Índice Estética e Desporto a percepção competitiva Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert Sobre a filosofia do desporto em Portugal: o caso de Sílvio Lima Desporto e Profissionalismo Nota Final Bibliografia Estética e Desporto


Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert



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Ganhar jogando feio segundo Brad Gilbert
No discurso desportivo jogar bem e jogar bonito parecem ser, muitas vezes, conceitos sinónimos. Por exemplo, é costume dizer-se que quem joga bem está mais perto de ganhar, embora talvez nem sempre isso suceda. Tudo depende, aliás, do que se entende por jogar bem. É que, sendo o desporto uma actividade em que todos os participantes conhecem o objectivo (the goal, como dizem os ingleses, de onde vem obviamente a palavra golo) que pretendem alcançar – ao contrário do que se passa em princípio com a arte, por exemplo – tornar-se-ia à partida quase inevitável que jogar bem significasse, antes de mais, vencer. Por outro lado, como no desporto é imperioso que existam vencedores e vencidos no final da competição (embora existam modalidades em que se prevê a possibilidade de, num determinado jogo, ocorrer um empate), é também razoável admitir-se que um participante vencido não teve um desempenho necessariamente medíocre, limitando-se a não ser tão bom como o vencedor. Ou seja, nesse caso perder não significaria necessariamente jogar mal ou jogar feio.

Mas gostaria de voltar à relação entre jogar bem e jogar bonito. No desporto, é frequente atribuir-se também um sentido ético à segunda expressão, como se o fair-play, noção de raiz inglesa que tem nítidas afinidades com o conceito de sportsmanship (cuja tradução menos inexacta será talvez desportivismo), tivesse uma componente estética essencial. A ideia do jogo limpo, isto é, jogar no estrito cumprimento das regras e, talvez mais importante ainda, respeitando o espírito do jogo, por difícil que seja determinar rigorosamente significado deste conceito8, remete para um sentido de higiene que é simultaneamente física e moral, ou seja, estética e ética. Pelo contrário, o jogo sujo significa a batota ou a acção anti-desportiva. No desporto, um comportamento próprio – repare-se na acepção mais comum do adjectivo francês propre (ou seja, limpo ou imaculado) – tem a ver, por isso e quase sempre, com o fair-play.

No entanto, posso também dizer que um atleta ou uma equipa jogam bonito e, com isso, pretendo referir-me a algo distinto. De facto, muitas vezes atribui-se um valor estético a uma determinada forma de jogar. Por exemplo, é costume pensar-se que um jogador ou uma equipa que correm mais riscos para alcançar a vitória proporcionam um espectáculo melhor ou, pelo menos, mais interessante e entretido do que um adversário que adopte uma estratégia mais calculista e defensiva. Julgo que, ao colocar as questões deste modo, estou a entrar num domínio no qual se torna difícil discernir a experiência do espectador de eventos desportivos do público que assiste a um qualquer espectáculo de entretenimento que, como é óbvio, o desporto também pode ser e, muitas vezes, é-o principalmente. Neste caso, um jogador ou uma equipa que jogam feio, mesmo que cumpram os preceitos da ética desportiva, acabam por ser nocivos para o desporto enquanto espectáculo, na medida em que os jogos nos quais participam se tornam mais monótonos e desinteressantes, categorias que parecem exibir menor riqueza estética. Por outras palavras, tais atletas ou equipas não jogam bem e, nessa medida, não suscitam a atenção de espectadores imparciais. Quando muito, conseguem envolver os seus adeptos que, mais do que os seus atletas ou as suas equipas jogar bem, estão interessados em vitórias daqueles que apoiam. Ora, é neste quadro conceptual que pretendo analisar o livro do antigo jogador e treinador de ténis profissional, Brad Gilbert, que tem como título exactamente Winning Ugly, expressão que traduzo por Vencer jogando feio.

Brad Gilbert nasceu em Oakland (Califórnia, Estados Unidos) em 1961 e foi um dos melhores tenistas mundiais do seu tempo. Entre 1985 e 1991, esteve quase sempre classificado entre os vinte primeiros do ranking ATP. Nunca saiu do top 10, entre 1989 e 1990, ano em que atingiu o 4º lugar, a sua posição mais elevada de sempre. Obteve a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1988, realizados em Seoul, na Coreia do Sul. Devo confessar que, enquanto espectador, nunca fui um apreciador de Brad Gilbert que, de resto, estava longe de ser, ao que parece, um dos tenistas mais simpáticos do circuito profissional. No seu estilo de jogar, nada parecia haver de especialmente impressionante. Em suma, era um jogador não muito talentoso e que, portanto, parecia obter melhor resultados do que à partida seria suposto, sobretudo se atendermos que a concorrência no ténis profissional é duríssima, pois há imensos jogadores bastante dotados e extremamente dedicados que nem sequer chegaram perto do sucesso alcançado por Brad. Terminada a carreira de jogador, Gilbert enveredou pela actividade de treinador, tendo sido responsável técnico de jogadores como Andre Agassi, entre 1994 e 2002 (período em que Agassi venceu seis torneios do Grand Slam), Andy Roddick (quando este ganhou o US Open em 2003) e Andy Murray (2006). Actualmente é sobretudo comentador televisivo, sendo sem dúvida uma das vozes mais respeitadas do ténis mundial.



De que trata o livro de Brad Gilbert e, sobretudo, o que significa o seu conceito de ganhar jogando feio? Será que, pelo contrário, é possível perder jogando bonito como sustenta Mark R. Huston em “Losing Beautifully” (Huston, 2010: 200-219), um interessante ensaio dedicado às teses de Gilbert? O livro Winning Ugly ajuda-nos, desde logo, a entrever várias razões que podem explicar o próprio fenómeno-Gilbert. Steve Jamison, co-autor do livro, avança no prefácio com algumas delas:
O sucesso de Brad assenta no facto de ele ser um tenista-pensador. No ténis, ele é o melhor do mundo em relação à dimensão mental do jogo. Os espectadores apenas vêem as suas pancadas e estas nem sempre são bonitas. Mas os espectadores não vêem as suas maquinações mentais que o conduzem à vitória, tal como não vêem o que vai na cabeça dele antes, durante e depois do jogo. A maior parte dos tenistas são preguiçosos dentro do court. Brad usa isso a seu favor e acredita que cada jogador pode fazer o mesmo. Usa cada segundo do jogo para descobrir e seguir o caminho para obter uma vantagem em relação ao adversário. Sem ser dotado de um físico impressionante ou de espantosos golpes, Brad vence porque desconcentra e desfaz a estratégia do adversário (Gilbert, 2007: XIX).
Mesmo que se dê algum desconto ao prefaciador do livro, que pretende sobretudo valorizar as qualidades estratégicas e a força mental de Gilbert e que, por isso, talvez exagere um pouco quando menospreza as capacidades atléticas e técnicas deste, a verdade é que Brad não parecia ter os atributos e o potencial tenístico de outros jogadores do seu tempo a quem chegou a ganhar. John McEnroe não tem realmente a opinião mais favorável acerca de Gilbert. Todavia, não deixa de reconhecer qualidades meritórias no jogo do adversário:
Brad sabia jogar. Era mais atlético do que as pessoas imaginavam. Era um passa-bolas (pusher) – o seu segundo serviço era ridículo, tinha um volley bastante deficiente, mas apanhava as bolas todas. Punha-se a passar bolas, tu subias à rede e ele procurava passar-te. O seu estilo de jogo era um espelho perfeito da sua personalidade (McEnroe, 2002: 222).
Mesmo assim, Gilbert perdeu treze dos catorze encontros oficiais que realizou frente a McEnroe. A superioridade do esquerdino era, aparentemente pelo menos, inquestionável quando defrontava Brad. No entanto, no mês de Janeiro de 1986, o sorteio do Masters, prova realizada em Nova Iorque, determinou que os dois tenistas jogassem um contra o outro. É importante recuperar a interpretação que John McEnroe, o tenista derrotado nesse encontro memorável disputado no Madison Square Garden, tem dos acontecimentos:
(…) O jogo começou bastante bem: ganhei o primeiro set por 7-5. As coisas começaram a piorar depois. Lenta mas irreversivelmente, comecei a ser dominado pelo negativismo provocado pela atitude de Gilbert. Foi quase como se me tivesse tornado numa espécie de espelho distorcido que reflectia a pior imagem de mim próprio. Quando perdi o segundo set por 4-6, estava morto por sair dali.

O pior momento sucedeu no início do terceiro e último set, quando reparei que algumas pessoas nas bancadas estavam a puxar pelo Gilbert. Não se estavam a comportar mal, apenas o apoiavam, mas qualquer coisa se desfez em mim e comecei a ouvir coisas estranhas na minha cabeça. Só eu é que as ouvia. E pensei: Nunca desceste tão baixo. (…) Já não bastava estar a perder com o Gilbert – tinha ido ainda mais ao fundo.

Fiquei desfeito e perdi esse terceiro set por 6-1. Saí do court, abandonei o Garden (…), [fui ter com o meu amigo Ahmad Rashad] e disse-lhe: «Já chega, Ahmad! Estou farto. Vou deixar de jogar. Não aguento mais!» E, durante os seis meses seguintes, não entrei em mais nenhum torneio (McEnroe, 2002: 223-224).

Convém recordar que, num encontro de ténis, ao contrário do que se passa em jogos de algumas outras modalidades, a superioridade de um dos oponentes tende a confirmar-se ao longo do tempo. Ou seja, à partida, as hipóteses de um tenista menos cotado derrotar um jogador notoriamente superior são reduzidas. Claro que isso pode sempre acontecer, mas são as excepções que, no fim de contas, confirmam a regra. Por isso, embora quer McEnroe, quer Gilbert sejam, os dois (cada um à sua maneira, claro), extraordinários jogadores, a verdade é que os resultados entre ambos revelam uma superioridade inequívoca do talentoso e temperamental esquerdino que, como referi, venceu treze dos catorze encontros oficiais que disputou com Brad. O jogo de Janeiro de 1985 foi o oitavo despique entre estes dois tenistas de estilos diametralmente antagónicos. Big Mac – era esta uma das alcunhas do tenista novaiorquino – vencera os sete encontros anteriores e, após a interrupção sabática de meio ano, voltou a derrotar Gilbert em todas as seis ocasiões em que se voltaram a defrontar.

No entanto, o mais relevante para McEnroe nesse jogo do Madison Square Garden não foi ter sido derrotado pelo adversário menos cotado, embora isso já fosse demasiadamente mau para alguém que, como ele, detesta perder. Por outro lado, é natural que, à beira de completar vinte e sete anos, John revelasse alguma saturação, apesar de não ser ainda propriamente um veterano. De qualquer forma, não seria razoável atribuir ao que se passou no jogo frente a Brad Gilbert total responsabilidade sobre o que os psicólogos chamariam fenómeno de burn out em John McEnroe. O que me interessa especificamente neste caso é a causa próxima do acidente. Perder com um adversário mais fraco e nitidamente menos talentoso é algo que, apesar de tudo, pode acontecer esporadicamente. Porém, a gota que fez transbordar o copo de água não foi propriamente o resultado. Tão pouco o facto de o próprio McEnroe ter um desempenho nitidamente desastrado perante um jogador à partida menos categorizado. O que despoletou a crise foi, de acordo com o próprio John, o facto de alguns espectadores apoiarem Gilbert. É natural que McEnroe se tenha sentido irritado com o facto de, tendo ele residido grande parte da sua vida em Nova Iorque, o público local apoiasse um tenista originário da Califórnia. Mas estou convencido que a questão essencial não reside aqui. Pelo menos, John McEnroe não menciona o assunto. O que verdadeiramente está em causa é o facto de, no entender do autor de Serious, Brad Gilbert representar tudo aquilo que o novaiorquino detestava no ténis. Ora, onde radicará esta apreciação senão no domínio que habitualmente se designa por estético? Por que motivo McEnroe considera o estilo de Gilbert feio? Mais: por que razão descreve este último a sua forma de jogar como sendo uma tentativa de winning ugly?

Embora Winning Ugly seja um livro riquíssimo em várias vertentes, penso ser possível sintetizar a sua orientação principal num ponto preciso. Para Brad Gilbert, a sua estratégia essencial consiste apenas nesta ideia muito simples: «aumentar as minhas hipóteses de ganhar» (Gilbert, 2007: 12). Nesse sentido, toda a obra constitui um estupendo de manual de instruções para vencer adversários tecnicamente mais evoluídos ou, se se preferir, com um tipo de ténis mais agradável, pelo menos à primeira vista. De facto, Brad Gilbert não explica no seu livro qual a melhor forma de os jogadores executarem os diferentes golpes de ténis. Tão pouco auxilia os aprendizes de tenistas a enriquecer as suas competências técnicas e/ou físicas, embora nunca deixe de chamar a atenção para a necessidade de, através do trabalho, aperfeiçoar umas e outras. O que está realmente em causa em Winning Ugly é criar as condições para, a partir do nível de cada jogador, as suas hipóteses de alcançar uma vitória sejam exploradas ao máximo.

Tomemos em consideração o caso McEnroe versus Gilbert. É verdade que Brad não discorda por completo do diagnóstico que John fez do seu próprio tipo de jogo e até da diferença de nível técnico que existe entre ambos9. De resto, em Winning Ugly, o próprio Gilbert não deixa de elogiar as qualidades de McEnroe10 quando, por exemplo, escreve que o esquerdino não é – ao contrário do que sucede, por exemplo, com o sueco Stefan Edberg ou com o croata Goran Ivanesivic – um clássico jogador de serviço-rede (serve-volley player), pois sabe variar o seu plano de jogo:
(…) [McEnroe] às vezes sobe atrás do serviço e noutras ocasiões mantém-se na linha do fundo. Assim, o adversário é apanhado de surpresa quando subitamente McEnroe sobe à rede atrás do seu serviço (Gilbert, 2007: 116).
Gilbert reconhece mesmo que essa imprevisibilidade de McEnroe foi devastadora para si em quase todos os jogos em que ambos se defrontaram, pois o foco do adversário do tenista que sobe muitas vezes à rede deve incidir não tanto sobre o jogador, mas especialmente sobre a bola. Ora, ao criar esse elemento de instabilidade de adversário (que se interroga permanentemente acerca de onde poderá estar McEnroe: Terá subido à rede? Terá permanecido na linha de fundo?), o tenista não-previsível adquire imediatamente uma vantagem sobre o oponente. Contudo, essa riqueza de opções baseia-se na capacidade do jogador realizar bem as diferentes tarefas que as suas opções implicam. Um tenista mais limitado tecnicamente não dispõe de um leque de possibilidades tão amplo e, por isso, talvez não jogue um ténis tão diversificado e agradável para o espectador como o primeiro. Digamos que, para muitos adeptos, o ténis deste é mais feio do que o daquele. Mas que significará, em rigor, esta expressão?

O já referido Mark R. Huston avança uma leitura do livro de Gilbert, apresentando a útil distinção entre fealdade estética (physical ugliness) e fealdade psicológica (psychological ugliness), conceitos que, por sua vez, são também divididos em acepções distintas. Assim, Huston começa por considerar a fealdade estética em dois planos: a) golpes técnicos (strokes); b) modelo de jogo (game style). No primeiro caso, aprecia-se os jogadores que executam as pancadas de forma mais harmoniosa e correcta de acordo com os padrões técnicos assumidos como modelares. É evidente que existe uma técnica – de resto, cada vez mais associada aos contributos científicos da biomecânica – que permite a quem aprende a jogar ténis fazê-lo de uma forma ao mesmo tempo mais eficaz (no sentido em que jogando bem conseguirá, à partida, obter melhores resultados competitivos) e até menos lesiva da sua integridade física, pois muitas lesões dos tenistas decorrem da execução repetida e sistemática de gestos incorrectos. No entanto, a partir de um determinado nível tenístico, é possível dizer-se que todos os jogadores deixam de cometer erros técnicos básicos na execução dos diferentes golpes. As diferenças competitivas que passam a observar-se entre os jogadores baseiam-se em outros factores como as respectivas capacidades físicas e/ou psicológicas ou a sua competência estratégica, por exemplo.

No entanto, estou convencido que o estilo de cada jogador (retomo aqui este conceito sobre o qual falei em capítulo precedente) se revela um dos elementos decisivos na preferência do público por um determinado tenista em detrimento de outro. Analisarei este tópico a partir de um outro exemplo muito concreto. A rivalidade entre Roger Federer e Rafael Nadal constitui aquilo que é já possível designar como um clássico da história do ténis. Julgo não conhecer ninguém que seja adepto ao mesmo tempo de Roger e de Rafa. Claro que podemos (e devemos!) admirar ambos, mas estou convencido que ou se torce por ou pelo outro. Desde logo, porque, quando jogam um contra o outro, um tem de vencer e outro tem de ser derrotado. Claro que na definição desta preferência intervêm também outras características dos jogadores e muitas delas têm até menos a ver com aquilo que se passa nos courts do que propriamente com aspectos extra-tenísticos: é o caso de dimensões tão diversificadas e subjectivas como o perfil psicológico ou a nacionalidade dos jogadores, por exemplo.

Mas vou tentar fazer a minha análise desta rivalidade partindo das categorias estéticas de Huston. Assim, é possível dizer-se que talvez um dos ingredientes mais importantes desse confronto de estilos tenha a ver com o modo como os dois campeões realizam os diferentes golpes (strokes), dado que parece ser o nítido contraste entre o atleticismo do espanhol e a perfeição técnica do suíço; ou seja, enquanto as pancadas de Nadal parecem implicar (e implicam mesmo) um enorme dispêndio de energia física, o contrário parece suceder com Federer que, em virtude da notória graciosidade dos seus gestos, não exibe o mesmo vigor atlético do seu rival, não significando isso necessariamente que tenha uma inferior condição física. Por outro lado, é possível também afirmar-se que os golpes executados pelo suíço têm características mais clássicas (por exemplo, o facto de bater a pancada de esquerda (backhand) a uma mão que, nos dias de hoje, ao contrário do que se passava em tempos mais recuados, deixou de ser a prática dominante). Ora, no modo como cada um destes dois extraordinários jogadores maneja a raqueta define-se o que posso designar como duas estéticas do ténis que se antagonizam, um pouco como se verifica entre John McEnroe e Brad Gilbert.

Se centrar a minha atenção agora no modelo de jogo (game style) de Nadal e de Federer, talvez não seja inteiramente descabido afirmar que, pelo menos numa determinada fase da sua carreira, o espanhol se aproximou daquilo a que Gilbert e Huston chamam o devolvedor (retriever) ou o passa-bolas (pusher), ou seja, o jogador que espera pacientemente pelo erro do adversário, embora seja da mais elementar justiça reconhecer que um dos méritos de Nadal seja precisamente a sua invulgar combinação de agressividade e regularidade do seu jogo. De resto, o espanhol soube, ao longo dos tempos, introduzir alterações no seu modelo de jogo que o tornaram ainda mais difícil de derrotar. Por seu turno, Federer terá um modelo de jogo mais diversificado (a sua combinação entre bolas cortadas (slice) com um ressalto muito baixo e pancadas de enorme profundidade e velocidade é única), mas também com uma maior percentagem de erros não-forçados11. Assim, é relativamente pacífico dizer-se que, quer em termos de golpes (strokes), quer em termos de modelo de jogo (game style), Nadal e Federer representam duas estéticas de ténis completamente distintas e, em muitos casos, estou certo de que é essa diferença entre ambos os jogadores que está na origem das preferências dos adeptos por um ou por outro jogador. Pelo menos no meu caso é assim.

Como disse atrás, Mark Huston considera, para além da fealdade estética (physical ugliness), a fealdade psicológica (psychological ugliness). Em que consiste este conceito? Huston define-o, distinguindo dois tipos de fealdade psicológica, a saber: artimanha estratégica ilegítima (illegitimate gamesmanship) e artimanha estratégica legítima (legitimate gamesmanship). No primeiro caso, trata-se pura e simplesmente da desobediência ao fair-play, quer através do incumprimento das regras – situação em que, por ausência ou por deficiente vigilância dos juízes desportivos, os jogadores conseguem evitar as respectivas sanções desportivas e/ou disciplinares –, quer através de comportamentos que, não sendo em absoluto anti-regulamentares, configuram um desrespeito da mais elementar ética desportiva. Nestas situações de artimanha estratégica ilegítima, jogar feio é sinónimo de jogar sujo, pois, como assinala Huston, nestes casos «valores estéticos e valores morais frequentemente interagem e coincidem» (Huston, 2010: 215). Ora, estou convencido que em nenhuma página de Winning Ugly se pode descortinar a defesa inequívoca deste illegitimate gamesmanship. O mais próximo disto que encontro no livro de Gilbert é o momento em que, após relatar minuciosamente um jogo que perdeu frente a McEnroe e em que este agiu de um modo que Brad considera menos ético, o autor aconselha o leitor a não jogar contra adversários que recorrem a «truques sujos (dirty tricks)» (Gilbert, 2007: 237). Claro que quem decide competir em torneios oficiais não pode, ao contrário dos jogadores de ténis social, escolher os oponentes. Nessa altura, Gilbert parece sugerir que se deve responder na mesma moeda do adversário trapaceiro.

Dito isto, é possível observar que o ganhar jogando feio proposto por Brad Gilbert tem a ver sobretudo com o que Huston chama artimanha estratégica legítima (legitimate gamesmanship). Desde logo, quando Gilbert sublinha a importância da preparação mental do tenistas antes, durante e depois do jogo. Assim, quando realça a importância dos pormenores para a obtenção da mais pequena vantagem sobre o oponente ou, pelo menos, para evitar que este, por sua vez, ganhe um qualquer tipo de ascendente através de situações que cada jogador pode controlar. Esta é, aliás, quanto a mim, uma das partes mais divertidas de Winning Ugly, na qual Gilbert chega a admitir que a sua atenção aos pormenores do material que leva no seu saco para os jogos pode mesmo ser considerada paranóica (Gilbert, 2007: 35). No entanto, o que o livro procura sobretudo combater é o elevadíssimo número de más escolhas que os tenistas – de todos os níveis, mas sobretudo ao nível amador – realizam durante os jogos. Para tal, é necessário desenvolver capacidades de observação, de análise, de avaliação que, no entender de Gilbert, muitas vezes se podem revelar tão decisivas como os golpes técnicos e ou as capacidades físicas que os jogadores têm.

Por que motivo se deve, então, considerar que esta forma inteligente de procurar vencer o adversário (e não se pode esquecer que, no fim de contas, é isso que define a competição desportiva) tem um menor valor estético? Não haverá, pelo contrário, uma certa beleza nesta forma estratégica de fazer das fraquezas de um jogador uma base para se alcançar um triunfo, desde que este seja eticamente legítimo?

Segundo Gilbert, qualquer jogador de ténis tem qualidades (best weapons) e defeitos (weakness) e uma boa preparação mental de um jogo visa precisamente anular as primeiras e fazer sobressair as segundas do adversário. De um certo ponto de vista, tal procedimento pode prejudicar o jogo enquanto espectáculo, na medida em que o público terá menos hipóteses de observar alguns dos golpes que certos tenistas realizam de forma mais admirável. Mas a verdade é que tal sucederá apenas se o adversário de Gilbert não for capaz de, por sua vez, contrariar a estratégia deste. Se ambos jogadores forem capazes de minimizar as suas fraquezas e de rentabilizar os seus pontos fortes, estou convencido que o jogo será sempre bastante mais interessante para o espectador, sobretudo se este for conhecedor e exigente. Num certo sentido, é mesmo possível pensar que mais do que vitórias feias ou derrotas belas, há, isso sim, jogos fascinantes e jogos enormemente aborrecidos. Claro que, como sucede com a apreciação de obras de arte, estes juízos de gosto nunca são indiscutíveis. Mas talvez haja poucas experiências tão intensamente estéticas como aquela em que, no decurso de um encontro de ténis, um jogador consiga revelar ao espectador a riqueza da sua arte que, como no caso de Gilbert, pode residir não tanto na beleza da execução dos golpes, mas sobretudo na inteligência do seu plano ou modelo de jogo. Por outro lado, como observa Huston,

A um nível menos competitivo, em que o divertimento dos jogadores têm maior proeminência enquanto valor intrínseco, o juízo do que pode ser uma derrota bela é diferente. Se um jogador perde mas, atendendo às suas capacidades, jogar bem, não recorrer a artimanhas estratégicas ilegítimas e divertir-se com o jogo, então trata-se de um caso evidente de alguém que perdeu de uma forma bela (Huston, 2010: 216).

Será que McEnroe concordaria com este ponto de vista? Provavelmente não, mas uma das coisas mais belas no desporto é que se nenhuma vitória dura para sempre, também nenhuma derrota é definitiva. E, embora o desfecho do jogo do Madison Square Garden tenha sido muitíssimo duro de aceitar para o talentoso esquerdino, a verdade é que, alguns meses depois, McEnroe regressou à competição e, curiosamente, nunca mais perdeu com Gilbert. E não deixa de haver qualquer coisa de belo nisso



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