processo de aprendizagem de Carla, a psicopedagoga procurou investigar o histórico escolar da menina.

Durante a fala, a mãe revelou que Carla e sua irmã já estudaram em três escolas. Na primeira escola ela se deu bem, segundo a mãe, mas não justificou a saída delas; na segunda, Carla já sentiu bastante dificuldade, voltava para casa machucada e era discriminada pelos colegas – a irmã também passava pelas mesmas situa­ções. No entanto, a mãe não buscou a ajuda na escola, apenas levou Carla para fazer um eletroencefalograma.

Com relação ao seu comportamento, Carla vinha demonstrando estar mais nervosa, agressiva e rebelde, o que, segundo a mãe, era decorrência de a menina sempre ter tido um “gênio forte”.

Diante de tais colocações feitas, notou-se que, apesar de a mãe estar preocupada com a possível dificuldade de aprendizagem de sua filha, atribuia tal dificuldade à escola, ou seja, por achar que em uma das escolas que Carla estudou as crianças eram agressivas e problemáticas, tal fato justificaria o não aprendizado por esses atributos. O que nos mostra, em um primeiro momento, certo desconhecimento por parte da mãe sobre as reais condições de aprendizado de sua filha. Afinal, quem ajudava Carla nas tarefas de casa era sua irmã mais velha, pois a mãe trabalhava o dia todo.

Dados da anamnese

No dia da anamnese, contou-se apenas com a presença da mãe, pois como o pai viaja muito a trabalho, não pôde comparecer. Contudo, cabe aqui destacarmos que se faz essencial, quando da família constituída por pai e mãe, a presença de ambos, para que assim se possa ter uma visão dinâmica da família, bem como o que a queixa causa em cada um diante do problema de aprendizagem do(s) filho(s). Passemos ao relato.

Segundo relato da mãe, o início da gravidez foi tranquilo e aceito por todos da família. No entanto, a mãe não pensava em ter mais filhos, pois a mais velha já estava crescida. O pré-natal foi rea­lizado a partir do terceiro mês de gestação: “Estava muito ansiosa para saber se era menino ou menina. Fiz nove ultrassonografias, mas não deu para saber o sexo. Eu queria ter um menino, não tenho nada contra meninas, gosto muito de minhas filhas. Mas... não deu para ser menino”.

Para o pai, o nascimento das filhas foi uma maravilha, pois como ele tinha outra família e desse relacionamento havia dois meninos – “mas que não convivem com ele” –, a dedicação foi toda voltada às meninas, principalmente para Carla.

De acordo com a fala da mãe, durante o parto correu tudo muito bem, porém o pai não estava presente, devido ao trabalho, e só veio a conhecer a menina após um mês de vida. O que foi muito difícil para a mãe: “Nós somos muito unidos! Todos os lugares aos quais vamos, estamos sempre juntos e na hora senti muito a falta dele”. Carla chorou bastante logo após o parto, pois era muito agitada, o que levou a mãe a sentir muitas dores antes do parto, mas, segundo ela, “depois a menina nasceu de uma só vez” – rapidamente.

Carla começou a engatinhar entre 7 e 8 meses e, apesar de ter um problema de infecção intestinal, começou a andar entre 9 meses e 1 ano, no próprio hospital no qual ficou internada por um mês. Já quanto à fala, a mãe afirmou que não podia dizer o mesmo, pois Carla começou a falar entre 1 ano e meio/2 anos, apesar da mãe conversar muito com ela. Nesse período, Carla passava a maior parte do tempo com sua avó, pois quando ela completou 6 meses sua mãe voltou a trabalhar.



Com relação aos vínculos entre Carla e as irmãs, a mãe relatou que Daiane (a filha mais velha), sempre muito serena, gostava de cuidar da irmã, ajudar no banho, em tudo. Já Carla, diante da irmã mais nova, apresentou muitas recaídas, pois achava que os pais davam mais atenção para a recém-nascida do que para ela.
O que, segundo a mãe, não é verdade: “Carla foi quem recebeu mais atenção”. A menina possuía um vínculo afetivo maior com a avó.

Com relação ao pai, a mãe colocou que as filhas o dominavam: “Ele não é de bater, faz tudo o que elas querem, fica retraí­do de cobrar delas e cobra de mim as dificuldades na escola”.


No que diz respeito à sua relação com Carla, Maria Antonieta afirmou que, às vezes, a filha era malcriada, mas que ainda era possível controlá-la. Afinal, para Maria: “Enquanto pequena tem que ir do jeito que a gente quer. Quando estiver grande pode mudar”.

Quanto ao início do processo de escolarização, a mãe relatou que Carla foi para a escola somente aos 6 anos de idade, pois, antes de morar na cidade, eles moravam em um sítio. No período inicial, a menina gostava muito da escola, mas com a mudança de instituição e de professora a menina não se adaptou muito bem. Segundo o relato da mãe, “A professora agredia Carla, que chegava com hematomas [...] a professora agredia Carla porque ela era muito bagunceira”. Acarretando, portanto, na transferência de escola.

Atualmente, na escola em que estava, Carla gostava muito dos professores e de seus colegas. Contudo, no começo, a menina deu trabalho para fazer as tarefas escolares, ficando muitas vezes inquieta. Mesmo quando decidiu que queria realizar as tarefas sozinha, encontrou certa dificuldade: “Eu já disse a ela para prestar bem atenção no que a professora diz para ela”, pois, para a mãe, “a dificuldade maior que vejo é nos estudos. Ela é um pouco preguiçosa e relaxada [...] na escola a dificuldade é maior”.

Com relação às dificuldades de Carla, a mãe revelou que gostaria de ter mais tempo para ficar com a filha depois do horário do colégio, pois quando esta chegava do serviço, muitas vezes, Carla já estava dormindo e, se ela era chamada, dizia que não havia feito as tarefas e que não iria fazê-las, pois estava com sono. Nesse momento, quando questionada sobre tal preocupação para com a filha, a mãe começou a chorar e entre silêncios e lágrimas disse:

“Às vezes penso que tenho medo de perder... Desde que ela ficou doente e que eu quase a perdi... Disseram que quando descobrimos a infecção já estava bem avançada e não entendi por quê... A alimentação dela sempre foi boa, sempre tinha acompanhamento nutricional... Então, eu a levei para um hospital, onde ficou por 15 dias”.

A mãe relatou também que sofreu muito, pois o marido novamente não estava presente e ela sentiu dificuldade para transferir a menina de um hospital para outro, pois não queriam deixá-la sair com a menina e nem ligar para seu esposo e decidir o que fazer. Com muita dificuldade, segundo ela, conseguiu ligar e levar Carla para outro hospital: “Com muito custo consegui e quando a levei para o outro hospital, o médico disse que ela estava quase morrendo”. Nesse momento, o choro se misturava com o nervosismo. A
doença debilitou Carla seriamente e fez com que os pais fossem mais presentes na vida dela e, ao mesmo tempo, a criança se acostumou com que todos fizessem tudo o que ela queria.

Diante de tal relato, foi possível observar que a mãe apresentava um grande sentimento de culpa por tudo que aconteceu e estava acontecendo com Carla, o que supomos ser um dos fatores que contribuíram para o não aprendizado da menina. Afinal, os pais acabavam permitindo que ela fizesse tudo o que queria, sem impor normas e regras para a menina.



Quanto à aprendizagem, verificou-se que Carla demorou um pouco mais para falar e que entrou na escola bem próxima do perío­do de alfabetização. Para tanto, fez-se necessário investigar como foi trabalhado o período inicial do desenvolvimento para descobrir quais eram as efetivas causas do não aprendizado de Carla.

Dados da Eoca

No dia agendado pela psicopedagoga, Carla compareceu ao consultório para realizar a entrevista operativa centrada na aprendizagem (Eoca). No primeiro momento, foi explicado a ela o que seria feito: “Gostaria de realizar com você algumas atividades para conhecê-la melhor, para saber do que você gosta e para tentar descobrir por que você está desanimada em relação a algumas atividades que a professora pede na sala de aula. Você está disposta a realizar essa atividade?”.

Apesar da fala anterior, Carla permaneceu em silêncio durante quase toda a sessão, apenas olhando, pegando algum material, fazendo alguma atividade e respondendo somente nos últimos 10 minutos de atendimento. Observem.

“Esse material foi todo preparado para você mostrar o que sabe fazer, o que lhe ensinaram a fazer e o que você aprendeu na escola”. Nesse momento, ainda em silêncio, Carla pegou um livro de histórias, folheou e o deixou de lado.

“Você pode pegar o que quiser para me mostrar o que aprendeu a fazer, o que te ensinaram e o que você sabe”. Carla mais uma vez não respondeu à consigna, permanecendo em silêncio, só que nesse momento com um olhar mais triste. No entanto, pegou outro livro e agiu da mesma maneira que anteriormente. Nesse momento, a psicopedagoga fez uma pausa em seu questionamento para ver qual seria a iniciativa de Carla diante da situação. Contudo, de nada adiantou, pois Carla permaneceu parada.



“O que você gosta de fazer?”, perguntou a psicopedagoga.
Carla pegou um dos lápis, apontou-o tranquilamente e após um novo questionamento da psicopedagoga (“Você pode demonstrar com esse material o que lhe ensinaram, o que você sabe fazer e o que você aprendeu na escola?”), a menina pegou um caderno, inverteu sua posição e começou a desenhar uma casa, que ocupou quase todas as extremidades da folha, e uma menina ao lado da casa.

“Ainda temos muito tempo, Carla, se quiser pode continuar”. Carla fez, então, outro desenho: dois corações grandes e vários pequenos e médios, tampando-os com a mão para que o desenho não fosse observado. Nesse momento, a psicopedagoga interveio novamente: “Gostaria que você mostrasse o que você aprendeu na escola. O que você sabe fazer?”. Pela primeira vez, Carla respondeu: “Eu sei fazer triângulos”. A psicopedagoga responde: “Pode fazer, se quiser”. Então, Carla começou a desenhar círculos enfileirados, depois desenhou duas fileiras de quadrados e um boneco com figuras geométricas. Depois de um tempo e com intervenção da psicopedagoga, com seus questionamentos, Carla pintou o desenho utilizando as cores harmoniosamente. Após saber que o tempo estava terminando, Carla se apressou para concluir a atividade, pintando rapidamente, mas concentrada no que fazia.



Conclui-se que, apesar de exposto todo o material para a atividade, Carla se mostrou introvertida, tímida e um pouco apática, não respondendo com interesse aos estímulos apresentados. Durante a realização dos desenhos, a menina demonstrou dominar o conceito temporal (início, meio e fim), começando e concluindo ambos, apesar da inquietação corporal. Portanto, podemos dizer que a Eoca não apresentou questões que auxiliassem a avaliação diagnóstica, pois a conduta de Carla não permitiu que a psicopedagoga observasse se ela possuía facilidade ou dificuldade em alguma área de conhecimento.

Dados das provas operatórias piagetianas

A seguir, apresentamos os registros das aplicações das provas operatórias piagetianas com a criança.

Quadro 1 − Conservação de pequenos conjuntos discretos de elementos



Entrevistador e entrevistado

Estratégia do
entrevistador

Conduta do
entrevistado

P(1): Tudo bem, C.? Hoje nós vamos trabalhar de forma diferente com esse material.







C(2): (Silêncio).







P: Você conhece esse material?

Apresentação do material.




C: Mais ou menos.




Reconhecimento do material.

P: De que é feito?







C: Papel.







P: Escolha uma cor para você.







C: (Apontou e disse “azul”).







P: Vou arrumar as minhas fichas enfileiradas e você vai tentar arrumar as suas iguais às minhas.

Pedidos de estabelecimento de igualdade inicial.




C: (Silêncio – arruma igual).




Fez estabelecimento de igualdade inicial.

P: Você acha que eu tenho mais, menos ou a mesma quantidade que você?

Consigna.




C: A mesma quantidade.




Resposta
conservadora.

P: (Dá espaço maior nas fichas vermelhas e repete a consigna).

Primeira modificação da disposição espacial.




C: A vermelha tem mais.




Resposta não
conservadora.

P: Por quê?

Provocação de argumento.




C: (Silêncio, não responde).




Conduta evitativa.



P: Você pode arrumar as suas iguais às minhas vermelhas?

Segunda modificação da disposição espacial.




C: (Arrumou em silêncio de maneira correta).




Estabelecimento de igualdade inicial.

P: (Repete a consigna).







C: Tem a mesma quantidade.




Resposta conservadora sem argumento.

P: Por quê?







C: (Silêncio).







P: Quantas fichas você tem?

Contra-argumentação.




C: Seis.







P: Quantas fichas eu tenho?







C: Seis.




Resposta
conservadora.

P: Por quê?







C: (Silêncio).







P: Você sabe por quê?







C: (Continuou em silêncio).







P: Um menino me falou que tinha menos fichas vermelhas, ele estava certo ou errado?

Pergunta de contra- argumentação com terceiro.




C: Estava errado.







P: Por quê?







C: Porque tem seis.




Argumento de igualdade.

P: Ok, C., obrigada! Agora vamos passar para outra atividade.

Conclusão.




Nota: (1) P = Psicopedagoga

(2) C = Carla16

Hipótese diagnóstica: Carla oscilou entre respostas conservadoras e não conservadoras, realizando a correspondência um a um, mas mantém a conservação nas modificações da disposição espacial. Podemos dizer, portanto, que nessa prova Carla apresentou condutas intermediárias de nível 2.
Quadro 2 − Conservação de quantidade de matéria

Entrevistador e entrevistado

Estratégia do entrevistador

Conduta do
entrevistado

P: Vamos trabalhar com outro material. Você o conhece?

Apresentação do material.




C: Sim.




Reconhecimento do material.

P: O que é?







C: Massa.







P: Escolha duas cores.







C: (Silêncio. Escolheu vermelho e amarelo).







P: Observe o que eu estou fazendo (2 bolas). Agora faça duas bolas com sua massa.

1ª. ordem.





C: (Em silêncio, fez rapidamente e com praticidade as duas bolas).




Iniciativa.

P: As minhas bolas têm mais, menos ou a mesma quantidade de massa que as suas?

Consigna.




C: Você tem mais.







P: Por que tenho mais?

Pedido de
argumentação.




C: (Silêncio, não respondeu).







P: (Transformou a bola em uma salsicha) A salsicha tem mais, menos ou a mesma quantidade de massa que a bola?

2ª. ordem. Modificação do elemento experimental (alongamento).




C: A salsicha tem mais massa.




Não conservação da 2ª. ordem

P: Por que você diz que tem mais?

Pergunta de provocação de argumento.




C: (Não respondeu).







P: (Retorna às 2 bolas e repete a consigna).




Conservação da 1ª. ordem.

C: Tem a mesma quantidade.







P: (Transforma a bola em
pizza) E agora? A pizza tem mais, menos ou a mesma quantidade de massa que a bola?

3ª. ordem.





C: Quem tem mais é a pizza.

4ª. ordem.

Não conservação.

P: Agora vou dividir a pizza em 10 bolas. As bolas vermelhas têm mais, menos ou a mesma quantidade de massa que a amarela?







C: Quem tem mais é a bola amarela.




Não conservação.

P: Um menino me falou que quem tem mais são as 10 bolas. Ele está certo ou errado?

Contra-argumentação com terceiros.




C: Errado.







P: Por quê?







C: (Silencia e começa a montar um boneco com as 10 bolinhas).




Não conservação.

Desvio de conduta.



P: O que você está fazendo?







C: Boneco.







P: Seu boneco tem mais, menos ou a mesma quantidade de massa que a bola amarela?







C: Boneco.




Fuga da consigna.

P: Chegamos ao final desta prova.

Conclusão.




C: (Silêncio).







Hipótese diagnóstica: Nessa prova, Carla apresenta no primeiro momento respostas de identificação. Contudo, no decorrer da avaliação a menina apresenta respostas que identificam a não compreensão, bem como a não reversibilidade, não conseguindo, assim, resolver os problemas durante as voltas empíricas. Isso nos leva a concluir que o julgamento durante essa prova é oscilante, caracterizando o nível 1 da classificação das provas operatórias.

Quadro 3 − Seriação de palitos



Entrevistador e entrevistado

Estratégia do
entrevistador

Conduta do
entrevistado

P: Você sabe que material é esse?

Apresentação do material.




C: Sim.




Reconhecimento.

P: O que são?







C: Palitos.







P: Você pode fazer uma escada, do maior para o menor?

1ª. ordem.




C: (Não respondeu. Fez uma escada em formato de quadrado com degraus, não concluindo).




Tentou de várias maneiras e quis desistir.

P: Por que você não concluiu?

Pergunta de provocação de argumentação.




C: Porque os bastões são maiores.




Dificuldade para acerto operatório.

P: Tente fazer uma escada do menor para o maior.







C: (Continuou na forma de escada quadrada, só que diminuindo seu tamanho, sem concluir).







P: Agora, C., gostaria que você colocasse em ordem do menor para o maior sem fazer escada.

Repetição da
consigna.




C: (Iniciou uma fogueira, sem conseguir concluir).




Desvio da consigna.

Conduta evitativa.



P: Você não vai concluir a fogueira que você começou?

Estímulo
provocador.




C: Vou (não conseguiu concluir).







P: Por que você não finalizou sua fogueira?

Argumentação provocadora.




C: Os palitos são pequenos (fez várias tentativas diminuindo os espaços entre os palitos, porém não conseguiu concluir a fogueira e juntou todos os bastões na mão).




Conduta evitativa.

P: Você poderia organizá-los do menor para o maior?







C: (Começou, fez várias tentativas, mas não conseguiu ordenar os bastões).

Repetição da
consigna.




Hipótese diagnóstica: Na prova de seriação, Carla apresentou muita dificuldade para desenvolver a atividade proposta, demonstrando falta de conhecimento de seriação, o que a levou a fracassar em várias de suas tentativas de ordenar/seriar, encontrando-se, portanto, no nível 1.

Quadro 4 – Conservação de comprimento



Entrevistador e entrevistado

Estratégia do
entrevistador

Conduta do
entrevistado

P: Você conhece esse material?

Apresentação do material.




C: Sim, corrente (pegou a corren­te pequena e começou a brincar).




Reconhecimento do material.

P: Vamos usar essas correntes para fazer caminhos. Se eu andar pelo meu caminho e você pelo seu, eu ando mais, menos ou a mesma quantidade que você?

1ª. situação.






C: Você anda mais (brincando com a corrente).







P: Vamos fazer de conta que elas são dois caminhos da cidade de São Paulo até o Rio de Janeiro. Qual é o caminho maior (um em linha reta, outro com grandes curvas)?

2ª. situação.





C: O seu.







P: Por que você diz que é o meu?

Pergunta de provocação de argumento.




C: Porque a corrente é maior.




Resposta
conservadora por compensação.

P: E agora (uma reta e um com curvas menores)? Eu andei mais, menos ou a mesma quantidade que você?

Modificação de
situação anterior.





C: Eu andei mais.







P: Por quê?

Pedido de
argumentação.




C: (Não respondeu).




Conduta oscilante.

P: Vamos fazer um novo caminho para ver se você consegue explicar o porquê (os dois caminhos com ondulações)?

Modificação da
situação anterior.





C: Eu cheguei primeiro.







P: Um menino me disse que quem chegaria primeiro era eu. Ele estava certo ou errado?

Contra-argumentação com terceiros.




C: Certo.




Argumento de
conservação.

P: Por quê?







C: (Não respondeu).







P: Um menino me falou que ele ia chegar primeiro. Ele estava certo ou errado?

2ª. contra-argumentação com terceiros.




C: Certo.







P: Mas você não disse que eu ia chegar primeiro? Ele estava certo ou errado?

Pedido de argumentação.




C: Errado.




Argumento de não conservação e não compreensão (conduta oscilante).

P: Por quê, C.







C: (Não respondeu).







P: Agora vamos passar para outra atividade.







C: (Pegou a corrente e começou a brincar).




Conduta evitativa.

P: O que você está fazendo?







C: Cobra.







Hipótese diagnóstica: Na prova de conservação de comprimento, podemos notar que a conduta de Carla oscilou significativamente suas respostas, mudando os critérios de reconhecimento, o que nos mostra seu período de transição, característico do nível 2.

Quadro 5 − Mudança de critério − dicotomia



Entrevistador e entrevistado

Estratégia do

entrevistador

Conduta do

entrevistado

P: Você conhece esse
material?

Apresentação dos materiais.




C: Não.




Não reconhecimento.

P: Esse material é emborrachado. Você poderia me dizer alguma coisa sobre esses objetos?

Pedido de
identificação.




C: (Silêncio. Pega 2 círculos iguais e diz que são diferentes).







P: Você poderia juntar as que combinam?







C: (Separou por tamanho, cores, formas e depois começou a construir uma sequência. Não terminando).




Identificação das formas, tamanhos e cores.

P: O que você está fazendo?

Nova argumentação.




C: Sanduíche.







P: O que tem nesse sanduíche?




Fuga da consigna de forma criativa.

C: (Silêncio. Fez com outro maior uma placa).







P: O que é isso?







C: O preço do sanduíche.







P: O que tem nesse sanduíche que eu quero comprar?







C: Queijo e presunto.







P: Não tem mais nada não?







C: (Sorriu) Tem pão e manteiga.







P: Agora separe por cores e tamanho.

Dicotomia.




C: (Arrumou corretamente).







P: Você poderia arrumar de outras formas?

Intervenção
questionadora.




C: (Arrumou contando as peças e montando conjuntos nos quais os quadrados eram maiores que os círculos).




Concentração,
criatividade,
logicidade.

P: O que é isso?

Continuação de intervenção.




C: Uns carros.

P: De quem são esses carros?

C: (Sorriu e apontou para o menor e disse: “É o do Ratinho.”).








P: O carro amarelo (maior) tem mais, menos ou a mesma quantidade de peças que os outros carros?

Contra-argumentação.




C: Todos têm a mesma quantidade. (Continuou fazendo outras formas).




Conservação,
identificação,
sequência lógica.

P: Vamos mudar de tarefa, C.?

Conclusão.




C: Vamos.







Hipótese diagnóstica: Carla conseguiu classificar as figuras por cor, tamanho e forma, mesmo sem saber o nome das figuras geo­métricas utilizadas durante a prova. Isso indica que talvez esse seja o conteúdo que não foi trabalhado com ela e que dever ser
(re)visto. Contudo, a menina apresentou dificuldades para separar as formas geométricas (círculo e quadrado) em apenas dois grupos.
Afinal, na maioria das vezes, Carla se desviou das consignas propostas, criando imagens com as formas, não as separando em grupo como solicitado. Nesse sentido, é difícil identificar em que nível das provas operatórias Carla se encontra.

Quadro 6 – Conservação de líquido



Entrevistador e entrevistado

Estratégia do

entrevistador

Conduta do

entrevistado

P: Vamos fazer outro trabalho. Você conhece esse material?

Apresentação dos materiais.




C: Sim, frasquinhos.




Reconhecimento do material.

P: Vou colocar um líquido nesse frasquinho e você vai colocar a mesma quantidade nesse.

Consigna.

1ª. ordem.







C: (Colocou, mediu e disse: “Tem a mesma quantidade.”).







P: Por que você mediu?

Pergunta de
provocação de argumentação.




C: Para ver se tem a mesma quantidade.




Resposta conservadora.

P: Vamos dizer que meu líquido vermelho é suco de melancia. E o seu, de que sabor é?

Modificação da situa­ção anterior.

Resposta de
conservação.

C: Abacaxi.

.




P: (Pegou o vaso menor e mais largo e colocou o suco de melancia). Eu tenho mais, menos ou a mesma quantidade que você?

2ª. ordem.





C: Temos a mesma.




Resposta conservadora.

P: Por que você diz que temos a mesma quantidade?

Contra-argumentação.




C: Porque temos a mesma quantidade.




Resposta conservadora sem argumentos.

P: Um menino me disse que no frasco maior tem mais quantidade que no menor. Ele estava certo ou errado?

Contra-argumentação com terceiros.




C: Ele estava certo.




Não conservação.

P: Mas você não disse que tem a mesma quantidade?







C: Ele estava errado.




Conduta oscilante.

P: (Retorna à composição inicial e pergunta) Temos mais, menos ou a mesma quantidade?

Retorno empírico.





C: Agora estou olhando, o seu tem mais.




Argumento de
conservação,
compreensão e
identificação.

P: (Deu um pouco de suco para completar) E agora?







C: Estamos iguais.







P: E agora (despeja o suco de melancia em um frasco médio e o de abacaxi em um frasco longo): temos mais, menos ou a mesma quantidade?

3ª. ordem.





C: A mesma.




Resposta conservadora.

P: Por quê?







C: Por que tem a mesma quantidade.




Resposta conservadora.

Hipótese diagnóstica: Na última prova aplicada, verificamos que Carla apresentou uma conduta conservativa, segura e de reversibilidade, respondendo o retorno empírico corretamente. Podemos dizer que ela se encontra no nível 3 das provas operatórias.

Nesse sentido, notamos que durante a aplicação das provas operatórias destinadas à sua idade, Carla apresentou muitas


oscilações entre os níveis 1 e 2, ou seja, em algumas provas percebemos que a criança conseguia fazer a conservação e, em outras, notamos total dificuldade para entender a atividade proposta, ora porque possuía dificuldades no processo lógico-matemático, ora porque não reconhecia a nomenclatura correta dos objetos trabalhados, mostrando, assim, o não aprendizado. Portanto, temos uma não avaliação sobre o nível correto, pois há a necessidade de se ensinar primeiro antes de se cobrar.



Contudo, Carla surpreendeu em sua última prova ao mostrar conduta conservativa, segurança e reversibilidade, o que nos leva a pensar em duas possibilidades: primeiro, Carla não possuía
o repertório básico necessário para realização das atividades; segundo, um grande fator de alerta para a psicopedagoga: Carla, durante o manuseio dos materiais e da permanente consigna, começou a transitar do nível dois para o três devido a um salto qualitativo, provocado pela avaliadora, em sua zona de desenvolvimento proximal durante a aplicação da prova.

Cabe aqui uma análise mais detalhada da prova ou até mesmo a repetição desta, para confirmar as hipóteses levantadas.

Dados das técnicas projetivas psicopedagógicas

Após a aplicação das provas operatórias para a identificação de possíveis hipóteses do andamento do processo lógico-matemático do sujeito investigado, faz-se necessário investigar outras questões que possam vir a contribuir para com as dificuldades no processo de aprendizagem. Para tanto, utilizamos as provas projetivas para identificar questões relacionadas à afetividade, criatividade, coordenação motora, noção espacial, entre outros fatores, para compreender o sujeito como um todo e não somente como resultado de uma avaliação psicrométrica.

A seguir, apresentamos a análise das seguintes provas projetivas propostas para Carla: Par educativo, Eu e meus companheiros, Família educativa, Os quatro momentos do dia, O dia do meu aniversário, Minhas férias e Fazendo o que mais gosto.

Par educativo

Durante a realização do Par educativo, Carla pegou o papel lentamente, após ouvir a consigna da psicopedagoga, e começou a desenhar em silêncio. Durante a confecção do desenho, a menina fez e apagou várias vezes as pernas desenhadas; fez o rosto com detalhes sem apagar; os braços saíam quase da cintura. Ao desenhar a segunda pessoa, Carla sentiu as mesmas dificuldades anteriores, principalmente nas pernas. Escreveu algumas palavras e apagou.

Após o término do desenho, a psicopedagoga questionou a criança sobre quem ensinava e quem aprendia na ilustração. No primeiro momento, Carla ficou em silêncio, começou a escrever soletrando as letras, mas cobrindo com as mãos sua produção. Na segunda tentativa, Carla apontou para a primeira pessoa que desenhou e indicou que escreveu os nomes de quem ensinava e quem aprendia. Segundo a menina avaliada, Vanessa, de 11 anos, era a professora que ensinava a aluna, Elis, de 13 anos – nomes dados por Carla para identificar as pessoas desenhadas.

Após sua fala, foi solicitado à Carla que desse um nome para o desenho, mas novamente a menina ficou em silêncio, escreveu o nome delas e disse que elas estavam conversando, mas Carla não falava sobre o que exatamente era conversado.

Podemos deduzir que a fala sobre o aprendizado aparece de forma truncada, bem como a representação do vínculo entre ela e sua irmã mais velha, porém com papéis inversos: Carla ensina e a irmã aprende. A fala ainda pode, nesse sentido, demonstrar o desejo pelo aprendizado que ainda não se constituiu, mas também o incomodo pela irmã mais velha sempre ensinar o que Carla não sabe, em vez de ser o oposto. Existe, assim, a necessidade de mais investigações quanto a esse vínculo. Ou seja, a menina quer desempenhar o papel da irmã mais velha, desejando ensinar em vez de ser ensinada, mas como ainda não consegue na prática, revela esse desejo no desenho.

Eu e meus companheiros

Durante a realização da prova intitulada Eu e meus companheiros, Carla demorou a desenhar. Quando começou a desenhar, apagou o que estava fazendo e começou a fazer um sol pequeno na extremidade superior esquerda; na parte inferior, desenhou grama do lado esquerdo uma árvore, depois um vaso com flor, mantendo sempre seu silêncio incansável.

Nesse momento, a psicopedagoga repetiu a consigna e Carla, em silêncio, desenhou uma borboleta voando, nuvens e várias figuras humanas (desenhos em forma de palito), nomeando-as de: Sara, Lorena, Plínio, Washington. De repente, parou e recomeçou: Almir, Sara, Lorena. Quase todos eles apresentando a mesma idade.

Carla disse que Sara, Jaiane e Lorena, além de terem a mesma idade que ela, eram as amigas de que ela mais gostava, pois elas não abusavam da menina como os outros colegas. Depois dessa fala,


Carla não quis nem desenhar nem falar. Atitude que nos leva a vários questionamentos, afinal, as figuras humanas são desenhadas no último instante como se fossem um mero detalhe do desenho. Já o cenário tinha uma riqueza de detalhes e contou com um maior tempo de elaboração.

Podemos levantar a hipótese de um menor peso dos vínculos afetivos entre os colegas, pois a representação dos companheiros sugeriu certo descaso, uma falta de importância na ­realidade de Carla, haja vista a falta de identidade e de características ­individuais de cada sujeito desenhado. Não podemos nos esquecer também de considerar a fala da menina sobre o “abuso” dos colegas, para uma futura investigação sobre essas agressões: como, de que maneira e em que momento elas ocorriam.

Família educativa

Durante a construção da Família educativa, Carla desenhou em silên­cio, como de costume, e em sua folha começou a surgir uma casa com telhado, porta e janela (ambas com o mesmo tamanho e uma saindo da outra) na extremidade do papel. Em seguida, desenhou ela mesma e sua irmã mais velha, depois a figura de um animal (cachorro), cujo nome Carla tentou escrever, finalizando a tarefa na sequência.

Quando questionada se aquela era sua família, Carla voltou a desenhar novas figuras humanas: a mãe, a irmã mais nova e o pai (este bem pequenino), dizendo que estavam indo ao shopping. Diante dessa fala, a psicopedagoga aproveitou a oportunidade para perguntar sobre o que cada um sabia fazer, no que Carla disse prontamente: “Arrumar a casa”. Quanto a ela, em específico, disse que sabia brincar. E ao falar de suas tarefas escolares em casa, a menina disse que sua irmã mais velha é quem a ajudava e, logo em seguida, começou a desenhar figuras dentro de um quadrinho bem pequeno, que denominou de peixe e pássaros.



Observou-se, portanto, que com relação ao ambiente familiar como espaço de aprendizagem não se pôde estabelecer muitos pontos de referência, pois as informações dadas não revelaram a importância do núcleo familiar em seu processo de aprendizagem, bem como os papéis que cada um exercia ou desempenhava nesse núcleo, ao ser questionada sobre “o que as pessoas sabem fazer”.

A figura materna foi desenhada como a primeira da fila (mesmo que colocada posteriormente), o que pode nos revelar tanto a questão da autoridade desta sobre toda a família quanto sua influência afetiva sobre Carla. Já com relação ao pai, por ter sido o último a ser desenhado e também por ser o de menor tamanho, podemos julgar que este não exerce autoridade paterna sobre essa família; podemos também concluir que a questão das constantes viagens de trabalho do pai causava certo distanciamento entre ele e sua filha. Contudo, cabe aqui uma investigação mais precisa de tais vínculos familiares.

Os quatro momentos do dia

O primeiro momento dessa técnica foi realizado pela psicopedagoga quando esta ensinou Carla a dobrar a folha de sulfite, para que depois desenhasse os quatro momentos de seu dia (do momento que acorda até a hora de dormir).

Carla iniciou sua produção no terceiro quadrante (inferior esquerdo) desenhando um livro. Em seguida, decalcou a borracha no primeiro quadrante (superior esquerdo), desenhando em seguida um lápis no segundo quadrante (superior direito) e terminando no quarto quadrante (inferior direito) com um jarro contendo uma flor. Quando questionada sobre esses desenhos e se estes representavam os quatro momentos de seu dia, Carla, apesar de balançar a cabeça afirmando que sim, largou o papel e não quis continuar e decalcou a mão em outra folha. Segundo Carla, ela desenhou a mão porque gostava de fazê-lo e perguntou se a sessão havia terminado.

Notamos mais uma vez que a questão do não aprendizado relacionado à necessidade de saber e de aprender está muito presente na vida de Carla. Somente em um quadrante ela deixou de lado os símbolos relacionados ao vínculo com o aprendizado. Apesar de não falar, o seu silêncio e sua irritabilidade quando questionada demonstraram o quanto essa queixa era presente em sua vida. Cabe aqui descobrir porque somente na última parte do dia não há relação com o estudo, com o aprender. Será por que, voltando à anamnese, a mãe a deixa dormir e não cobra pelas tarefas não feitas? Ou será por que é o único momento em que Carla está com as


pessoas de sua família e os vínculos estabelecidos nesse momento são mais importantes que o ato de aprender? Enfim, é fato que a questão de adquirir conhecimento permeava sua história de vida, bem como o não saber influía na constituição de tal identidade.

O dia do meu aniversário



Em silêncio e sem entusiasmo, Carla desenhou um quadrado representando o bolo, várias estrelas na parte superior da folha representando as bexigas, várias bolinhas e quadrados na parte inferior representando os pães e os pastéis e, no lado inferior direito, outras bolinhas representando os brigadeiros. Acrescentou na parte inferior da folha duas figuras de pessoas – ela e sua irmã mais velha.

Quando questionada pela psicopedagoga se não tinha mais pessoas na festa, Carla voltou a desenhar, em silêncio, várias figuras humanas, ou seja, seus amigos. Quando perguntado sobre o nome do desenho, ela não quis falar, deixou o desenho de lado, pegou outra folha e começou a fazer a dobradura de um chapéu e, por fim, escreveu seu nome, dizendo que esse era um soldado, mesmo não conhecendo um de verdade.



Ficou claro, nessa técnica projetiva, que Carla fez as atividades propostas sem entusiasmo, compromisso e interesse. Tal fato permite pressupor que ela possui um grande vínculo com a irmã mais velha, vínculo cujo teor de cumplicidade deve ser analisado para se verificar se este é positivo ou negativo para ambas, deixando de lado os demais membros da família, principalmente a irmã menor.

Outro ponto de destaque consiste em se analisar, com base nas teorias próprias sobre o desenho infantil, por que Carla apresenta um desenho tão esquemático e, às vezes, rudimentar, para representar o mundo à sua volta. Afinal, na idade em que a menina se encontra, geralmente as crianças buscam representar suas vidas o mais próximo possível da realidade e não por esquemas tão figurativos (formas geométricas, principalmente).

Minhas férias

Em silêncio, Carla pegou o papel, dobrou-o em quatro partes e depois fez o desenho de uma pessoa no primeiro quadrante; no terceiro, desenhou um boneco de bolas; no segundo, fez várias bolas e, no quarto, um mar com ondas. Figuras, a princípio, que pareciam sem relação umas com as outras, mas que, em sua fala, ficava mais claro o que tais símbolos representavam: “Saio, brinco, jogo bola e vou à praia [...] com minha mãe e minhas irmãs”. Somente quando questionada é que Carla revelou que o pai também ia junto.

Nesse momento, Carla começou a brincar com o papel, depois o largou na mesa, levantou, colocou o chapéu do soldado e se arrumou para sair. Apesar de a psicopedagoga dizer que o tempo não havia terminado e que ela poderia continuar a trabalhar, a menina se manteve em silêncio até o final do atendimento, sem fazer absolutamente nada.

Como se pôde observar, a folha foi divida em quatro partes como o desenho dos quatro momentos do dia, demonstrando que Carla possuía uma noção temporal muito boa, com a qual desenhou momentos de lazer que costumava praticar em suas férias, relatando o fato com começo, meio e fim. Fato que demonstrou, a nosso ver, um momento de criatividade e espontaneidade para realizar a atividade, bem como um dos poucos desenhos sem a representação da dubiedade entre o não saber e o querer aprender.

Nesse sentido, poderíamos dizer que, nesse caso em específico, as férias seriam um momento em que o aprendizado não estaria presente, o que a levava a estabelecer um maior contato afetivo com sua família ou com alguns membros desta? Poderia ser, ainda, a possibilidade de esse momento representar o esquecimento de seu conflito interno sobre o aprender/não aprender, mostrando a verdadeira Carla que ela gostaria de ser?

Fazendo o que mais gosta



Diante da solicitação de desenhar o que mais gostava de fazer, Carla utilizou o fundo do apontador para decalcar uma borracha e as laterais para decalcar uma lapiseira. Logo em seguida, a menina não realizou mais nada e ficou somente olhando para a psicopedagoga.

Quando questionada sobre os nomes dos objetos, Carla tampou com as mãos a folha e escreveu um título que denominou de




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