Lacan: psicanálise, ontologia e política Aula 1


Uma teoria das identificações políticas



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Uma teoria das identificações políticas

Foi levando em conta esta dupla inscrição da psicanálise no interior do campo político desde Freud que gostaria de propor este curso a vocês. Trata-se de insistir que esta dupla tarefa política da psicanálise será um dos eixos principais do desenvolvimento da experiência intelectual de Jacques Lacan, ela pode nos fornecer o sentido de elaborações clínicas maiores de Lacan.

O destino das consequências políticas do pensamento lacaniano é algo que está longe de ser estabelecido sem problematizações. Críticas significativas foram desenvolvidas por leitores de Lacan como Guattari, Deleuze, Foucault, Derrida, Castoriadis, entre outros. No entanto, eu gostaria de insistir que tais críticas erram de alvo e que uma leitura atenta dos textos pode nos mostrar uma outra imagem do pensamento.

Para tanto, neste curso, gostaria de desenvolver quatro eixos de organização das relações entre psicanálise e política a partir da obra de Jacques Lacan. Tais eixos respondem por problemas constitutivos da experiência política e já foram, cada um a sua maneira, elaborados ou criticados por teóricos e filósofos que se confrontaram com a obra lacaniana. No entanto, gostaria de insistir que, a meu ver, todos esses eixos encontram-se ainda subaproveitados em suas potencialidades imanentes. Eles carecem ainda de maior sistematização.

Estes eixos visam dar conta do que poderíamos chamar de “os quatro conceitos fundamentais da política a partir da psicanálise lacaniana”. Eles acabam por cobrir, à sua maneira, problemas centrais para a teoria política como: a questão da emergência e da mobilização, da crítica da situação e da organização. Os conceitos são: identificação, ato, gozo e reconhecimento. A sua maneira, eles desdobram o campo organizado por aquilo que Lacan chamou de “os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, a saber: a transferência, a repetição, o inconsciente e o objeto a.

O primeiro eixo que gostaria de analisar com vocês diz respeito a uma teoria das identificações políticas que se desdobra em uma concepção sobre modalidades de instauração de corpos políticos. Neste eixo, encontramos inclusive reflexões sistemáticas sobre processos de organização política advindos das exigência que Lacan se impôs de constituir um vínculo social renovado através da transformação do problema da comunidade de analistas em um problema interno à clínica, isto ao constituir a Escola Freudiana de Psicanálise. O que de fato produziu problemas suplementares dificilmente resolúveis.

Lacan parte de um diagnóstico social referente àquilo que ele chama de “declínio da imago paterna” e dos efeitos sociais que tal declínio produziria. Como gostaria de mostrar já na aula que vem, longe de estarmos diante um tópico social vinculado ao colapso das autoridades tradicionais devido ao processo de modernização social e a potencial anomia que tal desregulação das normas sociais produziria (como vemos, por exemplo, em Durkheim), tópico articulado normalmente com demandas de instauração de um institucionalismo forte, temos em Lacan uma reflexão original vinculada à consciência do advento de uma era histórica na qual o declínio da imago paterna não equivalerá à liberação dos sujeitos de estruturas patriarcais fortemente normativas, mas à consolidação de outra forma de sujeição social vinculada à redução das relações sociais às formas imaginárias do conflito, da agressividade e da rivalidade narcísica.

A promessa de liberação advinda do fim da sociedade patriarcal não se realizou, é o que diz Lacan. Na verdade, nós já viveríamos em uma sociedade sem pais, pois as figuras paternas estariam necessariamente reduzidas à condição de rivais narcísicos. Sociedades nas quais o verdadeiro pai só pode ser um pai morto. O que produz um efeito social de generalização do narcisismo como estrutura de defesa contra a fragilidade do Eu em uma situação na qual as identificações simbólicas tendencialmente não conseguem operar enquanto tais. Antes da temática das sociedades narcísicas tomar conta da sociologia dos anos sessenta, Lacan apontava para um problema estruturalmente semelhante como a verdadeira forma de reprodução social das sociedades capitalistas contemporâneas, sem ter que referendar a crítica ao hedonismo que muitas vezes acompanham tais críticas, transformando-as muitas vezes em críticas morais do capitalismo.

Há de se salientar ainda que a compreensão lacaniana do narcisismo generalizado apontava para dois fenômenos sociais fundamentais. Primeiro, a submissão dos sujeitos a um tipo de injunção superegóica não mais vinculada à repressão advinda de figuras paternas de autoridade, mas a uma demanda indeterminada de satisfação que só poderia levar ao colapso depressivo da capacidade individual de ação. Segundo, a possibilidade de produção generalizada de demandas por figuras superegóicas de autoridade em clara chave autoritária.

Isto mostra como tal economia psíquica trará consequências maiores para o campo político. A sua maneira, Lacan tentará lidar com elas desde seu texto de 1947 “A psiquiatria inglesa e a guerra” no qual saúda o experimento de Bion e Rickmann a respeito de grupos sem chefe. Em uma era de declínio da imago paterna, sua aposta parece caminhar em direção à possibilidade não de fortalecimento das figuras paternas de autoridade, mas de constituição de laços sociais a partir da identificação a um lugar vazio, algo que de certa forma veremos se realizar com um filósofo político leitor de Lacan, a saber, Claude Lefort. O mesmo Lefort que tentará desenvolver uma teoria da democracia a partir de uma apropriação das distinções lacanianas entre os registros do simbólico e do imaginário. Daí afirmações como:


A legitimidade do poder funda-se sobre o povo; mas a imagem da soberania popular se junta a de um lugar vazio, impossível de ser ocupado, de tal modo que os que exercem a autoridade pública não poderiam pretender apropriar-se dele. A democracia alia estes dois princípios aparentemente contraditórios: um, que o poder emana do povo; outro, que esse poder não é de ninguém7.
Assim, da mesma maneira com que o desejo do analista aparecerá inicialmente como um desejo puro, as identificações no campo social, se não quiserem abrir espaço a regressões autoritárias, deveriam saber se guiar pela explicitação do lugar vazio simbólico do poder com suas consequências pretensamente apaziguadoras para os conflitos sociais.

No entanto, da mesma forma que o desejo do analista acabará por demonstrar não poder ser pensado como um desejo puro, esta teoria das identificações políticas que visa sustentar a força do lugar vazio para além da reduções imaginárias de conflitos próprios a sujeitos narcísicos impulsionados pela agressividade terá de ser revista. Se na teoria dos quatro discursos, a discurso do analista será caracterizado exatamente pelo fato de não haver sujeitos como agentes, mas a posição da agência ser dada por um objeto que causa o desejo, então há de se perguntar o que esta nova compreensão do lugar do objeto a traz para uma teoria das identificações socio-políticas.

Notem que se no primeiro modelo, a abertura à dimensão simbólica com o vazio que ela implica permitiria uma transposição do conflito social à cena de um horizonte possível de preservação dos oponentes e de garantia de certa pluralidade agonística, no segundo a identificação ao objeto a nos remete a uma dinâmica própria ao registro do Real. Estas dinâmicas do Real serão de outra ordem, como nos mostrará um texto que poderá nos orientar, a saber, “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”.

Conhecemos um filósofo político que, na contramão de Lefort, recupera a centralidade dos processos identificatórios na constituição de corpos políticos apoiando-se de forma explícita e sistemática em Lacan. Trata-se de Ernesto Laclau. Gostaria de discutir as estratégias de Laclau, em especial seu uso de noções homólogas ao objeto a na compreensão dos processos populistas de identificação. Assim, o primeiro eixo de nosso curso terá como textos fundamentais: “A psiquiatria inglesa e a guerra”, a “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, o capítulo de A razão populista intitulado “O povo e a construção política do vazio”, de Laclau, e o subcapítulo de A invenção democrática, “Contribuições para a compreensão do totalitarismo”, de Claude Lefort.




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