Índice Estética e Desporto a percepção competitiva Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert Sobre a filosofia do desporto em Portugal: o caso de Sílvio Lima Desporto e Profissionalismo Nota Final Bibliografia Estética e Desporto



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Desporto e Profissionalismo
Uma das principais teses de Sílvio Lima acerca do desporto tem a ver com o que julga ser o seu intrínseco valor económico. Assim, e ao contrário do que se poderia e pôde pensar (como foi nomeadamente o caso de Gregório Marañon12), não é pelo facto de o desporto – ao contrário do que sucede com o trabalho – não ser uma agente de produção material, que se pode inferir a sua esterilidade económica. Tendo o desporto como característica medular «(…[o] seu aspecto intrinsecamente, directamente apecuniário» (Lima, 2002: 1068), dele não é, contudo, legítimo dizer-se que se trata de uma actividade inútil ou até pouco valiosa. Ao definir a actividade desportiva como autotélica, ou seja, como não visando um fim que a transcenda, Sílvio Lima situa o desporto no plano das superfluidades, conceito que distingue inequivocamente das actividades inúteis ou sem valor. Assim, define superfluidades como «realidades que fluem sobre o económico, que transbordam sobre o utilitário da vida» (Ibidem).
No entanto, as actividades supérfluas (e neste grupo, ao desporto acrescenta Sílvio Lima a arte e a ciência13) nem por isso deixam de apresentar importância económica. Vejamos como, analisando o modo como o filósofo elucida as relações entre trabalho e desporto. Na medida em «o desporto deve ser sempre uma pausa entre dois trabalhos» (Ibidem) – diríamos, usando a terminologia de hoje, que o desporto consiste, neste contexto, uma espécie de repouso activo entre dois momentos laborais14 –,

o desporto não é inimigo do trabalho; pode e deve associar-se com ele, numa apertada, fraterna, racional conexão e colaboração (Lima, 2010: 111).

Mais: é preciso dizer que essa íntima conexão tem uma natureza recíproca. Assim, se o desporto beneficia o trabalho15, por outro lado,

o desporto pressupõe certo desafogo económico, certo bem-estar físico, certo domínio agronómico do presente (Lima, 2002: 1069).


Tal como sucede com quem escolheu dedicar-se à arte ou à ciência, o desportista carece de uma
certa libertação económica (…) que permita a aplicação da energia físico-mental a outras actividades que não as meramente biológicas (Ibidem).
Ou seja: apenas porque dispõe de um determinado desafogo económico, poderá o desportista assumir o jogo como actividade intrinsecamente livre. Em que consiste essa liberdade na prática do desporto? Desde logo, a própria
obediência às leis do jogo é consentida, é voluntária, é uma autolimitação dentro da própria liberdade (Ibidem).
Pode o jogador recusar obedecer às regras do jogo que livremente escolheu jogar? Sem dúvida. Mas, quando tal sucede, é o próprio jogo que está irremediavelmente em causa. Como salientou Yves Vargas, a transgressão da lei não extingue, por si só, uma sociedade. Algo radicalmente diverso sucede com o desporto, que é fundado e garantido ontologicamente pelas suas regras. Com efeito, Vargas defende, em Sur le sport, que
a lei tem uma natureza negativa, interdita e sanciona a fim de permitir a vida comunitária. Não tem nenhuma força ontológica, pois ela não cria a comunidade e esta não se extingue com o crime. Pelo contrário, é a regra que cria o desporto, anulando todos os actos que a desrespeitam, (apud QUEVAL, 2009: 24).
Dito de outro modo, sem regras, não há desporto e, por isso, sem a aceitação livre dessas mesmas regras, não há desportista.Insistamos neste ponto, pois ele nos parece essencial. Diz Sílvio Lima:

O tenista sabe que para jogar tem que respeitar certas regras; se não quer respeitá-las, não joga (quem o obriga a tal?) (Lima, 2002: 1003).


Podemos ir ainda mais longe, retomando a tese de Vargas: se o desportista não quer respeitar as regras, não há sequer jogo. Claro que as regras não são eternas, podendo sofrer alterações, no caso de os adversários (os justamente chamados colaboradores antagonistas) entenderem isso como benéfico para todos os intervenientes. Por isso, o desportista

pode, mediante o acordo dos outros jogadores, “revolucionar” as próprias regras. As regras do jogo não são dogmas traçados para a eternidade (…). São leis, por definição alteráveis, reformáveis, revogáveis (Ibidem).


No entanto, se é possível (embora certamente não desejável, excepto para quem defenda um utopismo anarquista), conceber uma sociedade sem leis, torna-se impossível haver desporto sem regras. Uma actividade física sem regras poderá ser até extremamente estimulante, prazenteira e valiosa, mas, de acordo com a perspectiva de Yves Vargas e implicitamente com as teses de Sílvio Lima, será sempre uma actividade distinta da prática do desporto.

É porque enfatiza esta dimensão de livre obediência do desportista às regras e, portanto, ao desporto que Sílvio Lima pretende destrinçar inequivocamente este de qualquer actividade profissional. Não porque ambas actividades sejam radicalmente incompatíveis entre si. Como sublinhei anteriormente, Sílvio Lima diz que há entre desporto e trabalho uma íntima conexão recíproca, pois um supõe o outro e, ao mesmo tempo, é-lhe imprescindível. O que está em causa é algo distinto. Sílvio Lima refuta categoricamente a hipótese de estas actividades se confundirem numa só.

O “desportismo profissional” representa a negação intrínseca e a ruína do próprio desporto; socialmente, um perigo ético. O desporto deve ser sempre um amadorismo (Lima, 2002: 1093).
Tal não significa que a actividade desportiva dispense uma cada vez maior e mais sofisticada especialização técnica.

A palavra “amador” (de amare) significa etimologicamente o que ama. Na boca do vulgo, o amador tomou com o tempo um outro significado: sinónimo de pouco perito ou inexperto, de pouco versado em dado assunto (Ibidem).


Assim, fazer algo como um amador significa, muitas vezes e para o chamado senso comum, não o fazer convenientemente, pois ao amador falta a devida preparação ou competência que se esperaria sempre de um profissional. E, noutras ocasiões, comportar-se como um amador é mesmo entendido como a atitude de quem se não empenha suficientemente na realização de uma determinada tarefa. Assim, ser desportista amador consistiria em não fazer desporto com a necessária seriedade. Não é esta, evidentemente, a perspectiva de Sílvio Lima que sustenta, como disse atrás, que “não há autêntico desporto sem ascese”, ou seja, sem esforço volitivo permanente. Advogar o amadorismo no desporto representa, por conseguinte, algo bem diferente. Na verdade, escreve Sílvio Lima:

o amador contrapõe-se ao profissional; aquele ama gratuitamente (só esse amor é amor) e este visa o interesse material. O amadorismo nada tem a ver com a competência técnica, o “savoir-faire” do amador (Ibidem).

Eis, quanto a mim, o núcleo da argumentação de Sílvio Lima. Ao longo dos tempos, o desporto comercializou-se. Os espectadores, cada vez mais numerosos e exigentes, querem ver os melhores desportistas, pois são irresistivelmente seduzidos pelos “nomes faiscantes dos campeões mundiais”. Mas essa sedução, no entender de Sílvio Lima, radica num pressuposto falso. Ao contrário do que muitas vezes se supõe – e é forçoso reconhecer que o sucesso comercial do espectáculo desportivo decorre, em grande parte, desta ideia errónea

o jogador … é o que joga; o espectador... o que olha. O espectador é não raro o cábula, ou o iluso, do desporto; finge, ou crê sinceramente, que faz parte da grei desportiva (Ibidem).


Por isso, urge distinguir nitidamente desportista e espectador de desporto. Ao converter-se em espectáculo, quase sempre pago, directa ou indirectamente, pelos espectadores, o desporto profissionalizou-se e essa profissionalização, por sua vez, cresceu exponencialmente à medida que o espectarismo desportivo se desenvolveu e se tornou financeiramente cada vez mais rentável e apetecível. Que devemos entender por espectarismo? Sílvio Lima, no capítulo “Desporto, espectarismo e atletismo” de Ensaios sobre o Desporto (1937), utiliza o conceito espectarismo16 para designar aquele a que hoje é habitual chamar-se o “desportista de bancada”. Segundo Sílvio Lima,

muito jovem luso crê-se desportista só porque está sempre presente, como espectador que paga o seu bilhete e dá palmas, a toda e qualquer prova; porque assina revistas gráficas e adquire substanciosos livros; porque soletra de cor, e com genuflexo respeito, os nomes faiscantes dos campeões mundiais. Mas reparemos: o desportista não é espectador; é actor. Não está nas bancadas; pisa a arena e anda nos cornos do toiro. Pode-se ser espectador de desporto e não-desportista, até anti-desportista (Lima, 2002: 967).


Mesmo que o desporto como espectáculo estivesse naquela época ainda bastante longe daquilo em que se veio entretanto a tornar, é impossível esconder que alguns dos riscos, apontados por Sílvio Lima em relação ao desporto profissional, vieram entretanto a agudizar-se e, por isso, parece tentador tomar como válidas ou até indiscutíveis as teses principais da sua argumentação, sublinhando ao mesmo tempo que o desporto do século XXI de desporto apenas tem o nome.

Por isso, renovo a pergunta: haverá desporto profissional sem espectadores? De que modo se torna o desporto profissional, com os seus custos acrescidos, uma actividade financeiramente auto-sustentada sem os recursos que decorrem da sua venda como espectáculo, através de bilhetes de acesso aos recintos de jogo ou, como hoje também sucede, através da venda dos direitos de transmissão televisiva, quase sempre associados a fortes campanhas publicitárias? Neste novo contexto, que é hiper-comercializado, o desportista vê-se obrigado a dar espectáculo e, por vezes até, a ganhar, como contrapartida inevitável do rendimento pecuniário que aufere. O espectador compra o bilhete na expectativa de assistir a um espectáculo e, em muitos casos, na esperança, mais ou menos assumida, de que os seus jogadores ganhem ou, pelo menos, que façam o possível (e, por vezes até, o … impossível) para derrotar o adversário. No limite, penso que o adepto pretende, através dos seus jogadores, jogar e, sobretudo, ganhar. Não raro se pode ouvir, nos espectáculos de desporto profissional, desabafos semelhantes a este: «Paguei o meu bilhete para perdermos desta maneira!». Há uma espécie de aposta17 que, através da compra do bilhete (ou, nos tempos actuais, da assinatura do canal televisivo pago), é feita pelo espectador e que, como qualquer aposta, pode ser ganha ou não. Mas o investimento foi feito a pensar na vitória dos nossos jogadores ou das nossas equipas.

Por outro lado, que consequências decorrem, no entender de Sílvio Lima, da profissionalização do desporto para a própria actividade desportiva? Desde logo, ao submeter a sua actividade ao interesse material, ao profissionalizar-se,
não raro – para vencer – o desportista recorre à corrupção, ao escamoteio, viola deliberadamente o “fair-play”; mercadeja como o subtil Iago, as almas e as consciências. [E, mesmo que o não faça,] passa a usar técnicas apropriadas, treinos orientados não pelo espírito educativo, mas pelo espírito económico18 (Lima, 2002: 1076).
Será esta uma implicação necessariamente perniciosa? No entender de Sílvio Lima, sim, pois, com a profissionalização, o desporto degrada-se irrecusavelmente, passando a não se distinguir do exibicionismo do espectáculo de circo. Pior:

vivendo só do desporto mercenário, isto é, sem [ter um prévio] trabalho, o desportista infra-humaniza-se, inferioriza-se até ao baixo plano do animalesco. Que diferença haveria então entre um desportista corredor e um galgo? O clube cuidaria dos “seus” jogadores como um burguês “fermier” cuidaria dos “seus” galgos ou potros; cultivá-los-ia, treiná-los-ia para os exibir periodicamente no estádio; seriam as suas ferramentas, as suas máquinas produtoras de rendimento. Não pode haver erro mais funesto e degradante para a altiva dignidade humana (Ibidem).


Daí que Sílvio Lima conclua que o desporto profissional constitui a negação do próprio desporto que, como começámos por referir, visa “criar, não o perfeito animal, mas o perfeito cidadão, exemplar harmonioso de formosura moral e física”. É decerto provável que algumas vozes de hoje se levantassem contra o que chamariam o antropocentrismo ético de Sílvio Lima, questionando até se será legítima a utilização dos galgos e dos potros para fins desportivos e/ou económicos. Mas, de acordo com o humanismo que sustenta a filosofia de Sílvio Lima, o desporto é, acima de tudo, uma actividade com alma, pelo que todo o empenho físico do atleta deve ser norteado por fins, por assim dizer, espirituais. Ora, este estreito dualismo alma-corpo e, portanto, homem-animal, que Sílvio Lima não discute é, sem dúvida, um dos limites que o cartesianismo antropológico implica. Pensar o desporto dentro deste horizonte teórico é, sem dúvida, uma aproximação bastante empobrecedora como, entre outros, Manuel Sérgio claramente mostrou, quando, partindo do famoso livro de António Damásio, O Erro de Descartes, declara o seguinte:
Não vejo actividade que, com mais evidência, nos diga que o dualismo antropológico racionalista é um erro do que o Desporto, como também não vejo outra actividade que mais espaços educativos. (…) Num simples gesto desportivo, a complexidade humana está presente (Sérgio, 2012: 100-101).
Não ignorando a pertinência de algumas das teses de Sílvio Lima sobre o desporto e em especial sobre a irreversível tendência, visível já nos anos Trinta do século transacto, para que a competição desportiva viesse a adquirir «um tom frenético, alucinador, trepidante» (Lima, 2002: 1076), quero ainda lançar, em jeito de conclusão, duas questões:

  1. Será que não existe em qualquer actividade profissional o risco de inferiorizar o trabalhador “até ao baixo plano animalesco” de que fala Sílvio Lima? E, se assim for, não será lícito pensar que tal perigo não existe apenas no desporto profissional, mas em toda e qualquer actividade remunerada?

  2. Não será possível um desportista profissional respeitar e até desenvolver as quatro dimensões que, para Sílvio Lima, definem o fair-play, a saber: fidelidade ou respeito pelas regras, apagamento do indivíduo perante o grupo e do grupo perante o jogo, colaboração perante o adversário e esforço volitivo permanente?

Ora, embora nunca identifique arte e jogo (de que o desporto é apenas, como já dissemos, uma parte), sublinhando que «o jogo em si mesmo não é artístico nem inartístico» (Lima, 2002: 1012), Sílvio Lima não deixa, ainda assim, de se referir à circunstância de ambas as actividades serem autotélicas, não-utilitárias e livres. E, por isso, dedica às relações que elas mantêm si desporto vários ensaios, dos quais se destaca “Arte e jogo, jogo e arte”. Daí que nos interesse centrar a nossa discussão nas considerações que Sílvio Lima explana acerca da arte profissional, ou melhor, acerca da legitimidade – ou da falta dela – da actividade artística ser pecuniariamente remunerada como qualquer profissão especializada.

Por exemplo, no texto “Serão luxo a ciência e a arte?”, publicado logo em 1940, Sílvio Lima parece querer refutar algumas das teses do escritor Émile Zola, designadamente quando, por um lado, este se afirma como um verdadeiro trabalhador e, por outro, quando sustenta que «todo o verdadeiro talento acaba por impor-se ao público» (Lima, 2002: 1219). E, apesar de não concordar com o que chama este «tremendo darwinismo social» (Ibidem) de Zola, Sílvio Lima acaba por, de certa forma, condescender e admitir que a actividade do artista – tal como a do cientista, de resto – possa ser remunerada sem que, com isso, a sua essência seja negada. Ou seja, embora o valor das obras de arte não se possa nunca confundir com o seu preço de mercado, é preciso que o artista, tal como o desportista, disponha de um certo desafogo económico que permita a aplicação da sua “energia físico-mental” à criação artística.

Por isso,

o preço das suas obras é um artifício, melhor, uma transigência dramática entre a necessidade de viver (ou seja o económico) e o valor intrínseco das obras (ou seja o estético …) (Lima, 2002: 1220).


Ao separar estes dois planos, Sílvio Lima visa evitar, ainda assim, que as obras de arte sejam convertidas em mera mercadoria. Como libertar, então, o artista dos apertados condicionalismos do mercado? Para o filósofo de Coimbra, «o mecenatismo particular e estadual são actos justos e benéficos para a grei» (Ibidem). O mecenato cultural parece garantir, deste modo, a independência do artista em relação às suas necessidades biológicas de subsistência.

Podemos dizer que, no que concerne à arte, não há diferenças significativas entre as teses de “Serão luxo a ciência e a arte?” e as perspectivas apresentadas em “Arte e jogo, jogo e arte”, publicado dois anos antes. Com efeito, neste último ensaio, incluído em Desporto, Jogo e Arte, podemos ler que a arte é, de facto, «desinteressada pecuniariamente» (Lima, 2002: 1009), mas, ao mesmo tempo, «da arte pode o artista extrair lucros, réditos» (Lima, 2002: 1008). Ora, em relação ao desporto profissional, nunca Sílvio Lima parece admitir a mesma condescendência que manifesta em relação à profissionalização da arte. Não seria, por exemplo, admissível uma espécie de mecenato desportivo que garantisse aos desportistas que dedicassem à sua actividade toda a sua “energia físico-mental”? Haverá, ainda assim, diferenças entre o estatuto social da arte e do desporto que, no primeiro caso, se justifique “o mecenatismo particular e estadual” e no segundo não?

A verdade é que, quando, em 1943, Sílvio Lima volta a escrever sobre as relações entre trabalho e desporto, num ensaio com o curiosíssimo título “Desportos por procuração”, a defesa do amadorismo desportivo, na acepção precisa que atrás tentámos elucidar, continua irrevogável. Por isso, podemos ler

a equitação (…) como desporto, é uma coisa, e a corrida de cavalos é outra coisa (esta representa a comercialização da primeira) (Lima, 2010: 205).


Não há dúvida que, para Sílvio Lima, o espectador do desporto não tem, por assim dizer, a mesma importância do que quem assiste a um espectáculo teatral ou a um concerto, embora haja certas ocasiões em que o desporto assume uma dimensão estética, a verdade é que, como atrás vimos, “o jogo em si mesmo não é artístico nem inartístico”. Este ponto afigura-se-nos fulcral, pois, ao defender a tese de que o desporto não proporciona ao espectador, por si só, uma experiência axiologicamente comparável à da arte, Sílvio Lima parece querer reduzir os benefícios (educativos, políticos, morais e, no limite, económicos) do desporto apenas ao praticante e, por isso, realiza a claríssima distinção entre desportista e o espectador de desporto (que, recorde-se, muitas vezes chega a converter-se em anti-desportista). Ora, se o desporto como espectáculo é, quase por completo19, condenado e se o profissional do desporto é, também ele, e salvo uma excepção muito precisa20, visto como inimigo mortal do próprio desporto, então compreende-se facilmente a posição de Sílvio Lima.

A pergunta que talvez se imponha fazer, neste momento, é se o trabalho profissional, actividade intrinsecamente humana, se revela, de modo definitivo, incompatível com o desporto. Claro que muitas das consequências nefastas de que Sílvio Lima falava nos seus ensaios se tornaram ainda mais visíveis no desporto contemporâneo. Mas dever-se-á essa degenerescência do desporto apenas à sua crescente especialização e profissionalização? A verdade é que o trabalho profissional é, muitas vezes, um promotor do desenvolvimento das qualidades humanas, como o próprio Sílvio Lima não deixa de realçar:

o trabalho é acto humano, é acto intencional, reflexivo, metódico; mais ainda, é acto social, uma conquista ou criação do homem sobre a natureza (Lima, 2002: 1082).
Por outras palavras, o trabalho não implica obrigatoriamente que quem trabalha se inferiorize “até ao baixo plano do animalesco”, expressão de que Sílvio Lima se serve para caracterizar o desportista profissional. O desportista, se realmente o for, será sempre “não o perfeito animal, mas o perfeito cidadão, exemplar harmonioso de formosura moral e física”. Por outro lado, qualquer trabalhador profissional pode – sublinho, pode – permitir que o trabalho (ou quem o dirige) o transforme em ferramentas ou em máquinas produtoras de rendimento. Não estará o desportista profissional em piores condições de respeitar o carácter intrinsecamente livre do desporto pelo facto de depender dos rendimentos que aufere da sua profissão? Talvez, mas nesse caso não estará em condições especialmente distintas das de que qualquer outro trabalhador. E, se for esse o caso, o trabalho deixa de ser “acto intencional, reflexivo, metódico”. E, sobretudo, deixa de ser “conquista ou criação do homem sobre a natureza”. Em suma, será que o trabalho, nas modificações que sofreu e está a sofrer na época contemporânea, estará condenado a ser infra-humanizante? E se o não estiver, por que motivo será esse necessariamente o destino do desporto profissional? Eduardo Lourenço, que foi aliás aluno de Sílvio Lima, escreveu um dia:

Basta que haja um só homem que transcenda a classe para que todos os homens sejam susceptíveis de a transcender também. E lá se vai o abso­luto da teoria (Lourenço, 2011: 71).

Estou de acordo com esta tese e, por isso, julgo ser suficiente haver um desportista profissional que, em plena competição, não queira ganhar a qualquer preço (e, como é óbvio, aja congruentemente com esse princípio), para que todos os outros o possam fazer também. Há alguns anos, ao ler um livro dedicado ao tema do fair-play, deparei-me com um curioso relato do então árbitro de futebol Vítor Pereira sobre uma acção do tenista profissional Michael Chang:

Jogava uma partida para um qualquer master, quando viu o árbitro desse encontro conceder-lhe ponto por uma bola que tinha saído do court. De imediato, confessou ao árbitro que a bola tinha roçado na sua raquete, fazendo com que o ponto fosse atribuído ao adversário.Não sabemos se o seu comportamento teria sido o mesmo caso essa situação ocorresse num match-point. De todo o modo não deixa de ser um elevadíssimo caso de espírito desportivo (Pereira, 1998: 209).


O relato interessa-me em si mesmo, mas gostaria de sublinhar a referência que, com alguma suspeição, Vítor Pereira faz quando diz: “Não sabemos se o seu comportamento teria sido o mesmo caso essa situação ocorresse num match-point”. Ou seja, o ponto em causa poderia não ser assim tão decisivo, dado que no ténis, como todos os que seguem esta modalidade sabem, todos os pontos à partida são iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros. E, se fosse um ponto que determinasse automaticamente a derrota de Chang, seria possível e – Vítor Pereira não o diz explicitamente, mas… – até natural ou quase aceitável que o tenista norte-americano de origem chinesa nada tivesse dito.

Ora, três anos após estas palavras de Vítor Pereira, o tenista profissional Wayne Arthurs, numa competição realizada em Lyon, viveu uma situação rigorosamente idêntica à de Michael Chang e, também ele, informou o árbitro que a bola tocara ligeiramente na sua raqueta21. Houve, no entanto, uma pequena diferença. Tratava-se de um match-point e, ao agir como agiu, Arthurs acabou por vir a perder um encontro que, caso tivesse permanecido calado, teria ganho sem que mais ninguém se tivesse apercebido da sua falta de fair-play.

Que concluir desta situação? É evidente que nem todos os desportistas profissionais se comportam como Wayne Arthurs no match-point de Lyon. Mas, parafraseando Eduardo Lourenço, poderei sempre dizer que basta que haja um só desportista profissional que defenda e promova o fair-play para que todos os outros sejam susceptíveis de o defender e o promover também. E, nesse caso também, será forçoso aceitar, ao contrário do que defendia Sílvio Lima, que o profissionalismo não significa necessariamente a degradação do desporto e sobretudo da humanidade do desportista.




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