Marcos Cabral Uso da Língua Tétum no ensino-aprendizagem do Português le na Universidade Nacional Timor Lorosa´e



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2.2.2. O Inquérito – análise de dados


De forma a apresentar os dados recolhidos fiz três grupos consoante os perfis dos professores: professores timorenses de ensino básico e secundário; professores timorenses do curso de Português para Estrangeiros da UNTL – ensino universitário; professores estrangeiros a lecionar na UNTL.


  1. Grupo 1

Inquérito, por resposta escrita, a professores do ensino básico e secundário
Foram inquiridas 5 professores com diversas formações. Embora tenhamos apenas recolhido 5 testemunhos de docentes de língua portuguesa, pensamos que a opinião destes professores é importante para se perceber o atual contexto de ensino dessa língua. Assim, analisaremos os dados recolhidos no inquérito. Estas opiniões serão completadas por alguns dados retirados de entrevistas que realizámos para conhecermos outras opiniões, utilizando o mesmo guião.

Quanto às línguas maternas dos inquiridos, em casa cada um deles fala: tétum e makasae; tétum e mambae; tétum; tétum, Inglês e makasae; e só tétum. Podemos, portanto, concluir, que nenhum dos docentes tem o português como língua materna; que há grande diversidade linguística, como afirmámos anteriormente e que o tétum desempenha um papel fulcral em Timor, visto que é, como podemos verificar, a única língua comum aos vários inquiridos.

Os inquiridos têm as seguintes habilitações literárias: Ensino Primário na Escola Canto Resende e Bacharelato Educação; Licenciatura em ensino de língua portuguesa; Bacharelato em Matemática (em conclusão); Bacharelato em educação; SD (Ensino Básico), SPG (Escola para ser Professor), Canto Resende e Bacharel.

Estes professores que ensinam o Ensino Básico, quando foram interrogados sobre os seus conhecimentos de português, consideram ter competências suficientes para o ensino da língua portuguesa.

Interrogados sobre quando adquiriram a sua formação, verificamos ter sido após a Independência entre 2001 e 2009. Todos usam o português para o ensino mas um diz que se apoia no tétum. Todos ensinam o nível de ensino básico e um deles também o secundário. Quando à consciência da sua proficiência no ensino do português parece, em geral, não terem compreendido a diferença entre formação e proficiência pessoal mas sentem-se capazes de ensinar.

No que diz respeito aos materiais utilizados, em geral são feitos pelos professores com base nos programas oficiais e de acordo com manuais adotados.

As dificuldades de aprendizagem dos alunos referidas são oralidade, construção de frases e muitas vezes é referido o problema da utilização dos verbos nos tempos e pessoa adequados. Estas dificuldades têm como consequência problemas de compreensão da leitura e escrita, pois a estrutura da língua portuguesa é totalmente diferente das estruturas das línguas maternas dos alunos e até do tétum. Outra dificuldade referida como importante é a necessidade que o professor sente de intensificar a sua formação no que respeita a definição de estratégias de ensino nas diferentes situações de aula e de insuficiência dos seus conhecimentos da língua. É referido como importante um reforço na formação contínua. A nosso ver, esse reforço deveria passar, também, por um reforço na componente língua portuguesa, para os docentes poderem ensinar melhor.

A motivação que leva os jovens a estudar o português é em geral a necessidade de haver uma língua de trabalho com carácter internacional e a opção, pelo governo de Timor, após a independência, de a ter declarado língua oficial embora haja jovens que preferissem outra opção. Os professores mostram-se preocupados em escolher estratégias metodológicas de ensino que aumentem a apetência dos jovens pela língua portuguesa e um deles refere a metodologia de “oficina de língua”.

E em geral a necessidade de se apoiar no tétum: na interação oral entre professor e aluno na sala de aula, na compreensão e na produção oral e escrita.


  1. GRUPO 2

Questionário/entrevista - professores universitários timorenses
Foram inquiridos oralmente nove professores universitários timorenses da UNTL. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas.

Oito professores têm Licenciatura em Língua Portuguesa feita na UNTL, e um Licenciatura em Linguística feita em Portugal. Destes, seis têm Mestrado na área de Ensino de Língua Portuguesa, um tem Mestrado de Literaturas Lusófonas e um tem ainda Doutoramento em Ensino da Língua Portuguesa. Todos os inquiridos terminaram a sua formação no período entre 2007 a 2015, ou seja após a independência de Timor-Leste.



Interrogados sobre quando adquiriram a sua formação, verificamos ter sido após a Independência entre 2001 e 2009. Todos usam o português para o ensino mas um diz que se apoia no tétum. Todos ensinam o nível de ensino básico e um deles também o secundário. Quando à consciência da sua proficiência no ensino do português parece, em geral, não terem compreendido a diferença entre formação e proficiência pessoal mas sentem-se capazes de ensinar.

Gráfico 1: Línguas faladas em casa.

Todos os professores entrevistados são professores de Português Língua Estrangeira. Seis continuam a lecionar a disciplina, dos outros três professores, um leciona apenas disciplinas da área da literatura e outro na área de linguística (geral e do tétum), e um nas duas áreas. Todos os professores ensinaram pelo menos seis anos de Português Língua Estrangeira, a maior parte ensinou português ou outras disciplinas em português antes da invasão indonésia, ou seja, antes de 1975. Estes professores ensinaram durante o período da ocupação em língua bahasa em várias disciplinas.

Todos ensinam aos vários anos do nível universitário, e dizem utilizar o Português como língua de ensino. Quando à consciência da sua proficiência no ensino do português não responderam, mas disseram dominar bem a língua que usam para ensinar. Sobre o percurso da sua própria formação e consciência da sua proficiência em língua portuguesa, vários professores referem ter aprendido português no período colonial, e durante o período de ocupação indonésia ter usado a língua portuguesa apenas para fins específicos, veja-se o seguinte excerto:


Prof: aprendi português antes do período colonial, depois no período da Indonésia era proibido falar português, mas eu tinha sempre livros que podia ler em casa, estudar, então a verdade é que nos obrigou a usar a língua, falava em casa com os meus filhos, mas depois quando eles cresceram tinham que ir à escola não podiam continuar a falar, ficavam lá sem compreender nada, compreender a língua indonésia, os professores falavam uma coisa eles tinham outra língua em casa, então deixei de falar deixei de falar português com eles e tive que falar língua indonésia para poderem compreender as aulas na escola. O tétum aprendiam porque o meio, toda a gente falava a comunidade falava tétum

(cf. Anexo 3)


No que diz respeito à preparação de material didático, todos os professores responderam serem eles mesmos a preparar os seus materiais e aulas, pois dizem ser o professor que tem que preparar os seus materiais didáticos, que há falta de materiais, manuais e livros. Para elaborar os seus materiais recorrem a livros da especialidade, gramáticas, manuais, recursos da internet, sebenta criada pelo Departamento da Língua Portuguesa, outros colegas da universidade, e um acrescenta basear-se também nos seus conhecimentos.

As dificuldades de aprendizagem dos alunos referidas são oralidade, escrita, leitura, falta de compreensão da linguagem técnica, e a utilização dos verbos nos tempos e pessoa adequados. Observe-se o comentário de um professor, que tal como outros, refere as dificuldades dos alunos em utilizar uma linguagem técnica:


Prof: sim, bem alguns tem os manuais, como a literatura tem o programa e com base no programa, tenho que fazer pesquisa ler livros e fui criando os materiais conforme o perfil da turma e seguindo o programa, porquê o programa alguns vezes têm dificuldade em compreender neste caso, eles também, têm dificuldade para… como estou a ensinar literatura é um pouco difícil porque os alunos para compreenderem a linguagem literária é preciso dominar a língua portuguesa, nesse caso eu muitas vezes tenho que criar estratégias que possam motivá-los ou atraí-los a compreender a linguagem literária.

(cf. Anexo 4)


Referem ainda ser os maiores obstáculos para a aprendizagem e ensino: o facto de não se ensinar em todas as disciplinas em português; a falta de formação em língua portuguesa dos professores que ensinam nível secundário e pré-secundário e consequente falta de domínio da língua por parte dos alunos; o desnível de proficiência em língua portuguesa dos alunos da mesma turma; falta de prática da língua e hábitos de leitura; número elevado de alunos por turma; e falta de recursos materiais.

Quando inquiridos sobre a importância do conhecimento da língua tétum para o processo de ensino-aprendizagem do português, quatro professores responderam que tinha uma grande importância apontando como razões o facto de ser língua oficial a par do português, de apresentar vocábulos de origem portuguesa, e também a necessidade de recorrer à língua como meio intermédio de comunicação e explicação de matéria e vocábulos, alguns inexistentes, na língua tétum, por exemplo vocábulos científicos e académicos, e de servir como língua franca entre os alunos multilingues:


Prof: bom, então aqui... o tétum aqui serve de … de uma língua introdutória para ensinar português porque sendo aqui um país multilingue e os alunos vem com diferentes …. línguas, os alunos não falam a mesma língua mas que têm o tétum como língua franca, então todos os alunos conhecem o tétum então aqui.. e como os alunos tem sempre um nível muito baixo do português, muitas vezes se recorre ao tétum para servir de … servir de … para poder ajudar a compreender a língua, também porque o tétum tem muitos empréstimos do português então...os alunos entendem mais rapidamente a língua portuguesa então... é um meio o tétum é um meio com que os alunos com que haja ajude a interação entre professor e o aluno”

(cf. Anexo 11)


Por outro lado, cinco professores responderam não considerar que a língua tétum tenha um papel fulcral no processo de ensino-aprendizagem do português, dois dizem ser uma língua que todos os alunos já dominam e ser necessário haver maior insistência na formação em português afirmando também que, a ser utlizada, deverá ser apenas como língua intermediária. Um diz que conhecer esta língua para os professores estrangeiros que não são falantes de tétum é uma mais-valia, pois podem recorrer a ela no processo de ensino. Como afirmam dois professores:
E2: como o meu caso



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