Política da utilização de medicamentos psicoativos em Vila Serena



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Política da utilização de medicamentos psicoativos em Vila Serena
Por uma questão de princípio, Vila Serena não utiliza remédios que alteram o humor porque:


  • O tratamento de Vila Serena busca “um despertar espiritual, graças a esses passos” (12o Passos) ou, como formulado por Carl Gustav Jung, “spiritus contra spiritu”. Essas abordagens espirituais, humanísticas, estéticas, holísticas e poéticas focalizam na pessoa, tentando aprofundar sua perspectiva de vida de tal maneira que a utilização de substâncias psicoativas não seja de muita relevância.




  • Reconhecemos que existe uma abordagem intervencionista e analítica, baseada em estudos acadêmicos e científicos, que enfoca a Síndrome de Dependência Química procurando sua cura. Apesar de ser válida em muitos casos, não é a metodologia de Vila Serena. Nosso objetivo é uma melhor qualidade de vida com sobriedade, não mera abstinência.




  • É reconhecida a tendência, especialmente forte no Brasil, promovida pela indústria farmacêutica, de tomar-se um remédio para curar qualquer indisposição, em vez de serem confrontadas as raízes do problema. Citamos o abuso alarmante de anorexígenos no caso de obesidade ou psicotrópicos nos casos de depressão ou ansiedade. A literatura científica sobre o naltrexone enfatiza que o remédio não é o tratamento da dependência alcoólica em si, mas uma “muleta” (9,11) que sempre deve ser acompanhado de um programa de recuperação. Duvidamos, porém, que o paciente, nas primeiras semanas de abstinência, possa fazer essa distinção. Tomar um remédio é muito mais fácil do que praticar os passos.




  • Um princípio fundamental do Modelo Minnesota é o tratamento grupal, e temos resultados muito melhores do que qualquer estudo sobre a utilização de naltrexone, desde que mantenhamos o dependente num contexto grupal. Por isto, temos resultados em torno de 80% de abstinência em grupos no contexto da empresa, quando conseguimos manter o dependente num grupo de apoio. Veja Johnson & Johnson, Alumar, Petrobras e Goodyear.




  • A compulsão é um fenômeno normal e natural, que tem muito a dizer para cada um de nós. Em vez de quimicamente aboli-la, devemos aprender a viver, adequar, apreciar, enriquecendo a fábrica da vida. Todos dependentes químicos já a tiveram e podem sempre voltar a tê-la (pensamos a mesma coisa sobre depressão). Se uma compulsão não é mais gerenciável, não é mais uma compulsão, mas uma psicopatologia que foge do alcance do programa de Vila Serena. (Recomendo uma leitura de psicologia arquetípica de James Hillman para aprofundar esse aspecto.).

Isto é uma postura não só filosófica, mas mercadológica. Sentimos que o uso de remédios psicoativos é tão generalizado, e ineficaz, especialmente no tratamento de dependência química, que existe um espaço no mercado que procura um tratamento não medicamentoso de dependência química. Parece que, ultimamente, o público não distingue entre as substâncias psicoativas legais, ilegais e prescritas, classificando-as todas como “drogas”.


Consideramos três situações na utilização de drogas psicoativas em Vila Serena:


  1. Desintoxicação. Síndrome de Abstinência

Utilizamos os remédios necessários para aliviar os sintomas desagradáveis e potencialmente perigosos da síndrome de abstinência, por um curto período de tempo (de três a dez dias, dependendo do caso) com o objetivo de manter o residente num tratamento que lhe permita aprender como viver melhor sem o uso de psicotrópicos.


  1. Bloqueadores para reduzir compulsão.

No momento, no Brasil, dois remédios estão sendo agressivamente promovidos pela indústria farmacêutica com a proposta de bloquear os receptores cerebrais de opióides: naltrexone (ReVia, Cristalia), e acomprosate (Campral, Merck). Não os utilizamos porque:


Acreditamos que a utilização de um “remédio” sob controle médico, com possíveis efeitos colaterais (5,7), para reduzir a compulsão ou desejo (a palavra mais usada nos estudos em inglês é “craving”), desfocaliza e impossibilita o tratamento do Modelo Minnesota.


  • Nas palavras de Dr. David Smith, MD, presidente e fundador do Haight Ashbury Free Clinic, em San Francisco, USA, “Naltrexone não deve ser administrado a todos os pacientes. Primeiro, eles devem ser encaminhados para um grupo de ajuda-mútua e, se isto não for eficaz e houver recaída, estando ainda motivados, podem utilizar naltrexone. Em geral, é melhor a recuperação sem remédios. Nosso protocolo prescreve, primeiro, uma tentativa de recuperação através dos 12 Passos”. (www.open.org/~nfatc/research.htm)




  • Não está exatamente claro como o naltrexone age, mas, em princípio, ele bloqueia os receptores cerebrais de opióides (8). Alguns opióides são produzidos (1) ou têm sua produção aumentada (2,7) em decorrência da dependência do álcool e, deste modo, o uso do naltrexone tornaria a experiência de beber menos atraente. Por outro lado, bloqueia também a ação dos opióides naturais, produzidos em situações como correr, jogar futebol, ouvir música, meditar, etc, fazendo com que seja bloqueada uma experiência positiva e prazerosa da sobriedade (anedonia).




  • Desde os primeiros trabalhos científicos (3,4,5,7) publicados sobre naltrexone e alcoolismo, fica claro que a droga só funciona enquanto estiver presente na circulação sangüínea. Deveria, portanto, ser administrada por toda a vida.




  • Muitos pacientes em uso de naltrexone conseguem beber controladamente (4,8,9), o que os deixa muito felizes. É o desejo de todo alcoólatra. A droga (naltrexone) tira o poder adictivo do álcool e pode dar uma falsa sensação de segurança ao paciente que, pelos custos ou por esquecimento ou por achar que “está curado”, pode deixar de ingerir o remédio e ter problemas com a bebida.




  • Existem dúvidas ainda quanto à melhor dosagem a ser ministrada e os estudos são muito curtos, geralmente inferiores há um ano (6).




  • Nesta linha de raciocínio (puramente neuroquímico) os médicos têm sugerido que, pelo fato do álcool interferir em diversos neurotransmissores (opióides, dopamina, serotanina, GABA), o melhor seria usar um “cocktail”, por exemplo, naltrexone + antidepressivos...(6,10)




  • Estudos em animais revelam que, por tempo prolongado, os receptores de opiódes podem sofrer adaptações de forma que alterações compensatórias podem limitar o uso de naltrexone em longo prazo (4). Em outras palavras o organismo poderá tornar-se tolerante ao Naltrexone havendo necessidade de aumentar-se à dose para obter o efeito desejado.




  • Colocamos pouca credibilidade em estudos promovidos pela indústria farmacêutica para ganhar a aprovação do FDA e vender seu produto. Acreditamos que naltrexone vai ter o mesmo caminho do disulfiram, ou seja, cairá em desuso por causa de sua ineficácia.




  • Num recente estudo publicado no New England Journal of Medicine, envolvendo um número grande de participantes em diversas localidades, foi determinado que naltrexone não é mais eficaz do que um placebo no tratamento de alcoolismo.(18)




  • Quando medicamos um dependente químico, além do estritamente necessário, corremos um grave erro de tirar do paciente a necessidade de desenvolver ferramentas internas para lidar com suas dificuldades, naturais de todo o ser humano, e deslocar para a medicação seus avanços terapêuticos. Pacientes que não usam medicação ao evoluírem na sua capacidade de enfrentamento de sentimentos, ambivalência e demais dificuldades melhoram sua auto-estima, pois atribuem a si próprio os avanços pessoais.



  1. No caso de duplo-diagnóstico ou co-morbidade.

Em princípio Vila Serena não trata os verdadeiros casos de co-morbidade ou, também chamados, duplo-diagnóstico, isto é, pessoas diagnosticadas como dependentes químicos e também com um outro distúrbio mental agudo ou crônico. Na nossa concepção, porém, estes casos são raros. A tendência da psiquiatria e de muitos médicos clínicos, influenciados pela indústria farmacêutica, é de, precocemente, diagnosticar a co-morbidade, especialmente nos casos de depressão clínica, que está presente em quase todos os distúrbios mentais, e medicar com drogas psicoativas. Esses diagnósticos são extremamente subjetivos, permitindo um fácil diagnóstico de distúrbio mental que permite uma resposta imediata: medicação. Isso agrada o paciente e seus familiares, mantém a pessoa diagnosticada como paciente e é lucrativo para o profissional de saúde e à empresa farmacêutica.


Ressaltamos que recebemos pacientes que foram diagnosticados como portador de uma co-morbidade psiquiatra e ao fazermos a avaliação diagnóstica, identificamos que a grande maioria dos sintomas que fundamentaram o diagnóstico são correlatos ao período de uso de álcool e drogas. Com essa constatação, devemos, sempre questionar esse diagnóstico e propiciar ao paciente uma experiência de vivenciar suas vulnerabilidades sem uso de substâncias psicoativas e demonstrar para ele que no nosso modelo ele estará sempre amparado pelo grupo de residentes e de profissionais, que o ajudarão a  compartilhar  seus reais sentimos e dificuldades existenciais.
A literatura médica indica que depressão é “o problema clínico mais comum a ser diagnosticado por médicos de cuidados primários”. (16)
Vamos examinar um sumário do diagnóstico de depressão clínica segundo o DSM-IV(17), notando que os DSM-IV são critérios operacionais, úteis, mas não científicos, porque não são baseados em pesquisa, mas em observações experienciais. (19). São úteis para ajudar a organizar a complexidade de diagnósticos de saúde mental, mas são subjetivos, não replicáveis. Isto é, diversos profissionais podem avaliar o mesmo caso e chegar a conclusões diferentes. (20)
Para depressão clínica, é necessário que cinco dos seguintes nove critérios, sempre incluindo os itens 2 e 6, estejam presentes num período de duas semanas:


  1. Insônia ou hipersonia.

  2. Interesse ou prazer diminuído em atividades rotineiras.

  3. Sentimentos de culpa.

  4. Cansaço e falta de energia.

  5. Habilidade de concentrar-se ou memória comprometida.

  6. Falta de ânimo.

  7. Mudança do apetite.

  8. Agitação psicomotora.

  9. Pensamentos suicidas.

A interpretação desses critérios é subjetiva e baseada, naturalmente, na visão de vida ou de “normalidade” que o profissional tem. Se considerarmos qualquer depressão, ou desânimo, como patológica, isto é, uma pessoa deve sempre estar serena e feliz, o diagnóstico vai ser depressão clínica, mas se a depressão é vista como algo normal, como parte da vida e válida como experiência de crescimento pessoal, depressão clínica vai ser um raro diagnóstico.


A filosofia de Vila Serena sustenta que depressão é normal. Como fala Viktor Frankl: “A preocupação ou mesmo o desespero da pessoa sobre se a sua vida vale a pena ser vivida é uma angústia existencial, mas de forma alguma uma doença mental”.(12)
James Hillman, (13) que muito orienta a filosofia de Vila Serena comenta:
Depressão ainda é o Grande Inimigo. Mais energia pessoal é gasta nas defesas maníacas contra, desvio de, e negação da depressão, do que é utilizada em todas as outras supostas ameaças psicopatológicas contra a sociedade como a psicopatia criminal, a esquizofrenia e a adicção. Mas, é através da depressão que entramos nas profundezas, e é nas profundezas que descobrimos nossa alma.
Psicólogo arquetípico e teólogo, David Miller citam Carl Jung: (14).
Nós não devemos tentar ‘eliminar’ uma neurose, mas tentar vivenciar o que ela significa, o que tem a ensinar, qual é sua finalidade. Nós devemos mesmo aprender e ser gratos a ela, pois, do contrário, nós passaremos ao largo dela e perderemos a oportunidade de conhecer-nos como realmente somos. Uma neurose é verdadeiramente removida somente quando é removida a falsa atitude do ego. Nós não a curamos - ela nos cura. Uma pessoa está doente, mas a doença é a tentativa da natureza de curar essa pessoa.”(CW 10.361)”.
A causa final de uma neurose é algo positivo que precisa ser salvaguardado para o paciente; do contrário ele sofre uma perda. . , e o resultado, na melhor das hipóteses, é uma cura incompleta. (CW 16.564)
David Miller comenta: (15)
[Os comentários de Jung] sobre neuroses, acima, implicam que nossa baixa auto-estima, nossa tendência a fazer-nos de vítimas, nossa depressão flutuando livremente, nossa sensação de não valermos nada e nossa falta de esperança podem ser vivenciadas como “positivas”, levando a “uma síntese nova”, “plena de objetivos”, “uma possessão preciosa” e até nossa “melhor amiga”.
Se isto fosse assim, então Prozac, remédios da Nova Era, cocaína, almoços com caipirinhas, aconselhamento, meditação, terapia, práticas religiosas, livros de auto-ajuda, grupos de apoio e recuperação – se todos, eles têm por finalidade ‘curar’ a depressão e a baixa auto-estima, podem ser não somente mal recomendados, mas podem mesmo ser contra-producentes, pois eles mesmos alimentam a fantasia e perspectiva contextual que constitui e provoca os sintomas que eles têm por finalidade remover.
Assim, as normas de Vila Serena são:


  • Aceitamos um paciente portador de um duplo-diagnóstico com o entendimento e condição de que vamos gradualmente retirar todos os remédios psicoativos e propor um tratamento humanístico baseado nos Doze Passos. Sem esse entendimento, não aceitamos o paciente. Nossa experiência nos últimos vinte anos demonstra que temos tido sucesso com muitos casos tidos como duplo-diganóstico tendo conseguido devolvê-los à normalidade, com uma vida melhor sem o uso de substâncias psicoativas. Em muitos casos, estes pacientes não teriam outro recurso, se não fosse Vila Serena, e passariam a vida medicados ou padecendo numa clínica psiquiátrica.




  • Assim, se durante o processo de retirada dos remédios psicoativos, chegarmos à conclusão de que o paciente apresenta graves distúrbios de percepção sensorial ou comportamento incompatível com a convivência no grupo, procedemos à sua transferência para outra instituição, pois Vila Serena não está estruturada para o tratamento destes problemas.




  • Isso, também, tem um aspecto bem prático, pois o processo terapêutico necessário para tratar estas condições, que geralmente é individual, é totalmente diferente do tratamento de dependência química – grupal e focalizado em viver sem usar qualquer substância psicoativa.




  • Uma situação mais difícil aparece quando um residente em pós-tratamento volta a utilizar um remédio psicoativo, com ou sem orientação médica. Nestas circunstâncias, desligamos o ex-residente do grupo pelos seguintes motivos:




  • Não tratamos transtornos mentais que implicam em tratamento medicamentoso.




  • Acreditamos que existem muitos distúrbios emocionais / comportamentais que podem ser tratados através de uma abordagem humanística: os Doze Passos.




  • Não é possível conduzir um grupo de pós-tratamento com recuperandos recebendo medicação psicoativa, pois, esta condição, impede a vivência e expressão genuína das emoções, perturbando a proposta do grupo de abstinência de substâncias modificadoras do humor.

John E. Burns, PhD, CEAP.

Presidente, Vila Serena.
Dr. Walter Labonia, Filho.

CRM/SP 18526


Moema Britto Raquelo

CRESS 1874 Assist. Social/Terapeuta Cognitivo




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