Práticas e Representações de Normalistas de Campinas no Período 1920-1936


IV – Os professores: práticas e disciplinas



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IV – Os professores: práticas e disciplinas


Em 1890 os republicanos paulistas iniciaram a reforma do ensino com a construção de um projeto cultural a ser operacionalizado pela escola, considerada como signo da civilização e do progresso. Ancorados nos princípios da ciência, da valorização da educação moral e cívica e nas exigências da preparação para o trabalho, iniciaram a reforma pela Escola Normal, pois acreditavam que era preciso começar a reforma pela formação dos professores, o que levaria à renovação da escola pública.

O projeto articulava idéias de uma educação que compreendia a educação física, intelectual e moral com as necessidades de homogeneização cultural e de civilização das massas, tendo na valorização da ciência um dos componentes fundamentais para a formação do homem moderno.

Além de ser extremamente importante cultivar o espírito e formar o caráter, foi dada ênfase também na formação prática do futuro professor, base para a aprendizagem dos métodos modernos de ensino. Disso resultou a criação da Escola-Modelo, local de prática de ensino e experimentação dos alunos da Escola Normal.

Tal acontecimento revela o prenúncio de uma época, em que as idéias educacionais da pedagogia moderna começaram a circular, veiculadas pelas revistas pedagógicas e pelos tratados de psicologia. Por meio desses livros e revistas difundiam-se os fundamentos biológicos, psicológicos e sociológicos da escola nova, e as idéias de Dewey, Durkheim, Montessori, Decroly, Binet e Claparède, o que denota uma nova forma, na época, de encarar o processo educativo e seu significado.

De acordo com relatos de ex-alunos, os professores da Escola Normal de Campinas eram sisudos, muito eruditos e bem exigentes. Havia, na Escola Normal, algumas professoras, mas os homens eram em maior número.

Marcas de uma época, valores e preceitos morais como a caridade e a solidariedade aparecem associados às figuras dos professores como sendo um exemplo de conduta a ser seguido.

As aulas de Sociologia, por exemplo, priorizavam os valores morais, as necessidades do espírito e as necessidades sociais, como liberdade, solidariedade e justiça.

Também as atividades com Leitura eram consideradas extremamente importantes no período, pois o objetivo da educação era tanto o corpo quanto a mente disciplinados. Assim, com hábitos higiênicos obteriam o corpo perfeito, porém apenas com muito estudo e leitura desenvolveriam o pensamento racional e científico, solicitado pela “moderna sociedade”.

Os alunos tinham, ainda, aulas de Matemática, Português, Latim, Francês, Pedagogia e Psicologia.

Durante as aulas, os alunos anotavam tudo o que era dito em forma de rascunho e, entre uma aula e outra, tinham dez minutos de intervalo, utilizado para a organização dos pontos nos cadernos. Este era um instrumento de trabalho do qual se serviam em todas as disciplinas.

No período 1920-1936, as aulas de Trabalhos Manuais consistiam em noções de corte e costura e noções de economia doméstica e bordado para as alunas, e atividades com trabalhos em madeira, como noções de marcenaria e entalhes, e trabalhos em argila para os alunos.

As aulas de Música eram marcadas por atividades de canto orfeônico. O orfeão, instrumento de civilidade, e o canto orfeônico, símbolo de patriotismo e de nacionalismo, são marcas de uma época em que o apelo republicano para uma sociedade moderna, racional e científica era muito forte.

Em sintonia com os valores preconizados pela República, o canto orfeônico tinha como finalidade cooperar para a divulgação da música nacional, cultivar o sentimento patriótico e despertar o gosto estético, sendo que a escolha da música recaía sobre autores nacionais.

As aulas de Desenho no curso normal do período 1920-1936 tinham como finalidade desenvolver nos alunos, futuros professores, o poder da representação gráfica como instrumento auxiliar de expressão no ensino. A presença do desenho, utilizado constantemente no aprendizado de outras disciplinas, reforçava uma série de outras práticas, além do que não se pretendia formar artistas ou desenhistas mas “educar”, nos alunos, a memória, o sentimento estético e a imaginação, “disciplinar” a observação. O desenho, utilizado como ilustração, era um meio de transmitir conhecimentos (DUTRA, 1932).

As aulas de Ginástica, aliadas às aulas de Higiene e Puericultura, vinham reforçar o ideário da época de que um corpo são era a morada do saber racional e científico. Numa sociedade que cobrava do indivíduo boas maneiras, postura correta e conduta ilibada, a prática da ginástica era um componente poderoso no interior de instituições como a escola.

A ginástica possuía uma função moralizadora, higiênica e patriótica. Difundindo a ordem e a disciplina, levava o indivíduo a regular os excessos do corpo, obtendo e preservando um corpo saudável, uma vez que ele aprenderia a domesticar o seu próprio corpo desde cedo.

Um último aspecto, não menos importante, diz respeito aos uniformes, sendo estes uma combinação de azul e branco: saia pregueada de casimira azul-marinho e blusa branca e de mangas compridas, meias compridas e pretas, de algodão grosso, e sapatos pretos e grosseiros. Usavam ainda um cinto de verniz preto e um laçarote de fita azul-marinho no pescoço. Pela alegria que traziam à cidade e pela combinação de azul e branco dos seus uniformes, as normalistas de Campinas foram comparadas às andorinhas que, naquele tempo, habitavam um mercadinho, de tijolos vermelhos, que ficava em frente à Escola. O lugar onde ficava o antigo mercadinho, demolido em 1956, recebeu o nome de Largo das Andorinhas.

A figura da normalista era um exemplo de boa conduta para as outras meninas e a sua valorização vinha tanto da população campineira, quanto de suas famílias, tradicionais ou não, que se empenhavam por ter uma filha estudando na Escola Normal de seus ideais. O uniforme azul e branco tinha um significado de respeito e dignidade. Havia valores morais, sociais e religiosos por trás do azul e branco de seus uniformes (ROVERI, 1997).

Através das lembranças dos ex-alunos da Normal, é possível perceber como os múltiplos discursos se configuram como dispositivos de constituição das práticas e representações escolares. É possível, também, conhecer melhor como se constituía a prática docente no cotidiano escolar e as relações sociais existentes no período de 1920-1936 por meio da descrição das atividades do curso de formação de professores, como essas se constituíam e se coadunavam ao ideário de uma época.


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