Mas de onde vem o Latour


Latour, um construtivista não moderno



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Latour, um construtivista não moderno.
Além da influência da monadologia de Gabriel Tarde e de várias idéias dos pragmatistas mencionados, Latour Woolgar (2002c) também se assumem como construtivistas. Mas um construtivista não moderno. Matthews (1994) nos ajuda a entender por que pensar um construtivismo não moderno, apontando, como um paradoxo inerente ao construtivismo inspirado nos padrões modernos, ao qual estamos acostumados, a criação desta necessidade de sempre se fazer uma correspondência entre idéias e realidade como uma condição para o conhecimento. Trata-se, segundo Matthews (ibidem), de um erro herdado do paradigma epistemológico empiricista aristotélico que se manteve em toda doutrina construtivista. O construtivismo é “o famoso velho lobo empirista vestido de ovelha contemporânea [...] é o vinho empirista, tão criticado pelos construtivistas, servido em garrafas novas” (p. 81), diz ele. Tal ocorre, pois o paradigma em que se apóia o construtivismo moderno re-edita o modelo empirista que preconiza uma realidade lá, composta de coisas em seu estado puro, e de um sujeito pelo qual tudo passa, no qual tudo se centra, cuja mente é ativa na cognição porque intui formas e organiza as experiências proporcionadas por seus sentidos.
Qualquer epistemologia que formule o problema do conhecimento em termos de um sujeito que observa um objeto e se pergunta até que ponto o que vê reflete a natureza ou a essência do objeto é quintessencialmente aristotélico ou, mais geralmente, empirista (Matthews, 1994, p. 83).
Toda construção, seja ela teórica, seja ela material, está muito mais à mercê de circunstâncias variadas do que geralmente podemos nos dar conta. Nem tudo está sob, ou passa pelo controle do homem, segundo Matthews (ibidem). Aqui, já nos é possível considerar a proposta de Latour como sendo construtivista, mas de um tipo em que se não se toma mais o velho paradigma da correspondência como condição para o conhecimento. Para continuar utilizando a palavra construtivismo sem cair na escolha cominatória entre construção e realidade, Latour e Woolgar (2002c) propuseram, inspirados em Ian Hacking (1999, apud Latour & Woolgar, ibidem)12, algumas garantias para compor o que chamou de “uma abertura diplomática diferente” para a interminável querela entre realistas e construtivistas:

A primeira garantia toma a realidade como premissa. Para Latour e Woolgar (1997, 2002c), a realidade é aquilo que resiste à pressão de uma força e que não pode ser mudado à vontade, sendo levada em conta, portanto, como real. O que existe é aquilo que deixa traços, o que produz efeitos, sendo estas marcas uma conseqüência dessa existência que não se aplica apenas aos humanos.

A segunda garantia prevê um processo de revisão contínua com relação às entidades que pleiteiam o direito à existência, uma vez que não foram levadas em conta num mundo previamente arrumado por alguns. Para pensarmos num mundo comum, é preciso garantir que as vozes dos novos candidatos à existência sejam ouvidas, não estando estas vozes limitadas somente aquelas dos humanos.

A terceira garantia entende o “mundo comum” como uma meta a ser alcançada e não como algo dado: não está pronto de uma só vez e para sempre e deve ser construído progressivamente por todos, jamais sob a regência de uma única lógica.

A quarta garantia engaja humanos e não humanos numa história de associações impossíveis de serem desfeitas. A separação de humanos e não humanos, natureza e cultura não pode ser mantida sob pena de se esvaziarem as nossas fabricações. Tais associações de mente e matéria são, para Latour e Woolgar (ibidem), “uma fonte indispensável de energia”, aquilo que garante a durabilidade do que construímos, perdurando e resistindo, no tempo, para além de nossa existência.

A quinta garantia é a de que não fiquemos paralisados pela escolha absurda sobre o que é ou não é construído, mas que a superemos em prol da avaliação do que é uma boa ou uma má construção. As boas construções seriam aquelas realizadas sob o signo da inclusão, engajando a maior quantidade possível de actantes, tornando-os cada vez mais interessantes e interessados do que eram no ponto inicial do processo. Latour e Woolgar (2006) comentam que, no francês, afirmar que uma coisa é construída é o mesmo que dizer que podemos identificar-lhe uma origem humilde, visível e interessante, não estando mais em questão se as coisas são ou não construídas, mas se estão bem ou mal construídas.

Para Latour, portanto, o conhecimento é construído, mas depende de muitas outras coisas além da mente dos humanos: envolve uma rede heterogênea de materiais, representações, financiamentos, pressões econômicas, disputas políticas, numa cadeia infindável de elementos. Uma característica diferencial deste “construtivismo não moderno” é que a correspondência não é mais a condição para o conhecimento, uma vez que não há mais pólos apartados a se fazer corresponder (de um lado sujeito que conhece e, de outro, um objeto que é conhecido).


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