Mas de onde vem o Latour



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Empreendendo traduções
Vinho velho em garrafas novas? Sim e não, pois até o vinho difere quando envelhece. Suas propriedades não são as mesmas de quando era verde: há uma mudança no seu bouquet, na sua coloração, no quanto fica mais encorpado. Já não é o mesmo, sofreu sedimentações, houve mudança na sua química, ficou apurado. Da mesma forma, ocorre com as idéias na Sociologia da Tradução como também é chamada a Teoria Ator-Rede. Pela Sociologia da Tradução, podemos entender o conhecimento como um processo em cadeias que deslocam elementos (interesses, objetivos, enunciados, imagens) e que vão fazendo um movimento de manter algumas propriedades, ao mesmo tempo em que vão diferindo do que eram em seu início, num desenrolar sem fim.

Recorremos aqui a uma fábula usada por Despret (2001) e Stengers (2002) para ilustrar esse movimento de tradução que temos a chance de fazer a todo momento com aquilo que nos é dado como herança. Conta esta fábula árabe que um homem velho, sentindo a proximidade da morte, chama os três filhos e oferece-lhes o único bem que resta para ser deixado como herança, composta por 11 camelos, cabendo-lhes a seguinte divisão, feita segundo a vontade do pai: ao primogênito caberia a metade dos camelos; ao segundo ficaria um quarto deles e ao terceiro restaria um sexto. Os filhos mergulham em perplexidade, após a morte do progenitor, sem saberem como haveriam de dar conta daquela situação. Recorrem a um velho sábio da cidade vizinha e este lhes oferece, como possibilidade de ajuda, o empréstimo de um camelo velho e magro que lhes ajudará nas contas da divisão almejada. O que fazer diante da vontade do pai? Como utilizar a sugestão oferecida pelo velho sábio? Haveria uma solução para aquela herança? As duas autoras analisam a fábula como uma oportunidade de refletir sobre as nossas heranças e, neste caso, sobre como podemos tomá-las como um problema que possa valer a pena resolver.

Segundo Stengers (2002), a fábula remete a um problema de “confiar” nas possibilidades de resolução para determinada situação que parece não ter saída. Quando o que se apresenta é o encaminhamento a um estado de guerra entre irmãos, a aposta destes recai na busca de uma solução “emprestada” que aparece de forma bizarra na figura de um camelo velho que deixará a divisão possível, mas sequer será incorporado à herança, depois da partilha. Obviamente que o décimo segundo camelo não era a solução, mas serviu para que os filhos construíssem uma a partir do problema que o pai lhes havia legado como herança. “A solução passa assim não pela submissão a um enunciado problemático, mas pela invenção do campo onde o problema encontra sua solução” (p. 28), diz Stengers. Para esta autora, o décimo segundo camelo é a oportunidade de especular sobre algo novo, partindo do que já é velho e conhecido.

Despret (2001) vê o décimo segundo camelo como o que nos pode ser emprestado dos outros, de todos aqueles que povoam este mundo, do que nos permite pensar a nossa experiência de uma outra forma. Não se trata de recusar a herança, tomando-a como impossível, nem de aceitá-la passivamente, sem acrescentar-lhe outros elementos que a tornem operante na produção de modificações. Trata-se de inventar uma nova maneira de nos tornarmos dignos dessa herança, colocando-nos o papel de ser, ao mesmo tempo, vetor e produto dela.

Pensamos que o que está em jogo nestas reflexões é se vamos aceitar ou negar as nossas heranças como ponto do qual partir, ou se vamos tomá-las como ponto final ao qual chegar e, destroçando-as, não ter muito como seguir adiante. Os filhos poderiam muito bem ter iniciado uma guerra, ou poderiam ter matado os camelos e dividido a sua carne, como sugeriu uma das autoras em seu texto. Talvez estas fossem algumas das soluções inspiradas na maneira moderna de agir, aquela baseada na ruptura, no apagamento do antigo. O que percebemos foi que, respeitando o legado e a vontade do pai, os filhos conseguiram achar uma solução absolutamente incomum e inesperada que nos pareceu bastante mais próxima de uma saída diplomática. A diplomacia é um esforço de modificar o quanto possível os termos iniciais de uma contenda para torná-los viáveis às partes envolvidas no seu esforço de negociação. É, por excelência, um campo de traduções, onde se operam aproximações, onde se efetuam passagens, onde o meio justo é buscado, onde se faz a troca de propriedades, onde as misturas acontecem produzindo as mais surpreendentes invenções.

Encontramos, no pensamento de Latour, muitas idéias já vistas em outros autores. Podemos vê-lo contrapondo-se tenazmente ao pensamento moderno em sua negação a toda forma de fazer análises a partir de escolhas cominatórias. A forma de entendimento da realidade partindo dos extremos é abandonada em prol de um caminhar pelo meio, pelo ponto médio onde as coisas se misturam e onde se opera o movimento de tradução e de produção de híbridos. Podemos vê-lo tomando de empréstimo algumas idéias de pensadores modernos, pois, assim como Law (2003), Latour não se obriga a aceitar ou negar por inteiro o pacote da modernidade. Para nós, Latour é coerente com os princípios que adota na abordagem das redes. Ele é o próprio híbrido produzido a partir das inúmeras traduções que foi operando sobre idéias que mantém ou com aquelas das quais diverge. É nessa tensão que se produz a originalidade de seu pensamento.




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