Projeto Málaga



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O PROJETO MÁLAGA

“ A contribuição da neurologia em um LABORATÓRIO de PESQUISA para a aproximação integrada ao desenvolvimento da criança DOWN”.



Dr. G. Albertini


INTRODUÇÃO

Com respeito aos objetivos e à metodologia do Projeto, a escolha de criar um Laboratório me parecia particularmente interessante, personalizando neste instrumento uma ocasião cultural e científica tanto para nós, profissionais, como para os pais. A idéia de pôr em prática as ajudas diversificadas tem permitido a criação de uma bagagem cultural verdadeiramente importante, que tem acelerado alguns processos de mudança não somente no grupo concreto que tem participado no Projeto, senão que tem tido uma repercussão mais ampla na organização do serviço e, portanto, nos conteúdos que têm proporcionado às famílias que participam do próprio Projeto.O Centro para o Desenvolvimento Infantil nasce na SEDE de SANTA MARINELLA do Hospital “BAMBINO GESÙ” como uma repetição de um modelo Anglo - saxônico conhecido com o nome de “CHILDREN DEVELOPMENT CENTER”.

A característica fundamental deste modelo é a aproximação interdisciplinar. Para encarar o problema de uma criança com “incapacidade” de desenvolvimento, nenhuma disciplina por si mesma pode ser suficiente. E precisamente daqui nasce a necessidade de um modelo que concebe os diversos profissionais como um grupo de pessoas comprometidas na análise das necessidades médicas, educativas, reabilitadoras, psicológicas e sociais, com o propósito de personalizar os recursos ajustando-os às condições de base e às necessidades individuais.

Estes, por outro lado, mudam com o “passar” da idade, passando de momentos nos quais os aspectos médicos prevalecem como necessidade prioritária para as crianças, há momentos em que os aspectos emotivos e psicológicos se convertem em prioritários, e inclusive há momentos nos quais os aspectos educativos e reabilitadores chegam a ter uma importância fundamental.

A permanência no Centro acontece, por regra geral, no espaço de dois ou três dias nos quais, através de um mecanismo de Hospital Dia, as famílias podem fazer contato com vários especialistas da área médica e da área psicológica e educativa - reabilitadora, com o fim de preparar itinerários aos quais se tem referido na primeira parte desta introdução.

A entrevista conclusiva com a família é um momento muito importante, no qual se deve preparar um projeto que representa a síntese das avaliações dos diversos profissionais, e que se resume em um informe escrito que mais tarde se envia à família.

Estabelece-se também o calendário das próximas consultas médicas de acordo com os distintos quadros clínicos e de desenvolvimento que se tem observado.

Certamente, no âmbito do modelo que temos criado aparecia fortemente a exigência de uma implicação por parte da área pedagógica.

A colaboração com o professor Cuomo tem sido para nós particularmente valiosa porque compartilhamos uma visão do desenvolvimento e da aprendizagem de acordo com alguns referenciais teóricos que consideram a criança como um protagonista “ativo” em seu processo de crescimento e de desenvolvimento, e que “vive” o ambiente nos distintos contextos aprendendo e adaptando-se progressivamente de maneira cada vez mais complexa e competente.

Em uma de tantas viagens, o professor Cuomo conheceu o professor Miguel López Melero. O compartilhar uma visão da pedagogia e da didática nos levou a considerar que se podia realizar um projeto que de algum modo repetiu a experiência pedagógica desenvolvida na Universidade de Málaga pelo professor Melero.

A experiência deste colega poderia sintetizar-se no trabalho que tem realizado com alguns jovens e com Pablo Pineda Ferrer, em especial.

Quanta emoção ao conhecer Pablo Pineda Ferrer ! Mais que em outra situações, parecia que nos aproximávamos da “pessoa” que, apesar de ter trissomia - 21 transbordava condutas inteligentes, originais e, sobretudo, era capaz de tirar de letra o preconceito que até agora havia considerado o atraso mental como sinônimo de ausência de inteligência.

Daí, a necessidade de passar a visão centrada só nos problemas ( e, portanto, nas dificuldades ) de aprendizagem às dificuldades de ensino, centrando a reflexão nos contextos para modificar objetivos e estratégias de nossa maneira de trabalhar.

Conhecer Pablo Pineda Ferrer e ao Professor Miguel López Melero, através da colaboração com o Prof. Nicola Cuomo, nos levou a pensar na criação deste Laboratório, tal e como o descreve em seu capítulo o Dr. Biondi. Este último era instrumento que permitia aos profissionais de diversas disciplinas ( da área médica - neurológica, em especial - , da área psicológica e pedagógica ) junto aos pais, às crianças e aos jovens, criar um “grupo” de estudos e investigações. Portanto, daqui nasceu uma experiência especialmente interessante.

Hoje, anos depois do início deste Laboratório, temos alcançado um nível de conhecimentos muito diferente em relação ao começo de nosso trabalho e pensamos que tem produzido uma mudança significativa em nossas mentes e em nosso modo de trabalhar; esperamos que esta mudança possa alcançar um número crescente de famílias.
QUAL O PAPEL DA NEUROLOGIA?

Neste projeto, o papel da neurologia era sobretudo o de compartilhar um modelo teórico de referência com relação à aprendizagem e ao desenvolvimento.

Nos demos conta de que uma das primeiras referências teóricas sobre o que estávamos de acordo com os colegas pedagogos era aquele da “área de desenvolvimento potencial” , partindo das teorias de VIGOTSKY e LURIA, segundo as quais é possível identificar para cada pessoa e para cada conduta o nível de competência atual; e também aquela área que eles mesmos definem como área de desenvolvimento proximal e potencial. É aquela área de “competência” que a criança ou a pessoa alcançam com a mediação, com a ajuda de alguém.

Estes tipos de referências teóricas têm revolucionado profundamente a recuperação de nosso país, até o ponto de que hoje se define a Reabilitação como “aprendizagem em condições patológicas”. Isto significa que a reabilitação vai aproximando-se do mundo da Pedagogia, distanciando-se ( ou, ao menos, deixando de lado ) o mundo mais tradicional da medicina.

Isto implicava ( concretamente a respeito da Síndrome de Down ), por um lado, aprofundar-se nas condições clínico - patológicas e, por outro, na temáticas relativas à aprendizagem e ao ensino, confrontando umas e outras.

Portanto, como elemento importante devíamos levar em conta as alterações neurobiológicas e neuropsicológicas na Síndrome de Down, e observá-las não para chegar ao que eu mesmo definia como a “Neurologia do déficit”, senão para chegar à neurologia dos processos cognitivos.

A experiência pedagógica e os caminhos e estratégias que propunham os colegas me parecia uma via através da qual modificar a estrutura cognitiva das crianças e dos jovens que participavam no laboratório. E tudo isto de acordo com um importante referencial teórico que, conduzido pelos conceitos vigostkianos, nos levou a descrever a “teoria dos sistemas dinâmicos”.

Segundo estas teorias ( quer dizer, no âmbito das teorias sistêmicas ) não é possível separar o cérebro do contexto. E esta palavra “contexto” era uma palavra em que concordamos, eu e os colegas pedagogos e o psicólogo Gianni Biondi.

Não é possível separar “cérebro” de “contexto”, e portanto devemos operacionalizar a ação educativa nos contextos para chegar ao sistema nervoso central, promovendo assim seu desenvolvimento. Este desenvolvimento, portanto, não obedece exclusivamente à leis determinadas pela genética, senão que se deixa ajudar e expressa as próprias potencialidades precisamente através da potência ( força ) e a criatividade dos contextos.

Por conseguinte, falar de contexto significava para mim, antes de tudo, o contexto familiar, e na obra dos pedagogos visava uma ação encaminhada para realizar o que havíamos feito nas fases de idades menores, a saber: preparar a família para desenvolver um processo educativo que continuava até a adolescência e até a idade adulta, e considerando esta como sujeita a um processo de desenvolvimento, em vez de entendê-la como um evento meramente estatístico.

No trabalho do Laboratório observei, assim mesmo, que a atenção se centrava em um segundo contexto, muito importante, que era o “contexto escolar”. A presença de muitos professores em nosso laboratório ( oficina ) representa para muitas crianças e jovens um elemento positivo, criando uma continuidade entre a família e a escola e permitindo com ele melhorar a qualidade de dois dos mais importantes contextos que favorecem o desenvolvimento e o crescimento de um indivíduo.

Através da ajuda do Dr. Biondi, concretamente, se tem dirigido muito a atenção até outro contexto importante: o contexto do tempo livre, do âmbito social como ocasião de confrontação e de intercâmbio com os demais. Este contexto parece ser ainda mais importante que os outros para o desenvolvimento da área afetiva, área que de alguma maneira me parece que é o “motor” do desenvolvimento cognitivo e o que o sustenta e o empurra.

Estes três importantíssimos contextos ( a família, a escola e o tempo livre ) poderiam servir de suporte, assim mesmo, para outros momentos mais técnicos, como é o caso de algumas intervenções reabilitadoras; deste modo se cria uma via de continuidade muito diferente com respeito ao que pode ocorrer na vida e na programação de uma ação educativa para os transtornos do desenvolvimento.

Afortunadamente, estes conceitos estão convertendo-se em patrimônio de cada vez mais profissionais que trabalham no setor, tentando que as distintas intervenções sejam cada vez mais específicas, mas integrando-as ao mesmo tempo entre si em um conjunto que, por si mesmo, consegue servir de suporte para o crescimento das crianças e das pessoas com Síndrome de Down. Mas isto é válido assim mesmo para outros transtornos de desenvolvimento.

Atuar nos contextos significa personalizar objetivos. A criança é um ser ativo que ( em base das competências alcançadas até o momento, e em virtude de regras genéticas e oportunidades ambientais adaptadas ) põe em prática, através da identificação de objetivos, as estratégias para poder alcançá-los. É interessante observar que atos comportamentais aparentemente iguais, se estão orientados à obtenção de objetivos diversos, implicam a prática de mecanismos neuronais, sem dúvida, diversos.

O Cérebro, os contextos, os objetivos, as estratégias.

Em função desta teoria e destas teorias sobre o cérebro, o modo de proceder dos pedagogos me parecia especialmente interessante porque sugeria maneiras de atuar nos contextos para facilitar a personalização de objetivos e estratégias que, desde meu ponto de vista, iam criar distintas e mais complexas “redes neuronais”.

O Cérebro se organiza através de uma complicadíssima série de redes neuronais, que se formam com base no que a criança e o adulto experimentam.

Afortunadamente, estas redes não são tão firmes, pelo que é possível contribuir, através de experiências mais ricas, a uma maior flexibilidade na criação de circuitos neuronais sempre novos. Destes circuitos se esperam comportamentos e condutas cada vez mais competentes, capazes de uma adaptação ao ambiente graças a um mecanismo de retroalimentação verdadeiramente sofisticado. Estas condutas e comportamentos podem se ver incluídos continuamente no ambiente de maneira positiva.

Não pensamos em um processo de condicionamento passivo, mas em todo o seu contrário: quer dizer, num processo de adaptação ativo, competente e sobretudo original. Um processo que, de qualquer modo, deve se indicar na experiência de um indivíduo com sua própria história.

Além disso, o papel do neurologista ( que freqüentemente está no laboratório) era o de explicar por que desde um ponto de vista neurológico, e desde o ponto de vista também dos processos cognitivos, certos acontecimentos eram especialmente interessantes.

Meu papel fundamental tem sido o de fazer compreender que a partir das autonomias , de experiências realmente vividas, teria sido mais fácil chegar à elaboração e construção de processos cognitivos mais abstratos e, portanto, chegar a um desenvolvimento cognitivo e meta - cognitivo da criança.

Observar a recriação de um projeto como, por exemplo, o das “receitas”, significava para mim concretamente que, sob a imagem de uma menina que tinha preparado um doce, havia tirado fotografias e as tinha colocado em ordem, assim como escreveu os passos - chaves para preparar o doce, existia uma infinita rede de processos cognitivos e neuronais para poder realizar esta tarefa.

Nunca poderei esquecer os vídeos e citarei somente um dos mais significativos.

Não posso esquecer-me de Sandra enquanto lê seu livro de receitas em voz alta, pondo em prática os processos cognitivos para a elaboração do texto escrito. Era muito interessante observar que, enquanto lia com a vista dirigida à esquerda, tinha diante de si uma mesa sobre a qual havia muitos objetos e ingredientes. Eram muito interessantes, além disso, toda uma série de operações prático - construtivas através das quais concluía a ação que leu, depois de havê-la decodificado. E, sobretudo, que respeitara na seqüência nexos casuais e temporais, sabendo harmonizar, assim mesmo, competências acadêmicas com competências construtivas, respeitando processos lógicos e harmonizando, portanto, percepções, ações e decisões. Me parecia interessante, através deste vídeo, observar a capacidade de decisão de Sandra, que se movimentava de maneira competente e original.

Esta experiência trabalhava também os mecanismos de memória e, chegados a este ponto, permitia a Sandra o poder de narrar com uma linguagem muito mais competente, porque se referia a uma experiência realmente vivida, que havia sido realizada por ela mesma.

Igual a este, muitos outros vídeos parecem ser especialmente interessantes.

Portanto, neste laboratório, o trabalho do neurologista consistia em ler em linguagem neurológica e dos processos cognitivos tudo o que estava se desenvolvendo, com a intenção de entender a importância que tinha e evitar assim a banalização.

Outro elemento muito importante do laboratório era a presença do psicólogo.

Desviar os conceitos da psicologia clínica e alguns conceitos psicodinâmicos ao centro de um projeto pedagógico representou, do meu ponto de vista, um elemento verdadeiramente importante para a prevenção.

Crescimento de uma criança não pode resumir-se tão somente como o resultado de um processo de amadurecimento que permite o desenvolvimento de comportamentos e condutas cada vez mais competentes, e também que este crescimento é, assim mesmo, o fruto de uma interação particularmente importante da área afetiva, realizando-se um processo que ( em termos técnicos ) os companheiros definem como “separação e estranhamento”, os quais permitem às crianças considerarem-se como uma pessoa diferente de sua mãe e de seu pai, e capaz de atuar socialmente.

Portanto, pode-se ajudar a esta criança a desenvolver um sentido de si mesmo como um todo “integrado”, capaz de construir o mundo e de atuar e participar dele.

Esta ação, esta obra e este trabalho me pareciam especialmente interessantes porque dávamos ao trabalho pedagógico um significado ativo pelo qual a criança é de todas as maneiras protagonista de seus atos; o desenvolvimento de uma personalidade “sã” e “integral”, é a premissa indispensável para que se possa desenvolver a ação educativa e de aprendizagem a que nos temos referido.



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