O joelho aprisionado: o "caso ronaldo" como construçÃo das estratégias discursivas da mídia



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Texto de apoio ao curso de Especialização

Atividade Física Adaptada e Saúde

Prof. Dr. Luzimar Teixeira

O JOELHO APRISIONADO: O "CASO RONALDO" COMO CONSTRUÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DISCURSIVAS DA MÍDIA
Antônio Fausto Neto
Agora é hora de sair de cena, deixar de ser protagonista Ronaldo, da Inter de Milão.

A segunda cirurgia a que se submeteu o jogador Ronaldo, da Inter de Milão, não foi apenas mais um acontecimento da rotina que caracteriza a vida de um atleta. Tampouco, um mero registro jornalístico reportando-se a fatos que se sucedem nos clubes quando dizem respeito à cobertura das suas atividades. É sabido que todos os dias, em meio aos preparativos para a maratona de competições, jogadores das mais diferentes modalidades esportivas são alvo da cobertura setorial da mídia noticiosa que, segundo regras próprias da "cultura do jornalismo", transforma os mais distintos registros - da renovação de contratos aos feitos de uma determinada partida - através de diferente estratégias simbólicas.

A cobertura da nova contusão de Ronaldinho não se trata de um mero registro de rotina jornalística. Pelo contrário, ultrapassa suas próprias fronteiras na medida em que diz respeito à situação de uma "personalidade mediatizada" ou, numa perspectiva já consagrada pela Teoria da Comunicação, um ente do mundo dos "olimpianos".

De uma cobertura a outra, a presença de fatores extramídia - estruturadores e dinamizadores dos próprios fatos - entra em cena, relativiza a autonumia que a mídia noticiosa teria para produzir a realidade unicamente a seu modo, impondo-se à própria tarefa de enunciação da mídia. No "Caso Ronaldo", uma conjugação de fatores relativos a várias culturas entram em cena e operam como "condições de produção" para as estratégias que a mídia desenvolve para dele falar. Nestes termos; seriam, de um lado, dispositivos de construção do real, de outro, instância receptora de outros "regimes discursivos", produzidos no âmbito da própria sociedade, impondo sobre a enunciação midiática suas marcas discursivas de construção de sentidos.

A reflexão feita neste artigo trata das configurações, dos possíveis efeitos e dos limites da enunciação midiática, diante da existência de uma multiplicidade de outros "regimes de discursividades". Apóia-se, especificamente, em alguns aspectos da cobertura de alguns jornais e revistas brasileiros a respeito de momentos relacionados com o "Caso Ronaldo", ou seja, seu retorno ao futebol, novamente interrompido pela contusão e pela nova cirurgia, com seus desdobramentos.

O ponto de partida resulta de uma observação quase banal entre aqueles que trabalham com a leitura dos discursos da mídia: o acontecimento cada vez mais passa a se equivaler à enunciação em virtude da força dos operadores e das marcas desta como instância de produção do real. Ao mesmo tempo, as enunciações, para além de transações de falas, migram sempre de rituais inerentes aos saberes que lhes instauram.

Este estudo pretende entender qual é a importância desta problemática em face da especificidade da "pragmática midiática". Em que medida ela se impõe às demais práticas de sentidos, instituindo especificadores nos quais se situaria a pertinência de suas estratégias? A fim de explicar melhor corno se pretende ler o material de trabalho, a argumentação aqui desenvolvida estará apoiada em edições dos jornais Folha de S. Paulo (FSP), Zero Hora (ZH), Estado de S. Paulo (ESP), Jornal do Brasil (JI3), O Globo (OG) e das revistas Isto É, Veja, Época e Placar, correspondentes ao período de 12 a 23 de abril deste ano, quando se sucedem os episódios relativos à anunciada volta do atleta, o jogo em que se dá a nova contusão, a cirurgia e o processo pós-operatório. São examinadas as coberturas, tendo como palco o espaço de produção de sentido jornalístico, no qual atuam várias falas: a jornalística como discurso artrticulador das demais falas, espécie de "mestre de cerimônias", e aquelas engendradas em diferentes campos: saúde, negócios, família, esporte, dentre outras, a partir da extração do trabalho de enunciação da mídia.

O espaço da mídia noticiosa será entendido como "canteiro de obra" no qual se dará a transação de várias estratégias discursivas dispostas, todavia, em

torno de uma estratégia "dominante" que é acionada pelo conjunto de regras do campo jornalístico, e a partir do qual ocorre uma "grande conversação" em torno do Caso.

0 corpo-discurso de uma "personalidade mediatizada"

No período entre o seu anunciado retorno e o pós-operatório, Ronaldo tomou conta de outros espaços da mídia, especialmente as primeiras páginas dos jornais e as manchetes das emissões radiofônicas e dos telejornais. A "máquina", no interior de sua corporeidade, tomou a propriedade do corpo do jogador, transformando-o num significante que se desdobra em vários outros, regidos pelos processos de semantizações desenvolvidos pelas estratégias discursivas.

Legendas falavam de uma nova lesão, de novas dores no joelho operado, do desespero, da dor e do choro. Alguns títulos sublinhavam, além da dor e do desespero, a agonia do atleta. Tudo isso era sobreposto às imagens estampadas do atleta não só para servir como "decoração" ao teor da dor revelado pelas imagens, mas também para radicalizar a forma pela qual a mídia captou este instante singular: o "desmoronamento" de Ronaldo. Certamente, as imagens seriam suficientes para oferecer pistas de sentidos precisos sobre o drama envolvendo o jogador, na medida em que seu semblante nas imagens veiculada pela mídia revela índices claros de um determinado momento de impasse. Porém, títulos e legendas devidamente articulados procuravam sobrepor uma determinada referência ao caso, a qual somente pode ser dada pela construção da mídia. Neste momento, nada pode ser dito e nenhum outro campo pode falar, pcrque nele está o dispositivo mediatizador como lugar permanente de observação, e pronto para a captura de um corpo imediatamente transformado numa porção de significados.

0 processo de captura

Anunciando o retorno

A cultura jornalística se faz discurso através de diferentes regras que

definem os modos através através dos quais o acontecimento é tecidonde certa

maneira, uma das regras desta modalidade de discurso se constitui na capacidade que tem para trabalhar o próprio acontecimento sob um aspecto antecipatório. A máquina de produzir sentido está lá à espreita do que nela pode ser processado. Ela entra no acontecimento (que aqui podemos chamar de retorno de Ronaldo aos campos de futebol), instituindo, a seu modo, as condições nas quais o jogador deve engendrar as características do acontecimento. Ronaldo é devedor e, portanto, há uma expectativa para que esta dívida seja paga, ali, naquele dia, diz o JB, na sua edição matutina do dia do jogo:

Hoje à noite, depois de quatro meses de uma dolorosa e sofrida ausência dos estádios, Ronaldo se apresentará no Olímpico de Roma novamente com a obrigação de salvar a lnter do mais complexo e vexaminoso fracasso. A expectativa e a exigência dos torcedores da Inter (...) são a de reencontrar no Ronaldo que na Itália foi promovido a "fenômeno" um autêntico e milagroso superfenômeno. Tudo o que a Inter perdeu de modo inexplicável ao longo da temporada (...), todos esperam que Ronaldo remedeie e reconquiste durante os poucos minutos em que será autorizado pelo técnico (...) a entrar em jogo. (JB, 12/4/2000. Os grifos das citações são meus.)

A fala jornalística transformou o corpo do atleta e as sitas mais diferentes qualidades técnicas e simbólicas num corpo-objeto de um discurso. Procurou definir, desde o início, as condições através das quais Ronaldo devia "jogar o jogo": relembrando as responsabilidades que ele deveria assumir; pagar o que devia partindo de uma suposta situação de escuta da doxa. Ronaldo é devedor. Só lhe resta pagar, com a moeda e as virtudes próprias de um salvador...

De certa forma, as construções das edições matutinas parecem "predizer" que nem tudo estava completo na recuperação física do jogador, não obstante o tratamento longo de 143 dias, "o atacante Ronaldo voltar a jogar hoje, pela Inter de Milão e saberá na prática, o resultado de cinco meses de tratamento no joelho" (ESP, 12/4/2000).


A predição sentenciadora

O discurso antecipatório desdobra-se em vários aspectos, no momento em que Ronaldinho machucou novamente o joelho. As construções enunciativas operam pelo menos as seguintes estratégias: a) a sentença através da articulação de títulos avaliativos e construídos na forma do discurso indireto; b) a sentença sobre matérias da redação através de alguns aspectos do jornalismo investigativo; e c) atribuição de declarações postas na boca de terceiros, personagens que, contudo, não são definidos. A "máquina", do seu posto de observação, volta a vaticinar, com predições escancaradas, desde logo, nos títulos de suas edições do dia 13 de abril:

Ronaldo vê carreira ameaçada em 7 minutos. (FSP, 13/4/2000) Especialista afirma que o "fenômeno" acabou. (ESP, 14/4/2000) Ronaldo só não volta a jogar se não quiser. (FSP, 14/4/2000)

No primeiro título, o jornal usa um dispositivo de avaliação para falar da nova contusão. Dela nada informa propriamente, mas procura responder ao "intrigante enunciado" da edição anterior de um dos seus concorrentes, explicando, finalmente, o que na prática Ronaldo pode saber do seu retorno, em apenas sete minutos! No segundo título o jornal toma distância de uma afirmação extremamente problemática, atribuindo sua responsabilidade à figura do mundo dos experts. Neste momento a mídia recorre a outros saberes para falar sobre aquilo que pretendem dizer, mas que não pode fazer de forma específica, devido a uma suposta ausência de competência sobre algo do corpo que ela não domina. Na forma do discurso indireto, o jornal se faz falar por um especialista. Guarda pretensa neutralidade sobre o teor da declaração, mas diz, por força da enunciação, algo com o peso de uma sentença: Ronaldo acabou.

O terceiro título, procura "roubar a cena" do especialista que havia dito anteriormente que o "fenômeno" acabara. Sem contradizer, porém, o que ele afirmara, o título procura se desvencilhar da dura afirmação médica para lembrar que o retorno, ou não, depende do próprio jogador. Atribuindo-se tal afirmação, o jornal procura também ir além da afirmação pontual do especialista, guardando assim a última palavra sobre o caso.

Sem se limitara apenas sentenciar o fim do jogador, o jornal desdobrou a enunciação, se contrapondo ao campo da medicina e também a um dos níveis do seu funcionamento, que é a esfera de sua titulação. Isso é o que prova ser o campo do jornal, uma espécie de espaço polêmico - pelo embate que trava com outros saberes, mas também pelas "disjunções" havidas entre as unidades que constituem os próprios elementos que fazem operar os dispositivos de semantização da "máquina". Trata-se muita vezes de uma estrutura de duplo vínculo. Vencida a operação com o "mundo externo", a enunciação jornalística se defronta com sua própria condição dual: de um lado, o título estrutura-se em torno de determinadas atribuições, de outro, a "máquina," empurra o dispositivo textual de enunciação para um ângulo totalmente contraditório, no qual Ronaldo é apenas uma peça de museu:

Nunca o título de melhor do mundo caiu tanto em descrédito. E aquele que era tido como unanimidade do esporte, Ronaldo, 23, atacante da Inter de Milão, vive um hiato cada vez mais duradouro em sua carreira. Eleito pela multinacional de material esportivo como a estrela do futuro, Ronaldo, acometido por uma série de problemas físicos, está na geladeira. (FSP, 16/4/2000)

A matéria desloca-se do caráter informativo e se insere num aspecto interpretativo que procura justificar, de maneira analítica, pronunciamentos que faz no corpo de notícias. Porém, há um traço de similaridade entre uma e outra. Se no primeiro texto o jornal afirma o fim de Ronaldo, no segundo, suaviza a sentença por uma construção metafórica, mas que no fundo remete à questão da "saída de cena" do atleta. Nestes termos, como terceira situação, os jornais declaram o fim do atleta, atribuindo tal avaliação às declarações atribuídas geralmente a fontes indeterminadas:

Os comentários sobre a volta de Ronaldinho em condições ideais são numerosos, mas sem muita certeza. O mesmo se pode dizer dos meios de divulgação europeus, jornais e emissoras de televisão. Alguns dão como praticamente encerrada a carreira do "fenômeno". (ESP, 14/4/2000)

0 joelho disputaputado entre os corpos de saberes

O debate médico

O campo médico, em primeiro lugar, e um conjunto de outros campos que lidam também com várias dimensões do corpo (fisioterapeutas, psicólogos, etc.) são mobilizados pelas regras de produção da mídia noticiosa a entrar em cena, a fim de responder à questão sobre os motivos da nova contusão. Através de várias operações enunciativas, são inseridas declarações cujo eixo dominante visa colocar em oposição os procedimentos terapêuticos e fisioterapêuticos ministrados a Ronaldo por Gérard Saillant e Filé (o médico que fez a primeira e a segunda cirurgias e o terapeuta que cuidou da recuperação do jogador) e a apreciação técnica dos especialistas brasileiros.

Existem opiniões médicas estruturadas em torno de enunciações que: a) suspeitam da competência do cirurgião francês; b) defendem, em termos, os procedimentos adotados; c) estranham contusões deste tipo com atletas profissionais e as opiniões do próprio médico francês, em defesa de sita competência técnica.

O "Fenômeno" que levou multidões ao estádio (...) acabou. A opinião é do ortopedista Moisés Cohen, chefe do Centro de traumatologia de Esporte da Escola de Paulista de Medicina. (...) Infelizmente ele vai ser um jogador comum, porque não terá mais aquele arranque e a velocidade que sempre o caracterizaram: será um outro Ronaldinho (...) Da outra vez foi uma ruptura parcial do ligamento patelar. Desta vez, a ruptura foi total (...) Não nosso comentar se houve erro ou não na cirurgia, mas lembro que nunca havia escutado antes o nome de Gérard Saillant (...) Nenhum dos meus colegas conhecia o Saillant. (ES i . 14/4/2000)

Os médicos acreditam que pode ter havido precipitação na liberação do atleta para, voltar aos gramados (...) O tempo médio para liberação de um atleta com problemas similares aos de Ronaldo é de 16 semanas (4 meses), mas as exigências que envolvem um jogador como ele podem ter precipitado a decisão médica. Ele estava visivelmente fora de forma, bem acima do peso - afirma o ortopedista João Ellera Gomes (...). O ortopedista Ivan Pacheco, especialista em trauma do Esporte, afirma que serão necessários entre seis a (?) meses para recuperação. Se a recuperação não for apressada por outros interesses, as chances de Ronaldo são boas. (ZH, 14/04/2000)

O médico francês Gerard Saillant, que operou o joelho direito de Ronaldinho pela segunda vez na quinta-feira, rebateu ontem com irritação as especulações em torno do futuro do jogador. "Tenho escutado muita besteira. Ninguém pode dizer, nesse momento, que Ronaldo não voltará a jogar novamente ou, o contrário, que voltará 100%", queixou-se. (JB, 15/4/2000)

O cirurgião francês (...) que operou Ronaldo, culpou o tendão do joelho do jogador pela contusão sofrida pelo atacante da Inter de Milão e disse que não é possível garantir que o problema não se repetirá. "Na medicina, como no amor nunca se deve dizer nunca. Vamos trabalhar para que isso não aconteça de novo, mas pode acontecer", admitiu. "Nenhum médico, treinador, dirigente, nenhuma pessoa honesta vai dizer que isso nunca mais vai acontecer. (...) Ninguém poderá afirmar que ele não voltará a jogar, assim como não dá para dizer que, quando voltar, estará 100%. (FSP, 15/412000)

O cirurgião ortopédico francês Gerard Saillant (...) fez ontem um apelo para que cessem as especulações acerca da recuperação do jogador. Ele declarou esperar que alguma personalidade brasileira do meio esportivo faça comentários favoráveis a seu trabalho, para que a imprensa e alguns colegas médicos parem de criticá-lo. Embora Saillant tenha se mostrado otimista com relação à recuperação do jogador, dentro de sua própria equipe há questionamentos sobre a volta do craque. (FSP, 15/4/2000)

O problema é o mesmo que Ronaldo teve o ano passado e garanto que ele voltará a jogar. Ronaldo é jovem e vai se recuperar a tempo. Se Ronaldo não voltar a jogar, rasgo o meu diploma de médico. (JB, 14/4/2000)

Se deixar correr muito tempo entre a lesão e a cirurgia, os músculos retraem e tanto a operação como a recuperação ficam comprometidas. A decisão de operá-lo foi rapidamente acertada. Quanto mais cedo, melhor. (JB, 14/6/2000)

Essa lesão é comum entre peladeiros de fim de semana, sem condição física

alguma. O caso do Ronaldo foi um acidente num tendão já operado. (JB, 14/6/2000)

As construções das notícias fazem falar um conjunto de opiniões que se enfeixam em torno de várias posições: de acusações - embora veladas - e de defesa ao procedimento sobre o processo cirúrgico. São vários pontos de vista, inclusive do próprio cirurgião responsável pela operação, que se resumem assim: o especialista, e não qualquer médico, prediz: "futebolisticamente, Ronaldinho não será o mesmo: apenas um jogador comum, caindo-lhe, assim, a condição de `fenômeno' (...) "; a eficácia da cirurgia é diretamente associada ao conhecimento que os médicos brasileiros têm do colega francês. Se ele não está na literatura médica, certamente sua competência deve ser posta em dúvida. Outros médicos se posicionam de maneira neutra ao procedimento de Saillant em operar Ronaldinho. Outros fazem comentários fora da questão clínica, sugerindo pontos de vista alusivos a fatores externos ao físico de Ronaldo como causadores da contusão. Dizem que possíveis "interesses outros" podem ter interferido neste problema, sem, contudo, explicitá-los. Também acusam indiretamente o médico Saillant, quando lembram que o tempo de recuperação de Ronaldo foi insatisfatório. Ou, quando o acusam indiretamente, lembrando que a causa da nova contusão foi a ocorrência anterior no mesmo joelho. Também tornam misteriosa a natureza da contusão, quando evocam que "ela é típica de peladeiros". De sua parte, Saillant se defende, dirigindo-se a alvos genéricos. Reporta-se a coletivos de pessoas (médicos, dirigentes, treinadores), faz apelo a alguma autoridade - "talvez no meio da imprensa" - para interferir positivamente pela qualidade do procedimento adotado, junto à opinião pública brasileira. Põe em risco sua honorabilidade, como última tentativa de dizer aos seus acusadores que é competente: "se Ronaldo não joga, jogo fora o diploma de medico". Em suma, levantam-se questionamentos de parte a parte, sem que, contudo, as opiniões se explicitem claramente quanto à sua natureza e quanto aos seus destinatários. Neste momento, o jornal, por força de seu dispositivo enunciatório, se transforma numa arena do debate simbólico sobre o caso. Nestes termos, torna efetivas suas competências de visibilidade dos acontecimentos que passam por suas disposições discursivas, nas quais os atores que falam são submetidos às operações de organização da própria fala jornalística.

Para além destas tarefas, a mídia noticiosa se desloca da esfera relatadora para uma esfera pragmática. Não só faz falar seus convidados, mas emite sua própria fala, sem marcas duvidosas a respeito do caso. A midia torna-se personagem e, a exemplo dos médicos, parece ter enunciadores muito importantes também no caso.

Há várias maneiras pelas quais os discursos da mídia noticiosa atua no processo de "controle do sentido". Apenas para lembrar uma delas, neste caso, por força das suas estratégias, realiza, ao seu modo, uma espécie de debate clínico que se trava nas fronteiras da sua própria lógica e do esquema de enunciação.

Algumas maneiras já foram vistas, como, por exemplo, as avaliações pronunciadas nos títulos, ou em legendas, mediante construções metafóricas associadas ao fim do atleta. Porém, chama atenção a maneira como a narrativa jornalística vai rastreando o momento exato da contusão: recorre a metáforas. Nada diferente dos modos como os meios radiofônicos transmitiram, por exemplo, a implosão do edifício Palace II, no Rio..."Aos 20 minutos do segundo tempo, seis depois de pisar o gramado, seu corpo ruiu como um edifício em implosão, demolido pelo rompimento do tendão que deslocou a patela" (Época, 17/4/2000). Ali, a mídia já instituía a causa: o rompimento do tendão.

Outras estratégias consistem em contestar afirmação feita na mesma matéria por parte de especialistas:

a) Neste caso, o discurso jornalístico é claramente avaliativo:

O fisoterapeuta Nilton Petrone, o Filé, contratado pela Inter a pedido do próprio jogador, apressou-se em retocar o diganóstico: "Ele jogará ainda este ano". As profecias deste tipo fortalecem sua candidatura ao papel de vilão. (Época, 17/4/2000)

b) Neste, o discurso da fonte é contestado imediatamente após sua afirmação, no contexto do jornal:

"Fizemos todos os testes de esforços e clínicos, o médico o liberou, Ronaldo estava pronto para jogar". Mas o fisiterapeuta não escapará de uma marcação cerrada. Petrone ganha fama por executar recauchutagens relâmpago em músculos e articulações de jogadores respeitados. (Época, 1714/2000)

Através de vários operadores, a mídia noticiosa define estruturalmente

suas posições em face das fonte, a partir de distintas oposições: julgando afirmações das fontes, nomeando-as segundo certas regras; ironizando a competência profissional

de especialistas e dizendo, de forma taxativa, que as coisas podern acontecer de maneira distinta do que pensam os médicos.

Esta posição estrutural de contraposição e de insatisfação à postura das fontes se agudiza no momento em que os jornais se põem em posição de conflito com as predições pronunciadas pelos médicos e áreas correlatas.

Destaca-se outra operação enunciativa, na qual os jornais ocupam um lugar de diagnóstico, opondo-se ou superando as próprias predições e comentários do ambiente médico.

Ninguém tem resposta sobre as causas dessa drama. (...) A última justificativa seria a fraqueza dos tendões do jogador. (Isto É, 19/4/2000)

Ainda é cedo, repita-se, para saber como Ronaldo voltará a correr nos estádios. Mas uma coisa é certa: "o medo o acompanhará para sempre. (...) Podem-se enumerar na história do futebol dezenas de jogadores que, depois de operados, nunca mais foram os mesmos" (Época, 17/4/2000)

As perspectivas da volta de Ronaldinho aos gramados são altamente favoráveis. Em mais de 90% dos casos, a cirurgia a que o jogador se submeteu produz resultados positivos. (Veja, 19/4/2000)]

Não foi à toa que a Inter de Milão escolheu o cirurgião ortopédico francês Gérard Sailli para operar (...) Ronaldo. Embora avesso aos holofotes, Saillant é tido como o mais tarimbado especialista em tendões do mundo e, por isso, vem tendo seus serviços solicitados por celebridades ". (FSP, 15/4/2000)

Temos neste aspecto da estratégia três situações específicas:

A primeira que se caracteriza pelo papel orquestrador do discurso jornalístico, autorizando as condições de fala dos seus convidados, contrapondo-os e ençaixando-se às diferentes situações de conversação, cujo efeito de sentido produzido é apontar a mídia como o lugar de anunciabilidade dos fatos.

Em segundo lugar, o debate médico em torno do caso, algo comprovado pelas próprias operações enunciativas midiáticas, trazendo para praça pública algo que os médicos certamente só fazem em congressos ou em colóquios especializados.

Em terceiro lugar, a mídia evidencia sua condição de personagem atuante no processo de construção do real, institui sua competência de falar sobre o caso, mediante operações que em muito superam os cuidados, defensividades, hipóteses e/ou idiossincrasias do campo médico, ao explicitar para onde vai se definir o futuro de Ronaldinho.

Um dos efeitos didáticos de maior importância sobre esta operação enunciativa voltada para a capacidade da mídia em estruturar diagnóstico diz respeito a determinadas matérias da FSP (14/4/2000) e da Placar, em sua edição de maio. Nelas são rompidas as convenções de matérias jornalísticas e a mídia trata de operar duas outras estratégias. A FSP chama a si o trabalho de perguntas e respostas sobre o caso.

Acabou a carreira de Ronaldo?

- Clinicamente não (...) o joelho deve perder mobilidade, mas não a ponto de inviabilizar o desempenho do atleta.

Então está tudo bem e Ronaldo vai voltar a brilhar ainda este ano?

- Não dá para ser otimista.

Ronaldo voltou a jogar antes do tempo?



  • Seu sitaf diz que não (...). Recebeu sinal verde do seu cirurgião.

A culpa é da Nike? Da Inter? Da CDF?

- Não interessava a ninguém que Ronaldo se machucasse logo no seu primeiro jogo oficial.

O brasileiro se contundiu porque aumentou demais sua massa muscular?

- Pode ser que sim, pode ser que não.

Esse médico que cuidou dele é confiável?


  • A clínica comandada por Gerard Saillant tratou por exemplo de Michael Schumacher (...) (FSP, 14/2/2000)

O jornal assume também a posição do leitor, definindo supostas perguntas que este faria aos especialistas. Neste caso, ele próprio se coloca na posição de respondente arrolando respostas para um conjunto de perguntas que envolvem diferentes aspectos: técnicos, médicos, financeiros, honorabilidade e, especialmente, o de vidente, quando avalia o futuro do atleta. Este é o melhor exemplo de como a mídia noticiosa desenvolve estratégias de regulação do sentido.

A revista Placar elaborou o caso tomando como referência certos procedimentos médicos. Para tanto estabeleceu, sobre a situação, o que ela chamou de proposições. Assim, estabeleceu três "teorias": "Teoria 1) Ronaldinho tem uma fragilidade natural no joelho; Teoria 2) Injeções abalaram o joelho de Ronaldo; e Teoria 3) Ronaldinho voltou cedo demais"(Placar, maio 2000).

Ao mesmo tempo, com recursos de gráficos que visualizam aspectos do joelho de Ronaldo, a revista informa "o que pode acontecer". Ao lado das imagens, sentencia, a seu modo: "Mesmo os mais otimistas não garantem que Ronaldo volte 100% nem que ele não tenha novos problemas no joelho".



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