Lacan: psicanálise, ontologia e política Aula 1



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Lacan: psicanálise, ontologia e política

Aula 1

Há algumas maneiras possíveis de começar um curso como este. Uma primeira possibilidade começaria por lembrar como o advento da psicanálise representou uma inflexão importante na compreensão do que política realmente significa. Ou seja, eu poderia começar insistindo no fato de não podermos falar de política da mesma forma antes e depois da psicanálise. Na medida em que a psicanálise moldou a sensibilidade social contemporânea a respeito dos processos de socialização dos desejos e das pulsões, ela necessariamente influenciou os modos de problematização das configurações sociais aí produzidas. Não será possível compreender a transformação da sexualidade, da corporeidade, da memória em problemas políticos maiores do século XX, nossa forma de questionar o que se produz nos campos da sexualidade, da corporeidade, da memória sem levarmos em conta o impacto social da psicanálise em nosso horizonte de crítica social.

No entanto, notemos a especificidade da abordagem psicanalítica. Pois ela se dá através da questão sobre a forma com que tais processos de socialização produzem modalidades de sofrimento. Ou seja, o sofrimento psíquico se transforma em uma categoria política central por indicar sistemas de expectativas não realizadas no interior da vida social. Ele não aparecerá como desvio em relação a estruturas tipificadas de normalidade, mas como modo de denúncia da articulação, necessária para nós, entre socialização e violência, entre instauração da vida psíquica e sujeição social. A psicanálise não falará, por exemplo, dos desajustes da família, mas da maneira com que a família produz necessariamente desajustes para funcionar de maneira “normal”, ou seja, de acordo com sua própria normatividade. Ela não falará do uso neurótico da religião, mas de como a vinculação ao poder pastoral nos coloca necessariamente em posição neurótico obsessiva. Neste sentido, a insistência nas feridas provocadas pela nossa inscrição no interior da vida social serão as marcas de uma revolta que não encontrou voz e que, por isto, aparece no corpo, nos rituais compulsivos, nas inibições, na angústia. Revoltas que aparecem naquilo que os sujeitos tem de mais verdadeiro.

Assim, não se trata de insistir na proposição equivocada de que as sociedades ocidentais teriam esperado a psicanálise para iniciar seus questionamentos a respeito da política implícita em estruturas disciplinares responsáveis pela constituição de uma civilidade indissociável da normalidade psíquica. Trata-se, na verdade, de lembrar que um passo decisivo é dado pela psicanálise na medida em que tais estruturas disciplinares poderão ser questionadas não tendo em vista a norma que elas deveriam realizar, mas simplesmente o sofrimento que elas produzem ao, de forma paradoxal, “funcionarem bem”. A psicanálise não precisou partir do normal para discutir os desvios da vida social, um pouco como fazia a medicina social do século XIX ou ainda como certa sociologia do século XIX. Pensemos, por exemplo, nos usos feitos por Durkheim da noção de patologia social enquanto desvio em relação à média. Na verdade, a psicanálise partirá da expressão do patológico, da expressão do sofrimento psíquico compreendido como marcas da violência e da sujeição social.




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