Lacan: psicanálise, ontologia e política Aula 1


A economia libidinal do capitalismo



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A economia libidinal do capitalismo
O terceiro eixo, talvez o mais discutido pela fortuna crítica, nos fornece uma crítica da economia libidinal do capitalismo através do uso extensivo de um conceito de gozo forjado na relação entre psicanálise freudiana e teoria social de Georges Bataille (de onde o conceito realmente vem). Lacan acredita que a crítica social do capitalismo deve estar inicialmente atenta às formas de incitação libidinal necessárias à reprodução das formas sociais. A compreensão das articulações entre instauração da vida psíquica e modos de sujeição social passam, no caso de Lacan, por uma dinâmica que não é legível através dos problemas ligados aos destinos dos processos repressivos, mas aos modos de expropriação das experiências de gozo.

Na verdade, Lacan parte inicialmente da perspectiva batailleana relativa à compreensão dos processos de reprodução material da vida sob o capitalismo através da elevação dos princípios utilitaristas de maximização do prazer e de afastamento do desprazer. Em Bataille, tal tópica servia para lembrar que o capitalismo deveria procurar eliminar do horizonte da vida social todos estes fatos totais que não poderiam ser pensados através da estrutura calculadora do prazer, em especial o erotismo e o sagrado. Pois sagrado e erotismo seriam fatos sociais motivados pelo gozo, não pelo prazer.

Esta distinção entre prazer e gozo será transposta para o interior da teoria psicanalítica por Lacan, principalmente a partir do Seminário VII, sobre a ética da psicanálise. Na ocasião, Lacan fará uma importante elaboração a respeito da experiência analítica como uma prática dirigida por uma ética que, no entanto, não promete forma alguma de adaptação possível entre virtudes privadas e virtudes públicas nas condições atuais. “Il n’y a aucune raison que nous nous fassions les garants de la rêverie bourgeoise”11. Nas condições atuais, a realização do gozo só pode se dar de forma disruptiva em relação às exigências de auto-conservação dos indivíduos. No entanto, ele é abertura para a possibilidade de realização de ações que não se mesurem mais ao princípio do prazer. Desta forma, a existência de um para-além do princípio do prazer ganha em Lacan uma dimensão ética que não existia em Freud.

Esta crença na força disruptiva de experiências de gozo, no entanto, terá que lidar com uma economia libidinal própria ao capitalismo, que não se baseia apenas na repressão do gozo e afirmação do prazer, mas na espoliação do gozo no interior de uma lógica de reprodução de sua desmedida, mas no interior da lógica de produção do valor. O capitalismo não apenas codifica nossos desejos, ele nos espolia de nosso gozo. Com isto, Lacan cria uma teoria da economia libidinal do capitalismo no qual os processos de socialização não serão mais pensados sob a forma da repressão, mas da incitação contábil, da eliminação da força disruptiva do gozo através da própria colonização do gozo.

Esta racionalidade própria a uma sociedade organizada a partir da circulação do que não tem outra função a não ser se auto-valorizar, que determina as ações dos sujeitos a partir da produção do valor, precisa socializar o desejo levando-o a ser causado pela pura medida da intensificação, pelo puro empuxo à ampliação que estabelece os objetos de desejo em um circuito incessante e superlativo chamado por Lacan de mais-gozar. Assim é possível afirmar que “subjetivação ‘contábil’ e subjetivação ‘financeira’ definem em última análise uma subjetivação do excesso de si sobre si ou ainda pela ultrapassagem indefinida de si”12. Esta estrutura psíquica, cujo desejo é causado pela pura medida da intensificação, pede uma economia psíquica não mais assentada em um supereu repressivo, mas em um supereu que eleva o gozo à condição de imperativo transcendente, impossível de ser encarnado sem destruir sua própria encarnação, o que Lacan compreendeu muito bem através de sua teoria do supereu como injunção contínua ao gozo13.

Como se trata, porém, de uma lógica contábil e financeira, em momento algum o excesso deve colocar em questão a normatividade interna do processo capitalista de acumulação e desempenho. Em momento algum o excesso implica quebra das ilusões de autonomia que orientam os indivíduos empresariais em suas relações por propriedade. Pois este é um excesso quantitativo que não se transforma em modificação qualitativa. Ao contrário, todo excesso é financeiramente codificável, é confirmação do código previamente definido14. Como diria Hegel a respeito de outros fenômenos, esse excesso é marca de uma má infinitude, pois não passa ao infinito verdadeiro do que muda sua própria forma de determinação a partir de si, do que é infinito por realizar-se produzindo paradoxalmente a exceção de si. Uma exceção que, ao ser integrada, modifica processualmente a estrutura da totalidade anteriormente pressuposta. Antes, ele é o infinito ruim do que é sempre assombrado por um para além que nunca se encarna, para além cuja única função é marcar a efetividade com o selo da inadequação, do gosto amargo do “ainda não”. A sua maneira, Lacan nos lembra que a análise do capitalismo sempre precisou de uma teoria dos dois infinitos. Os destinos do gozo só podem ser pensados no interior de uma teoria dos dois infinitos.

Para tanto, trabalharemos sessões dos Seminários VII, A ética da psicanálise, e XVII, O avesso da psicanálise. Neste ponto, gostaria de retomar as críticas de Foucault à “desqualificação dos prazeres” feita por Lacan e de Deleuze/Guattari a sua teoria do capitalismo.



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