Mas de onde vem o Latour


Latour, herdeiro de Tarde



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Latour, herdeiro de Tarde
Para Latour (1992), ao contrário do pensamento moderno, a atividade ontológica não se encontra nas extremidades, podendo ser redistribuída entre os vários actantes, dentro de uma perspectiva em redes. Com a idéia de redes, podemos ter tantos pólos quantos forem os atores, assumindo uma composição plural do mundo, em função da qual o autor (ibidem) coloca as idéias de mônadas11, campos, forças, redes, dando suporte ao seu pensamento.

É assim que Latour e Woolgar (2001) assumem que a Teoria Ator-Rede tem um antepassado. Localiza em Gabriel Tarde uma referência respeitável para compor a árvore genealógica de uma causalidade em redes. Este autor, segundo Latour e Woolgar (ibidem), foi, na virada para o século XX, uma figura maior na sociologia francesa, enquanto Durkheim era ainda um iniciante na carreira de professor. Com o passar do tempo, Durkheim torna-se o maior representante da sociologia na França e Tarde perde o prestígio, caindo no esquecimento. Ou seja, a história da sociologia atribui a Tarde o papel de vencido, suas idéias perdem a validade, passando a ser encaradas como meras especulações. Em pleno exercício do Princípio de Simetria de um programa realmente forte, Latour dedica-se ao resgate e re-habilitação das idéias tardianas.

Em Monadologia e Sociologia, livro de Tarde re-publicado em 1999, Latour vai encontrar dois argumentos que dão apoio à Teoria Ator-Rede:


  • A divisão entre a natureza e a sociedade é irrelevante para entender o mundo das interações humanas.

  • A distinção entre macro e micro sufoca qualquer tentativa de entender como a sociedade está sendo gerada. (Latour, 2001a, p. 117).

Latour (ibidem) analisa as razões pelas quais as idéias de Tarde não encontram um solo fértil para o seu desenvolvimento, permitindo a Durkheim a condição de vencedor ancorado na sua visão macrossocial: a sociedade da época não comportaria um pensador das redes, fato que só se tornou possível contemporaneamente, quase um século depois, num tempo em que as redes são usadas amplamente como modelo de funcionamento.

Apoiado em Tarde, Latour (ibidem) propõe que substituamos o termo social por associação. Uma rede é formada pela associação de elementos heterogêneos, variados, mínimos. A análise de Tarde, em oposição àquela de Durkheim, é microssocial: é do pequeno que tudo começa e é lá que encontramos a chave para entender o grande. A mônada é o material primeiro do qual todo o universo é composto. Tarde não só se recusou a tomar a sociedade como a ordem maior e mais complexa para análise, como também se negou a considerar o humano como único material de sua composição.

Da mesma forma que o primeiro argumento de Tarde, esboçado acima, a Teoria Ator-Rede não respeita qualquer fronteira entre a natureza e a sociedade, nem tenta explicar os níveis inferiores tomando os níveis superiores como referência. Sociedades, para estas abordagens, não passam de associações. Há sociedades de estrelas, há sociedades de átomos, há sociedades de células, há sociedades de organismos e há sociedades de humanos que não devem gozar de nenhuma condição especial porque são simbólicas ou porque são capazes de gerar macro-organizações. Se para Durkheim devemos tratar os fatos sociais como uma coisa, em Tarde encontramos a idéia de que todas as coisas constituem sociedades, que qualquer fenômeno é um fato social e que toda ciência tem que lidar com assembléias de mônadas.

O segundo argumento desenvolvido por Tarde aparece como uma conseqüência do primeiro: do micro ao macro ou do macro ao micro, o que temos é uma variação de escala, uma extensão ou uma redução, sendo o nível macro possível de alcançar apenas estatisticamente. A “estrutura social” para a abordagem das redes resulta, em caráter provisório, da repetição, da rotinização e da simplificação de elementos locais traduzidos para um idioma geral. Para ser um bom sociólogo, Latour re-edita Tarde com a afirmação de que devemos olhar para baixo, para o pequeno, para o particular, para o detalhe e para as micro-histórias. É lá que as mônadas diferem ao desenvolver sua ação imprevista, ao se chocarem, ao concorrerem, ao compartilharem sua existência, umas com as outras, sem que haja nenhuma força superior regendo seu destino. Contrariamente às mônadas de Leibniz, as mônadas da abordagem das redes não obedecem a um princípio divino de harmonia pré-estabelecida: elas se agregam e diferem incessantemente no seu movimento de existir. Para a concepção tardiana, tendo Latour como defensor, existir é diferir, é produzir efeitos. Podemos definir uma entidade quando conhecemos suas propriedades, sendo estas conhecidas através dos efeitos provocados pelo seu detentor. De uma lógica das essências, passamos a uma lógica das performances.



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