Mas de onde vem o Latour



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Um Latour pragmatista
Ao longo da extensa e recente produção de Latour, outras influências, que não temos a pretensão de esgotar, vão sendo percebidas. Comungando com bases metodológicas muito semelhantes às de Vinciane Despret, psicóloga que se dedica a estudos etológicos, podemos perceber que é muito forte a influência dos pragmatistas William James e John Dewey de quem Latour se declara discípulo (Barron, 2003).

Uma semelhança que encontramos entre James e Latour é a forma como definem seus métodos. James (1974), em sua “Segunda Conferência”7, define o pragmatismo como um método, uma teoria genética do que se entende sobre verdade, que volta as costas aos princípios firmados, aos sistemas fechados, às pretensões ao absoluto e às origens. Ao contrário do racionalismo, que se sente à vontade na presença de abstrações, o pragmatismo “sente-se mal longe dos fatos, fala das verdades no plural, pensa sobre sua utilidade, sobre as condições de êxito com que trabalham” (p. 17). O pragmatismo é tomado por James (ibidem) como um método que se harmoniza com várias teorias, flexionando-as, tomando-as como instrumentos e pondo-as a trabalhar na indicação de “caminhos pelos quais as realidades existentes podem ser modificadas” (ibidem, p. 12).


Contra o racionalismo como uma pretensão e um método o pragmatismo acha-se completamente armado e militante. Mas, em princípio, pelo menos, não visa resultados particulares. Não tem dogmas e doutrinas, salvo seu método. Como o jovem pragmatista italiano Papini disse muito bem, situa-se no meio de nossas teorias, como um corredor em um hotel. Inúmeros quartos vão para ele. Em um, pode-se encontrar um homem escrevendo um volume ateístico; no próximo, alguém de joelhos rezando por fé e força; em um terceiro, um químico investigando as propriedades de um corpo. Em um quarto, um sistema de metafísica idealista está sendo excogitado; em um quinto, a impossibilidade da metafísica está sendo demonstrada. Todos, porém, abrem para o corredor, e todos devem passar pelo mesmo, se quiserem ter um meio prático de entrar e sair de seus respectivos aposentos. (p. 13)

A Teoria Ator-Rede, defendida por Latour e seus pares, segue a mesma tendência observada quando do surgimento do pragmatismo, definindo-se como um método, mais do que como uma teoria. Podemos entendê-la mais como um instrumento do que como um produto, “mais um pincel do que a paisagem que ele pinta” (Latour & Woolgar, 2006, p. 208). Está interessada no seguimento de eventos que ocorrem não mais somente em laboratórios, mas que têm sua inserção na vida comum, resultando em conseqüências práticas para seus atores. A Teoria Ator-Rede tem encontrado sua aplicação nas áreas mais diversas da pesquisa: da engenharia, da medicina, da música, da psicologia, da religião, do direito, enfim, nas ciências duras ou moles, onde quer que as controvérsias se instalem, onde quer que algo esteja surgindo como invenção ou polêmica.


Quando seus informantes misturam em uma mesma frase organização, “hard-ware”, psicologia e política, não comece a achar que eles estão errados por misturarem tudo; tente, ao contrário, seguir as associações que eles fazem entre estes elementos que lhe teriam parecido totalmente incompatíveis uns com os outros se você tivesse seguido a definição usual do “social”. (ibidem, p. 206)8
Na Teoria Ator-Rede, a idéia de uma teoria geral das relações, ou filosofia das preposições, além de influências como a de Gabriel Tarde, que veremos adiante, é mais diretamente herdeira do pensamento de Serres. O trabalho de Serres (1999) tem como proposta abranger o traçado de mapas e a tessitura de redes numa abordagem sem fronteiras disciplinares. Pela lógica das traduções que operam aproximações e efetuam passagens, Serres vê as idéias de tempo e espaço em forma de redes e não mais regidas pelas linhas retas, elegendo a figura de Hermes como a de um “mediador livre que passeia nesses tempos e espaços dobrados e que, portanto, tem a função de estabelecer conexões” (p. 87). De Serres aos pragmatistas, num trajeto inverso, os caminhos percorridos para conceber a Teoria Ator-Rede são muitos e erráticos, quase um zig-zag nos quais nem sempre dá para perceber claramente a costura das muitas influências que compõem a obra de Latour.

Se examinarmos o pragmatismo, na versão de James e Dewey, veremos que o que lhes interessa é o valor prático dos conceitos que só se validam na própria experiência, tendo como fim enriquecê-la. Para este que, segundo James, é apenas um método, não há conceito que possa ser tomado como final. “Nomes encantados” como Deus, Razão, Absoluto, Matéria, Energia não podem ser tomados como definitivos, pois deles temos que extrair sempre o seu valor prático, pondo-os para trabalhar dentro da corrente da nossa experiência.

Para Latour e Woolgar (2006), também há palavras encantadas que não podem ser tomadas como definitivas. Entre outras palavras como “natureza” e “sociedade”, sempre produtos instáveis emergindo de redes de elementos muito heterogêneos, detém-se na análise da idéia de social. Para ele, “social” é uma má palavra, se usada como adjetivo, designando uma matéria da qual são feitos os eventos, como se determinasse e pré-existisse as interações. O social é, para Latour, algo em construção, a ser explicitado, pois não sabemos de antemão de que o mundo é feito, uma vez que as associações podem se redefinir constantemente e que sempre teremos novos elementos aspirando a fazer parte de sua composição. Por isso, o social não pode ser estabelecido previamente e transcendentemente. Latour e Woolgar (2006) nos dão fartos elementos para estabelecermos a acepção de “social” que nos convém em contraste com aquela que é comumente veiculada pelas chamadas “Ciências Sociais”. No entendimento corrente para o termo social, encontramo-lo como uma sombra projetada sobre outras atividades, como explicação óbvia e antecipada para toda uma série de eventos cujos atores já se encontram agrupados. Para Latour e Woolgar (ibidem), “social” não é um domínio particular, mas um princípio de conexão que deve ser encarado como uma espécie de fluido em circulação que novos métodos de investigação devem ser capazes de permitir seguir. Para tanto, ressalta que, como pesquisadores, deparamo-nos com uma série de incertezas, quando pretendemos seguir os rumos que tomam os fenômenos. “Seguir” os acontecimentos, traçar as conexões entre os vários agentes que agem e fazem agir a outros é a tarefa de um Estudo Ator-Rede. São os relatórios que narram estes estudos e constituem os lugares onde misturamos os fatos, fazendo desta experimentação uma prova de força das idéias candidatas a um processo de verificabilidade.

O conceito de verificabilidade ou validação de uma verdade em James é incrivelmente próximo do que Latour e Woolgar (2006) definem por accountability9. James (1974), no prefácio de O significado da verdade10, diz que esta (a verdade) não é inerente a uma idéia. Ao contrário, ela acontece a uma idéia, que se torna verdadeira pela ocorrência dos eventos. Sua validação é, por assim dizer, construída, validada, verificada junto a um milhão de outros processos em nossas vidas, à semelhança do campo agonístico no qual ocorrem as fabricações científicas relatadas em Latour e Woolgar (1997, 2000). Para Latour e Woolgar (2006), accountability é um movimento inerente a esse processo que vai acontecendo na fabricação dos relatórios de pesquisa: um compte rendu presta contas, constrói, faz a validação das idéias em um campo de disputas, “recusando-se a deixar de lado a questão da sua veracidade” (2006, p. 184). É através deste processo que - coincidem estes dois autores, Latour e James - um fato científico poderia ser construído. Mais que um “prestar contas”, um relatório de pesquisa “leva em conta” e “dá-se conta” de uma verdade que, antes, não tinha passado pelo processo de validação.

Quando James (1974) define o pragmatismo em sua Segunda Conferência, ele fala de como uma nova verdade é assimilada às crenças em estoque, de como esta nova idéia se torna verdadeira, quando enxertamo-la “no velho corpo da verdade, que se desenvolve, assim, de modo semelhante à árvore que cresce pela atividade de uma nova camada de câmbio” (p. 16). Em acordo com Dewey e Schiller, o autor (ibidem) faz referência às antigas verdades como tendo também passado pelo estatuto de validação, antes de serem admitidas como verdadeiras.
Elas também em certo tempo foram plásticas. Foram também chamadas verdadeiras por razões humanas. Mediaram também entre verdades ainda mais antigas e o que, naqueles dias, eram observações novas. [...] A trilha da serpente humana, pois, está sobre tudo (p. 16)
Essa idéia dos pragmatistas se assemelha ao argumento que Latour e Woolgar (2000) desenvolvem em Ciência em ação. Toda a ciência, tida como uma fabricação humana, tem duas faces, como as de Janus: uma jovem, em construção, a dos fatos quentes, ainda moles, aspirando por validação num campo de disputas; e outra, madura, já estabelecida e tida como verdadeira, na medida em que as controvérsias em torno dos conteúdos em questão já cessaram, podendo-se fechar a “caixa preta” de um conjunto de idéias aceitas por todos, uma vez que se tornaram proveitosas para aqueles que com elas trabalham, pelo menos até que novas controvérsias venham a desestabilizá-las.

Outra idéia encontrada em Latour e Woolgar (2002d) com assumida inspiração jamiana é a concepção de corpo e de aprendizagem. Utilizada também por Despret (2001) com relação ao estudo das emoções (apud Latour & Woolgar, 2002d), a concepção de corpo de James é a de um corpo que aprende a ser afetado por outras entidades, tanto humanas como não humanas, que o colocam em movimento, deixando-o, ao mesmo tempo, mais vinculado e mais interessante. O corpo é uma interface em que, através de uma trajetória dinâmica, as aprendizagens vão sendo registradas, à medida que nos tornamos sensíveis ao que está ao nosso redor: um corpo que se afeta é um corpo ligado ao mundo em que vive, sendo o seu contrário um corpo empobrecido dos outros, centrado apenas em si. Esta idéia fará uma enorme diferença se tomarmos para reflexão as questões da aprendizagem, da pesquisa e da produção de conhecimento, pois o privilégio de um sujeito cognoscente sobre um mundo que está passivamente à espera de ser conhecido passará a ceder espaço a uma prática a que Despret (2002) chama de meio justo: uma troca de propriedades entre partes que se encontram (antigas e novas verdades, pesquisadores e pesquisados, os que já estão e os que chegam, parceiros, colegas, oponentes...), num diálogo em que a novidade vai se validando a um custo menor para o que antes estava estabelecido. Ao invés da imposição de uma(s) parte(s) sobre outra(s), da substituição de uma(s) pela outra(s), como pretendeu o projeto moderno, as partes se transformam no contato com versões heterogêneas, reunindo propriedades através do ajuste de práticas e interesses híbridos, meio pelo qual estas partes recebem, umas das outras, a chance de transformação mútua. É a James que Despret recorre na empreitada deste fazer conhecimento, tomando como valor a condição de que este conhecimento seja interessante, de que nos dê a possibilidade de enriquecer a realidade e não de simplesmente dublá-la, fórmula extensamente utilizada pelos modernos.

Teriam ignorado, então, os supostos modernos que não se pode negar a própria herança, uma vez que esta funciona como um lastro de possibilidades para a entrada de novos elementos e não necessariamente para sua evitação? Como fazer a articulação com o diferente, com o que chega? Como realizar as misturas entre elementos díspares, humanos e não humanos? O quanto deixar-se afetar pelo outro resultará em misturas proveitosas? Será possível conviver com o resultado dessas misturas?

Para um pragmatista como James, este duelo entre antigas e novas verdades é constante e compreensível na arena humana, mas a pacificação não se opera pela eliminação de outras versões, mas através da possibilidade de realizar, com estas, aproximações ao menor custo.


Essa idéia nova é, então, adotada como sendo a verdadeira. Preserva o estoque mais antigo de verdades com um mínimo de modificações, estendendo-as o bastante para fazê-las admitir a novidade, mas concebendo tudo em caminhos mais familiares o quanto possível. [...] Temos uma teoria verdadeira exatamente em proporção à capacidade de solver esse “problema de máxima e mínima”. Mas o êxito em resolver esse problema é eminentemente um caso de aproximação.[...] Em um certo grau, portanto, tudo aqui é plástico. (James, 1974, p.15)
Outro pragmatista com quem Latour e Woolgar (2006) estabelecem um elo é Dewey, através da idéia de público. O público é algo produzido pelas ciências sociais que deveriam ter o compromisso de oferecer uma multiplicidade de versões daquilo que somos, maneira de pensar completamente contrária a de uma ciência com uma única e totalizante visão dos fatos cuja pretensão é a de ser um reservatório de universalidade. Com a idéia de público de Dewey, Latour e Woolgar (ibidem) defendem uma sociologia sempre renovada pelos novos ingredientes que vão sendo introduzidos nos coletivos. Arendt (2006) toma a acepção de público em Dewey, referindo-se às conseqüências inesperadas de nossas ações frente às quais não haveria especialistas, ou seja, “de uma experimentação coletiva que coloca cientistas e cidadãos no mesmo barco e que tem relação óbvia com o conceito de simetria” (pp. 5-6), como sugere Latour, ao reatar o conhecimento cientifico e o conhecimento do senso comum, sem mais necessidade das purificações operadas pelos modernos.

O que Latour e Woolgar (2004, 2005) trazem como proposta para a composição de um mundo comum é a diplomacia, esta disciplina pela qual será possível estabelecer negociações e alianças para o atingir este meio justo em que a troca de propriedades poderia fazer emergir uma terceira possibilidade em que nenhuma das partes isoladas anteriores ao contato prevalecem, mas uma outra versão mais enriquecida pelo encontro de ambas. Para os modernos, a diplomacia não se fazia necessária, pois as outras culturas apenas precisavam ser domesticadas para uma nova posição, via processo pedagógico. Ensinadas a ser como cabia aos tempos modernos, as culturas precisavam se transformar pela ciência, marcando a distinção entre fatos e valores.



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