Programa Viver Consciente



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Contos-Ensinamento
A relevância dos contos-ensinamento advém, em primeiro lugar, da construção de nosso mundo individual através das histórias que contamos e escutamos. Todos temos histórias que contamos a nós mesmos. Começam no momento em que nascemos. O que escutamos e vemos nas ações e comportamentos daqueles que estão perto de nós, na mídia à qual estejamos expostos e nos livros que lemos, todas essas situações constituem experiências que, consciente ou inconscientemente, contribuem para nossas histórias internas desde a mais tenra infância até a adolescência e posteriormente na idade adulta – o que traz consequências para a visão que temos de nós mesmos e do mundo que vivemos. Nossas lembranças são quase que em sua totalidade compostas de histórias que influenciam profundamente quem somos e no que podemos nos tornar.
O conto-ensinamento é uma forma de arte que têm existido há milhares de anos por todo o mundo. Muito valorizadas em certas comunidades, onde os contadores de histórias usam-nas não somente para entreter, mas também para transmitir histórias especialmente desenhadas com um propósito específico: o de desenvolver a percepção e as habilidades de pensamento humanas. Esta modalidade de contos constitui um instrumento precioso para a abertura de canais que conduzem a novas maneiras de pensar e de ser. Através deles são realizadas conexões mentais sutis que facilitam a compreensão de certos aspectos dos problemas cotidianos difíceis de explicar ou expressar de outras maneiras. Os contos são excepcionais no preparo da mente para trabalhar informações em muitos níveis diferentes ao mesmo tempo, realizando múltiplas conexões mentais que facilitam o entendimento de acontecimentos inapreensíveis em termos unicamente lógico-racionais.
Mantendo a perspectiva de seus diversos níveis de compreensão, e sem pretender esgotar seus significados, num certo sentido podemos entender que em um conto-ensinamento configura-se um conjunto de elementos presentes, concreta e/ou metaforicamente, na vida de qualquer pessoa. Por se reportar sempre a outras pessoas, outro tempo e circunstâncias, os contos permitem uma observação e absorção de experiências de forma dissociada, possibilitando a cada ouvinte identificar quais partes, aspectos ou elementos de um conto têm um significado para a sua vida.
O psicólogo Robert Ornstein, pioneiro no estudo dos hemisférios cerebrais, reporta-nos que pesquisadores encontraram dados sobre a ativação do hemisfério direito pela leitura de contos-ensinamento, muito superior àquela encontrada na leitura de informação textual. Considerado um dos primeiros especialistas no mundo sobre estudos do cérebro, Ornstein explicaxxiii: “O lado direito do cérebro proporciona ‘contexto’, a função essencial de colocar conjuntamente diferentes componentes da experiência. O lado esquerdo proporciona o ‘texto’, ou as partes em si mesmas. A familiaridade com essas histórias pode expandir o contexto: permitir-nos compreender mais sobre nosso mundo e o lugar que nele ocupamos”. Ornstein considera estes contos como uma chave para nosso desenvolvimento cognitivo básico: “É como se tivéssemos as partes de uma bicicleta desmontada e soubéssemos, por analogia (talvez por causa das formas), que haveria uma relação entre o guidão e nossas mãos, os pedais e nossos pés, e assim por diante. Poderíamos até mesmo ter uma idéia que aquelas eram partes necessárias daquilo que era conhecido como ‘bicicleta’ e o ato de ‘dirigir uma bicicleta’. Mas para montar corretamente uma bicicleta de fato, e então ser capaz de dirigi-la, aonde e quando andar, etc., requer pensamento contextual que perceba cada parte diferente como parte de um todo. Esse ‘todo’, é claro, expande-se com a experiência e entendimento. Um estudo abrangente dos contos-ensinamento provê aquilo que pode ser chamado de um todo ilimitado”.
Assim, os contos-ensinamento envolvem ambos os hemisférios cerebrais ao mesmo tempo, colocando em operação simultaneamente duas formas complementares de compreensão: lógica ou linear e analógica ou holística.
Cada conto funciona de diversas formas provendo o indivíduo de:
ESPELHO: Ao se identificar com um conto a pessoa percebe seus próprios conflitos, recursos e desejos nele refletidos. Nesse sentido, suas necessidades são espelhadas no conto que passa então a ter um significado especial para ela.
MODELO: Os contos são modelos. Em suas tramas eles reproduzem situações conflituosas oferecendo, ao mesmo tempo, a possibilidade dessas situações serem solucionadas. Enquanto modelos estimulam a pessoa a aprender numa perspectiva de flexibilidade oferecendo-lhe infinitas possibilidades para a interpretação do mundo e a compreensão de qual seu lugar nele.
MEDIAÇÃO: Os confrontos entre os diferentes “mapas do mundo” das pessoas são evitados na medida em que os conflitos são filtrados através do conto e são vividos no imaginário.
RETENÇÃO: Os contos são facilmente guardados na memória, pois são velozes e concisos, conseqüentemente são facilmente integrados no pensamento de uma pessoa podendo aflorar à mente nas mais distintas situações. De fato, os contos, com freqüência, vêm à mente por si mesmos em momentos específicos de necessidade.
MUDANÇA DE PONTOS DE VISTA: Os contos criam espontaneamente diferentes perspectivas.
O trabalho com contos-ensinamento foi desenvolvido durante os 30 minutos finais de cada encontro com o grupo experimental, logo após o treinamento em relaxamento criativo, observando-se que o estado de relaxamento propicia melhores condições para as atividades com contos que ativam o uso da imaginação em vários níveis.
A metodologia de trabalho com os contos, em conformidade com modelo testado anteriormentexxiv implicou na escolha e utilização de um conto-ensinamento específico, ao qual denominamos “central”, que foi trabalhado mais profundamente durante todos os encontros. Para esta intervenção especificamente o conto-ensinamento “central” utilizado intitula-se “Fátima, a fiandeira”xxv. Também foram utilizados outros dois contos que contribuíram para ampliar as dimensões de compreensão e percepção, trazendo aspectos complementares, sendo: 2.“O pássaro indiano” e 3.“Os dois sonhadores”. Para a escolha dos contos (anexos) a serem utilizados levou-se em conta um diagnóstico situacional por nós realizado na empresa, as pessoas do grupo experimental, o contexto, bem como o tempo disponibilizado para realização dos trabalhos.
A escolha do conto “central” deve-se à sua estrutura de base, ou seja, o primeiro nível de compreensão do conto, onde as várias experiências difíceis vividas pela personagem central, ao ir superando-as, contribuem na verdade para que ela alcance sua realização pessoal. Nas adversidades, a personagem, utilizando-se de seus próprios recursos, que vão se incrementando a cada nova experiência, beneficiando-se também do auxílio de terceiros, segue sua trajetória apresentando atitudes positivas frente aos desafios, tais como, perseverança, determinação, coragem, etc., as quais denominamos tecnicamente “atributos” que são trabalhados ao longo das atividades.
Na primeira intervenção foi apresentado o trabalho e em seguida o conto central foi narrado (não lido). Após a narração, solicitamos aos participantes que anotassem individualmente “o que lhes chamou mais a atenção no conto” e em seguida cada um apresentou-as ao grupo, trocando impressões e enriquecendo suas observações. O conto impresso foi distribuído aos participantes recomendando-lhes que o lessem algumas vezes durante a semana e que tomassem nota de algum ponto que havia passado despercebido.
Na segunda intervenção abrimos a discussão em grupo dos pontos que haviam anotado durante a semana, suas percepções e identificação com aspectos de suas vidas. O conto central foi lido em conjunto e apresentamos a atividade de identificação de atributos da personagem central. Para esta atividade de participação livre a indicação é de que não há “certo” ou “errado”. Os atributos foram anotados num quadro e uma vez terminadas as contribuições foi-lhes solicitado que cada um escolhesse apenas um atributo principal ou mais marcante para si mesmo. Solicitamos aos participantes que durante a semana descrevessem com o máximo de detalhes possível como imaginavam a personagem central.
Trabalhou-se não apenas com os atributos da personagem central, inter-relacionando-os também com os atributos dos outros personagens, lugares e elementos dos contos através de observações individuais e discussões em grupo, aprofundando assim termos de referência, permitindo que o conto penetrasse em outras camadas da memória.
Na terceira intervenção, os grupos apresentaram de forma voluntária a descrição detalhada de como imaginaram a personagem central, quando recordamos que o importante era realizar o exercício individual e que esta prática contribui para familiarizar-se melhor com o conto. Em compasso com o momento do treinamento em relaxamento criativo, introduzimos o conto “O pássaro indiano”. Foi-lhes solicitado que fechassem os olhos para ouvir este conto e que procurassem, segundo suas possibilidades, imaginar o melhor possível os personagens, sons, lugares e elementos do conto. Uma vez terminada a narração abrimos para comentários em grupo das impressões pessoais da experiência, inter-relacionando pontos em comum ou diferenças com o conto central e seus personagens, trabalhando também com os atributos dos personagens do segundo conto.
Na quarta intervenção fizemos um levantamento geral das atividades realizadas apresentando-lhes outras possibilidades e benefícios da utilização e familiarização com esta modalidade de contos. Finalizamos com a narração do conto “Os dois sonhadores”.
Familiarizar-se com essa modalidade de contos possibilita contribuir para o incremento da compreensão e da habilidade de pensar criticamente. Eles encorajam o desenvolvimento de perspectivas adicionais e a flexibilidade de pensamento, essencial para compreender e lidar melhor com nosso complexo mundo. Sugerem-nos formas de se olhar para as dificuldades que podem ajudar a resolver problemas de modo tranquilo.
Quando se trabalha com os contos-ensinamento a intenção é que as pessoas se apropriem deles e assim possam se aprofundar e expandir sua compreensão sobre os mesmos e usá-los em sua vida. Aquilo que se consegue extrair de cada conto depende da própria experiência e desenvolvimento, tanto quanto da exposição repetida ao conto para obter-se percepções suplementares. Como diz Ornstein, os contos-ensinamento são extremamente contextuais. Quer dizer, se mantemos um espaço para eles em nossas mentes, perceberemos que contêm dimensões de significado que podemos utilizar quando situações estruturalmente similares se apresentam em nossas experiências cotidianas.
Os Contos-Ensinamento foram cuidadosamente concebidos para mostrar caminhos efetivos para que a pessoa reflita e interprete as experiências da vida cotidiana e reaja adequadamente a elas, e não de um modo condicionado. Uma história é um veículo particularmente apropriado para esse tipo de comunicação, pois ela penetra profundamente em nossa consciência de uma maneira que a instrução direta não consegue. Esse é o significado do real aprendizado. Aprender algo requer que o cérebro construa significados, i.e., que ele realize conexões entre uma nova informação e uma experiência já vivida pelo sujeito. O cérebro constrói significados de maneira natural quando percebe relaçõesxxvi, e as conexões relevantes ou significativas estimulam o cérebro a sintonizar-se e focar-se. A construção de significados constitui o maior requisito no ato de aprender e o coração do processo reflexivoxxvii. Quando uma criança, por exemplo, faz analogias, ela está construindo significados ao relacionar algo que, ao mesmo tempo, é emocional e intelectualmente familiar para ela, com a nova informação – via conto-ensinamento, por exemplo – que recebe.




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