Mas de onde vem o Latour



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Inspiração em Whitehead
Nenhum dos dois iluminismos abdicou da idéia de explicar o mundo a partir de pólos. Assim, Latour (2002) recorre a Whitehead para rechaçar essa lógica assentada em pólos que tem marcado o pensamento ocidental. Operou-se, nessa forma dos modernos de entender o mundo, o que Whitehead chamou de “bifurcação da natureza” que ocorre quando aceitamos a premissa de que o mundo deve ser dividido em dois conjuntos de coisas: um composto pelo que está na natureza, matéria de que o universo é constituído, das coisas reais cujas qualidades primárias seriam independentes da existência de um observador; outro, composto por qualidades que nossos sentidos atribuem a estes elementos do mundo, sendo, portanto, qualidades secundárias. O primeiro conjunto seria passível de estudo pelas ciências, enquanto que o segundo seria a “matéria da qual nossos sonhos e valores são construídos” (Latour & Woolgar, 2002, p. 2). Com esta divisão, os modernos criaram uma situação impossível de resolver, um paradoxo em que o conhecimento só se torna possível como uma tentativa de aproximação das qualidades primárias (coisas em si) pelas qualidades secundárias (representações). Aos primeiros elementos, os modernos atribuíram fixidez e a-historicidade, manobra para tornar o mundo possível de ser capturado pela percepção humana. Aos segundos, maior dinamismo, historicidade e independência com relação aos primeiros. Como resultado, dois conjuntos de elementos separados por um verdadeiro “abismo ontológico” (Latour & Woolgar, 2002a, 2002b), auto-suficientes para existirem de forma independente, sem precisarem se afetar mutuamente. Trata-se de uma visão que congela, em grande medida, a possibilidade de transformação nas pontas, sem levar em conta que estas estão em contínua mistura, produzindo híbridos incessantemente e indefinidamente.

Evidenciando o gosto pelas idéias do filósofo Alfred Whitehead, Latour encontra afinidades com o trabalho de Isabelle Stengers, filósofa empenhada na tarefa de traçar as linhas de uma cosmopolítica, empreendimento próximo ao que Latour chama de uma epistemologia política. A bifurcação da natureza foi, segundo Whitehead (apud Stengers, 2002), um verdadeiro veneno para o pensamento moderno. No livro em que Stengers (ibidem) tem como proposta debruçar-se sobre o pensamento deste filósofo, ampliando-o e desdobrando-o para refletir sobre questões da contemporaneidade, aponta para a bifurcação da natureza como uma divisão artificial entre o sujeito e o mundo que nem sempre foi assim: a natureza, tomada como objeto de conhecimento e o humano dotado de consciência crítica, tornado pelos teóricos do conhecimento como protótipo do sujeito cognoscente, foi uma construção e, como tal, é passível de ser testada na sua capacidade de operar ou travar o conhecimento.


Os primeiros pensadores que propuseram distinguir uma natureza “objetiva”, caracterizada pelas qualidades ditas “primárias” (os pequenos corpos mudos e figurados), da natureza da qual nós fazemos a experiência, rica de odores, de cores, de significações, eram certamente aventureiros. Mas a distinção tornou-se hoje “palavra de ordem”, transmitida sob o modo de evidência, vetor de absurdidade, produtor de impasses que não são somente intelectuais mas também práticos, até políticos (p. 21)6
Para as questões que giram em torno da divisão sujeito x objeto, Whitehead (apud Stengers, Ibidem) propõe uma substituição, colocando em seu lugar questões sempre pragmáticas: devemos estar prontos para experimentar aquilo que pode produzir novos hábitos, o que pode tornar possível novas convenções. É com esta inspiração que Stengers (ibidem) usa o pensamento especulativo de Whitehead para lutar “contra o empobrecimento da experiência, contra a confiscação daquilo que faz sentir e pensar” (p. 34). Não se trata, segundo a autora, de substituir a idéia de bifurcação da natureza por outras detendo um poder ainda maior, mas de permitir que a aventura de pensar divergentemente possa ter lugar a cada vez que formos confrontados com algum modo de existência que nos provoque a pensar e sentir de uma outra forma.

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