Psicologia de orientaçÃo positiva: uma proposta de intervençÃo no trabalho com grupos em saúde mental



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RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para considerar positiva uma categoria, levaram-se em conta os seguintes aspectos: 1) a evolução dos usuários em relação à patologia: O percentual de usuários que tiveram evolução favorável foi de 62,59% no total dos grupos avaliados, considerando-se “evolução favorável” para aqueles que alcançaram maior estabilidade do quadro psíquico ou ausência de sintomas depressivos, o que fora avaliado pela passagem de usuário intensivo para semi-intensivo, de semi-intensivo para não-intensivo (referente a usuários que recebiam três atendimentos/mês) ou ambulatório, o recebimento da alta do serviço ou ainda aqueles que receberam alta do tratamento psicológico e permaneceram em atividades ocupacionais; 2) o reconhecimento da sensação de melhora relatada pelos usuários participantes após a conclusão o grupo; 3) a avaliação psiquiátrica realizada em consultas posteriores ao término do grupo para verificar a mudança ou permanência do plano terapêutico; 4) o acompanhamento da evolução dos usuários atendidos em psicoterapia individual; 5) a confirmação da equipe sobre a evolução positiva dos usuários.



O processo grupal orientado positivamente trouxe a emergência de categorias positivas, que foram trabalhadas no decorrer do tempo de realização do grupo e contribuíram para uma condição existencial mais saudável na experiência dos usuários. As categorias negativas dizem respeito às limitações encontradas neste processo. Todas as categorias foram apreendidas a partir do que se denominou etapas do processo grupal – inicial (caracterizada pela resistência, pelo pessimismo e pela rigidez dos usuários); intermediária (caracterizada pela evolução favorável de parte dos usuários e inflexibilidade de outros, e relativa dificuldade de adesão a aspetos positivos da existência); final (aquela em que os usuários elaboravam o processo de saída do grupo e realizavam sua auto-avaliação, onde se observou a assimilação dos aspectos positivos). Dentre as formas de expressão utilizadas pelos usuários para comunicar os aspectos positivos e negativos, foram produzidos e compartilhados: conteúdos verbais, colagens em grupo, desenhos e poesias. Os nomes dos usuários apresentados são fictícios, visando à preservação do anonimato.

Categorias Negativas

Traços rígidos de personalidade: Entre outros fatores, um dos grandes impedimentos na evolução favorável de transtornos depressivos está na rigidez da personalidade (Del Nero, 1997; Solomon, 2002) do portador. Os fatores da personalidade estão ligados ao grau de maior dificuldade ou facilidade de o paciente modificar seu modo de pensar e seus padrões de comportamento. Por isso, alguns não evoluem satisfatoriamente em atividades com grupos de caráter breve.

Prevalência do fator biológico: Quando há a prevalência de fatores biológicos na origem da patologia, o tratamento medicamentoso torna-se mais eficaz. Ainda que o trabalho psicológico auxilie na capacidade imunológica do organismo (Alexander, 1984), as recidivas são imprevisíveis, principalmente nas depressões crônicas.

Dificuldades contextuais de adesão a conceitos positivos: Tanto na equipe multidisciplinar, como nos outros setores relacionados à Saúde Mental, existiu certa resistência em se pensar e enfatizar aspectos positivos ou a prevalência do hábito de valorizar o mal-estar, a patologia e as limitações no tratamento do portador de transtornos mentais, o que dificultou a propagação e disseminação de condutas mais positivas.

Limitações no processo de criação de redes sociais: O desafio da promoção de saúde está em realizar uma boa articulação entre setores e criar espaços promotores de saúde nas próprias comunidades, para que o portador possa estar inserido socialmente e se manter em contato com instrumentos de apoio e bem-estar, não necessitando adoecer. Era comum a resistência de portadores em receber alta do serviço por não quererem desfazer o vínculo com aquele que, muitas vezes, era o único espaço onde se sentiam apoiados e em contato positivo com as pessoas, experienciando coisas boas.

Categorias Positivas

Desenvolvimento Pessoal: Refere-se ao grau de amadurecimento - descrito por Rogers (1997) como uma das metas da facilitação de processos - relatado pelos usuários, aos valores aprendidos e à exaltação da experiência de compartilhar seu sofrimento com outras pessoas que vivenciavam situações semelhantes. Esta categoria também inclui a auto-avaliação de si no processo, realizada por todos, como na verbalização de Lúcia: “eu consegui cuidar dos meus problemas sem descontar nos outros, como fazia com minha filha” – referiu durante a exibição de um filme, com os olhos marejados, enquanto beijava a filha de oito anos, anteriormente alvo de sua agressividade e depositária de suas frustrações.

Solidariedade: Diz respeito ao aprendizado de direcionar o olhar para o outro, mesmo na experiência de dor, o que alivia o sofrimento. “Mesmo a gente estando doente, tem gente que sofre mais, e quando a gente ajuda, se sente melhor”, afirmou Maria.

Comemoração: Tem a ver com a necessidade de celebração, de ênfase ao aspecto positivo. Ao término do grupo, sem nenhuma orientação prévia do terapeuta, os usuários sempre se reuniam para uma celebração. Mesmo sem condições econômicas favoráveis, todos se cotizavam para a realização de uma “festa” em que desfrutavam da alegria pela melhora que conquistaram. Neste momento era visível a transformação da tristeza inicial na alegria da etapa final.

Aceitação do negativo na existência: Faz parte do quadro depressivo, a postura rígida do portador na sua severa dificuldade em aceitar perdas / frustrações e superá-las (Abreu et. al, 2006, Solomon, 2002). Ao apegarem-se a dor do passado, os portadores sentem-se culpados ou vitimados e não conseguem perdoar a si mesmos ou à vida pelo que lhes ocorreu. Ao vivenciarem essa dor e expressarem-na, discutindo acerca da presença do sofrimento na vida de todos os participantes, e reconhecendo que, em última instância, a dor psíquica traz um aprendizado deveras enriquecedor, os usuários conseguem adquirir certa resignação ou até mesmo a libertação da dor. “Eu já até perdoei o homem que matou meu marido, procuro não pensar mais nisso, Deus é quem sabe, se eu tinha de passar por isso...”, relatou Flor, que já vinha lutando pela superação dessa perda há dois anos.

Serenidade: Chamou-se serenidade a esta sensação alcançada, também expressada pelos usuários como paz interior, calma, relaxamento. Mostrou-se em expressões espontâneas de se abraçarem uns aos outros a cada encontro, ou de realizarem algum tipo de oração que os reportasse à tranqüilidade desejada. Ana conduziu espontaneamente o grupo na oração da serenidade: “Senhor, dá-nos a serenidade para aceitar aquilo que não podemos mudar, a coragem para mudar as coisas que podemos e a sabedoria para diferenciar umas das outras”.

Felicidade: Grande parte dos usuários expressou claramente seu desejo de ser feliz. Era por isso que estavam ali. Ser feliz tinha a ver com estar saudável. Em todos os grupos houve expressões de querer encontrar felicidade quando os usuários refletiam sobre os motivos para estarem presentes nos encontros, participando do processo. Enquanto nos dois primeiros grupos, o terapeuta optou por chamar o grupo de Phoenix, realizando a analogia entre a possibilidade de “renascer das cinzas” tal como a ave mitológica e de sair do sofrimento intenso vivenciado na depressão; no terceiro grupo, ao deixar que os próprios usuários escolhessem o nome do grupo a que pertenceriam, este passou a ser denominado: “Buscando a felicidade”.


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