Microsoft Word poesia, Poesias dispersas, 1855-1939



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Poesias dispersas

 

 

 



 

 

 



Textos-fonte:

 

 



 

Obra Completa, Machado de Assis, vol. III,

 

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.



 

 

 



Toda poesia de Machado de Assis. Org. de Cláudio Murilo Leal.

 

Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.



 

 

 

 

 

 

 



 

 

ÍNDICE

 

 

 

A PALMEIRA



 

 

 



ELA

 

 



 

TEU CANTO

 

 

 



UM ANJO

 

 



 

MINHA MUSA

 

 

 



COGNAC!...

 

 

 

MINHA MÃE



 

 

 



O SOFÁ

 

 



 

VAI-TE


 

 

 



ÁLVARES D'AZEVEDO

 

 



 

REFLEXO


 

 

 



A MORTE NO CALVÁRIO

 

 



 

UMA FLOR? — UMA LÁGRIMA

 

 

 



CONDÃO

 

 



 

A AUGUSTA

 

 

 



SONETO CIRCULAR

 

 



 

ÍCARO


 

 

 



CORAÇÃO PERDIDO

 

 



 

FASCINAÇÃO

 

 

 



O CASAMENTO DO DIABO

 

 



 

HINO PATRIÓTICO

 



 

 

A CÓLERA DO IMPÉRIO



 

 

 



DAQUI DESTE ÂMBITO ESTREITO

 

 



 

A FRANCISCO PINHEIRO GUIMARÃES

 

 

 



À MEMÓRIA DO ATOR TASSO

 

 



 

NO ÁLBUM DO SR. QUINTELA

 

 

 



VERSOS

 

 



 

 

SONETO



 

 

 



NAQUELE ETERNO AZUL, ONDE COEMA

 

 



 

DAI À OBRA DE MARTA UM POUCO DE MARIA

 

 

 



RELÍQUIA ÍNTIMA

 

 



 

A DERRADEIRA INJÚRIA

 

 

 



REFUS

 

 

 

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO!



 

 

 



A GUIOMAR

 

 



 

PRÓLOGO DO INTERMEZZO

 

 

 



A CAROLINA

 

 



 

SONETO


 

 

 



A FRANCISCA

 

 



 

À ILMA. SRA. D. P. J. A.

 

 

 



A SAUDADE

 

 



 

JÚLIA


 

 

 



MEU ANJO

 

 



 

UM SORRISO

 

 

 



PARÓDIA

 

 



 

A SAUDADE

 

  

NO ÁLBUM DO SR. F. G. BRAGA



 

 

 



A UMA MENINA

 

 



 

O GÊNIO ADORMECIDO

 

  



O PROFETA

 

 



 

O PÃO D’AÇÚCAR

 

 

 



SONETO A S. M. O IMPERADOR, O SENHOR D. PEDRO II

 

 



 

À MADAME ARSÈNE CHARTON DEMEUR

 

 

 



O MEU VIVER

 

 



 

DORMIR NO CAMPO

 

 

 



CONSUMMATUM EST!

 

 



 

SAUDADES


 

 

 



LÁGRIMAS

 

 



 

NÃO?


 

 

 



RESIGNAÇÃO

 

 



 

AMANHÃ


 

 

 



A***

 

 



 

DEUS EM TI

 

 

 



ESTA NOITE

 

 



 

VEM!


 

 

 



ESPERANÇA

 

 



 

A MISSÃO DO POETA

 

 

 



O PROGRESSO

 

 



 

À ITÁLIA


 

 

 



A UM POETA

 

 



 

A PARTIDA

 

 

 



A REDENÇÃO

 

 



 

S. HELENA

 

 

 



NUNCA MAIS

 

 



 

A CH. F. FILHO DE UM PROSCRITO

 

 

 



OFÉLIA

 

  



A ESTRELA DA TARDE

 

  



A UM PROSCRITO

 



 

 

SONHOS



 

  

UM NOME



 

 

 



TRAVESSA

 

 



 

À D. GABRIELA DA CUNHA

 

 

 



MEUS VERSOS

 

 



 

À MME. DE LA GRANGE

 

 

 



SOUVENIRS D’EXIL

 

 



 

A S. M. I.

 

 

 



AO CARNAVAL DE 1860

 

 



 

NO ÁLBUM DA ARTISTA LUDONIVA MOUTINHO

 

  

GABRIELA DA CUNHA



 

 

 



ESTÂNCIAS NUPCIAIS

 

 



 

EM HOMENAGEM À D. ISABEL E AO CONDE D’EU

 

 

 



NO CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL

 

 



 

CALA-TE, AMOR DE MÃE

 

  

TRISTEZA



 

  

O PRIMEIRO BEIJO



 

 

 



A F. X. NOVAIS

 

 



 

ONTEM, HOJE, AMANHÃ

 

 

 



26 DE OUTUBRO

 

 



 

AS NÁUFRAGAS

 

 

 



AO DR. XAVIER DA SILVEIRA

 

 



 

13 DE MAIO

 

 

 



SONETO

 

 



 

RICARDO


 

 

 



VELHO TEMA

 

  



POR ORA SOU PEQUENINA

 

 



 

CÉSAR! FULGE MAIS LUZ

 



 

 

NÃO HÁ PENSAMENTO RARO



 

 

 



VIVA O DIA 11 DE JUNHO

 

 



 

VOULEZ-VOUS DU FRANÇAIS?

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

A PALMEIRA 

[1]

 

 



 

RJ, 6 jan. 1855

 

O.D.C.


 

 

 



A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA

 

 



 

Como é linda e verdejante

 

Esta palmeira gigante



 

Que se eleva sobre o monte!

 

Como seus galhos frondosos



 

S’elevam tão majestosos

 

Quase a tocar no horizonte!



 

 

 



Ó palmeira, eu te saúdo,

 

Ó tronco valente e mudo,



 

Da natureza expressão!

 

Aqui te venho ofertar



 

Triste canto, que soltar

 

Vai meu triste coração.



 

 

 



Sim, bem triste, que pendida

 

Tenho a fronte amortecida,



 

Do pesar acabrunhada!

 

Sofro os rigores da sorte,



 

Das desgraças a mais forte

 

Nesta vida amargurada!



 

 

 



Como tu amas a terra

 

Que tua raiz encerra,



 

Com profunda discrição;

 

Também amei da donzela



 

Sua imagem meiga e bela,

 

Que alentava o coração.



 

 

 



Como ao brilho purpurino

 

Do crepúsc’lo matutino



 

Da manhã o doce albor;

 

Também amei com loucura



 

Ess’alma toda ternura

 

Dei-lhe todo o meu amor!



 

 

 




Amei!... mas negra traição

 

Perverteu o coração



 

Dessa imagem da candura!

 

Sofri então dor cruel,



 

Sorvi da desgraça o fel,

 

Sorvi tragos d’amargura!



 

 

 



........................................

 

Adeus, palmeira! ao cantor



 

Guarda o segredo de amor;

 

Sim, cala os segredos meus!



 

Não reveles o meu canto,

 

Esconde em ti o meu pranto



 

Adeus, ó palmeira!... adeus!

 

 

 



 

 

 



 

ELA 

[2]


 

 

 



Nunca vi, — não sei se existe

 

Uma deidade tão bela,



 

Que tenha uns olhos brilhantes

 

Como são os olhos dela!



 

 

 



F. G. BRAGA

 

 



 

Seus olhos que brilham tanto,

 

Que prendem tão doce encanto,



 

Que prendem um casto amor

 

Onde com rara beleza,



 

Se esmerou a natureza

 

Com meiguice e com primor.



 

 

 



Suas faces purpurinas

 

De rubras cores divinas



 

De mago brilho e condão;

 

Meigas faces que harmonia



 

Inspira em doce poesia

 

Ao meu terno coração!



 

 

 



Sua boca meiga e breve,

 

Onde um sorriso de leve



 

Com doçura se desliza,

 

Ornando purpúrea cor,



 

Celestes lábios de amor

 

Que com neve se harmoniza.



 

 

 



Com sua boca mimosa

 

Solta voz harmoniosa



 

Que inspira ardente paixão,

 

Dos lábios de Querubim



 

Eu quisera ouvir um — sim —

 

Pr’a alívio do coração!



 

 

 



Vem, ó anjo de candura,

 

Fazer a dita, a ventura



 

De minh’alma, sem vigor;

 



Donzela, vem dar-lhe alento,

 

Faz-lhe gozar teu portento,



 

“Dá-lhe um suspiro de amor!”

 

 

 



 

 

 



 

TEU CANTO 

[3]


 

 

 



29 jun. 1855

 

 

 

A UMA ITALIANA



 

 

 



É sempre nos teus cantos sonorosos

 

Que eu bebo inspiração.



 

 

 



DO AUTOR [“Meu Anjo”.]

 

 



 

Tu és tão sublime

 

Qual rosa entre as flores



 

De odores

 

Suaves;


 

Teu canto é sonoro

 

Que excede ao encanto



 

Do canto


 

Das aves.

 

 

 



Eu sinto nest’alma,

 

Num meigo transporte,



 

Meu forte

 

Dulçor;


 

Se soltas teu canto

 

Que o peito me abala,



 

Que fala


 

De amor.


 

 

 



Se soltas as vozes

 

Que podem à calma,



 

Minh’alma

 

Volver;


 

Minh’alma se enleva

 

Num gozo expansivo



 

De vivo


 

Prazer.


 

 

 



Donzela, esta vida

 

Se eu tanto pudera,



 

Quisera


 

Te dar;


 

Se um beijo eu pudesse

 

Ardente e fugace



 

Na face


 

Pousar.


 

 

 



 

 

 



 

UM ANJO 

[4]


 

 

 




RJ, out. 1855

 

 



 

À MEMÓRIA DE MINHA IRMÃ

 

 

 



Se deixou da vida o porto

 

Teve outra vida nos céus.



 

 

 



A. E. ZALUAR

 

 



 

Foste a rosa desfolhada

 

Na urna da eternidade,



 

Pr’a sorrir mais animada,

 

Mais bela, mais perfumada



 

Lá na etérea imensidade.

 

 

 



Rasgaste o manto da vida,

 

E anjo subiste ao céu



 

Como a flor enlanguecida

 

Que o vento pô-la caída



 

E pouco a pouco morreu!

 

 

 



Tu’alma foi um perfume

 

Erguido ao sólio divino;



 

Levada ao celeste cume

 

C’os Anjos oraste ao Nume



 

Nas harmonias dum hino.

 

 

 



Alheia ao mundo devasso,

 

Passaste a vida sorrindo;



 

Derribou-te, ó ave, um braço,

 

Mas abrindo asas no espaço



 

Ao céu voaste, anjo lindo.

 

 

 



Esse invólucro mundano

 

Trocaste por outro véu;



 

Deste negro pego insano

 

Não sofreste o menor dano



 

Que tu’alma era do Céu.

 

 

 



Foste a rosa desfolhada

 

Na urna da eternidade



 

Pr’a sorrir mais animada

 

Mais bela, mais perfumada



 

Lá na etérea imensidade.

 

 

 



 

 

 



 

MINHA MUSA 

[5]


 

 

 



RJ, 22 fev. 1856

 

 



 

A Musa, que inspira meus tímidos cantos,

 

É doce e risonha, se amor lhe sorri;



 

É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos.

 

Saudades carpindo, que sinto por ti.



 

 

 



A Musa, que inspira-me os versos nascidos

 



De mágoas que sinto no peito a pungir,

 

Sufoca-me os tristes e longos gemidos,



 

Que as dores que oculto me fazem trair.

 

 

 



A Musa, que inspira-me os cantos de prece,

 

Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor.



 

Desperta-me a crença, que às vezes ‘dormece

 

Ao último arranco de esp’ranças de amor.



 

 

 



A Musa, que o ramo das glórias enlaça,

 

Da terra gigante — meu berço infantil,



 

De afetos um nome na idéia me traça,

 

Que o eco no peito repete: — Brasil!



 

 

 



A Musa, que inspira meus cantos é livre,

 

Detesta os preceitos da vil opressão,



 

O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,

 

Na lira engrandece, dizendo: — Catão!



 

 

 



O aroma de esp’rança, que n’alma recende,

 

É ela que aspira, no cálix da flor;



 

É ela que o estro na fronte me acende,

 

A Musa que inspira meus versos de amor!



 

 

 



 

 

 



 

COGNAC!... 

[6]


 

 

 

Vem, meu Cognac, meu licor d’amores!...



 

É longo o sono teu dentro do frasco;

 

Do teu ardor a inspiração brotando



 

O cérebro incendeia!...

 

 

 



Da vida a insipidez gostoso adoças;

 

Mais val um trago teu que mil grandezas;



 

Suave distração — da vida esmalte,

 

Quem há que te não ame?



 

 

 



Tomado com o café em fresca tarde

 

Derramas tanto ardor pelas entranhas,



 

Que o já provecto renascer-lhe sente

 

Da mocidade o fogo! 



 

 

 



Cognac! — inspirador de ledos sonhos,

 

Excitante licor — de amor ardente!



 

Uma tua garrafa e o Dom Quixote,

 

É passatempo amável!



 

 

 



Que poeta que sou com teu auxílio!

 

Somente um trago teu m’inspira um verso;



 

O copo cheio o mais sonoro canto;

 

Todo o frasco um poema!



 

 

 



 

 

 



 

MINHA MÃE 

[7]


 

 

 




(Imitação de Cowper)

 

 



 

Quanto eu, pobre de mim! quanto eu 

quisera

 

Viver feliz com minha mãe também!



 

 

 



C. A. DE SÁ

 

 



 

Quem foi que o berço me embalou da infância

 

Entre as doçuras que do empíreo vêm?



 

E nos beijos de célica fragrância

 

Velou meu puro sono? Minha mãe!



 

Se devo ter no peito uma lembrança

 

É dela que os meus sonhos de criança



 

Dourou: — é minha mãe!

 

 

 



Quem foi que no entoar canções mimosas

 

Cheia de um terno amor — anjo do bem



 

Minha fronte infantil — encheu de rosas

 

De mimosos sorrisos? — Minha mãe!



 

Se dentro do meu peito macilento

 

O fogo da saudade me arde lento



 

É dela: minha mãe.

 

 

 



Qual anjo que as mãos me uniu outrora

 

E as rezas me ensinou que da alma vêm?



 

E a imagem me mostrou que o mundo adora,

 

E ensinou a adorá-la? — Minha mãe!



 

Não devemos nós crer num puro riso

 

Desse anjo gentil do paraíso



 

Que chama-se uma mãe?

 

 

 



Por ela rezarei eternamente

 

Que ela reza por mim no céu também;



 

Nas santas rezas do meu peito ardente

 

Repetirei um nome: — minha mãe!



 

Se devem louros ter meus cantos d’alma

 

Oh! do porvir eu trocaria a palma



 

        Para ter minha mãe!

 

 

 



 

 

 



 

O SOFÁ 

[8]


 

 

 



Oh! Como é suave os olhos

 

Sentir de gozo cerrar,



 

Sobre um sofá reclinado

 

Lindos sonhos a sonhar,



 

Sentindo de uns lábios d’anjo

 

Um medroso murmurar!



 

 

 



Um sofá! Mais belo símbolo

 

Da preguiça outro não há...



 

Ai, que belas entrevistas

 

Não se dão sobre um sofá,



 

E que de beijos ardentes

 

Muita boca aí não dá!



 


 

 

Um sofá! Estas violetas



 

Murchas, secas como estão

 

Sobre o seu sofá mimoso,



 

Cheirosas, vivas então,

 

Achei um dia perdidas,



 

Perdidas: por que razão!

 

 

 



Talvez ardente entrevista

 

Toda paixão, toda amor



 

Fizesse ali esquecê-las...

 

Quem não sabe? sem vigor



 

Estas flores só recordam

 

Um passado encantador!



 

 

 



Um sofá! Ameno sítio

 

Para colher um troféu,



 

Para cingir duas frontes

 

De amor num místico véu,



 

E entre beijos vaporosos

 

Da terra fazer um céu!



 

 

 



Um sofá! Mais belo símbolo

 

Da preguiça outro não há...



 

Ai, que belas entrevistas

 

Não se dão sobre um sofá,



 

E que de beijos ardentes

 

Muita boca aí não dá!



 

 

 



 

 

 



 


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