Mas de onde vem o Latour


De como buscar a simetria depois que fizeram bifurcar a natureza



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De como buscar a simetria depois que fizeram bifurcar a natureza.
A curiosidade em torno de Bruno Latour é freqüente. É fácil dizer onde nasceu, quais estudos realizou, a formação que teve, de quem foi discípulo, suas publicações mais antigas e mais recentes. Filho de um negociante de vinhos no interior da França, não segue o métier paterno. Opta pelos estudos em filosofia na universidade e, graças ao serviço militar, vai à África e descobre a antropologia, tendo sido bastante influenciado pelo trabalho de Marc Augé, na Costa do Marfim. Percebe, nesta formação empírica como antropólogo, que o tratamento dado às culturas estudadas estava longe de ser o mesmo aplicado à nossa própria cultura: íamos ao coração das outras culturas investigando “seus patrimônios, festas e tudo que permanecia de alguma forma arcaico” (Latour & Woolgar 2005, p. 5), mas deixávamos intocado o nosso “centro de produção de verdades” (ibidem, p. 6). Nesta disposição de fazer um programa de pesquisa inspirado na idéia de uma antropologia simétrica, Latour tem a oportunidade de ir aos Estados Unidos e fazer pesquisas num laboratório onde se desenvolviam relevantes pesquisas na área da neuroendocrinologia. Anuncia aos seus pesquisados que, a partir de então, terá para eles o olhar de alguém que estuda uma tribo exótica, utilizando os mesmos métodos antropológicos aplicados, por exemplo, a uma tribo africana. Como resultado deste trabalho, publica, em 1997, com Steeve Woolgar, Vida de Laboratório, livro em que nos é possível verificar que alguns conceitos por ele usados tiveram, assumidamente, a inspiração em outros autores. Para desenvolver seu ponto de vista sobre a atividade de laboratório, evoca Michel Serres com o conceito de “circunstâncias”3, e a idéia de por ordem no caos; em Bourdieu, resgata a noção de credibilidade4 com relação aos investimentos feitos pelos pesquisadores; toma de empréstimo a Brillouin, da teoria da informação, a noção de ruído, utilizando-a de maneira bastante metafórica para caracterizar a emergência de um enunciado dito científico que difere entre outros enunciados equiprováveis num campo agonístico; a idéia de construção de Knorr-Cetina é usada para mostrar que um laboratório funciona como se fosse uma usina de fatos, num lento e prático processo em que as descrições são mantidas e refutadas. Em outros trabalhos (1994a, 2006) não nega a semelhança das redes com a idéia de rizoma postulada por Deleuze e Guattari. Seguir os rastros de todas essas e outras influências nas suas demais produções, entretanto, não é a tarefa a que estamos nos propondo. Tentaremos aqui mapear apenas, em linhas gerais, algumas das principais idéias que servem de guia ao pensamento do autor em foco, dentro das limitações deste trabalho.

A preocupação de Latour com a questão de um tratamento simétrico nos procedimentos desenvolvidos pelas ciências nas nossas sociedades já fazia parte de um movimento em curso que até hoje percorre todo o seu trabalho. Em Jamais fomos modernos (1994a), Latour examina a postura daqueles que levantaram a bandeira do modernismo. O autor entende que aqueles que se julgaram modernos, na ânsia de desbancar as antigas verdades, funcionaram sob a lógica da exclusão, pois, ao introduzirem novas idéias, promoveram a ruptura e o apagamento daquelas que representavam o pensamento anterior, tido como obsoleto.

A cena moderna, segundo Latour (ibidem), instaura um novo regime de pensamento em que se opera uma dupla ruptura: no tempo, por oposição a uma antiguidade supostamente arcaica; e entre grupos de vencedores e de vencidos, nas guerras das idéias pela supremacia de uma suposta “verdade” dos fatos. Com estas premissas, muitas outras cisões foram instaladas, ficando toda a lógica de se pensar as ciências viciada por essa necessidade de purificação através da divisão.

Na hipótese de Latour (1994a), a constituição moderna da verdade designa dois conjuntos de práticas que precisam estar apartadas uma da outra para terem alguma eficácia: 1. As práticas de “tradução”, responsáveis pelas misturas que fazem surgir incessantemente os híbridos de natureza e cultura; 2. As práticas de “purificação” que negam as misturas efetuadas entre humanos e não humanos, operadas pelo conjunto de práticas anteriormente mencionado e, portanto, só fazem sentido em função deste.

Essas práticas de purificação deixaram o trabalho das ciências calcado nas separações entre o antigo e o novo, natureza e sociedade, ciência e senso comum. A própria divisão da ciência se construindo estaria pautada nestas divisões.

Segundo Hochman (1994), a proposta de Latour é uma reação tanto às concepções internalistas da ciência, que colocam o conhecimento científico em um lugar privilegiado entre outros tipos de conhecimento, estando sujeito às suas próprias leis, assim como às análises que priorizam o contexto de descoberta dos fatos científicos, também chamadas de externalistas. Latour tenta fugir de ambos os casos quando os apresenta como duas formas de um reducionismo frequentemente cometido: “É como se fossem dois líquidos que podemos fingir misturar pela agitação, mas que se sedimentam tão logo deixados em repouso” (Latour & Woolgar, 1997, p. 20). O seu trabalho situa-se entre aqueles que fazem o esforço de traçar detalhadamente relações entre contexto e conteúdo, sem isolar a “dimensão cognitiva” dos “fatores sociais” que circundam a produção científica e dela fazem parte.

Da Escola de Edimburgo5, herda os princípios do Programa Forte de David Bloor e Barry Barnes, em oposição ao que se chamou de Programa Fraco. O Programa Fraco se apóia na idéia de que é suficiente cercar a dimensão cognitiva das ciências com uns poucos “fatores sociais” para ser chamado de historiador ou sociólogo. Um Programa Forte é aquele que deve levar em conta o contexto social e o conteúdo das ciências, exigindo simetria em todas as explicações do desenvolvimento científico (Latour & Woolgar, 1997).

Segundo Palácios (1994), apesar de datar da virada do século XIX para o XX, a proposição - de que haveria uma relação a ser investigada entre conhecimento científico e o contexto social no qual era produzido - marcou uma abordagem singular no Programa Forte de Bloor e Barnes, gerando muitas controvérsias nos debates contemporâneos da Sociologia das Ciências, na década de 70. Até então, a sociologia do conhecimento seguia por duas vertentes: uma que estudava o conhecimento comum, orientada para o entendimento, da cultura, das crenças compartilhadas pelos membros de um grupo social, mais centrada, portanto, na investigação antropológica das sociedades primitivas; outra que se dedicava a estudos sobre o conhecimento científico, fosse investigando a história das descobertas científicas, fosse fazendo a análise das instituições contemporâneas onde se desenvolve a atividade científica. Esta última divisão estabeleceu tacitamente uma atribuição de encargos. À Sociologia das Ciências eram atribuídos os estudos sobre as instituições da ciência moderna e a investigação histórica das inovações científicas, centrados no “contexto da descoberta”. À Filosofia das Ciências caberiam os estudos relacionados com o conteúdo do conhecimento científico, na busca de relações entre o conteúdo mesmo da descoberta científica e as questões filosóficas a ela inerentes.

Na década de 70, houve uma ruptura nos limites entre a Sociologia das Ciências e a Filosofia das Ciências, mesclando-se os objetos de estudo dessas duas disciplinas. A Sociologia das Ciências consolidou-se como área de especialização reconhecida e abriu novas frentes de investigação da atividade científica. O Programa Forte aparece, então, neste momento, para formalizar a ruptura entre a abordagem tradicional da Sociologia das Ciências e esta abordagem emergente (Palácios, 1994).

O Programa Forte da Escola de Edimburgo, de acordo com Palácios (1994), apóia-se em quatro princípios: de Causalidade, defendendo uma relação estreita entre as variáveis sociais e os conteúdos das teorias científicas; de Imparcialidade, investigando tanto o verdadeiro como o falso, o racional e o irracional; de Simetria, tomando os mesmos padrões de explicação, quer se trate de acerto ou erro nas ciências; de Reflexividade, aplicando-se também à própria Sociologia.

Em Latour e Woolgar (1997), encontramos o comentário de que o Programa de Bloor era triplamente forte: fortemente crítico, fortemente criticado e fortemente criticável, dando indícios de que, embora herdeiro do Programa, este autor seria também seu dissidente. Com Latour, o Princípio de Simetria foi extremizado e estendido para a análise dos elementos que compunham os pólos Natureza e Sociedade. Estes dois pólos, ainda muito marcados no Programa de Bloor, deixavam insustentável qualquer posição que buscasse romper com os dualismos instaurados pelo pensamento moderno. A separação entre a representação das coisas (ciências) e a representação dos humanos (política) permanecia intocada nos trabalhos da Escola de Edimburgo. Para implementar de fato um Princípio de Simetria, Latour (1992) propõe um movimento ainda mais radical, ao que chama de “mais uma volta depois da volta social” (p. 277).

A assimetria, anterior a Bloor, explicava “a verdade” com a Natureza, ou seja, com o positivismo das ciências naturais, deixando “o erro” para o estudo das ciências sociais. Às ciências duras, era dado o estatuto do exato, do verdadeiro, enquanto que às ciências moles, creditava-se à investigação do erro: uma ciência para estudar os elementos naturais e uma ciência para estudar os elementos humanos. A simetria introduzida por Bloor busca, segundo Latour (ibidem), a explicação do erro e da verdade no pólo da sociedade, fazendo “uma volta social”. Às estruturas sociais, Bloor, fortemente influenciado pelas idéias de Durkheim que tem o social como causa e princípio de todas as coisas, teria atribuído um papel preponderante na explicação dos sucessos e fracassos no desenvolvimento da ciência, mantendo assim a assimetria dos modernos.

Latour propõe um segundo princípio de simetria para explicar a Natureza e a Sociedade, atribuindo-lhes igualdade de tratamento e chocando-se, portanto, com a distinção bipolar estabelecida por Kant, a mesma usada pela Constituição Moderna da Verdade. Para Latour, nem Natureza nem sociedade são puras, assim como não estão previamente dadas. Ambas são o resultado das trocas de propriedades entre elementos humanos e elementos não-humanos (1994b). As misturas que ocorrem incessantemente entre esses elementos advêm dessa cena experimental que faz fluir as práticas de tradução - negadas pelos modernos - gerando novos laços sociais e redefinindo, ao mesmo tempo, do que são feitas a natureza e a sociedade.

A modernidade, segundo Latour (1992), se apóia em dois iluminismos:



  • Para destruir o obscurantismo, a dominação e o fanatismo, a modernidade usou o pólo Natureza, instituindo as ciências naturais para representá-la e para desbancar as falsas pretensões do pólo social

  • Para desbancar o cientificismo e as falsas pretensões do pólo natural, os modernos usaram as explicações sociais (economia, psicanálise, sociologia, semiótica).



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