Lacan: psicanálise, ontologia e política Aula 1


Uma teoria da emergência de sujeitos



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Uma teoria da emergência de sujeitos
O segundo eixo de nosso curso refere-se a uma teoria da emergência de sujeitos políticos que encontra configuração através das temáticas lacanianas do ato analítico e de sua capacidade em problematizar teorias da deliberação racional e da autonomia ainda tributárias dos limites de uma filosofia da consciência muitas vezes não explicitada. Ou seja, é através das discussões sobre a anatomia do ato que podemos encontrar, em Lacan, uma compreensão das dinâmicas de agência política não mais dependente dos limites de uma filosofia da consciência.

Em seu seminário O ato analítico, Lacan fornece aquilo que ele chama de “a fórmula do ato”. Esta fórmula encontra-se enunciada em um poema de Rimbaud chamado À uma razão:


Um bater de seu dedo contra o tambor descarrega/ todos os sons e começa a nova harmonia./ Um passo seu é o levante de novos homens/ E seus em-marcha./ Tua cabeça se vira: o novo amor!/ Tua cabeça se volta: o novo amor! /“Muda nossos destinos, alveje as pragas, a começar pelo tempo”, cantam-te essas crianças. “Cultiva não importa onde a substância de nossas fortunas e desejos”, te suplicam./ Vinda de sempre, quem irá contigo por toda parte.
A escolha do poema de Rimbaud não poderia ser mais apropriada, principalmente se lembrarmos que estamos aqui a falar do poeta que canta a Comuna de Paris e seus desejos de transformação. É clara a constelação da ruptura, dos destinos que mudam ao alvejar o tempo vivido como praga, do espaço que se abre para um “não importa onde”, para um “por toda parte”. Neste horizonte, a psicanálise procura pensar as condições de transformações subjetivas capazes de trazer uma agência que não é completamente coordenada pela estrutura. Daí porque: “se eu posso aqui caminhar falando a vocês, isto não é um ato, mais se um dia ultrapasso um certo solo no qual coloco-me fora da lei, neste dia minha motricidade terá valor de ato”8. No que se percebe como há uma suspensão da estrutura que é constitutiva da noção de ato analítico.

Lacan articula a estrutura do ato ao manejo da transferência, especialmente na sua forma de liquidação do sujeito suposto saber e de extração do objeto que sustenta a relação de suposição, a saber, o objeto a. Tal extração retira o objeto a de sua posição de suporte imaginário da consistência da estrutura e lhe permite aparecer na posição de resto, ou seja, de um inassimilável que só pode impulsionar a “um novo amor”, a “um levante de novos homens”. Há uma queda de um saber suposto, queda de um saber deliberar que aparece como efeito fundamental do ato analítico. Daí porque Lacan afirmará que se trata de: “um ato tal que destitui em seu fim o próprio sujeito que o instaura”9.

Este ato analítico, por sua vez, não é a inscrição no interior de uma rememoração capaz de integrar as dimensões da experiência à historicização e a seus mecanismos de construção. Por isto, o ato analítico não é uma “tomada de consciência”. Ele é uma repetição específica. É esta recompreensão da repetição que permitirá o recurso clínico à noção de ato. Ou seja, haverá uma relação profunda entre ato e repetição, todo verdadeiro ato será uma forma específica de repetição (o que nos exige constituir uma gramática dos modos de repetição), algo que todo leitor de Hegel e Marx conhece bem através do tema da repetição histórica. Ou seja, o ato instaura uma temporalidade própria, uma repetição que não é nem simbólica, no sentido de meramente atualizar as posições de uma estrutura, nem imaginária, no sentido de meramente repetir conformações imaginárias, vestimentas de outra época. O ato instaura uma temporalidade real que permite a emergência de sujeitos que não podem mais ser pensados sob a figura de indivíduos. Há de se entender o que pode ser este registro real das repetições que se encarna na própria natureza do ato analítico.

Notem a importância desta discussão sobre o ato analítico para o campo político. Em maio de 1968, os estudantes escrevem nos muros de Paris: “as estruturas não descem às ruas”. Esta era uma maneira de dizer que as formas da revolta social mostravam a inanidade de teorias incapazes de dar espaço a uma agência emancipada que não seria, a sua maneira, reiteração das posições previamente normatizadas por uma estrutura metaestável. A resposta de Lacan será: “se há algo que a revolta estudantil mostrou foi a descida às ruas da estrutura”. Ou seja, havia para Lacan algo de reiteração de posições na revolta estudantil, de impossibilidade de produção de rupturas efetivas. Não será a primeira vez que Lacan insistirá que a revolta estudantil não seria um ato, seria um acting out, já que lhe faltaria, no fundo, a capacidade de emergência de sujeitos políticos. “O que vocês aspiram como revolucionários é a um mestre”, dirá Lacan aos estudantes, “vocês o terão”10. Maneira de insistir que as demandas políticas teriam dois destinos possíveis: ou ficar na posição histérica de ter de se garantir graças a presença de um poder questionado que deve continuar no mesmo lugar para poder ser continuamente exigido e questionado ou permitir a incorporação dos sujeitos da demanda na estrutura do próprio saber questionado. Nos dois casos, há uma adesão da resistência à gramática do que é questionado, à sua forma de organização do saber, de inscrição e reconhecimento de sujeitos.

Mas o que haveria no ato analítico que demonstraria o impasse das ações de revolta? Veremos como o ato não pode ser ato de uma consciência que se assenta na afirmação da autonomia de suas decisões. Ele não pode sequer ser expressão de uma consciência de classe que se produz como identidade coletiva por vir com todos os riscos de sua reificação identitária posterior. Ele só pode ser a tentativa de extração do que causa nosso desejo das sendas de seu aprisionamento no interior de certa noção de sujeito, de demanda e estrutura. Há uma singular forma de emancipação através da noção lacaniana de ato. Ela deve ser tematizada.

Das críticas à posição lacaniana a respeito de maio de 68, talvez a mais elaborada seja a de um ex-militante dos movimentos de juventude maoísta, a saber, Alain Badiou. No entanto, Badiou construirá sua própria teoria do ato político através de uma leitura singular das dinâmicas de conversão religiosa, tal como ela aparece em São Paulo: a fundação do universalismo. Teremos ocasião de organizar tal debate através do trabalho com os textos: “O ato analítico” e “Discurso à Escola Freudiana de Paris”, de Lacan e o pequeno livro de Badiou.




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