Joaquim Filipe Peres de Castro


Fotografia feita durante o início do mês de Setembro…………………. 83



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7.29 Fotografia feita durante o início do mês de Setembro…………………. 83

7.30 Fotografia feita durante o início do mês de Setembro…………............ 84

7.31 Agência funerária especializada em funerais de emigrantes…............... 84

8. Quadros

Quadro 1: Géneros dos regressados e escolaridade …………………………. 85

Quadro 2: Géneros dos emigrantes e escolaridade …………………………... 85

Quadro 3: Géneros dos regressados para o motivo económico……………… 85

Quadro 4: Géneros dos regressados para o motivo familiar………………… 85

Quadro 5: Idades dos regressados para o motivo político…………………… 85

Quadro 6: Escolaridade dos emigrantes para o motivo aventura……………. 86

Quadro 7: Profissões dos emigrantes no motivo aventura…………………… 86

Quadro 8: Idades dos emigrantes no motivo económico……………………. 86

Quadro 9: Idades dos emigrantes no motivo cultural……………………….. 86

Quadro 10: Idades dos emigrantes no motivo laboral……………… ……… 86

Quadro 11: Géneros dos regressados na clandestinidade……………. …….. 87

Quadro 12: Idade dos regressados na emigração clandestina………… …….. 87

Quadro 13: Escolaridade dos regressados clandestinos……………………… 87

Quadro 14: Profissões dos regressados na clandestinidade…………………. 87

Quadro 15: Géneros dos regressados na ajuda obtida para a partida………… 87

Quadro 16: Géneros dos emigrantes na ajuda obtida para a partida………… 88

Quadro 17: Géneros dos regressados na ajuda para obter emprego…………. 88

Quadro 18: Géneros dos emigrantes na ajuda para obter emprego…………. 88

Quadro 19: Escolaridade dos regressados na ajuda para obter emprego……. 88

Quadro 20: Escolaridade dos emigrantes na ajuda para obter emprego…….. 88

Quadro 21: Géneros dos regressados e profissões antes de emigrarem…….. 89

Quadro 22: Géneros dos regressados e profissões actuais………………….. 89

Quadro 23: Géneros dos regressados e profissões como emigrantes……….. 89

Quadro 24: Profissões como emigrantes nas duas amostras………………… 89


Quadro 25: Géneros nas profissões nos emigrantes ………………………… 90

Quadro 26: Géneros na sindicalização dos emigrantes…………….. ………. 90

Quadro 27: Escolaridade na sindicalização dos emigrantes…………………. 90

Quadro 28: Profissões na inscrição da segurança social…………………….. 90

Quadro 29: Géneros para o motivo familiar………………………………… 90

Quadro 30: Géneros para o motivo saudade………………………….. ……. 91

Quadro 31: Escolaridade para o motivo saudade……………………………. 91

Quadro 32: Idades para o motivo saúde…………………………….. ……… 91

Quadro 33: Idades para o motivo saúde……………………………………… 91

Quadro 34: Escolaridade para o motivo reforma…………………………….. 91

Quadro 35: Profissões dos regressados na discriminação……………………. 92

Quadro 36: Idades dos emigrantes na discriminação………………………… 92

Quadro 37: Idades dos regressados na discriminação…..…………….. ………92

Quadro 38: Géneros dos regressados “não são considerados de cá”………… 93

Quadro 39: Géneros dos emigrantes “não são considerados de cá”………….. 93

Quadro 40: Géneros dos emigrantes para “exibição”………………………… 93

Quadro 41: Géneros dos regressados para “exibição”……………………….. 93

Quadro 42: Idades dos regressados para “exibição”…………………………. 93

Quadro 43: Idades dos emigrantes para “exibição”…………………... …….. 93

Quadro 44: Escolaridade dos regressados para “exibição”……………………94

Quadro 45: Escolaridade dos emigrantes para “exibição”…………………… 94

Quadro 46: Géneros dos emigrantes “para que os não compreendam”……… 94

Quadro 47: Géneros dos regressados em “estão habituados”………… ……… 94

Quadro 48: Géneros dos emigrantes em “estão habituados”…………. ………94

Quadro 49: Géneros dos regressados em “porque são gozados”…………….. 95

Quadro 50: Escolaridade dos regressados em “porque são gozados”……….. 95

Quadro 51: Idades dos regressados para “a língua estrangeira é melhor”…… 95

Quadro 52: Géneros dos emigrantes na “convivência com estrangeiros”…… 95

Quadro 53: Géneros dos regressados na “convivência com estrangeiros”…… 95

Quadro 54: Escolaridade dos regressados na “convivência com estrangeiros.. 95

Quadro 55: Escolaridade dos emigrantes na “convivência com estrangeiros”. 96

Quadro 56: Géneros dos regressados no “uso da língua estrangeira”……….. 96

Quadro 57: Géneros dos emigrantes no “uso da língua estrangeira”………… 96
Quadro 58: Idades dos regressados em “falam sempre bem estrangeiro”……. 96

Quadro 59: Idades dos emigrantes em “falam sempre bem estrangeiro”……. 96

Quadro 60: Géneros dos regressados “em casa falam estrangeiro”…………. 97

Quadro 61: Géneros dos emigrantes “em casa falam estrangeiro”…… ………97

Quadro 62: Géneros dos emigrantes “no estrangeiro falam português”……… 97

Quadro 63: Idades dos regressados no “casamento”…………………. ……. 97

Quadro 64: Idades dos emigrantes no “casamento”…………………… …… 97

Quadro 65: Escolaridade dos regressados no “casamento”…………………. 97

Quadro 66: Escolaridade dos regressados no “casamento”…………………. 98

Quadro 67: Idades dos regressados em “evitar os emigrantes”……. ………. 98

Quadro 68: Idades dos emigrantes em “evitar os emigrantes………… …….. 98

Quadro 69: Profissões dos emigrantes em “evitar os emigrantes”…… …….. 98

Quadro 70: Idades dos regressados “ porque são diferentes” (do “picanço”). 99

Quadro 71: Géneros dos emigrantes para “bom gosto da casa”……………. . 99

Quadro 72: Géneros dos regressados para “bom gosto da casa”……………. 99

Quadro 73: Géneros dos emigrantes para “porque gostam”………………… 99

Quadro 74: Géneros dos regressados para “porque gostam”……………….. 99

Quadro 75: Géneros dos emigrantes para “aprenderam a fazê-las”………… 99

Quadro 76: Géneros dos regressados para “aprenderam a fazê-las”………… 100

Quadro 77: Escolaridade dos regressados na “construção das casas”………. 100

Quadro 78: Escolaridade dos regressados e profissões como emigrantes….. 100

Quadro 79: Idades dos emigrantes em “as casas são diferentes”……………. 100

Quadro 80: Géneros dos emigrantes na percepção da ascensão social……… 101

Quadro 81: Géneros dos regressados na percepção da ascensão social…….. 101

Quadro 82: Escolaridade dos regressados na percepção da ascensão social… 101

Quadro 83: Escolaridade dos emigrantes na percepção da ascensão social… 101

Quadro 84: Géneros dos regressados no nível económico anterior ………… 102

Quadro 85: Idades dos regressados no nível económico anterior…………… 102

Quadro 86: Escolaridade dos regressados no nível económico anterior……. 102

Quadro 87: Escolaridade dos regressados para “férias”……………………. 102

Quadro 88: Escolaridade dos regressados para “reencontro familiar”………. 103

Quadro 89: Escolaridade dos regressado para “má educação”……………… 103

Quadro 90: Escolaridade dos emigrantes para “má educação”……………… 103
Quadro 91: Idades dos regressados para “acham-se pessoas importantes…… 103

Quadro 92: Idades dos emigrantes para “acham-se pessoas importantes”….. 104

Quadro 93: Idades dos regressados para “mais dinheiro”……………. …….. 104

Quadro 94: Géneros dos regressados para “são diferentes”…………………. 104

Quadro 95: Géneros dos emigrantes para “são diferentes”………………….. 104

Quadro 96: Escolaridade dos regressados em “são a maioria”………………. 104

Quadro 97: Escolaridade dos emigrantes em “são maioria”…………………. 105

Quadro 98: Escolaridade dos regressados para “inveja”…………………….. 105

Quadro 99: Idades dos regressados para “inveja”……………………………. 105

Quadro 100: Idades dos emigrantes para “inveja”…………………………… 105

Quadro 101: Escolaridade dos emigrantes para “menos dinheiro”………….. 105

Quadro 102: Idades dos emigrantes para “barulho”…………………………. 106

Quadro 103: Escolaridade dos regressados na “língua”…………………….. 106

Quadro 104: Escolaridade dos emigrantes na “língua”……………………… 106

Quadro 105: Idades dos regressados “porque são diferentes”………………. 106

Quadro 106: Escolaridade dos regressados na “casa”………………………. 107

Quadro 107: Profissões dos emigrantes na “casa”………………………….. 107

Quadro 108: Escolaridade dos regressados na “poupança”………………… 107

Quadro 109: Idades dos regressados na “poupança”……………………….. 107

Quadro 110: Géneros dos emigrantes na “poupança”………………………. 108

Quadro 111: Profissões dos emigrantes na “poupança”………………......... 108

Quadro 112: Escolaridade dos regressados e “investimento” “em França”… 108

Quadro 113: Géneros dos emigrantes e “investimento” “em França”………. 108

1. Trabalho e saúde mental


O ser humano é um ser bio-psico-social. A tríade actua no campo da história do pensamento e no registo social (International Organization for Migration [IOM], 2003):
Taking a psychosocial approach implies that is a link between social and cultural factors and the functioning of the ”psyche” or, more generally, mental well-being. Hence, a psychosocial approach implies that one can affect the “mental well-being” of an individual or a group by action on the social factors that surround them. (p. 1)
O conceito de saúde biopsicossocial é, aqui, entendido como sendo, fruto de um desenvolvimento sociocultural. Trata-se, pois, de colocar em evidência o facto da própria definição de saúde biopsicossocial se constituir como uma concepção historicamente construída, encontrando-se subjacente a esta construção a crescente auto-regulação do ser humano, tal como é proposto por Elias (1999). O processo civilizacional é afigurado como um crescendo do controlo dos impulsos naturais, os quais, quando interiorizados pela socialização se tornam em auto-controlo233. Em termos funcionais e dinâmicos, a noção de saúde biopsicossocial é, antes de mais, um legado cultural. Mas, é no registo social que ganha sentido, pois é pensada e reconstruída como um elemento constitutivo da sociedade. O espanhol Marin (1990) define do seguinte modo a concepção de saúde:
A) No se entiende ya como una ausencia de enfermedad, sin como un estado de bienestar físico, psicológico y social. B) El contenido de tal estado no queda definido de una vez por todas, sino que varía en función de las condiciones históricas, culturales e sociales de la comunidad que lo formula y lo acepta. c) En este sentido, la salud es un problema social y un problema político cuyo planteamiento y solución activa y solidaria de la comunidad en su definición, en la gestión y control del sistema sanitario y en la intervención dirigida a su promoción y prevención de la enfermedad. (p. 139).
Da definição acima citada, para além da ênfase no bem-estar físico, psicológico e social, devemos realçar a importância das condições históricas, culturais e sociais. Em termos funcionais, assiste-se a uma interdependência entre os elementos. O elemento “bio”, por exemplo, modela e é o suporte da “psique” e vice-versa. O sentido da relação é, pois, bireccional, a influência da “psique” sobre a “bio” poderá ser constatada, por exemplo, pelas disfunções psicossomáticas freudianas. Por seu turno, a díade bio-psique, descrita até aqui, transforma-se num triângulo, na medida em que, por exemplo, o afecto entre os elementos “bio” e social é bidireccional. Se, por um lado, certo é que a biologia afecta o desenvolvimento social, mais certo ainda é que o desenvolvimento social e/ou o sociocultural, se sobrepõe de sobremaneira ao biológico e ao psicológico. Por exemplo, a construção sináptica é influenciada pelo social, no que diz respeito ao neo-córtex e às funções superiores do pensamento. (Loring, 1999). Um outro exemplo será o próprio emergir da psicologia como ciência autónoma, pois, esta é fruto de um desenvolvimento histórico.
Segundo Vidal (1991, 1996), o primeiro modelo de saúde mental é o demonológico, o qual decorre desde a idade média até ao século XVIII. O segundo modelo é o biomédico de Kraeplin, a matriz da doença mental é atribuída a fenómenos exclusivamente orgânicos: as alterações bioquímicas. Este modelo ocupa todo o século XIX, impondo-se sobre o demonológico (Foucault, 1999). No registo estritamente epistemológico, emerge a razão iluminista. O ser humano passa a ser definido pela sua actividade e capacidades cognitivas. Deste modo, são criadas as primeiras unidades hospitalares de saúde mental234. Trata-se de confinar, mas também de compreender a loucura. Confinar porque o louco passa a encontrar-se excluído da sociedade e do Estado. Trata-se da primeira tentativa de compreender a loucura, ainda que de forma discriminatória. O quarto modelo é o psicanalítico. Freud, nos derradeiros anos do século XIX, funda o método psicanalítico. A causa da doença mental passa a ser totalmente intrapsíquica, isto é, psicológica. Ora, se a causa é psicológica, a solução será igualmente psicológica. Em termos históricos, é Freud quem funda o tratamento dos transtornos mentais através de meios psicológicos, isto é, a psicoterapia. O quinto modelo corresponde à psicologia comunitária, a qual surge nos anos 60, durante a administração Kennedy. A atribuição causal e a acção remetem não apenas para factores intrapsíquicos, mas também para factores relacionais, ou seja, comportamentais, históricos, sociais e culturais. A noção de saúde mental, desta forma, passa a ser considerada como biopsicossocial. A noção de saúde biopsicossocial implica, a introdução do social, não apenas como causa, mas também como autoreguladora da sociedade235.
Ao longo da filogénese, aquilo que se tem alterado são os factores socioculturais e não os biológicos. Sendo que a própria compreensão da “bio”, em termos sensoriais, é influenciada pela cultura de pertença; um médico, por exemplo, terá maior facilidade para ler as suas sensações propriosencitivas do que um leigo. A cultura de pertença afecta também a vivência das emoções. Vigotski chega mesmo a referir-se ao “sentimento histórico”, na medida em que os sentimentos são afectados historicamente:
. . . Já dissemos que, como expressava corretamente (Sic) Spinosa, o conhecimento de nosso afeto (Sic) altera este, transformando-o de um estado passivo em outro ativo (Sic). Em termos simples, nossos afetos (Sic) actuam num complicado sistema com nossos conceitos e quem não souber que os ciúmes de uma pessoa relacionada com os conceitos maometanos da fidelidade da mulher são diferentes dos de outra relacionada com um sistema de conceitos opostos sobre a mesma coisa, não compreende que esse sentimento é histórico . . . (1996, pp. 126 e 127).

A noção de saúde mental é, aqui, afigurado como um artefacto historicamente construído, não descurando, no entanto, as determinantes biológicas. Para a psicologia sociocultural, o meio cultural poderá ser definido como o conjunto das transformações do ambiente físico acumuladas pelo grupo social no ser desenvolvimento histórico, transformações essas que se apresentam sob a forma de artefactos ou instrumentos culturais; a linguagem é uma delas.


No registo ontogenético (Leal, 1993, 1994, 2001, 2004), a organização de um Eu estrutura-se na relação com um Nós, ou seja, com o legado sociocultural, sendo a relação entre os elementos bireccional. No desenvolvimento humano quem interage com o Eu é, em primeiro lugar, um Outro cuidador. Estas são, evidentemente, mais complexas do que as crianças, permitindo à criança um desenvolvimento integral, no sentido em que se apropriam do artefactos presentes no seu meio cultural de pertença. Sem abandonar a relação com o Outro mais complexo, a criança integra-se no Nós como sujeito actuante, ou seja, como actor social. Do primeiro cuidador primário passa-se para o cuidado dos pares, antes de se efectuar a individuação social mediante uma outra pessoa compatível e capaz de facultar um projecto de vida, o qual visa tornar o ser humano numa Pessoa, no sentido rogeriano (Rogers, 1974). Sendo, agora, também agente de estruturação social, quando, no início da sua vida, era, mormente, um agente de apropriação do desenvolvimento sociocultural, aquilo que se realça, no entanto, é a importância da relação sociocultural mediada ou como nos diz Vigotski:
O caminho do objecto até à criança e desta até ao objeto (Sic) passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. (2002, p. 40).
Cabe-nos elaborar, aqui, uma ressalva, uma vez que somos o produto e produtores da realidade (Nunes, 1993). Apesar das evidências concretas do desenvolvimento humano, o aqui discutido não deixa de apontar também para um ideal. É curioso notar que as formulações da psicologia não estão isentas de perspectivas idealistas, por exemplo, nos estádios de desenvolvimento moral de kohlberg (Gleitman, 1993; Sprinthall & Collins, 1999) e nos estádios de desenvolvimento interpessoal de Selmam esta realidade emerge (Sprinthall & Collins, 1999). Porém, de qualquer modo, este desenvolvimento efectua-se através da actividade dos actores sociais e não mediante uma mera abstracção.
O desenvolvimento sociocultural tem permitido uma maior auto-regulação do comportamento, tal como observou Touraine (1996, p. 56): “A tendência principal das sociedades modernas vai sendo no sentido de um reforço e de uma concentração crescente da sua capacidade de acção sobre si mesmas.” ou Elias (1999, pp. 58 e 62):
. . . as pessoas desses séculos começaram a . . . em nome de princípios impessoais fixos, tais como conservantismo (Sic), comunismo, socialismo e capitalismo. No centro de cada um desses sistemas de crenças sociais, em nome dos quais se lutava, estava a questão de como iriam as pessoas organizar conjuntamente as suas vidas em sociedade . . . as pessoas começavam a encarar-se a si mesmas de uma nova maneira – como sociedade.
A psicologia da saúde fornece o instrumento para pensarmos a actividade mediada, uma vez que a construção do sentido social é fruto da actividade sociocultural. No que diz respeito ao estudo de caso, a saúde foi entendida de várias formas, em primeiro lugar, decorrente da ambivalência cultural dos emigrantes, das relações familiares, das condições sociais do espaço de partida e de acolhimento e, em consequência, das condições de saúde decorrentes da actividade profissional236.
As psicopatologias, assim como a saúde em geral, encontram-se directamente relacionadas com as condições sociais (IOM, 2003). No âmbito das condições sociais e de trabalho, a esperança média de vida varia de classe para classe profissional. Na literatura acerca da emigração, o emigrante português é afigurado como um trabalhador invulgar (Alpalhão & Rosa, 1980; Gonçalves, 1996). Na mesma obra, Alpalhão e Rosa (1980, 1983), contradizem-se ao citarem uma edição do um jornal de Montreal, no qual os emigrantes portugueses são considerados propensos às doenças físicas, devido à mudança sociocultural a que foram sujeitos. Segundo Alpalhão e Rosa (1980, 1983), a psicóloga Ethel Roskies afirmava que, no seio dos emigrantes portugueses, as doenças mentais tinham aumentado, sendo que estas aumentavam em função do tempo de permanência e do grau de mudança encontrado no país de acolhimento, colocando em causa a sua capacidade de trabalho, ou seja, em última instância, a sua capacidade de integração social.
Para Netep (Citado por Monteiro, 1985), a psicopatologia, na emigração, estará relacionada com o grau de mudança psicossocial, relacionando-se estes com os transtornos de adaptação (American Psychiatric Association, 2002). Por outro lado, num estudo realizado por Simões e Binder (1980), realizado a 100 emigrantes portugueses no cantão de Zurique, revelou que os emigrantes portugueses mostravam um nível mais adequado de saúde mental do que os residentes em Lisboa. Em qualquer caso, é sempre de salientar que o percurso emigratório não é causa directa de disfunção psicopalógica, senão que ele se constitui como um factor de risco: “Although migration does not necessarily threaten mental health, it may create a specific psychosocial vulnerability and, as a result, mental heath can be affected when these pressures are combined with other risk factors.” (IOM, 2003, p. 1).
Para além de um presumível transtorno de adaptação, as diferenças constatadas poderão ainda serem de género, Rosa e Roma (2002), citando Lida-Miranda, afirmam que as mulheres eram mais propensas às doenças. Contudo, os autores citados verificaram que as mulheres idosas detinham uma noção de saúde biopsicossocial, uma vez que a saúde dependeria da nutrição, das actividades físicas e sociais e das consultas aos respectivos especialistas. Apesar do percurso de vida ser marcado pelas condições precárias: “. . . parece haver uma relação estreita entre saúde e estatuto social . . .” (Rosa & Roma, 2002, p. 142). Nas nossas amostras são as mulheres que mais revelam problemas de adaptação, uma vez que têm uma maior percepção acerca da discriminação. E na amostra de emigrantes regressados são “elas” que colocam a ênfase na razão saúde, a qual terá contribuído para o regresso. De qualquer modo, a mudança de ocupação laboral, em ambos os géneros, é notável.
Regressando à problemática do trabalho e da sua relação com a saúde mental, segundo Tripier (1990), as condições de acolhimento francesas, na década de sessenta, influenciam o comportamento do trabalhador, traduzindo-se aquelas em excesso de zelo, não sendo esta uma condição exclusiva dos portugueses: “Nous avons remarquer une certaine similitude des comportements des ouvriers émigrés lors de leurs premières expériences de travail industriel: “excès de zèle”, retrait de la vie sociale, etc. “. (Tripier, 1990, p. 269). O excesso de zelo, segundo Monteiro (1985), resulta, para além das condições de integração na sociedade de acolhimento, dos ganhos marginais crescentes consoante o aumento da força de trabalho empregue.
Os ganhos marginais crescentes e a expectativa de brevidade do percurso emigratório reforçam-se, propiciando, em termos cognitivos, um investimento desmesurado na actividade laboral237. Um dos informantes privilegiados, médico pediatra com longos anos de experiência no concelho de Melgaço, quando questionado acerca da presumível influencia negativa da actividade laboral na saúde dos emigrantes, é peremptório na questão, deixando entrever na sua resposta as condições de trabalho precárias238. Quanto à questão: “na sua opinião o percurso emigratório afecta negativamente a saúde dos seus pacientes”, a resposta também é afirmativa, remetendo-a para as condições de trabalho239.
Nas entrevistas exploratórias e na literatura especializada, o trabalhador português é afigurado como incansável, quase sobre-humano, sobretudo quando comparado com os trabalhadores de outras nacionalidades. Esta é uma imagem reconfortante, mas excessiva e etnocentrica. É curioso verificar que, o discurso passa dos emigrantes para o “português”. Como se a capacidade de trabalho fosse algo de intrínseco240, de constitutivo dos portugueses e não das condições laborais: contratos de trabalho, da clandestinidade, da insegurança ou desconfiança básica adquirida em Portugal, ou seja, das condições da sociedade de partida e das condições da sociedade de acolhimento.
As condições de partida, como a clandestinidade, terão reforçado a visão do trabalho como um sacrifício – na sociedade portuguesa, o trabalho não adquire um valor totalmente intrínseco, ao contrária das sociedades nórdicas, a actividade laboral adquire um valor instrumental (Freire, 2000) –, assim como a imagem do português como um trabalhador incansável, terão sido fruto do excesso de zelo de que fala Tripier (1990). Os mesmos comportamentos sucediam no Canadá: “A segurança exagerada posta no dinheiro constitui um facto por vezes patente e uma razão que leva a sacrificar-lhe outros valores. Daí, a acumulação de ocupações e os horários de trabalho excessivos.” (Alpalhão & Rosa, 1983, p. 163). Assim sendo, na sociedade de acolhimento, operava-se, evidentemente, o “gosto” dos empregadores pela mão-de-obra portuguesa, até porque estes ocupavam os escalões mais baixos da hierarquia social, não acentuando possíveis conflitos com os naturais. No entanto, eles existiram241.
Uma compreensão mais abrangente do fenómeno é fornecida pelo também emigrante Eduardo Lourenço, uma vez que introduz a vertente histórica na sua análise: “A imagem do mal que o emigrante passa lá fora consola de algum modo a vaidade pátria e por isso se evoca como tanta complacência . . .” (Lourenço, 1988 [1978], p. 124). De qualquer modo, aquilo que se encontra em questão será o isolamento relacional, quer no país de acolhimento, quer no de partida. Ora, sendo a noção de saúde biopsicossocial, a derradeira vertente estará comprometida, o que se traduz num viver a doença e a dor mental em isolamento. Em qualquer caso, o enfraquecimento da vertente social depende do nível socioeconómico e do grau de integração na sociedade de acolhimento.
No que diz respeito à emigração e à saúde mental, uma outra questão prende-se com a família, em termos comparativos, na emigração galega, a emigração terá diminuído a importância quantitativa da família ampliada, fazendo aumentar o número de famílias reduzidas (Hernández, 1992; López, 1974), o que constitui como um factor de risco, uma vez que a acção das redes sociais de suporte ficaria diminuída. Para Pina-Cabral, (1989), o mesmo sucedeu no Alto-Minho. Em Portugal, as famílias monoparentais têm aumentado imenso, a dimensão média da família portuguesa é de 3,4 indivíduos. Em Melgaço, cada família é constituída em média por dois vírgula seis por cento de indivíduos (Instituto Nacional de Estatística [INE], 2001).
De acordo com o pediatra e informante privilegiado: “A emigração terá influenciado negativamente o funcionamento familiar e, em consequência, a saúde dos seus paciente”, a resposta foi a seguinte:
Sim, a ausência do pai, decapita a unidade familiar, conduzindo a uma diferenciação . . . ficando a mãe com a responsabilidade exclusiva da gestão do núcleo e educação dos filhos. Com consequencia podem surgir patologias do foro mental, quer na mãe, quer nos filhos e verifica-se uma inevitável repercussão na educação dos mesmos.
Em termos históricos, as patologias resultantes da emigração foram estudadas por Thomas e Znaniecki (Prus, 1996), incidindo estas, sobretudo nos filhos dos emigrantes polacos, nos idosos e na organização familiar242. Em termos genéricos, para os informantes privilegiados, a emigração terá influenciado negativamente o funcionamento familiar e, em consequência, a saúde dos seus pacientes. Um dos informantes privilegiados, afirma que se regista um aumento dos transtornos ansioso-depressivos.
Fora do âmbito espacial e no registo da ambivalência cultural, segundo Neto (1985), não se assiste a um consenso entre o aumento das patologias na comunidade emigrante. O psicólogo português aborda a questão a partir da crise de identidade nos jovens, os quais vivem entre dois mundos: o da reprodução dos modelos paternos e o da integração no espaço de acolhimento. Segundo Brettell e Rosa (1984), a primeira geração tende a manter relações familiares centrípetas, enquanto que a segunda se mostra centrifuga.
Para os informantes privilegiados, também não se assiste a uma relação directa entre emigração e patologias mentais, sendo que para um dos informantes, ela se poderá relacionar com o âmbito familiar. No entanto, quando questionados se na sua opinião o percursos emigratório afecta negativamente a saúde dos seus pacientes é-nos ditos de modo consensual – exceptuando um dos casos – que sim, nomeadamente, no que se prende com o trabalho realizado na construção civil, traduzindo-se na traumatologia e em doenças dermatológicas, assim como devido à separação familiar, ao isolamento das pessoas e falta de comunicações, registando-se um aumento da ansiedade. Para o pediatra informante privilegiado: “Sim. Ao afastar-se por longos períodos do meio familiar, criam-se condições para o aparecimento de patologia mentais, particularmente depressão, mesmo em pessoas saudáveis, mas, sobretudo naquelas que apresentam susceptibilidade inata para o desenvolvimento de patologias desse foro.”
Outra forma encontrada para verificar se, de qualquer modo, a emigração se relaciona ou não com a saúde mental, foi-nos emprestada pelas duas farmácias existentes em Melgaço. Tratou-se de aumentar o grau de objectividade da problemática. As primeiras seis questões apresentadas versavam sobre o aumento do consumo de ansiolíticos, hipnóticos e de antidepressivos, no período do Verão, sem ou com a presença de emigrantes, ou seja, três delas implicam a presença de emigrantes. Quer a opção de resposta referente aos ansiolíticos, quer a referente a antidepressivos obtiveram um maior consumo243. O aumento das vendas referentes aos hipnóticos não é consensual. Por fim, quando questionados acerca da questão: outros serviços prestados ou medicamentos psicotrópicos aumentam durante o período de Verão, a resposta não é de novo consensual, sendo consensual, quando à mesma questão é acrescentada: “. . . devido, sobretudo à presença dos emigrantes”.
Em termos comparativos, é curioso verificar que a concentração de marroquinos nas fábricas de automóveis em França se salda também pela sua representação de trabalhadores incansáveis, revelando a segmentação laboral: “The Morocans were recruited because they were eager to work, or because they reputed to be physically apt and hardworking people”. (Castles and Miller, 1996, p. 190). Em qualquer caso, a saúde dos emigrantes depende das condições sociais dos espaços de partida, de acolhimento e da relação entre ambos.


    1. Referências bibliográficas

Alpalhão, J & Rosa, V. (1980). A minority in a changing society. Ottawa: University of Ottawa Press.


Alpalhão, J & Rosa, V. (1983). Da emigração à aculturação: Portugal insular e continental no Quebeque. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e cultura.
American Psychiatric Association (2002). DSM-IV-TR: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, (4° Ed, J. N. Almeida, Trad.). Lisboa: Climepsi.
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2. Guião de entrevista semi-estruturada

Objectivo:


  1. Mostrar a percepção ou atribuição de sentido dos emigrantes para o conflito ou “clivagem” social entre os emigrantes e os residentes.

Guião de entrevista semi-estruturada


Instruções: Esta entrevista destina-se a uma investigação científica lavada a cabo no âmbito da dissertação de mestrado na Universidade Fernando Pessoa.

É garantido o sigilo, segundo o Código Deontológico dos Psicólogos.


I. Identificação
Nome: _________________________________________
Idade: _________ Género: _________
Profissão: _________
País (es) de acolhimento: ________, _________, _________

II. História emigratória


1. Emigrou porquê?
2. A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?
3. E o regime fascista do Estado Novo?
4. Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?
5. Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigrar?
6. Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?
7. Alguma vez se sentiu descriminado, no país de acolhimento?
8. A sua integração, no país de acolhimento, foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?
III. Conflito ou “clivagem” social
9. São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, o qual nem sempre acabava da melhor forma. Poderia descrever outras formas de “picanço”?
10. Como explica esse comportamento, por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?
11. Sendo português, alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?
12. Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?
13. Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?
14. Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes que não emigraram?
15. Como pode explicar esta afirmação: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?
16. Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento?

Se sim, poderia dizer quais?


17. Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas formas de estar?
18. Acha que os residentes tinham razão, quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?
19. Como explica o facto de que Portugal, sendo o país dos descobrimentos, espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?
(Obrigado pela sua colaboração)

2.1 Pedido de confidencialidade


Sigilo Profissional

Código Deontológico dos Psicólogos


Secção III
Art. nº 12 – Com ressalva do disposto no art. 16, constitui obrigação indeclinável dos Psicólogos a salvaguarda do sigilo sobre os elementos que tenha recolhido no exercício da sua actividade profissional ou das suas investigações, desde que a (s) pessoa (s) a quem se referem seja (m) de algum modo identificável (eis).
Art. nº 15 – O sigilo é referido à difusão oral ou escrita de informações. O psicólogo deve, pois, velar por que os documentos provenientes do seu trabalho (conclusões, comunicações, relatórios, gravações, exposições, etc.) sejam sempre apresentados e classificados por forma a garantir que o sigilo seja respeitado, evitando intromissões abusivas na vida íntima dos indivíduos ou danos de alguma espécie.
Art. nº 16 – Os casos individuais só podem ser utilizados pelo psicólogo, em situações de ensino, publicações ou apresentação a colegas, desde que a identificação das pessoas visadas não seja possível.


  1. Quando os dados a transmitir sejam de tal modo singulares que a identidade da pessoa visada não possa de todo ser salvaguardada, a sua utilização nas situações indicadas no nº anterior só pode ter lugar mediante autorização escrita daquela.

Art. nº 17 – Aplicam-se aos psicólogos as disposições da lei respeitante ao sigilo profissional.

________________________
(O mestrando Joaquim Filipe Peres de Castro)

3. Entrevistas exploratórias através de guião de entrevista semi-estruturada


Entrevista número 1
Nome: Entrevistado número 1

Idade: 63

Género: Masculino

Profissão: Reformado

País (s) de acolhimento: Bélgica, Espanha
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Emigrou para onde?

A: Em 66 fui para Bruxelas. ‘tive na Bélgica, Barcelona e, nos últimos dez anos, em Paris. Quer que lhe mostre um guia de Barcelona.

Inv: Sim, sim. É, de facto, a melhor cidade para viver . . .

Inv: Que idade é que tem?

A: 63.

(mostra um guia da cidade de Barcelona)



Inv: Emigrou Porquê?

A: A vida, aqui, continuava igual, fui para a tropa em Janeiro de 63, fui para a Guiné. Três anos, vinte e cinco meses, depois, vim para cá. E isto ainda continuava na mesma, o Salazar ainda ‘tava no posto dele. E ‘tive uma oportunidade de ir para a Bélgica. E aproveitei. Fui para lá.

Inv: E a guerra colonial não o influenciou em nada, até porque esteve lá?

A: ‘Tive na Guiné vinte e cinco meses, em 63 e foi o pior. A guerra ‘tava no auge.

Inv: E o regime fascista também o influenciou a emigrar?

A: Ah, também, aqui, no concelho de Melgaço não tinham muita força, não havia muita PIDE. Eu, não sofri. Mas, moralmente, foi uma das coisas que também. Se o golpe de Estado tivesse sido, logo, que eu vim da Guiné nunca tinha saído do meu país. Eu, nunca tive intenções de sair do meu país, a prova disso é que fui à tropa. E tive 37 meses de tropa. Mas, depois de vir, vi que isto continuava igual. E disse: “isto, aqui, não, continuava tudo igual.”

Inv: e porque é que não foi para as ex-colónias?

A: ‘tava farto, de colónias ‘tava eu farto, aqui, foi tremendo, as condições em que se vivia eram tremendas. Então, houve uma oportunidade por intermédio do meu padrinho, o João do Hilário, eu, eu trabalhava na agência. Tive um ano sabático, de 65 a 66, tinha lá um grande amigo que tenho ainda, ainda ‘tá lá, em Bruxelas, na Grand Place, em Bruxelas.

Inv: E como imaginava a Bélgica?

A: A primeira vez que cheguei lá, não tinha nem ideia, era outro mundo, falando socialmente, democraticamente . . .

Inv: A língua?

A: A língua era mais o francês, flamengo também aprendi algumas palavras, para poder trabalhar. Depois, aprendi a falar francês, trabalhava no grande restaurante, lindíssimo, D. Manuel, em Bruxelas, depois inscrevi-me num curso, um ano e tal, para poder trabalhar em Hotelaria. Lá aprendi a trabalhar, lá eram todos profissionais. Havia, havia dois chefes de sala . . .

Inv: E nunca foi discriminado?

A: Não, nunca, em nenhum sítio.

Inv: E a integração no trabalho fui difícil, foi fácil?

A: Não, porque eu fui para pessoal amigo, tratavam-me como se fosse uma pessoa da casa, um familiar. E colegas, havia espanhóis, belgas, italianos, marroquinos, aquilo era uma babel. E, então, nunca me senti discriminado. Em Barcelona ainda menos. Em Paris não, não. ‘Tive a trabalhar numa grande empresa, na Alcatel, dez anos, de 86 até á quatro anos porque me propuseram a pré-reforma.

Inv: E, aqui, nunca foi discriminado por ser emigrante?

A: A mim não, nunca ninguém se atreveu, mas, eu, ouvia cá essas histórias. Isso é uma estupidez. Emigrantes há, em todo o lado.

Inv: E por que é que acha que os daqui picavam os emigrantes?

A: Há várias explicações. Duas ou três explicações. Em primeiro, quando saímos daqui não tinham . . .

Inv: Até porque os residentes e os emigrantes separavam-se, havia um café dos emigrantes ou que era frequentado quase só por residentes.

A: Sim, havia. Mas, eu, não, eu, tinha aqui amigos. Oh, joaquim, essa gente, em primeiro, o dinheiro subiu-lhes à cabeça, vinham para aqui nos anos 60, vinham para os cafés, aqui, nunca tinham tido isto, foram para França e o dinheiro a entrar em força, claro, trabalhavam como negros, em condições infra-humanas, eu, fui visitar o famoso bidonville de Champigny com o meu primo, o Zé Pessoa. Eu, tinha férias e fomos a Paris, íamos visitar os amigos de cá, e aquilo era . . . barracas e contentores, alguns eram mesmo no chantier, em condições infra humanas mesmo. Aqui, começaram a ter uma certa rejeição, uma certa crítica, nem todos faziam isso, mas muitos vinham com os bolsos cheios de dinheiro, não serviam a cerveja a copo nem nada, era logo muitas garrafas de cerveja:”ponha, aqui”. Era aquela prepotência que, eu, e amigos meus, nunca fomos assim.

Inv: Eram mais os do monte?

A: Sim, essa malta nova, os daqui também faziam isso, mas era menos, à parte de um ou outro que saia fora da norma. E a aversão talvez venha um pouco daí. Aquelas críticas, era um pouco isso. Depois, era o nível cultural. Eu, dizia, nem todos fazem assim, aqueles que têm esse comportamento, põe-se de parte e acabou. És tu que escolhes os teus amigos e as tuas relações.

Inv: Mas, havia isso . . .

A: Havia, havia uma certa rejeição, mas era mais por isso, alguns, uma quantidade deles, vá, vinham com aquela prepotência, traziam uma quantidade de dinheiro. O dinheiro que muitas vezes é um problema. Eu, uma vez ou duas ‘tive que meter os pontos nos is a um ou dois. E foi um nunca mais. Não ‘tive problemas nenhuns. Via que, eu, não era, não tinham nada a dizer. Digo as coisas, na medida do possível, o mais correctamente possível e nunca aconteceu nada.

Inv: E nunca sentiu, aquela coisa da ambiguidade: em França, somos portugueses e, aqui, somos francesas.

A: Não, nunca senti, Portugal era a minha terra, ia a Lisboa, ao Porto, ouvia certos comentários, mas, prontos, eram só comentários.

Inv: Mas, acha, que os daqui tinham razões para dizer que todos os emigrantes eram uns convencidos e arrogantes?

A: Alguns sim, algumas coisas sim, justificavam-se porque eles . . . Essas pessoas fazerem essas coisas, eu, culpo um pouco a ignorância e a falta de escolaridade dessas pessoas. A maioria é tudo analfabetos e semianalfabetos, eu, e muitos amigos de cá só tínhamos a 4º classe. Eu, fiz o curso de noite na escola comercial do Porto, não acabei, não tirei o diploma, pois, fui para a tropa. Aqui, andei na escola de agricultura com o . . . Uma das razões que tinham essas pessoas, eu, não diria ódio, ódio é uma palavra muito forte, mas aquela aversão, inveja?, alguns também seria por inveja. Mas, os daqui da vila, com a 4º classe, não pudemos ir estudar para baixo, pagar um quarto, os estudos nessa época eram muito caros. Hoje, é diferente. Eu, tenho três filhos e ‘tão todos licenciados, o meu filho é economista, ‘trabalha no . . . , a minha filha é de relações internacionais. E olha que pouco gastei com eles, eu vivia nas aforas de Paris, tinha casa. Para nós fui mais fácil pôr a estudar os nossos filhos do que para os nossos pais. O governo, lá, em França, ajuda mais . . . E a Becas (Bolsas) que têm, ajudam. E até tinham duas bolsas, uma a nível nacional e outra regional. E não era pouco, para eles . . .

Inv: Eu, sou de privadas . . . E adquiriu formas de estar e de viver, nos sítios onde esteve?

A: Adaptei-me sempre nos sítios para onde ia, mas cuidado, sem perder a minha identidade de português.

Inv: Mas, quais é que adquiriu?

A: Hoje, tenho a dupla nacionalidade, a portuguesa e a espanhola. Tenho passaporte espanhol, desde 73 ou 74, um ano depois de casar. Jurei a constituição espanhola . . . Fui para Paris como espanhol, ajudou. Tenho a segurança social, tenho os direitos todos, os meus filhos têm os direitos todos. Cobro uma pensão de viuvez, aqui, não há, em França também não. Fui o Filipe Gonçalez que fez isso, fui a primeira vez que, eu, votei. Nós, aqui, é que não há maneira. Basta ir, aqui, ao Porrinho (concelho vizinho da Galiza) e ver aquela industria, aqui, tão perto. Eu, tenho também um certo carinho por Espanha.

Inv: E França?

A: Também, mas mais Bruxelas, é uma alegria ir ver as ruazinhas do centro, é lá que têm o restaurante. Há uns dias fizerem uma reportagem a partir de lá. Passaram muitas personalidades, políticos, actores, olha, um Simões, o Eusébio, o Torres, o Coluna, falei com essa malta toda. Falei com o Pelé como estou a falar agora. A Amália Rodrigues que foi duas vezes ao Olímpia ao Casino de Paris. Paris é um espectáculo. Eu, agora, é que, eu, conheço Paris. Eu, vou fazer uma revisão ao hospital, tenho tempo. Já está . . . Explica-me o que andas a fazer. Depois falámos mais.


(Fecho da entrevista)
Entrevista número 2
Nome: Entrevistada número dois

Idade: 29 anos

Género: Feminino

Profissão: Licenciada em Direito

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Porquê é que emigrou?

Id: Os meus pais ‘tão, em França, e, eu, nasci lá, sou francesa e portuguesa, ao mesmo tempo. Felizmente, os dois países deixam haver dupla nacionalidade.

Inv: A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

Id: Não sei, para os meus pais . . ., isso é do tempo deles. Mas, como ‘tão sempre a dizer mal de Portugal, é bem possível.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

Id: Devias ter escolhido uma pessoa mais velha para fazer a entrevista.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

Id: Olha, nos dias de hoje, não seria má ideia. Quando entramos nas perguntas do picanço?

Inv: É rápido, não te preocupes.

Inv: Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigrar?

Id: Pois, essa só se for para Portugal, eu, a bem dizer emigrei para Portugal. Sou francesa e passava mais tempo na França. É normal que sinta isso. Sou advogada e não posso exercer cá, se não fossem os meus pais a trabalharem ‘tava tramada, mas quero ficar cá, em Portugal, tenho que fazer o exame na ordem. De Portugal conhecia Melgaço, era a imagem que tinha. Há dois meses ‘tive em Lisboa, no Algarve e no Alentejo, é muito bonito.

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?

Id: Em França? Nem sim nem não. Não tenho nada contra a França. Na faculdade, como sou loira e alta, quando dizia que era portuguesa não acreditavam. Na minha faculdade, que eu saiba, era a única portuguesa. Na França não se liga tanto como cá de onde vimos, há muita mistura. Os portugueses, em França, portando-se bem, não são notados. O problema deles é que se portam sempre bem. E os outros, os árabes, os asiáticos ficam com os direitos todos, passam-lhes a perna. Nem com a União Europeia se notou diferença, falam em direitos, mas não os dão. Quem gosta dos portugueses é o Le Pen. Esse é um hipócrita. Há uns anos chamou os portugueses de porcos, incluindo o presidente de Portugal e, nas eleições, precisa dos portugueses. Os emigrantes não sabem lutar pelos direitos.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado no país de acolhimento?

Id: São os mais velhos que falam disso, mas só falam disso nas férias, em França não falam, sentem vergonha. E, em Portugal, quase que se gabam.

Inv: A sua integração no país de acolhimento foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?

Id: Nasci lá, nunca senti nada disso, acho que os muçulmanos são discriminados. Na França, é proibido enviar currículos com o nome e a fotografia porque eles não são empregados. Os portugueses não são discriminados, acho que são consentidos, se se portarem bem. Mas, há problemas com os portugueses, há portugueses a viverem muito mal. Mas, a isso ninguém liga, nem cá nem lá, desde que trabalhem e se considerem franceses, tudo bem.

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, qual nem sempre acabava da forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever outras formas de “picanço”?

Id: Isso ainda existe, nas discotecas. Em Monção na (nome de discoteca) há sempre problemas, aqui, não há discotecas.

Inv: Como explica esse comportamento, por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?

Id: Só os parvos é que picam os emigrantes. Às vezes, mandam uma boca, mas isso é tudo. Só os parvos é que vão mais longe.

Inv: Sendo português, (a) alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?

Id: Só nas bocas, o resto, evito os sítios com essas pessoas parvas.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

Id: É o que acontece nas discotecas com os mais novos. Talvez porque só falam francês. É muito fácil assim.

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?

Id: É a mesma coisa, mas ao contrário, quando era mais nova, nas discotecas, os rapazes de cá, vinham falar connosco e os rapazes emigrantes tinham ciúmes, na altura, até era giro, mas é realmente uma estupidez.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes não emigrantes?

Id: Pois, é . . . é bem assim. Explico: porque os portugueses nunca se juntaram, não têm força.

Inv: Como pode explicar esta afirmação normal entre os emigrantes: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

Id: Claro, sou francesa, mas é cá que me sinto melhor. Na França, as pessoas são mais isoladas, aqui, é mais fácil conhecer as pessoas, fazer confiança com elas. Foi por isso que, eu, vim para Portugal.

Inv: Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento? Quais?

Id: Em algumas coisas sim, noutras não. A sociedade francesa é mais fria, não querem saber das pessoas.

Inv: Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas práticas?

Id: Antigamente, reparava que, às vezes, não gostamos dos emigrantes e não ligava a isso. Mas, como ‘tou cá, às vezes, vejo que alguns emigrantes, realmente, não são normais.

Inv: Acha que os residentes tinham razão quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

Id: E…

Inv: Como explica o facto de que Portugal, sendo o país dos descobrimentos espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de



quem emigrava?

Id: É a história, nós somos emigrantes.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 3


Nome: Entrevistado número 3

Idade: 35

Género: Masculino

Profissão: Operário da construção civil

País (s) de acolhimento: Espanha
(Abertura de entrevista, explicitação dos conteúdos e dos objectivos. E pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Porquê é que emigrou?

F: Aqui, não há trabalho, são uns ladrões, às vezes não pagam. Há dois anos ‘tive três meses sem receber um tostão. E não há condições de trabalho. Em Espanha, os que são roubamos são os burros ou anormais. Portugal é uma m. . .

Inv: A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

G: Não tenho idade para isso.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

F: Não tenho idade para isso, já era nascido, mas não me lembro. Mas, emigra quem quer, não é? O meu pai esteve emigrado em França e foi porque quis.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

(Não respondeu)

Inv: Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigrar?

(não respondeu)

F: Aqui, em Melgaço, somos galegos, sei espanhol e é fácil. A mim até me chamam o galego. O Sul de Espanha é coisa boa.

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?

F: Antigamente, não sei. O meu pai passou fome e sede, ‘tá sempre a falar disso.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado no país de acolhimento?

Não, nunca, ao contrário, fui bem tratado e bem pago que é o que interessa.

Inv: A sua integração, no país de acolhimento, foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?

F: Não sou mouro, a m. . . dos mouros é que são discriminados, eu, trabalho para a Teixeira Duarte, somos todos portugueses. Os mouros é que fazem a m. . . toda, em Espanha, nos atentados em Madrid foram eles . . .

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, qual nem sempre acabava a forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever outras formas de “picanço”?

F: É muito fácil, só ‘tamos, lá, para trabalhar. Venho, cá, sempre que quero, à sexta e vou à segunda na carrinha da empresa. São muitas horas. . .

Inv: Como explica esse comportamento por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?

F: Antigamente, com os franceses era assim. Na Pégaso (antiga discoteca nos arredores da vila de Melgaço) os de parado do monte (freguesia de montanha) era só porrada, eram muitos e na França não bebem, não estão habituados, são como os camelos, bebem tudo de uma vez, quando chegam a Portugal. Na França não saem à noite. Aqui, trazem as caçadeiras para as discotecas, até a G.N.R. foge. Deviam de ir para Espanha, para ver o que era bom.

Inv: Sendo português, (a) alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?

F: Porque os emigrantes são como os retornados, dão cabo de tudo, estragaram Portugal e não gostam disto, ‘tão sempre a dizer mal de Portugal, mas emigraram porque quiseram. Eu, velho todos os fins-de-semana, sou de cá. Nunca me armei em gringo.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

F: Não, sou de cá, todos me conhecem, sou igual aos de cá, os franceses armam-se em bons, em diferentes, só têm peneiras, mas quando falas com eles são burros como uma cepas, não sabem nada, não saem de casa, acho que são piores do que o pessoal do monte de cá.

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?

F: Porque se davam mal, os avec’s, no princípio do mês de Agosto, só falam francês, depois perdem as peneiras, mas é tarde, nessa altura, já estão tesos. Os de cá fazem bem em aumentar os preços, para que eles percam as peneiras. Os franceses não se juntam com ninguém, falam entre eles, vão à discoteca juntos e depois vão para casa, ‘tão de férias, não se preocupam com mais nada.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes não emigrantes?

F: Eu, não ‘tou sempre em Melgaço.

Inv: Como pode explicar esta afirmação normal entre os emigrantes: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

F: Porque não se sabem comportar em lado nenhum, ninguém gosta deles. Agora, os piores, são os putos, parecem todos argelinos ou então são todos doutores, a culpa é deles, todos vão para doutores . . . E, depois, não arranjam trabalho.

Inv: Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento? Quais?

F: Só no comer, ah, e nas miúdas espanholas, são mais abertas, divertidas, não têm manias como as daqui.

Inv: Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas práticas?

F: Acho que sim . . .

Inv: Acha que os residentes tinham razão quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

F: E não eram . . . ?

Inv: Como explica o facto de que Portugal, sendo o país dos descobrimentos espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

F: Só emigra quem quer, depois queixam-se, armam-se em parvos.
(Fecho da entrevista)

Entrevista número 4


Nome: Entrevistada número quatro

Idade: 63

Género: Feminino

Profissão. Proprietária de comércio

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
As questões acerca do percurso emigratório não parecem relevantes. A primeira viagem foi feita no âmbito do reagrupamento familiar.

Inv: Alguma vez se sentiu ou discriminada em Portugal?

I: Uma vez, queriam levar-me mais caro pelos pêssegos e disseram-me: “sai, daí, não quer pagar sai, daí”. E, eu, não queria e ´tava a teimar com a mulher. Agora chamam-lhe os avec´s: “vêm aí os avec’es”, dizem. . . (Risos).

Inv: Pois é . . .

I: Mas, tive mais dificuldades em me adaptar quando vim para cá, sabe, do que, propriamente, em França.

Inv: Hum, hum, e, alguma vez, se sentiu discriminada cá?

I: Senti, quando trouxemos a mobília, foi para o Porto. E lá, na alfândega, fui discriminada.

Inv: Porquê? Como?

I: Porque não faziam caso de nós. Se não é lá uma senhora, que deus lhe dê saúde. Porque, eu, ‘tava a chorar quanto podia. E ela levantou a voz. Mas, lá, fui discriminada e de que maneira. Levaram-nos a mobília, sei lá para onde. Tiraram-nos com tudo para o chão.

Inv: Como explica o comportamento dos residentes em relação aos emigrantes? Porque é que eles os picavam?

I: Aqui, chamavam-nos as francesas, cada vez que saímos à rua.

Inv: Mas, isso acontecia porquê?

I: Não te sei dizer, talvez por eu vir montar um negócio, sobretudo, as pessoas das lojas.

Inv: Lembra-me também que os emigrantes iam para um café e os residentes para outro. Por que é que isso acontecia?

I: Pois, pois, isso acontecia. . . E nos bailes também.

Inv: E porque é que os residentes só se juntavam entre eles?

I: Não sei explicar.

Inv: Mas, era, verdade?

I: Pois, era, pois, era. . .

Inv: Como é que explica esta frase: em França éramos portugueses, em Portugal somos franceses?

I. É, eu, fartei-me de dizer que nos não tínhamos país. Éramos emigrantes, aqui, e emigrantes na França. Essa, eu, sei explicar bem: nós não tínhamos país.

Inv: Mas, porquê?

I: Porque não nos aceitavam em nenhum país. Eu nunca tive problemas de maior, por exemplo, íamos na rua, na altura, de comprar vestidos e outra mulher virou-se para nós: “Olha, parece uma vaca leiteira”. Fui para casa e muito chorei! Não foi para mim, aquilo, mas sentia-me também uma estrangeira. Aqui, sentia, muito mais do que lá. Eu gostei muito da França, gostei e gosto. Furavam as rodas dos carros às minhas filhas, não as deixavam em paz.

Inv: E formas de estar francesas, acha que ganhou algumas?

I: Não, a França é um país avançado, mas, eu, não avancei mais, a cultura que tinha era a mesma da que trouxe.

Inv: As refeições?

I: Bem, lá comia-se diferente. Mas, nós fazíamos as refeições à nossa maneira. Lá comia-se diferente. Os franceses comem separado: comem só carne ou só arroz, não comem todo junto.

Inv: E os molhos?

I: Exactamente!

Inv: E acha que os emigrantes eram arrogantes, uns convencidos, cá na terra?

I: Olha, desde que, eu, cá estou, acho que sim. Porque, quando, eu, vinha não me apercebia, desde que vim já me enervei, muitas vezes, com os emigrantes!

Inv. Como?

I: Passavam por aqui (loja) e diziam: “esta vai vestir a roupa da montra e depois vai colocá-la lá outra vez”. Pensavam que, eu, não sabia falar francês. Sabes? É, aqui, na loja, no princípio entrevam e falavam, logo, francês e, depois, ouviam, logo, uma resposta! Eles têm essa mania.

Inv: E aquela coisa de trazerem os carros . . .

I: Isso, nunca notei.

Inv: Porque é que emigrou?

I: Emigrei porque o meu marido foi p´ró Canadá e perdeu muito dinheiro. Roubaram-no e depois resolveu ir para França. E depois chamou-me de lá.

Inv: Não foi por causa da guerra.

I: Não, não . . .

Inv: Porquê é que não foi para África?

I: Pois, não tinha lá ninguém.

Inv: E como imaginava a França?

I: Imaginei, tantas coisas e afinal não era nada disso. Trabalhávamos como negros para quê?

(ruído de fundo)

Inv: A integração, lá, foi fácil ou difícil?

I: Foi boa apesar de ganhar uma depressão . . .

Inv: E os franceses portaram-se bem?

I: Portaram, não tive problemas com os franceses.

Inv: E foi legal?

I: Eu fui, o meu marido não.

Inv: Era naquela fase do reagrupamento familiar?

I: Era, o meu marido já estava lá há seis anos. E, eu, fui depois dos seis anos. Antes, era proibido. O meu marido foi ilegal, a maior parte do tempo passou dentro de um camião de gasolina que não levava gasolina lá dentro, mas portugueses.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 5


Nome: Entrevistado número cinco

Idade: 59

Género: Masculino

Profissão: Reformado

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)

Inv: Porquê é que emigrou?

At: Se não tivesse emigrado ia para a guerra. Naquele tempo a guerra ‘tava feia. Fui às inspecções e aquilo não era para mim, era uma servidão pareciam todos carneiros e irem directos para o matadouro.

Inv: A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

At: Exacto, foi mais pela guerra em África, aquilo era uma vergonha. Daqui, de Melgaço, já tinham morrido muita gente, alguns eram aviadores, na Guiné, os pretos mandavam os Fiats abaixo e as famílias recebiam um caixão com pedras. Na França, ganhava-se bem. A escolha era fácil de fazer ou a guerra ou uma vida normal.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

At: Era mais pela guerra.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

At: Deus de livre.

Inv: Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigrar?

At: Para quem é muito jovem, já deve imaginar, as francesas não tinham muito boa fama . . .

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?

At: No meu tempo era fácil emigrar, havia muita gente lá, mais do que cá, no fundo as fronteiras ‘tavam todas abertas. O guarda-fiscal e a G.N.R. não controlavam nada, dávamos uns trocos e não chateavam. A maioria deles era de cá ou de Monção, não queriam problemas. No contrabando era a mesma coisa. Cheguei a passar muitos fardos pelo rio, nunca aconteceu nada, eles até ajudavam, também precisavam de comer.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado no país de acolhimento?

At: Não, nem por isso, vivia com amigos portugueses. O francês era muito difícil.

Inv: A sua integração no país de acolhimento foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?

At: No metro, em Paris, ‘tava lá a trabalhar e mesmo assim perdia-me.

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, qual nem sempre acabava a forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever outras formas de “picanço”?

At: Esses jogos foram até aos anos 80 e tal, depois acabaram, mas era uma vergonha. Era aí que se via. Mas, as pessoas já sabiam para o que iam. Penso que as coisas, quando acabavam feias, era porque já havia problemas, antes. Os emigrantes tinham contas a ajustar.

Inv: Como explica esse comportamento, por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?

At: Era a inveja, Os emigrantes chegavam cá e parecia que era tudo deles.

Inv: Sendo português, (a) alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?

At: Não muito, sempre fui muito calmo e não saia muito de casa ou ia à praia. ‘Tive problemas como os meus cunhados, como não ‘távamos cá abusaram da minha mulher.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

At: Não sei se era superior ou não, mas andavam separados. Hoje, em dia, às vezes, quando encontro pessoas que ‘tiveram na França ainda me apetece falar francês, os de cá não passaram por elas.

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?

At: Era porque tinham inveja, sentiam-se inferiores. Durante o ano não se falavam e quando os emigrantes chagavam juntavam-se entre eles p’ra falar.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes não emigrantes?

At: Não directamente, não mas sentia-se que havia problemas. Eu, não ligava, era o que mais faltava, todo o ano a trabalhar para depois arranjar problemas, tenho mulher e filhos, isso era para quem não tinha nada a fazer.

Inv: Como pode explicar esta afirmação normal entre os emigrantes: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

At: É verdade, aqui, até é pior porque é a nossa terra.

Inv: Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento? Quais?

At: Penso que não, sempre me achei português. No trabalho sim, lá trabalhasse, é um país sério. As pessoas em França são mais educadas, isso vê-se em todo lado. Em Portugal, quando temos que tratar de um papel, até parece que somos criminosos ou parece que devemos dinheiro a alguém. Todas as pessoas são tratadas igual. Vendi a casa, em Paris, e regressei e olhe que ‘tou arrependido, aqui, é sempre a mesma coisa, não se anda para a frente. Pensei que tinha mudado, quando vinha de férias parecia, eram todo festas, mas vejo que não. Para arranjar emprego para os meus filhos é preciso meter uma cunha. Eles são todos da mesma cor.

Inv: Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas práticas?

At: Deviam ser mais sérios, mas aqui, as pessoas querem-no ganhar todo duma vez. Aqui, há corrupção para ter trabalho é preciso uma cunha.

Inv: Acha que os residentes tinham razão quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

At: Não tinham razão nenhuma, os de cá não passavam por elas, pensam que é só ir para lá e ficar rico.

Inv: Como explica o facto de que Portugal, sendo o país dos descobrimentos espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

At: Isso é que, eu, nunca compreendi, o que acha você?
(Fecho da entrevista)

Entrevista número 6


Nome: Entrevistado numero seis

Idade: 69

Profissão: Reformado.
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
(Início da entrevista não audível, a conversa girava em volta da clandestinidade)

Inv: Depois, quando?

M: Ao fim de três anos é que me deram . . . o passaporte. Mas, no princípio, o passaporte da vinda era dado no consulado, mas não dava para a volta. Só, depois de cinco anos é que me davam o passaporte para ir e para vir. . . Sim, só no fim de cinco anos é que tive o passaporte para ir e vir. Como fui a “salto”, naquele tampo só de davam para vir, mas não para ir.

Inv: Quem lhe deu o passaporte?

M: Era o consulado de Paris. E, depois, daqui é que fui à câmara (Câmara Municipal de Melgaço). E a partir da câmara é que me davam o passaporte.

Inv: Em França. Onde é que habitava em França?

M: Em Tours (explica onde fica Tours). E, depois, é que fui para Paris.

Inv: E como é que fez a primeira viagem?

M: A pé, de carro, de barco, daqui passei de barco. Atravessei o rio. Depois, fui de carro até à fronteira, até aos Pirinéus. E de lá fui a pé pela montanha até França.

Inv: De Inverno ou de Verão?

M: Fins do mês do Outubro, mas já havia neve nos cumes dos Pirinéus.

Inv: Depois, de passar a pé, o que fez?

M: Andamos a pé, passámos para França e depois fomos de carro até Paris?

Inv: E como e com quem passou?

M: Foram os passadores.

Inv: E por que é que emigrou?

M: Para ajeitar a minha vida. Por acaso, foi engraçado (sorriso). . ., zanguei-me com o patrão e fui.

Inv: E a situação política, em Portugal, pesou-lhe na decisão? Ou a guerra colonial?

M.: Não, Não! Eu fiz a tropa, em 58.

Inv. E porque é que não foi para as ex-colónias.

M: Não gostava.

Inv: E como imaginava a França, antes de emigrar?

M: Imaginava-a como cá, a mesma coisa.

Inv: Conhece as artimanhas usadas pelo engajadores?

M: A artimanha era um ir à frente, outros atrás e nós esperávamos, ficávamos parados.

Inv: Quanto demorou a lá chegar?

M: Só em Vigo ‘tive 15 dias, demorei quase 1 mês; ‘tava a coisa mau parada.

Inv. Agora, vai-se numa hora, em avião!

M: E havia gente que era apanhada, nós chegamos todos, lá. Alguns ficaram presos na Espanha. E, depois, eram deportados para cá, para a prisão. E quantos não morreram! Nunca mais chegavam a casa, as mães nunca mais sabiam deles. Os espanhóis atiravam a matar. Nunca mais apareceram, nem aparecem., agora! Nunca ninguém . . .

Inv: Já tinha contactos, antes de ir?

M: Já sabíamos para onde íamos.

Inv. E era gente conhecida?

M: Não.

Inv: E alguma vez se sentiu discriminado, em França?

M. Não, era boa gente. Agora, ‘tá complicado (alusão aos distúrbios em França).

Inv: E o conflito entre emigrantes e melgacenses, os que não emigraram, havia conflitos?

M. Sim, mas, eu, nunca fui mau tratado. Para outros, bastava sair á rua! Nos primeiros anos, as férias eram passadas no natal. O mês de Agosto foi só depois, quando levei para lá a mulher. No natal passávamos três ou quatro meses, cá. Quando começou a existir menos trabalho, aí, as férias passaram a ser no mês de Agosto. No natal. . . era bom para os patrões e para nós. Eles só pagavam as “temparias (intempéries), a gente não trabalhava e os patrões pagavam metade. A outra metade era paga pelo Estado. No Inverno tudo gela e não se pode trabalhar. Metade era pago pelo patrão e a outra metade pelo Estado . . . a gente não trabalhava, mas ganhávamos X. Quando, eu, fui para lá, cheguei a estar quatro meses de “temparias” (intempéries), E os patrões ‘tavam com medo que a gente viesse porque assim não pagavam por completo.

Inv: Isto na construção?

M: Sim e, depois, de pedreiro.

Inv: E o que fazia durante esses três meses?

M: Nada, não se fazia nada.

Inv. Mas, nunca se sentiu picado pelos que estavam cá? Nunca lhe chamaram “avec” ou francês, nem nada disso?

M: Não, nunca. Isso, ainda lhes chamam, agora.

Inv: Mas, não acha mal?

M: Claro, nós, não somos emigrantes, aqui; somos emigrantes na França, mas não, aqui, em Portugal:

Inv. Mas, porque é que acha que fazem isso?

M: Não sei, talvez, por inveja.

Inv: E, alguma vês, na qualidade de emigrante se sentiu discriminado, em Portugal?

M: Por isso sentia. A gente é emigrante lá. E vem p’rá ‘qui e também é emigrante. É emigrante em todo o lado.

Inv: Então, tente explicar-me isto, esta frase: em França somos portugueses e em Portugal somos franceses.

M: Lá está! O tais emigrante. Lá está! Aqui não somos franceses, nem na França somos franceses. Lá, até era melhor considerado do que aqui. Eles respeitam a gente de cá.

Inv: E os franceses?

M: É boa gente.

Inv: Havia cafés que eram frequentados por emigrantes e outros por residentes. Nunca notou nada disso?

M: Não, eu, também não era muito de cafés, vá, mas. . . .

Inv: Mas, nunca fio, assim: olhado de lado?

M: Não.

Inv. Porque é que acha que os residentes diziam que os emigrantes eram uns convencidos?



M: Isso era a inveja. Eles não tinham . . . também era para fazer ver, para mostrar. Traziam carros bons, para fazer ver. E, lá, vendem-os. E outros são alugados. As confusões entre emigrantes e os de cá eram mais lá para cima (freguesias da montanha), p’rós dos montes.

Inv: E acha que adquiriu forma de estar dos franceses?

M: O português se vai para lá adapta-se à vida francesa. Mas, lá, muitos não se adaptam. E isso é que é o pior.

Inv: E que práticas dos franceses, formas de estar, de ser, ganhou dos franceses?

M: Trabalho, trabalhar.

Inv: Chegamos ao fim, obrigado.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 7


Nome: Entrevistado número sete

Idade: 62

Profissão: Reformado
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Idade de emigração: 18

Ano: 1963, Janeiro

Antes de emigrar: restauração
Inv: Emigrou porquê?

J: Por causa da tropa, no meu tempo, os rapazes novos fugiam todos, iam todos para França. ‘tive medo de ir para Angola. Isto é assim, antigamente, não se podia falar, agora, falo. ‘tava, três ou quatro anos, a ficar com a minha vida cortada.

Inv: Pois, daqui, há muita gente assim.

J: No ano em que fui chamado, éramos 30 e só se apresentaram 3, vê lá.

Inv: Nos jornais de Melgaço, antigos, havia uma história que os de Castro (Freguesia montanhosa de Melgaço), apresentou-se só um e era coxo.

J: Os que foram para a tropa era porque não tinham possibilidades de ir para França, uns iam a salto, outros de turista, de passaporte de turista.

Inv: E como foi para França?

J: Sai, daqui, do 6 de Janeiro e cheguei no 13 de Fevereiro.

Inv: E nunca pensou ir para as ex-colónias?

J: Não, nunca.

Inv: E a situação política teve peso na sua decisão de emigrar?

J: Não. Aqui, fascismo, em política nunca me meti, só sei que, aqui, para passar as fronteiras tinhas que pagar. Vinhas aqui e tinhas que pagar tudo, tinhas que ir a Braga, Ao ministério da guerra. E isso era triste, agora, ‘támos livres. É bom.

Inv: E como foi para lá, quem o ajudou?

J: Passadores.

Inv: Mas tinha contactos já?

J: Tinha, tinha alguns conhecimentos, amigos, o . . . Esse é que nos deitou lá a mão. Mas, os meus irmãos já ‘tavam lá.

Inv: Tinha lá contactos

J: Tinha lá dois irmãos, quando cheguei já eles me foram buscar.

Inv: E como é que foi daqui?

J: Passei de batela daqui. Depois fomos de autocarro até vigo. E em Vigo meteram-nos numa cave e ali passamos 4 ou cinco dias. E depois fomos de táxi. E antes de chegar a Baiona, abandonaram-nos . . . Eu, levava cem francos comigo, naquele tempo, fomos a um café, os tipos foram simpáticos, deram-nos de comer e tudo, compraram-nos os bilhetes e voltamos para trás.

Inv: E, depois, como passou para França?

J: Voltamos para trás e depois tornei a ir. Vim até Vigo, fomos ao café que ‘tavamos. E . . .

Inv: Ou seja, a situação na fronteira era má. . .

J: ‘tava, a situação é que todo o mundo tinha medo de passar a fronteira, tinham ordem para matar, fui quando o Salazar deixou de pagar ao Franco.

Inv: Mas, eram os guardas-civis espanhóis,

J: Pois, Se fôssemos presos, o Salazar disse que ele que não pagava ao Franco. Eram presos, levavam uma coça muito grande e asdespois passavam de prisão em prisão até chegar a Portugal. Os mantimentos, transportes deixaram de ser pagos pelo Salazar. Matavam muita gente. Se uma pessoa fugisse atiravam a matar, daqui, morreram alguns. Eram como assassinos. E depois, lá, na fronteira, encontramo-nos, éramos, para aí, uns 80. E alguns até iam fardados para ir para Angola. E fugiam e iam para França, directos.

(A conversa gira à volta da questão das ex-colónias)

Inv: E, lá, em França alguma vez se sentiu discriminado?

J: Não, não. Em 42 anos fiz a minha vida em França bem, mas nunca tive queixa em relação aos franceses

Inv: Morava onde?

J: Maison Laffite. É ao lado do palácio de Versailles.

Inv: E a sua integração foi fácil foi difícil?

J: Ah, como todo o mundo, foi difícil, era o falar . . .

Inv: E no trabalho? Era muito diferente?

J: Não, trabalhei sempre com português, em campos de futebol. Era difícil, naturalmente, eram 14/16 horas por dia. E sábados e domingos. Éramos nós que fazíamos tudo à mão, não havia as betoneiras. E tínhamos que descarregar tudo, o cimento todo.

Inv: Trabalhou onde?

J: Em primeiro lugar, na construção, depois nos campos de futebol. Tínhamos 4 campos de futebol, depois tinha ténis, tinha três ginásios, uma piscina, tudo . . .

Inv: E lembra-se que quando vinha cá de férias os de cá picavam os emigrantes?

J: Ah, sim, Ah, isso sim, isso muito, queixavam-se que nós lhes fazíamos a vida cara, que aumentavam os preços.

Inv. Isso ainda acontece . . .

J: Pois é, e de que maneira, vais comprar, no mês de Julho e Agosto, e é uma diferença enorme. Mas, a culpa não é dos emigrantes. Se não fossem os emigrantes aqui não haveria tanta casa.

Inv: Há o alvarinho, agora?

J: Oh, mas, agora, já o faz muita gente. Antigamente, era o vinho tinto, agora, deitam-no fora o . . . deitou esta semana duas pipas fora, ninguém o queria. É uma tristeza. Agora, vende-se directamente à adega, senão o vinho apodrece.

Inv: Mas, sentia-se discriminado cá?

J: Claro, bem claro, queixavam-se que tudo ficava caro, se nós não viéssemos cá a vida era muito mais barata para eles.

Inv: E como é que explica que os daqui, os que não emigravam, tratavam mal os emigrantes?

J: Se calhar, era porque os daqui tinham inveja, inveja de uma pessoa vir de carro.

Inv: Mas, acha, que os daqui tinham razão para dizer que os emigrantes eram uns convencidos?

J: Sim, para mim, penso que sim. Porque o emigrante, lá fora, faz muita escravidão. E chega aqui e não olha para o preço. Uma senhora . . . e, na altura, ainda se vendiam as galinha cá fora, chegou ali, ‘tavam a negociar. E a pessoa disse, bem, eu, dou tanto. E era emigrante. E a outra a baixar o preço. E a emigrante não quis. Disse: “tome o dinheiro todo”. Outra mulher que ‘tava lá começou a mandar vir e disse: “que a culpa dos preços era dos emigrantes”. Mas, se não fossemos nós, cá, não havia nada.

Inv: E lembra-se, aqui, há uns anos, quando havia jogos de futebol entre emigrantes e os de cá?

J: Lembro, lembro, uf, uf, era tudo uma borracheira, ao fim. Eu, fui lá duas ou três vezes.

Inv: E porque acha que os daqui e os emigrantes ‘tavam separados, a ver o jogo?

J: Notava-se bem que os daqui não queriam ‘tar, ficavam ao lado. E os outros ‘tavam de férias.

Inv: Porque que acha que, às vezes, há pessoas que dizem: em França somos portugueses e em Portugal somos franceses?

J: Eu, isso nunca ouvi, eu, cá em Portugal sempre disse cá em Portugal sou português e na França sou Européen.

Inv. Mas, isso acontece muito, não é?

J: É, eu, por acaso, custa-me, muitas vezes, falar o português. 42 anos a falar o francês, enquanto trabalhei com portugueses, aquilo, eram muito fácil. Mas, depois quando trabalhava com só com franceses, era difícil, ‘tava rodeado por franceses, de manhã á noite só falava francês. Só em casa é que falava português. Mas, nunca perdi a minha língua. Há certas coisas que eu não sei explicar, não sei pedir.

Inv: Há, muitos emigrantes que quando vêm para cá só falam em francês?

J: Principalmente, a canalha, os meus têm dificuldade a falar português, o rapaz, mais novo, é difícil, a mais velha já fala e escreve bem em francês. Tenho um sobrinho que quando ‘tá borracho fala português (risos).

(Fala da família)

E a sua mulher quando foi para lá?

J: A minha mulher foi em 66,

Inv. Foi legal?

J. Foi.


Inv: Os seus filhos têm a nacionalidade francesa ou portuguesa?

J: A dupla nacionalidade.

(continua a falar acerca da família)
(Fecho da entrevista)

Entrevista número 8


Nome: Entrevistado número oito

Idade: 70 anos

Profissão: Comerciante de mobiliário
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
O início da gravação encontra-se praticamente inaudível, de qualquer modo, logrou-se compreender, as seguintes informações.

Data de emigração, Junho de 1959. Em 79 e 81 regressa para nunca mais voltar.


Inv: Que idade tinha, quando emigrou?

R: 24 anos.

Inv: (Inaudível)

R: Aquela situação de fraternidade, liberdade, é só para declarar, as autoridades nunca cumprem. Numa negociada do hotel, quando houve um pretenso comprador, do bloco, o hotel tinha 170 anos….

Inv: Teve em Paris?

R: Não, Boulevard Voltaire.

Inv: Não gostou da França?

R: Ah, a França é um país maravilhoso, primeiro tive em Bourdeaux, Loire, muito rica nos vinhos. E Paris . . .

Inv: Mas por que é que emigrou?

R: Ora, porque é que, eu, emigrei, aqui, era empregado de comércio, ganhava-se muito mal, emigrei porque tinha de melhorar a situação.

Inv: E a situação política, não teve influencia, cá, em Portugal?

R: Ora bem, a situação política, naquela altura, era boa e má. A situação boa era porque os preços de venda ao público ‘tavam controlados pelos Estado: “nem um cêntimo a mais”, porque era considerado especulação. Era muito boa porque, o governo anterior obrigava à força toda a gente a ter um comportamento igual, sem sequer pronunciar uma palavra, como eles diziam, obscena. Falava-se muito, havia uma polícia que se chamava: a polícia de segurança e de defesa do Estado, especula-se muito sobre isso. Ora bem, há pouco tempo, falei com uma pessoa, que, pronto, a especulação chega a este ponto: “O meu pai, em Angola, andou muito perseguido pela PIDE”. E, eu, respondi que ele devia ser aristocrata, porque, eu, daquilo que eu sei, a policia só perseguia as pessoas . . . , os intelectuais, e perseguia as pessoas que tinham capacidade para movimentar uma revolta, um atentado. Não se falava em ópio e só eram presas as pessoas como eu, com a 4º classe. Depois, geralmente, quem ficavam “dentro” eram os intelectuais que falharam na vida. O Mário Soares, o Álvaro Cunhal . . .

Inv: E porque é que nunca foi para África?

R: Havia um obstáculo muito grande, o governo queria o braço trabalhador cá dentro, só deixavam ir depois de se ter muitos conhecimentos. Era necessário ter dinheiro para a viagem. Sabe, que quem ía, eram os presos, olhe o Luís de Camões. Sabe quem gosta dos emigrantes em França?

Inv. Hum, hum . . .

R: As pessoas para quem se produz. Sabe qual é o insulto maior entre eles: Les estranger (étranger) ou juif.

Inv: Mas, alguma se sentiu discriminado, lá, pelos franceses?

R: Sabe, que as palavras também ferem e, eu, senti mais foi nas palavras que eles diziam, quando eles diziam, a expressão, mesmo que tivéssemos todos a beber um copo com os franceses, ou espanhóis e italianos, a gente ‘tava a beber um copo e a expressão deles, eles diziam assim: quando é que vais para a tua terra. E, no metropolitano, lia-se: “la France pour les français”. Então, isto marcava-me na minha cabeça . . . que até escreviam, aqui, nos documentos franceses, olhe, tenho aqui, estes papéis . . .

Inv: Mas, a sua integração foi difícil?

R: Foi e é! Cada vez pior!

Inv: Mas porque é que diz isso?

R: Nós somos um país de negros, lá, em França, nós os portugueses, os italianos, dávamos rendimento à entidade patronal, na construção civil, seja lá no que for. A maior parte dos emigrantes que, lá, estavam . . . eles não davam nada a ninguém, eles só dão em troca do esforço e, então, tínhamos que nos esforçar, mas não compensa porque a vida que lá se fazia, era tanto o sacrifício que . . . a gente estava habituado a uma vida melhor. Aqui, dizem que não custou, a mim custou, porque era ‘tava habituado a trabalhar no comércio e lá. Eu, andei empregado numa fábrica de cabos de aço e não era autorizado: “la France c’est pour les français”.

Inv: E foi clandestino?

R: Não, não, eu, tirei um passaporte turístico. Trabalhava no comércio . . . trabalhava no Sr. Hilário e deu-me um passaporte.

Inv: E, já lá, tinham gente á espera, já tinha contacto?

R: Quando foi daqui já tinha tudo planeado, tinha uma família que me arranjou uma casa, isso não me custava, o que custava muito era tem que aprender um trabalho que não estava habituado. E ter que fazer o trabalho para ganhar o dinheiro.

Inv. E dos franceses não ‘teve ajuda?

R: Os franceses agarravam-se na gola do casaco quando tinha que trabalhar com eles.

Inv: ‘Tou a ver que não se dava bem com eles?

R: Os franceses? Agarravam em mim e depois chegavam e agarravam em outros. A gente quando tem problemas de saúde vão para, lá, para se curar. Gostam da França. Mas, isso são as pessoas que sempre fizeram assim: metro, boulot et dodo.

Inv: E como é que imaginava a França antes de ir?

R: Sabia que ia encontrar um trabalho que os franceses não queriam fazer! Eu, comecei a trabalhar em aprendiz e queriam-me mandar para a escola. Mas, eu, disse que queria ganhar algum a vir-me embora.

Inv: Era para aprender francês?

R: Não, era para trabalhar numa grua, bem e ia aprendeu tudo, não é? . . . A falar em França, Ah, tomara eu, viver lá, mesmo a nível de jornalismo, são melhores. Sabe?

Inv. Porque é que acha que os emigrantes se ostentavam e eram espicaçados?

R: Porque se excediam um bocadinho cá, porque, lá, eram 11 meses de trabalho duro: metro, boulot et dodo. E agora, imagine.

Inv: E porque é que os residentes picavam os emigrantes, no sentido em que faziam agressões verbais?

R: Porque era um sentimento invejoso, porque só viam o que eles tinham, mas não o que faziam.

Inv: E, cá, lembra-se de mais bocas?

Inv: Cá ou Lá?

Inv: Cá. . .

R: Ouve sempre conflito, lá, às 4 horas da manhã tinham que se levantar para trabalhar no duro. E os outros, cá, viam o que os outros traziam, mas não viam que os outros iam para o trabalho ás 4 da manhã. Este é um quadro a dizer-lhe que tinham vergonha de ser portugueses, a França deixava entrar toda a gente, faziam um exame médico, o repisser (recipissé), depois podia trabalhar temporariamente. E depois é que lhe vinham a carta de estadia. Para residirem em França.

Inv. Tem aí isso?

R: Tenho, tenho, quer ver, já viu o que era, cá, se as pessoas tivessem que se levantar ás quatro e meia da manhã.

Em França eram estrangeiros, as pessoas perguntavam a nossa nacionalidade e em França eram sempre: “les étranger”. As pessoas não tinham cartaz nas costas a dizer somos portugueses, éramos todos estrangeiros: italianos espanhóis, nesse tempo havia poucos árabes.

Inv: E a forma de estar deles, viverem, de verem o mundo?

R: Os franceses ficavam nas lonas depois das férias, enquanto não acabassem o dinheiro ia tudo de rasto. E chegavam a França e vendiam o automóvel. Esperavam pelo mês de Setembro e depois ganhavam mais, ‘tavam seguros. Eles não faziam a nossa vida, mas só assim é que se conseguia juntar dinheiro. Vivia-se nos barracos fornecidos pelas empresas. Não eram bidonvilles. O que os portugueses fizeram, lá, foram muitos caixotes.

Inv: Prédios?

R: Prédios, mas agora acontece que é mais árabes, mas, no meu tempo, eram portugueses, eram o foyer do bâtiment, estavam integradas dentro da área de construção. Cada quarto tinha dois beliches, os franceses fizeram muito disso para alojar os emigrantes.

Inv: Depois, chegaram a baixar os preços dos quartos?

R: Claro, senão não se podia viver, eles não podiam, às vezes, tinha-se que se pagar a alguém que lá estava para sair, porque esse tinha que receber algum, não é? O hotel onde, eu, estava velho, nunca houve obras ali. No fundo, quem ficou rico foram os franceses, eles a nós só nos davam uma côdea. Por isso é que estou arrependido de ter ido.
(Fecho da entrevista)
Entrevista número 9
Nome: Entrevistado número nove

Idade: 63.

Profissão: Reformado.
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: E porquê emigrou?

J: Eu, emigrei, mas não tinha necessidade de emigrar, não se pode dizer que seja um emigrante forçado. A palavra emigrante não era bem vista. Fui para lá por problemas de família. E depois conheci a minha mulher, casei, e fiquei lá.

Inv: E a guerra colonial?

J: Fiz parte dos fuzileiros especiais, tive em Angola dois anos, portanto tive na Marinha 4 anos. Dois anos em Angola e dois . . . Fui voluntário, portanto tinha que estar 4 anos na marinha.

Inv: E o Estado-Novo, o regime fascista, também influenciou?

J: Sim, eu, foi para Angola em 63, portanto, na altura do Marcelo Caetano. Eu tinha duas hipóteses ou ir voluntário ou quando fosse chamado com 21 anos. Quando apareceu essa hipótese de ir voluntário, eu, reflecti e pensei que tinha talvez mais interesse.

Inv: Tinha p’ra aí uns 19 anos

J: Não, fui para lá com 17 anos, ia fazer 18 anos. Digo, se for voluntário e tudo acontecer bem, aos 21 ‘tou cá. E foi o que aconteceu. Depois ‘tive aqui depois ou três anos a trabalhar, aqui, a trabalhar, na agência do João Hilário, na agência de viagens. E depois chateei-me com a minha mãe e emigrei para França como poderia ter ido para a China.

Inv: E antes de emigrar como imaginava a sociedade de acolhimento?

J: Portanto, eu, quando emigrarei não tinha a noção do que ia encontrar, eu fui com a intenção de esquecer isto e o que tinha acontecido com a minha familiar, nunca com a intenção de ficar. Sempre de regressar. Inclusivamente, tinha um emprego jeitoso, na altura, ‘tava na TAP. E estava bem. Mas, prontos, chateei-me com a minha mãe. Ela disse-me certas coisas que me magoaram e fui para França. Fui com a intenção de passar lá uns tempos e não de trabalhar, até porque as pessoas pensavam que eu estava de férias. E, no fundo, estava. Depois conheci aquela moça, comecei a gostar e fiquei.

Inv: É portuguesa?

J: Não, é espanhola, é daqui perto, depois de Ourence, a 220 daqui. Comecei a trabalhar lá porque, eu, não era das pessoas que não tinham profissão, era incapaz de trabalhar nas obras, não tinha o mínimo de….E depois não tinha jeito, era incapaz de pregar um prego. Há portugueses que têm muito jeito, mas eu não tenho.

Inv: E foi difícil a adaptação?

J: Claro, que foi, foi bastante difícil, os portugueses, na altura, conseguiam trabalho facilmente nas obras, ora aquele que não sabia, tinha mais dificuldade, para trabalhar noutra profissão tinha que falar bastante bem francês. Eu, o que fiz foi adaptar-me bastante bem. Fiz um curso de francês e a partir daí consegui um emprego bastante jeitoso até, de florista. E a partir daí comecei a trabalhar e a ganhar bem. O que na altura não era fácil, não era evidente sem uma profissão, sem uma profissão era tudo muito difícil. Comecei a falar bem francês e a trabalhar para uma casa grande de flores em Paris. Até que comecei a trabalhar para mim.

Inv: E alguma vez se sentiu discriminado em França?

J: Às vezes, são os indivíduos que não conseguem arranjar trabalho e pensam que lhes estavam a retirar o trabalho. Se a gente lhes dizia qualquer coisa, eles diziam: “o que estas aqui a fazer, vai para a ‘tou terra”. Mas não se pode generalizar, estúpidos há em toda a parte. Provavelmente não sou a pessoa mais indicada para o seu questionário, não fui daqui a salto.

Inv: Não, não antes pelo contrário. Todos interessam. Há alguns que até viviam bem cá.

J: Há, pois, há, há alguns que até tinham uma boa vida cá, não há dúvida nenhuma, é verdade.

Inv: E que forma de picanço é que encontrou entre emigrantes e os que não emigraram cá.

J: O picanço, eu, não senti, porque as pessoas que moram cá, quando eu chego não me consideram emigrante, chego, aqui, conheço toda a malta, falo com eles e tal, não tenho . . . portanto, eu parto do princípio é que o emigrante tenta evidenciar que tem muita massa, eu, lembro-me, na altura, quando havia a feira, As pessoas daqui puxavam uma nota pequena e eles mesmo que a tivessem pagavam logo com 10 contos. Aí vê-se logo que você é emigrante, lá está o tal picanço. As pessoas ficavam um bocado aborrecidas porque eles tinham um certo complexo de superioridade, mas até não se pode falar em superioridade, porque eles tinham, coitados . . . ora, eu, acho que o picanço era devido ao facto dos emigrantes terem pouca cultura, era gente que ia daqui sem o mínimo de instrução. E quando, chegaram, coitados, com aquele complexo de já trazerem um bocado de dinheiro, pensavam que Melgaço já era deles. Vinham para as lojas, queriam ser atendidos primeiro que os outros. . .

Inv: E não seria também porque, quando estavam de férias e se não mostrassem o dinheiro poderiam ser visto como se as coisas tivessem corrido mau.

J: Sim, sim, é possível também, não tenho a mínima…mas é possível que sim, uma pessoa que ia para fora e que não mostrasse dinheiro era mau visto. Diziam: “ah, este tipo abandonou o país e ainda vem pior do que foi e tal”, havia aquela crítica sarcástica, não é?

Inv: Porque na emigração também era um mito que todos os emigrantes eram ricos. Mas, por outra parte, por parte dos residentes também puxavam por eles, porque se todos se davam bem, aquele que não se desse mau seria um zero à esquerda?

J: Era, era, isso, era mesmo isso. Não há dúvida que uma pessoa que viesse, portanto, sem ter sucesso, se é que se pode aplicar esse termo: sucesso. Mas, não era bem-vista, diziam: “ah, este tipo emigrou e ainda vem pior do eu foi”. Era quase posto de parte. Não há dúvida. Porque ele estava a dar um mau exemplo do verdadeiro emigrante, típico que forçosamente tinha que trazer dinheiro, aliás, era precisamente por isso que ele emigrava. Se viesse pior do que estava era porque qualquer coisa não estava a bater certo, e não dúvida que havia alguns que a vida era muitíssimo dura. Eu assisti a casos incríveis, em que pessoas iam para lá, sem saberem as condições em que iam viver, encontravam-se em condições de higiene, horários incríveis de trabalho que os franceses não aceitavam. Acabavam de trabalhar quando os patrões lhes diziam para acabar. Alguns vinham para Portugal porque viviam quase como escravos. Viviam 10 a 15 sem ter condições. E no principio quase que viviam em valas. O governo francês precisava de mão-de-obra e pediu ao governo português e eles não sabiam quem ia ou quem não ia. O que acontecia. O governo que pedia emigrantes nunca se preocupou se tinham condições ou não. Na altura, eles pediam emigrantes em todas as câmaras municipais. O governo francês, nos primeiros anos, não estava à altura de os receber. E depois, a gente do Minho, a nossa gente daqui, aguentavam-se, porque estavam habituados á vida dura.

Na altura, os franceses começaram a ajudar os portugueses que se quisessem vir embora, davam-lhes uma certa quantia, e eles vinham para ter condições. E o governo português tinha um certo interesse que eles regressassem. Mas, não sei até que ponto queria, porque nos anos oitenta, os juros para os emigrantes eram de 30%. Era uma loucura. E um bocado contraditório.

Inv: Mas, os espanhóis regressaram?

J: Sim, eu tinha lá um cunhado, porque a minha mulher tinha lá um irmão. E o governo espanhol pedia para eles regressarem. E regressaram. E cá isso não acontecia. Eu, ‘tou casado com uma galega, onde houve talvez até mais emigração, e nunca houve aquilo que você chama de picanço. Eles eram tratados como um galego qualquer, coisa que aqui não acontecia, nós éramos vistos doutra maneira, as pessoas que não emigraram viam o emigrante de outra maneira, coisa que na Galiza não havia.

Inv: Isso é curioso para comparar. E como é que explica o facto dos residentes picarem os emigrantes?

J: No fundo, digo-lhe francamente, este picanço cá, eu, creio que havia uma certa inveja, porque muitos que queriam emigrar nunca foram e, aqui, houve uma crise enorme e o Minho é pobre. Os outros também queriam emigrar, mas pensavam que não iam ganhar dinheiro, e ao ver os outros com dinheiro, claro. Os outros apareciam, aqui, com bombas, com carros fora de série, construíam casas enormes com piscinas e tal. E para a gente daqui era impensável. E o picanço começou a aparecer. Um bocado de inveja.

Inv: E no seu caso?

J: No meu caso, não, talvez porque tivesse ido mais tarde, já com uma certa idade, com 27 anos com muitos conhecimentos, amigos, tal . . . nunca me senti emigrante, nunca fui considerado emigrante, isso já pelo meu nível de educação, princípios, em geral, o emigrante já saiu daqui sem o mínimo de instrução, vêm um bocado abrutalhados, não sabem falar, com pouca educação e depois sentem-se um bocado, com muito dinheiro, sentem-se superiores. E os daqui não aceitavam. Eles iam para o talho e queriam ser atendidos primeiro. E depois vinha o tal picanço.

Inv: O decorrer do percurso histórico, em Portugal, as mudanças também seriam fonte de conflitos.

Inv: Lembra-se que nos espaços públicos havia uma separação, de um lado ficavam os emigrantes e do outro os residentes?

J: Eu, lembro-me, mas havia, mas não era o meu caso. Os emigrantes diziam que eles é que eram bons, tinham bons carros, e havia uma altura em que as miúdas jeitosas eram todas para os emigrantes. Portanto, é fácil de explicar, vem uma coisa atrás da outra, um pai quer que a filha case bem, neste caso seria com o emigrante. Os pais viam com maus olhos os emigrantes levaram tudo, contra os emigrantes não tinham nada a fazer.

Inv. E como explica esta afirmação em França somos portugueses e em Portugal somos franceses?

J: Porque, é o que acabei de dizer, porque nós éramos os emigrantes, eles diziam: “lá vêm os emigrantes”, nos estabelecimentos em Melgaço, os preços aumentavam-se no verão. E eles diziam: “Olha, que eu não sou emigrante”. Porque em França somos considerados estrangeiros, mas isso dentro de pouco tempo não fará sentido, para a segunda geração. Veja, por exemplo, a selecção francesa é feita de emigrantes.

Inv: Acho que adquiriu formas de estar, de viver?

J: Claro, acho que sim, a gente aprende coisas sempre, e ainda por cima quando vamos de um país que é totalitário para um que é livre.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 10


Nome: Entrevistada número dez

Idade: 44

Género: Feminino

Profissão: costureira

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Alguma vez se sentiu discriminada em França? Isto é, em França, pelos franceses?

M: Sim, quer dizer, no meu primeiro dia, quando fui para a escola, de criança, não sabia falar e prontos, de resto, não, nunca ninguém de disse: “vai-te embora, esta não é a tua terra, és portuguesa”. Aqui, sim, se me disseres em Portugal, digo-te que sim, já tive.

Inv: Ah, outra coisa, que idade tinha quando foi para lá?

M: Em 68 ou 69.

Inv: E o regresso?

M: Em 1982.

Inv: Isto é importante . . . ?

M: Prontos, fomos em criança e já viemos adultos, mas custou mais a adaptação cá que lá, quando fui pequenina.

Inv: E, aqui, sentis-te discriminada?

M: Sim, aqui, senti.

Inv: Mas, porquê?

M: Primeiro, chamavam-me francesa, em segundo, cada vez que íamos para Monção esvaziavam-nos os pneus ou riscavam-me o carro…

Inv: A sério?

M: A sério! Estava no restaurante e esvaziaram-me os pneus. E era pessoal daqui (de Melgaço). Como éramos três raparigas não queriam que fossemos para Monção, acho eu, não sei. E, depois, era nos comércios também. Era: “aí as francesas isto, aí as francesas aquilo”. Pois, senti-me mais discriminada aqui. Porque, eu, já trazia carro, já tinha carro. E, aqui, ninguém ainda tinha carro, foi em 82. As raparigas não tinham carro!?

Inv: Não sei, não me lembro. . .

M: Ia buscar os meus irmãos à escola, lembras-te, mãe, do meu Fiat 127 preto?

Mãe: Sim, sim.

M: Quando se via miúdas a jogar bilhar? . . . Nós é que jogávamos bilhar, as daqui não.

Inv: Era mau visto, em 82?

M: Sim, em 82, quando, nós, viemos prá ‘qui era, era impossível.

Inv: E mais formas de picanço entre emigrantes e residentes?

M: Na França ou aqui?

Inv: Aqui, aqui. Entre os que estavam cá e os emigrantes?

M: Não era muito, era o esvaziar os pneus do carro . . . , numa passagem de ano, quando saímos tínhamos os pneus vazios, se não fosse por um emigrante que tinha uma bomba, tinha . . .

Inv: E já chega, não é, essa é muito grave . . .?

M: Pois é!

Inv: E como é que explica esse comportamento?

M: P’ra mim, era porque namorávamos em Monção, era a inveja, os ciúmes, mas nunca ninguém chegou à minha beira e me tratou mal.

Inv: E notavas, durante as férias, de um lado estavam os emigrantes e do outro os daqui?

M: Não, agora, nota-se mais isso, mas nós não tínhamos isso, sabes, porque não nos dávamos com emigrantes, uns eram de Lisboa outros do Porto, era assim. Não tínhamos amigos emigrantes aqui, nem, nunca, fizemos amigos cá, depois, conhecemos um amigo em Valadares (freguesia do concelho vizinho de Monção). Era aquele grupinho e andávamos sempre juntos. E o meu irmão também nadava sempre connosco, portanto, para onde ia o meu irmão; íamos nós. A minha mãe também só me deixava sair . . . depois, quando viemos de vez é que conhecemos mais gente daqui, amigas . . .

Inv: E porque é que os residentes só se davam entre si e discriminavam os emigrantes?

M: Eh, pá, eu tinha carro, já tinha mais . . . éramos diferentes íamos para o café, para a discoteca, naquele tempo, as miúdas daqui ainda não as deixavam sair assim tanto como nós. Aqui, não tinha ninguém, mas quando vim para cá, sim, viemos para o ciclo. As minhas irmãs iam para o ciclo, começamos a ter a vida cá. E, depois, tinha carro, e as outras não tinham, mas as miúdas daqui andavam a pedir para os tuberculosos e era para gastar no café. Prontos, já tínhamos uma vida . . . normal. Porque, na França, não saia tanto.

Inv: Como se poderia explicar esta afirmação, em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

M: Olha, podes dizer . . ., que quando dizia que era portuguesa não acreditavam, diziam que era italiana por causa do cabelo preto. E, eu, depois, fiquei toda admirada quando vinha buscar o meu irmão Filipe à primária e via miúdos loiros com olhos azuis, para mim não havia portugueses loiros com olhos azuis. Mas, na França não, como tinha o cabelo muito preto, pensavam que era marroquina ou italiana. Mas, eu, dizia que era portuguesa, nunca disse que era francesa, nunca reneguei a minha pátria. Mas, sentia-me melhor portuguesa quando vim para cá nos primeiros anos, isso podes ter a certeza . . .

Inv: E quando chegou cá?

M: Quando cheguei, cá, sentia-me emigrante e francesa. Mas não era eu. . .

Inv: Era o reconhecimento das pessoas? Como era tratada?

M: Exacto, tenho muitos anos de França, quando vim para cá era francesa, mas sou portuguesa . . .

Inv: E formas de estar adquiridas em França, no fundo, é do que estamos a falar, não é?

M: É, prontos, a forma de estar, o ir ao café, à discoteca, coisas que, aqui, ainda não se usavam. Antigamente, aqui, há vinte anos para cá, não havia nada, ias para Monção e era um mundo. Em Monção, há vinte anos atrás ias para o “Mira Espanha” e vias as senhoras à tarde todas bem vestidas a tomar café ou chá, aqui, era uma vergonha, como é possível que seja tão perto, mas tão diferente. E, ás vezes, não era chá mas vinho ou brandy. Mas, aqui, não se via nada. Isso chocou-me muito. A gente não ia a um café.

Inv: Isso é curioso . . . ?

M: Mas, olha que essa mentalidade ainda existe. Mas, o facto de ir para França mudou a mentalidade.

Inv: E os residentes tinham razão, quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos?

M: Olha, quando vim de vez, no primeiro ano que vim para cá, notei que era assim, numa altura, chateei-me com um senhor que vinha para aqui armado em pato bravo, vinha para resmungar. Ele ‘tava a falar com uma pessoa que já tinha vivido lá. Ele já vinha com raiva de fora (do estabelecimento comercial, onde, actualmente, trabalha), era o canalizador que não prestava, devia ‘tar a fazer casa e as coisas não lhes ‘tavam a correr bem, mas se estavam pessoas à frente não podia passar à frente delas. Mas, agora, já não se vê isso. Esta ano, mesmo os jovens vêm pior vestidos do que os daqui, com peças dos chineses e tudo. Os daqui preferem roupas de marca. Como, agora, também tudo mudou, antigamente, só o subsídio de férias já dava para pagar tudo e, agora, não. Este ano, ali no café, os emigrantes que vinham comer todos os anos gelados, todos os anos, pagava uns aos outros, agora, abriram os olhos porque o dinheiro mudou e fazem as contas. E, dantes, no meu tempo, chegavam e pagavam tudo, as coisas de café, lá, são consideradas coisas de luxo, não é tão normal ir ao café. Mas, tu, aqui, vinhas com o dinheiro de lá e deixavas, logo, uma boa gorjeta na mesa porque era baratíssimo. E ‘tavam sempre a pagar uns aos outros, não havia problema nenhum. Nós trazíamos aquele dinheiro para gastar e gastávamos tudo. E, agora, não. Eram as férias. Os carros lá eram normais, só tinham os carros para ir trabalhar e não para mostrar. Na França, um bancário ganhava menos do que um construtor civil, uma mulher-a-dias ganhava menos do que uma professora, só se, agora, mudou. E porquê?, porque, na França, não tinham as regalias que há aqui.

Inv: Chegámos ao fim, muito obrigado.
(Fecho da entrevista)

Entrevista número 11


Nome: Entrevistada número onze

Idade: 41

Género: Feminino

Profissão: Artista plástica e funcionária pública

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Era costume ver o jogo de futebol entre os residentes e os emigrantes?

M: Não.


Inv: E consegues descrever outras formas de picanço?

M: A nomeada que nós tínhamos, que éramos: os avec´s, era avec p’ra cá, avec p’ra lá. Avec a casa, avec a roupa, avec a música. . .

Inv: Mas, e nos comportamentos?

M: Era assim: eu, quando cheguei em 82, vinha de França, dos arredores de Paris e tinha uma forma de me vestir, de me pentear que, prontos, custou às pessoas aceitarem. Tinha o penteado que tenho, hoje: cabelo de pé. Era estranho e achavam que eu era drogada e. . .

Inv: E exerciam pressão sobre ti?

M: Sim, normalmente, as pessoas, daqui, não gostavam dos emigrantes e havia sempre nos bailes . . . andavam sempre ao barulho com os emigrantes. O português, daqui, não o via como um português. As pessoas, daqui, não me viam como sendo daqui, era isso que, eu, sentia. É um estado de espírito completamente diferente: o de um emigrante que vem cá passar férias, sente-se no país dele e sente-se feliz por estar ali com a família, na sua terra.

Inv: Como que explicas o comportamento dos residentes em relação aos emigrantes? Por que é que picavam os emigrantes?

M: Eu, acho que os emigrantes ‘tavam aqui de férias, o comportamento deles era assim um pouquinho. . . E, no mês de Agosto, são invadidos: nas estradas há mais movimento, é mais perigoso, há mais movimento, as culpas, geralmente, são deles porque trazem bombas, agora, as bombas estão aqui. São mais barulhentos, têm mais dinheiro, poderá a inveja também funcionar um pouquinho.

Inv: E, alguma vez, te sentiste discriminada?

M: Sim, já na escola. Quando entrei para a escola, foi prejudicada em três anos, perdi três anos e, no fim, entrei no 9º ano, esforcei-me muito porque eu não sabia escrever nem ler e, por fim, mesmo assim. . . Na altura, os professores não estavam habituados a terem alunos com esses problemas. O que aconteceu? A própria escola também não sabia tratar das equivalências e foi isso o que aconteceu. A minha equivalência, na escola, não existia, aceitaram-me, lá, estudei e, no final do ano, tive que pedir aos professores para pôr as notas a lápis. A maior parte dos professores não eram daqui; eram de fora. E depois de irem embora, lançaram as notas e prontos.

Inv: E, tirando as instituições, a nível mais informal, a nível interpessoal?

M: Por exemplo, os rapazes, só por, eu, vir da França, pensavam que eu era mais fácil, tinham essa maneira de pensar.

Inv: Lembras-te que, durante as férias, os emigrantes e os residentes frequentavam sítios diferentes? Lugares públicos diferentes?

M: Sim, eles andavam muito em grupo, por exemplo, no meu grupo o que acontecia era que com os portugueses com quem convivíamos não eram de Melgaço, a maioria eram do Porto, de Lisboa, de Braga que também vinham passar férias à terra. E com eles era mais fácil darmo-nos.

Inv: Como explicas esse comportamento? Da parte dos residentes?

M: Eu, acho que eles se sentem invadidos, talvez, não sei. Como, eu, sinto, agora, quando não tenho lugar para estacionar, também me chateia. E falando em francês, sabendo que podiam falar em português, também, é irritante. Agora entendo-os: é mais fácil falar francês porque falam todo o ano.

Inv: Mas, lá falam português, é curioso?

M. Mas, só em casa.

Inv: E em espaços públicos, por exemplo, cafés, algumas vezes foste “olhada de lado” pelos residentes?

M. Não, bem! Mas, não no sentido de ser rejeitada. O que, eu, mais senti foi a minha dificuldade em falar, o meu penteado e a minha forma de vestir que as pessoas tiravam conclusões. E, aí, prontos. Mas, fiz, logo, amigos, a estudar é mais fácil. Mas, tive essa dificuldade, esse problema de falar francês. E de me baterem. . .

Inv. Como é que explicas esta frase: em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

M: É verdade, ainda, hoje, as pessoas pensam isso, eu acho que há uma luta interior em cada pessoa, na adaptação. Eu lembro-me que, na altura, eu pensava em francês, ainda, hoje, penso. .. e . . . e falar em português. . . F. Fernando Pessoa diz: “A minha língua é a minha pátria”. E, então, . . . somos. . . é verdade que somos um pouquinho além fronteiras. Na França, tudo isso que era português, eu, dizia com muito orgulho e explicava as coisas aos franceses e aos outros emigrantes.

Inv. Sentias-te integrada, em França?

M: Sim, completamente. E aqui, em Portugal, nunca me questionei porque era a minha terra.

Inv: Mas, sentias-te francesa, portuguesa, uma mistura?

M: Não, eu, sempre afirmei que era portuguesa, no entanto, ainda, hoje, dizem que eu sou francesa, ainda fazem . . . E, na verdade, vendo bem as coisas, a minha maneira de pensar é mais francesa do que portuguesa. Noto uma diferença muito grande na maneira de pensar, de estar com as colegas da minha idade.

Inv: E achas que adquiriste formas de estar, hábitos da cultura de acolhimento, de França?

M: Acho que tenho um espírito mais aberto, mais tolerante.

Inv. A mentalidade portuguesa é muito fechada?

M: Acho-os muito conservadores. Acho que eles têm falta de cultura, não lêem muito, pelos menos, ‘tou a falar do meio onde, eu, vivo.

Inv: E achas que os residentes teriam a ganhar se adoptassem esses hábitos?

M: Acho que toda a gente ganha em cultivar-se, em ser mais tolerante, em ter o espírito mais aberto.

Inv: E achas que os residentes tinham razão, quando diziam que os emigrantes eram uns arrogantes e uns convencidos?

M: Não, porque eles não eram todos convencidos, alguns até seriam e muitos, prontos, eles vinham aqui para construir uma casa grande, com um carro grande, para mostrar que venceram, lá fora, que ganharam a vida deles, era um troféu para eles, é claro, que uma pessoa numa casa bonita, num carro grande, é assim, toda vaidosa, mas não são todos assim, eu conheço . . . os emigrantes com que antes me relacionava não são nada assim, são pessoas que mesmo, em França, procuraram estudar, evoluir e não viam o sucesso delas em relação ao dinheiro.

Inv: Como explicas que sendo Portugal um país dos descobrimentos, espalhados pelos. . .

M: O que eu sei é que o meu pai, quando emigrou, em Portugal, havia, uma ditadora. E os tempos eram difíceis. E ainda, hoje, é; ainda hoje há muita gente que procura, que vai procurar lá fora o que, aqui, não consegue. Agora, há uma coisa engraçada, aqui, em Melgaço, as pessoas acomodam-se muito, mesmo os emigrantes que eu conheço que vieram viver para cá, voltaram para viver numa vida pataca. Acho que se sacrificassem tanto como se sacrificam nos países onde emigram, acho que, em Portugal, seriam tanto ou mais, porque, aqui, há muito para fazer ainda.

Inv: (não audível)

M: Um dos valores dos emigrantes é não ficar a dever nada a ninguém, portanto, é não comprar coisas sem dinheiro.

Inv: E sentias-te completamente integrada?

M. Sim, porque tinha só um ano quando fui para lá, portanto as minhas memórias mais antigas são na França.

Inv: Onde vivias?

M: Primeiro, fomos viver para Orléans e, depois, para os arredores de Paris. Eu tive uma experiência que é de salientar: eu tinha 6 anos e a minha irmã Isabel tinha 7, então, estudamos em Portugal, por sinal fomos boas alunas. Vivíamos com os meus avós. E, aí, vivi a vida do campo: Matar o porco, andar no campo. . . Mas, depois, a minha mãe não aguentou, a nossa ausência e chamou-nos de volta. Mas vivi, aqui, a escola, em Portugal. E achava piada porque as raparigas ‘tavam de um lado e os rapazes brincavam do outro. Aqui, batiam senão fazias os deveres ou senão te portasses bem, eras castigado, usavam as réguas. Em França, havia outro sistema: não batiam e, aqui, se fizesse bem, prontos . . . mas, lá, compensavam se fizesses as coisas bem: davam-te um ponto. Era uma forma completamente diferente de ver a vida. Em França, na escola havia muita mistura de raças e religiões e havia uma grande tolerância, era o normal, nem nos apercebíamos. Aqui, em Portugal, uma altura, trouxe uma amiga minha passar férias e, ao fim de um tempo, ela diz-se assim: “Madalena, aqui, só há Portugueses?” E, eu, disse, “pois é, é normal, ‘tamos em Portugal”. Mas, é uma diferença muito grande. Por exemplo, em França, a maioria dos meus colegas eram filhos de pais divorciados, tinham irmãos de diferentes casamentos. Aqui, isso era muito estranho. Aqui, ainda é estranho, eu lembro-me que, quando me divorciei, o meu filho só se apercebeu uns anos mais tarde e ainda não era normal. Achou-se diferente dos colegas e tive-lhe que dizer alguns colegas que ‘tavam na mesma situação. Reparei que, entre eles, não falavam do assunto. A M., por exemplo, sempre foi amiga dele porque ele identificou-se com ela.

Entrevista número 12
Nome: Entrevistado número doze

Idade: 66

Género: Masculino

Profissão: Reformado, agricultor.

País (s) de acolhimento: França

´

(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)


Inv: Onde esteve emigrado?

C: Em França . . . no Canadá: não cheguei lá. Na primeira vez, ‘tive emigrado nos Pirinéus três dias (sorrisos) . . .

Inv: Que idade tinha quando emigrou?

C: Fui em 62, quando fui para França.

Inv: Eu, depois, faço as contas . . .

C: Hoje, tenho 66. Para o Canadá fui em 59.

Inv: E emigrou porquê?

C: Para ajeitar a minha vida, Aqui, não tínhamos nada, e, lá, na América era uma maravilha.

Inv: E a situação política, aqui, influenciou a sua ida?

C: A mim, em nada.

Inv: E não foi à tropa?

C: Fui três meses. Naquela altura, eram quatro ou cinco anos. E, eu, tinha amparo de mãe.

Inv: E por que é que não foi para lá?

C: Não, era . . . Prontos, naquela altura, era a coisa de ir para França, toda a gente ía para França. Eu, até não queria ir para França, queria ir para o Canadá. ‘Tive três dias abandonado nos Pirinéus, três dias e três noites, não sabíamos onde estávamos. Só via monte. E, depois, andámos e andámos e vimos uma estrada, chegámos, lá, era noite escura. Então, passaram dois polícias de mota. Só, depois, é que vimos uma placa que dizia: Henday, 3km.

Inv: E, depois, veio para trás?

C: Não, depois, a polícia ao vir, levou-nos, já não nos segurávamos de pé, não era fome, era sede, era uma sede! . . .

Inv: Foi de verão ou de Inverno?

C: Não, era Maio, de manhã ‘távamos todos molhados. Depois, a polícia viu-nos, não tínhamos documentos, nem nada; fomos para o posto. E uma senhora deu-nos, logo, de comer, deu-nos ovos, omoleta (Sic) . . ., aquilo vinha do céu, mas, eu, tinha era sede. Mas, já ‘tavamos na França e queriam que nós ficássemos, mas como, aqui, tínhamos dado 50 contos para ir até ao Canadá, queríamos vir levantar o dinheiro, senão não o víamos mais.

Inv: 50 contos, na altura, era muito dinheiro . . .

C: Pois era, era uma fortuna, em 59. Naquela altura quem tivesse 8 contos . . . duas cabeças de gado já era rico.

Inv: E, depois, veio para Portugal?

C: Viemos para trás, queríamos o dinheiro, mas o filho nunca mais apareceu, só estava o pai, tivemos que ir para tribunal, como se chamava? . . . a PIDE. Nós éramos vizinhos, não havia testemunhas, tínhamos confiança nas pessoas e entregámos o dinheiro ao pai, o dinheiro e uma carta. Depois, íamos para Irun para pegar o avião.

Inv: Ou seja, ficaram a ver navios?

C: Ficámos a ver navios, em Irun, em França. E os franceses queriam que nós ficássemos lá, na França. Mas, 50 contos era muito dinheiro e, depois, era outra coisa, porque paguei juros dos juros. E, depois, não deu em nada, o julgamento foi à rebelia. O irmão desse tipo era passador, depois fugiu para o Brasil.

Inv: E, depois, como foi para França?

C: Fui com os passadores que havia em Soutomendo (Aldeia da freguesia montanhosa de Fiães, onde a fronteira é seca), não conhecia, nem, agora, o nome dos tipos. Paguei, nessa altura, 8 contos. Quinze dias para, lá, chegar . . .

Inv: E como é que foi?

C: Fomos a pé. Chegamos a São Sebastião e meteram-nos num camião cisterna, desses de gasolina, tinha três divisões: para gasolina, gasóleo, essas coisas . . . 80 homens, lá, dentro.

Inv: Da cisterna?

C: Das grandes. Então, fizerem uns buracos em cima para respirarmos e entrava água lá para dentro e era a respiração, o suor . . . Ao sairmos não havia um que se segurasse de pé. Com três passadores, três galegos a puxar por nós. Nós não podíamos andar, uns andavam, mas muitos ficaram para trás, ficaram pelo caminho.

Inv: E, a maioria, eram portugueses?

C: Éramos todos portugueses, de Guimarães, Fafe . . ., havia muitos dali. Depois, quando chegávamos, lá em cima, em cima de um monte, atiravam-nos com um bocado de chocolate e era assim. Tratavam-nos como o gado, como animais . . .

Inv: Mas, os espanhóis, os passadores, só iam até Espanha?

C: Sim, mas nós íamos por baixo, não íamos bem pelas montanhas, pelos altos Pirinéus, nós fomos de São Sebastião nesses camiões porque, ali, é que era o pior, era difícil passar para França.

Inv: E, depois, como é que foi para França?

C: Era assim . . ., haviam esses três passadores, andámos pelos montes, mas era saltar o mato, não se via nada, andávamos só de noite, levou-nos 15 dias. E, depois, chegámos lá e meteram-nos naquela ilha dos portugueses, que já tinha, lá, uma bandeira montada, em Champigny. Mas, era um negócio, todos os passadores que havia, em Portugal, levavam os portugueses para ali. E, depois, para o sul, havia mais sítios . . .

Inv: E para passar os Pirinéus?

C: Ás vezes, havia as rondas dos polícias e tínhamos que fugir. Mas, asdespois, num pequeno lugar, antes de chegar à França, dividiam o pessoal, dez para ali . . ., tinham lá pessoas. Chegámos a um ponto que ‘távamos todos juntos, mas depois dividiam-se: os que iam para Paris e outros para Nice. Já havia umas casas feitas para asdespois transportar esse pessoal.

Inv: E você, como sabia que ía para Paris?

C: Já tinha contactos, tinham um parente da minha patroa. Mandava-me ir por . . .

Inv: Mas, não levava nenhum documento? E os franceses aceitavam?

C: Aceitavam, nessa altura, era uma maravilha, só queriam portugueses, lá, para trabalhar, era no tempo do general . . . E foi a pé até Paris, podíamos andar de carro um pouco, mas, o resto, era a pé. E no carro, não era para cinco ou seis, mas para 10 ou 12 homens. Eram precisos muitos carros, para nos levar, por isso é que tínhamos que andar a pé. Eu, não me lembro de andar de carro.

Inv: E, algumas vez, foi discriminado ou mau tratado?

C: Não, nunca fui mau tratado.

Inv: E depois de chegar a Champigny?

C: Depois, era todo truque, diziam-te: “você para onde quer ir?”, e, eu, dizia, para “Marly-le-Roy”. E diziam: “oh, isso é muito longe”. ‘Tás a ver? E, eu, de manhã, levantei-me cedo e fui até lá, aquilo era pequeno, era uma vila. E tinha uma estrada. Meti-me à estrada e vi um homem de bicicleta e perguntei-lhe. Por sorte era um português, um homem já dos 60 anos, que quase já não falava português. Era já francês. E, então, havia a estrada que passava junto à barraca e depois, lá no fundo, havia outra. E o homem diz-me: “você ‘tá a ver ali no fundo aquela casa, lá trabalha uma portuguesa, pergunte lá. Ela arranja para você ir para onde quer.”. Cheguei, lá, pedi uma casse-croûte, um pão com queijo e perguntou-me:

- Você quer ir para Marly-le-Roy?

- Eu, queria . . .

- Você ‘tá ali na barraca? Vão-lhe levar um balúrdio. Espera aí que eu chamo um táxi.

E chamou um táxi, um daqueles bocas de sapo todo novinho e limpinho. E, eu, todo porco. Fui à barraca porque tinha lá deixado umas calças, portanto, ‘tás a ver, levava um saco com pouca roupa e ‘tava todo sujo, havia um rapaz de Monção que também quis vir comigo e foi. Chegamos a trabalhar nessa enterprise. E, então, ele não queria entrar para o carro. E o taxista disse: “entrem”. ‘Tás a ver ‘távamos todos sujos.

Inv: E como aprendeu a falar francês?

C: Com o tempo, sabes como é, quando é para ganhar a vida, aprende-se logo. O que se procura é, logo, aprender.

Inv: Mas, depois, deram-lhes os documentos e tudo?

C: Depois, deram-nos um repisser (recipissé), renovamos de três de três meses. Eu fui o primeiro, naquela enterprise, a receber um carta se Séjour. ‘Tive uma sorte! Porque foi um polícia. Foi renovar a repisser (recipissé) e o polícia disse-me: “você não quer o Séjour.”. Nessa altura, já falava um bocadinho. Era meio-dia menos um quarto, nunca me esquece: “tem que ir, aqui, num instante, naquele doutor e depois traga-me o papel. O doutor ‘tava mesmo a sair, mas fez-me o exame. Passou-me o papel. E uma semana depois já tinha a carta. E lá, os meus amigos, prontos, a malta, ficou toda contente. Porque não era a todos que davam a carta.

Inv: E trabalhava em quê?

C: Sempre, em carpintaria, daqui, já tinha 8 anos de profissão. E, lá, nos batimentos (batîments) havia poucos carpinteiros. Na madeira não sabiam trabalhar. No princípio, ‘tive quinze dias sem trabalhar, mas depois era só trabalhar.

Inv: Mas, custou-lhe no princípio?

C: Não, não, aquilo era fácil, na França, naquela altura, saías de um patrão e arranjavas, logo, outro. Eu, ‘tive 9 anos. E, depois, nove anos em Orléans. ‘tive sempre em Paris. A malta, ao domingo, ia toda para Paris. Os árabes com aquelas mantas, eles pareciam mulheres. ‘tava noutro mundo, até que um dia fugi, meti-me num comboio e fui para Orléans. Eu, sozinho. Meti-me no comboio e fui. E, lá, arranjei trabalho. E trabalhei nove anos. Trabalhava nas coufragens (Coffrages), era, eu, que as fazia, para o chantier.

Inv: Emigrou muita gente de Alvaredo (Freguesia de Melgaço junto ao rio Minho)?

C: Sim, mas olha que, na Espanha, mataram muitos.

Inv: E como davam o “salto”?

C: Primeiro, tinhas de passar o rio, porque o Salazar tinha uma combina com o Franco para não deixar passar ninguém. O Franco dava ordens para prender. E eram presos, já na altura, e devolvidos. Um levou um tiro e outro, o irmão desse, morreu. Muitos ficavam pelo caminho, na minha viagem, éramos 80 e havia um grupo de Chaves; que dois ficaram para trás. Não acompanhavam o passo. E os passadores viravam-se contra nós, davam-nos com um pau. Muitos, nunca mais se ouviu falar. No camião muitos encontraram-se mal. Tínhamos uns garrafões para mijar. . .

Inv: E, mulheres, havia?

C: Mulheres não havia, no meio daquela malta toda . . .! (Sorrisos)

Inv: E, quando foi, o resto da sua família, para lá?

C: Depois, mandei-os, eu, ir, faltava o Filipe que nasceu lá.

Inv: E depois como é que vinha?

C: Vínhamos todos os anos. No princípio, tinha um passaporte para ir e, depois, tinha que tirar outro para voltar, no Porto. Aqui, tínhamos que tirar também para voltar. Lá, era no consulado que tínhamos que arranjar o passaporte, na avenida Clever. E tinha uma história. Havia um emigrante que se chamava o Romano, o nome dele era Rocha, mas toda a gente lhe chamava do Romano, era campeão europeu de luta livre. Esse indivíduo metia-se nessa coisa de arranjar passaportes, na altura, cobrou-me, era um intermediário entre o Mário Soares e. . . Eu fiquei 13 meses sem vir cá, a minha mulher ‘tava cá. ‘Tive 13 meses sem vir. E, então, aparece o Romano a trabalhar na enterprise, na nossa cantina, havia muitas fotografias dele, aquilo devia ser uma combina com a empresa. Porque, nós, não acreditávamos, todo português, ao chegar à França, quer fosse doutor ou o que fosse, tinha que passar três meses a trabalhar de pá e pica. E, então, eu, fui falar com o cônsul. . .

(Ruído de fundo)

A PIDE, quando chegámos, aqui, ali para . . . Verin (Localidade galega, vizinha de chaves), tiravam o passaporte, ficavam com ele. O cônsul foi ele que me entregou o passaporte. O Romano vendia passaportes de ida e volta que não existiam. Aqui, a PIDE tinha um posto no Peso (freguesia de Melgaço, cuja fronteira é molhada) e tiravam os passaportes. Para arranjar um passaporte de turista, custava muito dinheiro.

Inv: Quanto dinheiro custava um passaporte?

C: Já, não me lembro bem, tenho na ideia que era 2 contos.

Inv: E, cá, alguma vez, se sentiu discriminado?

C: Oh, aqui, sim, quando vim de vez, aluguei um camião para vir para aqui. O camião levava 13 metros cúbicos. E trouxe também um carro. O camião ‘teve preso no Porto 15 dias. Eu, juro-te que se pudesse voltava à França, mas queria as minhas coisas.

Inv: E, aqui, nunca foi discriminado, nunca lhe chamaram “Avec”?

C: Ah, avec, sim, quantas vezes!

Inv: Mas, era por mal?

C: Não, era tudo na brincadeira.

Inv: Sabes que eles quando vêm falam francês e claro . . .

Inv: Mas, falam francês para quê?

C: Eu, não sei, esquecem-se ou não querem . . .

Inv: Mas, acha que os emigrantes eram tratados como uns arrogantes?

C: Ah, isso era, isso: abusavam dos portugueses cá. Olha, que a minha patroa ‘tava a fazer umas compras cá, e foi mal tratada por um “francês”. Aqui, quando chega o mês de Agosto, encareciam tudo, os emigrantes tratavam mal os portugueses, ficava tudo mais caro. Mas, também havia muito “francês” emigrante que não tinha muito dinheiro e julgava-se grande coisa. Isso ainda hoje. Eu, tinha um rapaz que trabalhava comigo, mandou fazer um fato que lhe custou 80 contos, naquela altura. Eu, dizia-lhe: “Ó Manel quando fores a Portugal não levas um tostão”. E dizia-me ele: “não, em Portugal não conta o dinheiro, são os anos de França. Eu, se for a Portugal e se tiver vinte anos é porque tenho muito dinheiro.”

Inv: E por que é que acha que os de cá “picavam” os emigrantes?

C: Eu, acho que devia ser por ganharam mais, mostravam que tinham dinheiro, ainda, hoje, acontece, menos, mas ainda hoje acontece.

Inv: Agora, é mais no falar francês…

C: Mas, olha, as crianças é normal, porque andam na escola, mas os outros não. As minhas crianças, os meus filhos fizeram lá a escola, mas falam português. E, na casa, falávamos sempre português.

Inv: Como é que explica esta frase: Em França somos tratados como portugueses e em Portugal como franceses?

C: É pelo mostrar, nós mostramos sempre. Há coisa que são difíceis . . ., era ver a maneira como eles viviam lá, e vinham para aqui, fazer o que faziam. Compreendes? A maneira como iam para o trabalho, lá, que em vez de por um botão na camisa, punham um arame.

Inv: E, você, ‘teve nos bidonvilles, nos barracões?

C: Ah, ‘tive, ‘tive, enquanto a patroa não vinha, depois, não. Eram barracas, dormíamos quatro dentro, sem aquecimento. Aquilo era o monte de Prado (Área florestal junto à vila de Melgaço) e quando era para construir, faziam os barracos, 20 ou 30, e era assim que se vivia. Depois, já não deixavam habitar nas barracas.

Inv: E, nunca, chegou a ir para o Canadá?

C: Não, naquela altura, ia toda a gente para a França, ia toda a gente. . . , metiam-se com aqueles passadores e iam. A maioria eram pessoas que não tinham trabalho, eram pessoas que trabalhavam na agricultura, eu, já tinha 9 anos de carpinteiro e para a França ia o pessoal que não sabia fazer nada. Eu, pensava que se fosse, para o Canadá, ganhava mais dinheiro. Eu, já era homem, mas havia muitos que eram crianças, chegava-se, lá e, mudavam a idade, todos trabalhavam. Os franceses também eram contra nós, porque nós fazíamos tudo.

Inv: E não era discriminado?

C: Não, eu, peguei-me à peleja com um porque me disse de caras que eu fora para a França para lhe tirar o pão dele. Os italianos quando a Itália entrou na CEE, foram todos embora, os que estavam eram velhos, já casados, com a família e tal; ficaram. Eu, nunca vi um chinês a trabalhar, lá, no prédio, na França.
(Fecho de entrevista)

Entrevista número 13


Nome: Entrevistada número treze

Idade: 71

Género: Feminino

Profissão: Reformada

País (s) de acolhimento: Canadá
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Porquê é que emigrou?

M: O meu marido já ‘tava no Canadá. Ele foi primeiro, a ir, p’ra, lá, e, depois, levou outros. Eu, fui muito depois, já tinha vinte e picos anos. Ele trabalhava no norte no Canadá. E, lá, é muito frio. Depois veio para o sul. Era jardineiro e, lá, ganhava-se muito dinheiro. Lá, como calceteiro ganhava-se mais do que, cá, um doutor, é verdade.

Inv: A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

M: Em nós, não, mas para outros sim, o meu falecido marido fez a tropa, antes de emigrar, primeiro ‘teve na França dois anos, depois foi para o Canadá, lá pagavam muito bem aos calceteiros e jardineiros. Sabendo trabalhar, ganhava-se mais dinheiro do que na França. Na França era uma exploração.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

M: Para outras pessoas, as que não se davam com o antigo regime. Nós, notámos diferenças, quando fui para o Canadá; antes pensava que era tudo igual.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

M: Para quê? O meu marido também tinha terras cá. A agricultura não dava para nada. E aquelas terras eram dele, mas não davam nada, agora, com o alvarinho é diferente, mas, antigamente, era muito pobre. Para ser português de segunda, como diziam cá, era melhor ‘tar no estrangeiro. E, naquela altura, o Canadá era o melhor sítio.

Inv: Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigra?

M: Pensava que era tudo igual, o meu marido só falava das maravilhas e do dinheiro que, lá, se ganhava, mas, eu, pensava que era tudo igual. Lá, ganhasse mais dinheiro num mês do que, aqui, num ano inteiro, ou mais . . .

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?

M: Era de qualquer maneira, havia pessoas que iam de camioneta até França, ou de comboio de Vigo. Era preciso ter-se conhecidos e muita vontade. Alguns morreram por lá, as polícias eram más pessoas, alguns deles matavam, não se importavam com nada . . . era o trabalho deles. Eu, fui de avião, o meu marido tinha tratado de todos os papéis.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado no país de acolhimento?

M: Nunca, Não.

Inv: A sua integração no país de acolhimento foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?

M: Difícil, no Canadá, o tempo é muito frio, é diferente. Até não me posso queixar, nunca trabalhei fora de casa. Lá havia aquecimento, aqui, quando fizemos a nossa casa fomos dos primeiros a ter aquecimento, mesmo, agora, as pessoas não usam. E, olhe, que também é frio, é muito húmido. Nos meses de Inverno, vínhamos para Portugal, ás vezes, quatro meses e ganhava-se à mesma. Lá, não se podia trabalhar no Inverno. O meu filho está, lá, e, no Inverno, vem para Portugal. E o mesmo que quiser trabalhar, eles não deixam. Aqui, de Verão, nunca há aquecimento.

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, o qual nem sempre acabava a forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever outras formas de “picanço”?

M: Antigamente, isso era normal, era um despique, para ver quem era melhor.

Inv: Como explica esse comportamento, por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?

M: Nós estávamos cá, no Inverno. O picanço é mais como os que estão na França. Eles são muitos e pensam que é tudo deles. E, claro, os de cá não gostam disso. Mas, isso são os do monte, os de cá de baixo são mais educados.

Inv: Sendo português, (a) alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?

M: Não me lembro de ser discriminada, passava, cá, mais de três meses por ano, acho que nunca deixei de ser de cá. Os anos passam rápido. Os franceses é que não são bem vistos.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

M: Não se davam, eram diferentes, os de cá não tinham férias e tinham que trabalhar para ganhar dinheiro p´ro Inverno. Eram diferentes.

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?

M: É o mesmo, ‘tavam habituados aos emigrantes, eles falam francês uns com os outros, até em família, os daqui não os compreendem e têm dinheiro para gastar, bebem muito, riem alto, não deixam dormir ninguém. Ainda, neste mês de Agosto, aconteceu. Fazem muito barulho e os mais novos são os piores.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes não emigrantes?

M: Pois é a verdade, nem carne nem peixe, mas não sei de quem é a culpa. Talvez dos emigrantes, não sei. . .

Inv: Como pode explicar esta afirmação normal entre os emigrantes: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

M: O Canadá é diferente, tem tudo e, aqui, nem agora ‘tá igual, tomáramos nós.

Inv: Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento? Quais?

M: Acho que sim, mas não querem ou não podem, não sei. As pessoas, aqui, só falam mal umas das outras, até na missa, antigamente, era diferente, agora, é cada um para si. No Canadá, há abertura de espírito. Os meus filhos estudaram todos, aqui, não dava para isso, se calhar, nem para um deles, aqui, não havia dinheiro para nada. Os meus filhos aprenderam português no Canadá, aqui, é tudo muito complicado, a vida é difícil. E as pessoas não querem mudar . . . É assim . . .

Inv: Acha que os residentes tinham razão quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

M: Não sei de quem era a culpa, alguns emigrantes, os do monte armavam-se em ricos e alguns coitados não tinham onde cair mortos. A vida, lá, era muito dura, não estavam habituados. E, cá, gastavam tudo o que tinham poupado, não saíam da cepa torta. E, lá, até passavam fome, comiam os restos dos talhos, comiam a carne que os franceses botavam fora.

Inv: Como explica o facto de que Portugal, sendo o país dos descobrimentos espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

M: Mas, as pessoas iam-se embora na mesma, tinham que ganhar dinheiro, aqui, era tudo proibido, uma miséria humana, diziam que éramos grande coisa, mas passávamos todos fome. E até aqueles que não passavam fome, coitados pensavam que viviam bem, que eram os senhores porque não conheciam mais nada. Até os doutores. Na cidade, não sei, nas aldeias era uma miséria e ainda é assim, ‘tão sempre abusar das crianças. Mas, somos de cá, não?


(Fecho de entrevista)

Entrevista número 14


Nome: Entrevistado número catorze

Idade: 58.

Género: Masculino

Profissão: Reformado em França, onde era proprietário de uma empresa de conservação e restauro.

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Emigrou porquê?

E: Principalmente, por motivos económicos, como todos os portugueses . . .

Inv: O regime do Estado-Novo não influenciou a sua partida?

E: Também, porque como sabe, como deve saber . . . aqueles que tinham meia dúzia de anos de ensino, mais do normal, já reflectiam de outra maneira, compreende? . . . A situação era ridícula . . .

Inv: E não foi para as ex-colónias . . . porquê?

E: Na altura, nunca me interessou, nunca esteve no meu espírito.

Inv: Como é que imaginava a França, antes de emigrar?

E: A França, para mim, era um paraíso, um paraíso de liberdade, sobretudo. Já conhecia o sentido da palavra liberdade. E uma forma de refazer, de preparar o futuro, sobretudo, isso.

Inv: E alguma vez se sentiu discriminado, cá, em Portugal?

E: Não absolutamente nada, nem cá nem lá. Se há uma coisa que não tenho é complexos de inferioridade ou de superioridade.

Inv: E a integração, em França, foi fácil ou difícil?

E: Fui muito ajudado. . . Pelos franceses.

Inv: E pelos portugueses?

E: Não, absolutamente nada.

Inv: Não . . ., sabe que a maioria, 99% seriam, pronto, boa gente, pacífica, mas muito atrasada em vários aspectos. Não é? Ajudar os outros, naquele tempo. . . não se ajudavam muito. Fui ajudado por franceses, não é?! Eu, também respeitei o país, as gentes do país para onde fui. Tenho por carácter ser humilde, respeitador, sobretudo, para quem eu acho que devo ser. E isso permitiu-me ter ajudas na empresa onde trabalhei. Frequentei cursos profissionais, lá, coisa que poucos fizeram. Ah, fui ajudado financeiramente, dentro da empresa, para poder ter as minhas coisinhas, ter um quarto. . ., naquela altura era assim; tinha 19 anos. Embora, naquelas idades, também gastava mais do que devia. ‘Tá claro: Conhecia Paris como Melgaço!

Inv: Emigrou como clandestino ou . . . ?

E: Claro, claro. Porque, naquela altura, tinha a licença militar. Naquela altura, havia as inspecções militares e no ano seguinte é que era incorporado. Agora, eu, nem sequer tinha idade para ir às inspecções. Depois é que era incorporado.

Inv: E a viagem? Como correu a viagem?

E: Correu bem, entrei num autocarro, em Ponte Barjas (Galiza), e sai em Paris. Fui detido na fronteira francesa que muito educadamente me fizeram um salvo-conduto, um papel com a minha identidade, para poder circular livremente, no interior da França. E que me dava quinze dias para me apresentar no posto de polícia, para estabelecer a minha residência: foi em Paris, mesmo. Sempre vivi em Paris.

(A entrevista dirigiu-se para o tema dos distúrbios nos subúrbios de Paris e do número de emigrantes portugueses em França)

Inv: Agora, fala-se em um milhão e meio de portugueses em França.

E: Não, nem mesmo tendo em conta os nossos filhos, não chega tão longe, ‘tá muito enganado.

Inv: E, sabe, que, agora, o problema que se põe é haver a União Europeia. Agora, são cidadãos europeus.

E: Sim, agora, tudo é mais dissolvido. Eu, vejo, estatísticas e digo-lhe já . . . não sou o único, eu . . . a nossa televisão portuguesa, não vejo. Acho. . . completamente ridículo.

Inv: Hum, hum.

E: Tenho um satélite e parabólica, gosto de ver os canais franceses, Têm melhores programas. Prontos, eu, gosto de ‘tar sempre a aprender. De saber, sei lá . . . Sei pouco e tenho prazer nisso; também tenho tempo. Gosto de ver as estatísticas, gosto de me informar sobre isso. Mas, eu digo-lhe: a comunidade portuguesa, em França, são uns 900 000, houve uns que morreram, outros que vieram, outros reformaram-se. Os nossos filhos não estão cá, no geral, ‘tão todos lá. Não nem multiplicando por dois sequer; lá, seguimos um regime de um ou dois filhos no máximo.

Inv: Alguma vez se sentiu discriminado, pelo facto, de ser emigrante?

E: Em França? Cá? Não porque, eu, parti do princípio de que só podia ser discriminado, só podia. . . esse sentimento só podia vir de gente meio idiota, meio atrasada. Aliás, se há uma coisa que eu nunca liguei são essa classe de indivíduos, eu, passei ao lado. Nunca me apercebi disso?

Inv: Mas, havia picanço entre os residentes e os emigrantes?

E: Não, não. Havia um conflito, noutros tempos, sim. Quando os nossos compatriotas vinham . . . o que até é uma coisa muito importante. Vou-lhe dizer que. . ., prontos, eu, conheci bem a vida dos nossos compatriotas, lá. E, prontos, eram uns meses de trabalho duro. E um mês de férias, em Portugal, excitava-os, alegrava-os, isso até os fazia, talvez exagerarem um pouco nas suas . . . Sim, Sim, isso é muito importante, exageravam um pouco.

Inv: Sim, é isso que, eu, ‘tou a estudar. . .

E: Exageravam um pouco, traziam os seus carros, gostavam de acelerar um pouco. Ora, que era isso? Não era para tentar sobrepor-se ou mostrar ou ofender o que quer que seja, mas era aquela alegria de cá vir. Esse sentimento também o ‘tive, não é? Mas, não era mais do que isso. Naquela altura, o parque automóvel dos anos 70, eram carros velhinhos. E os nossos compatriotas traziam bons carros, já. E, é claro, isso causava pequenas. . .

Inv: Porque é que acha que os residentes picavam os emigrantes?

E: O nosso carácter, bom, o exagero dos nossos compatriotas, fazia como que os de cá, a gente de cá, prontos, também onze meses, a gente, cá, no sossego e, depois, virem para cá os nossos compatriotas. . . Fazerem um pouco, mexerem com isto. E até fazia falta. Era isso, nada mais.

Inv: Mas, passava-se uma coisa, não sei se reparou, aqui, nos anos oitenta, agora, vê-se menos: que era a divisão dos espaços públicos, havia, cafés de emigrantes e cafés de residentes, por exemplo.

E: Cá? Olhe. . . francamente, nunca me apercebi disso. Podia ter acontecido, Eu . . .

Inv: De um lado ‘tavam os avec´s e do outro. . .

E: Essa palavra: avec´s, já nessa altura me chegava aos ouvidos, mas, pessoalmente, nunca me apercebi disso. Eu, como lhe disse, passei ao lado: entro, não ligo a esses detalhes. Há gente que podia ter passado por isso.

Inv: Nunca, foi “olhado de lado”?

E: Na época?

Inv: Sim.

E: Não, eu, pessoalmente, nunca senti isso.

Inv: Qual é a sua explicação para esta afirmação: em França somos portugueses e em Portugal somos franceses.

E: Bem, essa afirmação seria mais um ponto de vista das pessoas que, de facto, que sentiam, efectivamente, essa discriminação. Não é? Não acho isso; nunca o senti. Eu não sou a pessoa mais indicada, não represento a maioria dos nossos compatriotas.

Inv: Mas, é precisamente por isso que é importante . . .

E: Eu, lá, não fui discriminado pelos franceses porque . . . vou-lhe contar, a característica dos franceses é a seguinte: é a raça latina, é a raça, é o país que mais se assemelha a nós, em todos os aspectos, cultural, religiosamente, temos os mesmos costumes, os mesmos horários das refeições, o mesmo costume de ir à missa, já, contrariamente, aos nossos vizinhos espanhóis, italianos, são latinos como nós, não é, mas, nós, temos um nível de comportamento idêntico aos franceses. Isso também lho posso dizer; é certo. Eu tenho um carácter que agradava aos franceses que era o seguinte: mesmo por carácter, não gostava que ninguém se viesse sobrepor em cima de mim. Nunca senti complexos de inferioridade em relação aos franceses; exigi deles o mesmo respeito que achava que eles também tinham diante de mim, não é, esse carácter agradava-lhes. Contrariamente, à maioria dos nossos compatriotas que eram humildes, submissos de mais e que para eles (franceses) era visto como agradável. O francês não gosta de gente que se submete a tudo facilmente, nem a eles próprios. Ora, eu, fui apreciado por isso. Porque, eu, prontos, através de várias formações que tive, lá, consegui chegar ao posto máximo. Essa era uma coisa pouco frequente entre os nossos compatriotas.

Inv: Sabe que há uma tese que diz que os portugueses não tinham definição cultural, que eram ambíguos?

E: Eu, sentia-me. . . vou-lhe dizer uma coisa que também é muito importante: “o sangue não mente”, dizem os franceses. Sempre tive muito orgulho da comunidade portuguesa. . . Mas, a maioria da comunidade parece não ter essa percepção. Sabe! Porque são ignorantes, porque se há alguém que aprecia os portugueses são os franceses, eu, cá, sou como os outros e, lá, sou como os outros. Porque, eu, lá, nunca senti da parte dos franceses . . . nunca quis impor o meu ponto de vista francês. Nunca me manifestava: “atenção!, eu sou português!”, e coisas assim. Nem nunca ninguém me perguntou; claro que, eu, sei falar quase correctamente francês. Talvez, até melhor do que português. Porque, sempre, o meu gosto foi ler.

Inv: E que formas de estar francesas, acha que, adoptou?

E: Adoptei, por exemplo, uma coisa que eu aprecio, é a classe, pode achar isso um pouco snob!?

Inv: É uma forma de estar . . .

E: É. . . se há uma coisa que detesto é a vulgaridade; gosto da classe.

Inv: E acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem esses comportamentos?

E: Tinham a ganhar porque, digo-lhe já, a minha visão da nossa sociedade, é de apocalipse, prontos, nem tanto, mas é uma visão muito negativa da nossa sociedade devido à televisão, ao futebol, eu, acho que a nossa sociedade se tem deteriorado desde há cinquenta anos para cá. É o meu ponto de vista; posso estar enganado.

Inv: Há coisas que estão melhor?

E: É o meu ponto de vista de ex-emigrante que tentou compreender os outros.

Inv: Porquê é que acha que os residentes viam os emigrantes como uns convencidos e uns arrogantes?

E: Porquê? Nós, quando estávamos, lá, em França, uma coisa nós tínhamos no nosso coração: era a nossa terra. Sabe a expressão dos franceses: “O sangue não mente”. E nós podemos ser muito amigos dos franceses, apreciar as coisas que eles lá têm, mas quando nos tocam no nosso país. . .

Inv: Os portugueses, em França, não participam na cultura francesa?

E: Tem, tem razão, não participamos na cultura francesa . . . porque acham que não têm capacidade para isso, não será isso? Não sei. Ou, então, acham que não lhes convém. Ou não querem perder tempo com isso. Francamente, não sei. Eu, cá, também não participo porque pouco me interesso com a sociedade.

Inv: E, agora, uma última pergunta. Como explica o facto de Portugal, sendo o país dos descobrimentos, espalhado pelos cinco continentes, obriga-se os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

E: Vou-lhe dar dois pontos de vista. Um menos realista e outro mais realista. O menos realista é aquilo que nós, cá, temos há 550 anos, desde que D. Sebastião ficou em terras de África, juntamente, com a aristocracia e a nossa juventude. Nunca mais foi o que era. . . Já Camões dizia . . . ‘tá a perceber? O espírito português ficou em terras de África e nunca mais voltou. O mais realista é que, infelizmente, somos um país. . . fomos muito influenciados, no século XVIII e XIX, pelos ingleses, que nos empurraram para várias guerras, nas invasões francesas, fomos empurrados, ao contrário, do que muita gente imagina, porque Napoleão respeitava-nos. Não nos devíamos aliar aos ingleses, já, nessa altura. Sabe como é?

Inv: Sim, sim. . .

E: Empurraram-nos na Primeira Guerra Mundial, em que 30 mil portugueses morreram, por lá, em França. Porque nos éramos o escudo das tropas inglesas. Os ingleses, depois, da I Guerra Mundial ocuparam tudo. As grandes companhias (empresas) portuguesas eram dos ingleses.

Inv: Aqui, há uns anos, nos anos 80, não notava uma diferença na ocupação dos espaços: de um lado estavam os emigrantes e do outro os residentes. Não notava isso?

E: Não achava nada relevante. Sim, havia sempre aqueles que diziam: “lá vêm esses da França com os carros”.

Inv: Mas havia separação?

E: Sim, havia separação, havia essas pequenas coisas. Os portugueses viviam nos bidonvilles e, nós, perdemos prestígio, nessa altura. Nós, até, evitávamos dizer que éramos portugueses. Depois, começaram a ganhar dinheiro, a comprar casas. E, hoje em dia, esses problemas ‘tão a desaparecer completamente. Ao contrário de outras comunidades: os negros . . . os árabes.

Inv: E que fazia lá?

E: Eu trabalhava numa empresa de restauro. Trabalhávamos para o Estado francês, em palácios, em coisas do género. . . preciso ter um certo sentido artístico e uma certa habilidade.

Inv: Bem, já terminámos, obrigado.
(Fecho da entrevista)

Entrevista número 15


Nome: Entrevistada número quinze

Idade: 18 anos.

Género: Feminino

Profissão: Estudante

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Posso gravar?

E: Sim


Inv: Alguma vez te sentiste discriminada, em França?

E: Não, pelo contrário,

Inv: Pelo contrário, como?

E: Até gostavam, gostavam de perguntar coisas, como se dizia aquilo, como se fazia.

Inv: E tu dizias?

E: Dizia, porque eram as minhas colegas. Porque, era assim, nós, éramos um grupo de muitas pessoas diferentes, uns eram da Colômbia, outra era da Tunísia, de Portugal, eram sítios espalhados, e, então, partilhávamos a nossa cultura, a nossa maneira de ver as coisas.

Inv: Então, e alguma vez foste mal tratada, cá?

E: Não, porque a minha prima é de cá, e os meus colegas, prontos, aqueles que, agora, são meus colegas tratavam-me bem, começamos, logo, a falar e prontos. Não houve problema nenhum.

Inv: E os teus pais ficaram lá?

E: Sim, os meus pais estiveram estes dois anos lá, e agora, estão cá. O meu irmão estava aqui, e, eu, também vim.

Inv: E o português, falavas português em casa?

E: Nem por isso, só falava português em Portugal, só falávamos francês.

Inv: Mas, nunca sentis-te diferenças, por exemplo, de um lado ‘tavam os emigrante e do outro os daqui?

E: Nem, por isso, porque já tinha pessoas cá.

Inv. Agora, vou-te ler uma frase e vais-me dizer se te faz sentido ou não: Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses. Alguma vez sentis-te isto. Ou os teus pais . . .

E: Ah, eu, acho que não, na França sou francesa e aqui sou portuguesa.

Inv: Mas, como és olhada?

E: Eu, acho que não, ao princípio, chamam-te “avec”, mas pouco a pouco isso vai desaparecendo e isso.

Inv. Mas, mas nunca notas-te diferenças de maneiras de ser, nunca tiveste dificuldades na integração à maneira de ser de cá?

E: Não, há uma diferença, lá há muitas raças, o meu melhor amigo era preto, há de tudo, depende da educação que as pessoas tiverem. Aqui, nem tanto, aqui acho que as pessoas são mais racistas. É o que eu acho. Se vêm um preto é logo…

Inv: E, achas que os de, cá, tinham a ganhar de fossem iguais.

E: Depende, para aprender coisas diferentes sim. As pessoas de cá são acanhadas.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 16


Nome: Entrevistado número dezasseis

Idade: 56 anos

Género: Masculino

Profissão: Professor de história jubilado

País (s) de acolhimento: Venezuela
Assegura que na província de Ourence não existe e não existiu qualquer conflito social.

A emigração galega para a Europa terá diminuído entre 1985-1990. Até este período a actividade de emigrar terá exercido um grande fascínio entre os galegos. As histórias de sucesso motivaram outros para emigrar. A não existência de conflito sociais é explicada pelo facto da emigração durar poucos anos: “Eles não ficavam, regressavam. Por outro lado, era “vergonha” exibir sinais estrangeirados.

O falar-se estrangeiro era afigurado uma vergonha. Não existia separação entre residentes e emigrantes nos espaços públicos, pelo contrário, os emigrantes eram figuras de referência, pois, destacavam-se em termos sociais.

O Sr. António considera a situação, em Melgaço e Monção, no decorrer do mês de Agosto, vergonhosa, uma vez que os emigrantes atentam contra a cultura portuguesa. Os emigrantes, segundo o Sr. António, não se comportam como tal, mas como estrangeiros. Este comportamento ainda como se fossem os “amos” ou os “senhores”. O que suscita verdadeira indignação é o facto de serem os pais precisamente a falarem francês e não somente os filhos destes. No que diz respeito à questão económica afirma que a emigração detêm contornos negativos, uma vez que aumenta a inflação, nomeadamente, os apartamentos.

Ele próprio foi emigrante na Suiça e a Venezuela.

Entrevista número 17


Nome: Entrevistada número dezassete

Idade: 23 anos

Género: Feminino

Profissão: Estudante de direito

Pais de acolhimento: França

(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)


Inv: Porquê é que emigrou?

A: Não emigrei, sou filha de emigrantes.

Inv: A política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

A: Nada pesou, na minha decisão porque nada decidi, foram os meus pais que emigraram. Mas, não penso que foi a guerra colonial que fez os meus pais emigrarem. A guerra colonial, 1961-1974 (se não me engano), os meus pais emigraram em 1983.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

A: Não sei. Só sei que os meus pais queriam ficar só cinco anos, em França, para poder ganhar mais depressa dinheiro, para poder abrir um pequeno comércio. Nasci no fim do primeiro anos. E os planos tiveram de mudar.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

A: Ficavam muito mais longe. E também porque o meu pai tinha família em França.

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o Salto?

A: Penso que ter família ou amigos no país acolhedor ajuda bastante.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado (a) no país de acolhimento?

A: Sim, às vezes. Um exemplo: nasci em França, tenho a cultura francesa (forma de viver, estilo francês . . .), falo francês como qualquer francês, vivi sempre nesse país e tive que pedir nacionalidade francesa (4 anos à espera para a ter) para poder passar a carta de condução.

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e residentes, o qual nem sempre acabava da forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever algumas formas de picanço?

A: Aumentar os preços nos mercados, quando vem o momento de férias.

Inv: Como explica esse comportamento por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes picarem os emigrantes?

A: Porque não têm mais nada para fazer, é uma ironia (riso). Penso que isso é inveja. Do ponto de vista do residentes: porque já pensaram em emigrar, mas . . . nunca conseguiram passar esse estado do pensamento. Porque os emigrantes chegam cada ano com coisas novas (carros, por exemplo), porque estão sempre a dizer que ganham muito dinheiro, porque os residentes pensam que os emigrantes têm sorte de não terem emigrado. Grande paradoxo, mas, quem pode responder melhor a essa pergunta são os residentes.

Inv: Sendo portuguesa, alguma vez se sentiu discriminada em Portugal, pelo facto de ser emigrante.

A: Mau tratada fisicamente . . . nunca, mas psicologicamente . . . às vezes. Sentir as pessoas a olhar para mim como se fosse um animal de circo, um monstro, um ser humano curioso . . . às vezes pesa. Mas, não é uma sensação que sinto todas as em partes em Portugal, é, basicamente, em Melgaço e nas pequenas aldeias.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

A: Porque o facto ou efeito de desprezar é uma coisa que os residentes sabem comunicar muito bem. Porque as classes sociais não se misturam. Cada um de nós no seu mundo. Desculpa, é ironia da minha parte, mas, de qualquer maneira, é a minha opinião.

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias se reunirem somente entre eles?

A: É a mesma resposta. E também . . . é porque os emigrantes estão de férias, mas os residentes devem mudar os seus hábitos. Mas, eu, não conheço isso, a minha família está sempre perto de mim e dos meus pais, estamos sempre juntos. Até posso dizer que tentamos recuperar o atraso de onze meses . . . em um. Tenho um irmão de 17 anos que não queria viver em França e quando ele teve 12 anos veio viver em Portugal.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foste olhada de lado, pelos residentes?

A: Em Melgaço particularmente são bastante (para não dizer muito) curiosas, e olhar de lado, posso dizer que é uma reacção normal para os melgacenses. Os emigrante são uma atracção para as pequenas aldeias, vilas . . . porque nas grandes cidades esse tipo de reacção não é frequente.

Inv: Como podes explicar esta afirmação, a qual é normal entre os emigrantes: em França somos portugueses, em Portugal, somos franceses?

A: Porque são burros. É uma ironia, mas bem, enfim. . . Há duas categorias de pessoas. Aquelas que falam francês, em Portugal e português em França. São o que eu chamo: os emigrantes com falta de personalidade. Eles precisam de fazer algo de não comum, de modo que as pessoas possam olhar para eles. E aquelas que tentam passar despercebidas, os que tentam mergulhar e nadar na cultura portuguesa. Eu, por exemplo . . . mesmo, se às vezes, me custe um pouco, porque não falo bem o português. E não gosto que uma pessoa me trate de francesa, quando estou em Portugal sou portuguesa, quando estou em França… Sou francesa na França e portuguesa em Portugal. Mas, enfim, entendo muito bem que possa haver inveja, ciúmes, por, eu, ter duas culturas. O mínimo, é tentar falar a língua do país onde se encontra, saber respeitar a cultura dos outros é uma grande qualidade.

Inv: Acha que adquirir formas de viver do país de acolhimento? Poderia dizer quais?

A: Sou orgulhosa de dizer que tenho duas riquezas que são as minhas duas culturas. Tenho o que eu chamo a minha cultura de coração. A cultura portuguesa que tento desenvolver ao máximo, quando estou em presença de portugueses, com livros sobre Portugal, ouvir música portuguesa, por exemplo. E a minha cultura básica, a francesa. Gosto de gastronomia francesa: La quiche Loraine, le cassoulet, la baguette de pain . . . da música francesa, leio muitos livros de autores franceses. Acho que a minha maneira de viver, a minha maneira de pensar, as minhas manias são francesas. Penso que tenho um pouco essa faculdade de adaptar-me ao ambiente onde me encontro. Como se eu fosse um camaleão. Tento ser portuguesa, quando estou em Portugal e tento ser francesa quando estou em França.

Inv: Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas práticas?

A: Ter duas culturas só pode ser benéfico. Sempre disse que é preferível ser cultivado do que ser inteligente.

Inv: Acha que os residentes tinham razão, quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

A: Convencidos, não. Arrogantes, alguns. É fácil de criticar, mas ninguém sabe realmente o que sente um emigrante, quando deixa os pais, os irmãos, a família, os amigos, tudo. Viver num país que não é o seu . . . é complicado. Os emigrantes sofrem muito, só que não o mostram, é orgulho, se calhar, ou simplesmente para que os residentes não se riam deles. Para não ouvir criticas. E é por isso que muitos emigrantes, quando chegam de férias gostam de se exibir com coisas novas ou de falar francês em Portugal, por exemplo. As aparências enganam e as pessoas limitam-se a acreditar só no que vêm ou no que ouvem. Facilidades, facilidades, futilidades, enfim. Hoje, em dia, reflectir, cogitar contemplar, observar, pensar . . . são faculdades, luxos, que nem todos temos.

Inv: Como explicar o facto de Portugal, sendo o país dos descobrimentos, espalhado pelos cinco continentes, obriga-se os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

A: Podes reformular a questão, não a compreendo.


(Fecho da entrevista)

Entrevista número 18


Nome: Entrevista número dezoito

Idade: 71

Género: Feminino

Profissão: Reformada

País (s) de acolhimento: França
(Abertura da entrevista: explicitação dos conteúdos e dos objectivos. Pedido de consentimento para a gravação áudio)
Inv: Porquê é que emigrou?

V: O meu homem estava em França, há mais de dez anos. Emigrei em 1965 ou 1966. Já nem me membro. Você ainda não era nascido. Naquele tempo era uma miséria. Casei muito cedo, ah, se fosse hoje! Eu e o meu marido não tínhamos campos, por isso tivemos que emigrar, ele era o filho mais novo e os mais novos tinham que ajeitar a vida.

Inv: A situação política portuguesa, nomeadamente, a guerra colonial pesaram na sua decisão?

V: Para mim não, sou mulher, os rapazes novos fugiam à tropa. Só os castrejos não iam à tropa e até esses emigravam. O meu homem teve sorte, não foi à guerra.

Inv: E o regime fascista do Estado Novo?

V: Bem pensado. Sabe, é bem certo que sim. O meu pai ia preso para Braga de três em três meses. Era a política que desgraçou tudo. Depois queimaram-lhe a casa, nunca mais o largaram, ‘tava preso, em Braga, dois a três meses, para nada. Era o diabo, naquele tempo.

Inv: Porque não se dirigiu para as antigas colónias portuguesas?

V: Para lá, não, não, nós tínhamos que ganhar a vida.

Inv: Como imaginava a sociedade de acolhimento, antes de emigrar?

V: Não sei bem, nós tínhamos que ganhar a vida . . . , senão era uma sardinha para todos e olhe que era assim mesmo.

Inv: Conhece algumas artimanhas usadas pelos emigrantes para dar o “salto”?

V: O meu marido veio-me buscar, a salto. E depois fomos também a salto até à fronteira da França. Andamos sempre a pé. O meu homem conhecia os caminhos e os galegos que nos ajudaram, sem pagar nada.

Inv: Alguma vez se sentiu descriminado no país de acolhimento?

V: Não, naquele tempo, o pior era atravessar a Espanha. Na França havia muito trabalho, não trabalhava quem não queria.

Inv: Mas, alguma vez não foi bem tratada?

V: No princípio, penso que sim, depois, não, era muito trabalho e depois vieram os filhos. Não havia vagar para isso.

Inv: A sua integração no país de acolhimento foi difícil ou fácil? Poderia descrever algumas peripécias?

V: Os de cá não gostavam de nós, tinham ciúmes.

Inv: São conhecidas as disputas (picanços) entre emigrantes e residentes, por exemplo, durante as férias, era realizado um jogo de futebol entre emigrantes e portugueses, qual nem sempre acabava a forma disciplinar mais correcta. Poderia descrever outras formas de “picanço”?

V: Discriminada não, mas má tratada sim, os de cá querem roubar os emigrantes, até roubam a própria família.

Inv: Como explica esse comportamento, por parte dos residentes? Ou seja, na sua opinião, qual seria a razão dos residentes “picarem” os emigrantes?

V: Os de cá não queriam misturar-se, não tinham dinheiro e quando se juntavam era p’ra nos roubar os francos.

Inv: Sendo português, (a) alguma vez se sentiu discriminado ou mau tratado, em Portugal, pelo facto de ser emigrante?

V: É o que já lhe disse.

Inv: Durante as férias, quando o número de emigrantes era superior ao de residentes, os emigrantes e os residentes frequentavam lugares públicos diferentes. Na sua opinião qual era a razão para tal comportamento?

V: No princípio sim, depois só queriam o nosso dinheiro. A vida era mais cara cá, mas é a nossa terra, não é? Tínhamos que visitar a família. No princípio estranhava tudo, era cada um por si . . .

Inv: Como explica o facto dos residentes, durante as férias, se reunirem somente entre eles?

V: Ora, aí está, nem cá nem lá. Mas, lá é normal. Cá, somos franceses e, lá, somos portugueses, somos tratados como os árabes ou pior. Mas, cá ainda é pior; nós somos de cá.

Inv: Em espaços públicos, por exemplo, num café, alguma vez foi, “olhado de lado” pelos residentes não emigrantes?

V: Não sei, nós trabalhávamos para ganhar dinheiro.

Inv: Como pode explicar esta afirmação normal entre os emigrantes: “Em França somos portugueses, em Portugal somos franceses?

V: Bem seguro, os de cá são todos uns brutos.

Inv: Acha que adquiriu formas de estar, de viver, do país de acolhimento? Quais?

V: Alguns emigrantes davam muito nas vistas, eles queriam mostrar-se dessa maneira.

Inv: Acha que os residentes teriam a ganhar se adoptassem também essas práticas?

V: Agora, está tudo igual. E a França já não é o que era.

Inv: Acha que os residentes tinham razão quando diziam que os emigrantes eram todos uns convencidos e uns arrogantes?

V: Nem todos, alguns pensavam que eram mais do que os outros.

Inv: Como explica o facto de Portugal, sendo o país dos descobrimentos espalhado pelos cinco continentes, “obriga-se” os portugueses a passarem pelas dificuldades de quem emigrava?

V: Foi o Salazar, não é? Aqui, nem havia reformas, o meu pai trabalhou toda a vida para quê? Para os outros, para os políticos. Não têm vergonha, é tudo poleiro. O meu pai nem um tostão ganhou. Na França, o meu marido teve um acidente e viemos, para cá, com o subsídio e a reforma, mas ainda tem que se tratar lá. Na França, os médicos são melhores e é mais barato. E temos, lá, o meu filho mais velho, esse ‘tá bem na vida. Ganhou na lotaria.


(Fecho da entrevista)


  1. Pedido de autorização para investigação

Eu, Joaquim Filipe Peres de Castro, licenciado em Psicologia Social e do Trabalho, psicoterapeuta Relacional-Dialógico (Ipafiano), pós-graduado em Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária, aluno da pós-graduação em Neuropsicologia no Instituto de Psicologia Aplicada e Formação e mestrando em Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária, venho, por este meio, solicitar a autorização da instituição:________________________________________________, no sentido de realizar um investigação referente à tese de dissertação de Mestrado em Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária, junto da Universidade Fernando Pessoa.

________________________


O requerente (Dr. Joaquim Filipe Peres de Castro)
________________________
A/o responsável

5. Questionário


Este questionário, parte integrante da investigação para a dissertação de mestrado em Psicologia da Saúde e Intervenção Comunitária na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa, destina-se a recolher informações junto das pessoas que tiveram uma experiência migratória e que, hoje, residem no concelho de Melgaço.

As questões que lhe irão ser colocadas estão relacionadas com percursos migratórios e seus constrangimentos decorrentes, nomeadamente, das relações entre os que partiram e chegaram e os que permaneceram.

A sua participação é muito importante.

I. Caracterização sócio-demográfica


1. Idade: _____________ (anos)
2. Onde nasceu? Concelho: _____________ 3. País: _____________
4. Género: Feminino …....... 

Masculino …...... 


5. Qual é o seu estado civil: Solteiro (a)……………………. 

Casado (a) ……………………… 

União de facto ………………………….. 

Divorciado (a)/separado (a)…….. 

Viúvo (a) ……………………….. 
6. Qual é o grau de escolaridade mais elevado que frequentou?
Não estudou……………………… 

Ensino primário…………………. 

Ensino preparatório……………… 

Ensino secundário......................... 

Ensino complementar.................... 

Bacharelato…………………........ 

Licenciatura…………………....... 

Curso profissional……………… .  Qual? _____________

Outro…………………………….  Qual? _____________

II. Percurso (s) migratório (s)


7. Que idade tinha quando emigrou? _____________ (anos)
8. Que idade tinha quando regressou? _____________ (anos)
9. Em que país (es) esteve emigrado (a)? _____________;_____________;_____________
10. Das razões abaixo expostas, refira o grau de importância que atribui a cada uma das razões que o (a) poderão ter levado a emigrar:




Muito importante

Importante


Pouco importante

Nada importante

Económica









Política









Familiar









Cultural









Conflito Laboral









Aventura









Outras









Quais foram essas outras razões: _____________; _____________
11. Emigrou de forma:
Legal ……………. ► Passe para a questão nº 12

Clandestina………


11.1. Quanto tempo demorou até arranjar o passaporte?

_____________ (meses); _____________ (anos)


12. Quem o (a) ajudou a emigrar?
Amigos………………… 

Familiares……………… 

Conhecidos…………….. 

Estrangeiros……………. 

Passador……………….. 

Ninguém……………….. 

Outros…………………..  Poderia dizer quais? _____________; _____________
13. Quem o (a) ajudou a arranjar trabalho no país de acolhimento?
Amigos…………………. 

Familiares………………. 

Conhecidos…………….. 

Estrangeiros……………. 

Passador………………… 

Centro de emprego………

Outros…….......................  Poderia dizer quais? _____________; _____________
14. Em que trabalhava, antes de emigrar?

_____________; _____________; _____________


15. E, agora, em que trabalha?

_____________; _____________; _____________


16. E quando foi emigrante, em que trabalhava?

_____________ ; _____________; _____________


17. Quando era emigrante, teve dificuldades em se adaptar ao trabalho?
Sim…….

Não…..... ► Passe para a questão nº 18


17.1 E que dificuldades foram essas? _____________________________________________________________________________________



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