Gabriel Delanne G. Bourniquel Escutemos os Mortos


VIII Manifestações errôneas ou duvidosas



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VIII

Manifestações errôneas ou duvidosas

Deseja-se medir os homens pela retidão de suas ideias

no físico e pelo conhecimento mais ou menos exato

que eles possuem sobre o verdadeiro sistema do mundo?

Renan
As manifestações que seguem foram quase todas obtidas na cidade de Montmorency, sede da União Espírita Francesa, de dezembro de 1920 a junho de 1922.

O comitê da Sociedade Francesa de Estudos Psíquicos tinha nomeado uma comissão encarregada de estudar especialmente a mediunidade de incorporação. Albertine se colocou a sua disposição e permitiu realizar, durante esse período, pesquisas experimentais do mais alto interesse.

Elas aconteceram sob a presidência do Sr. Gabriel Delanne, cujo estado de saúde não permitia deslocamento. O sr. Boruniquel dirigia as provas; o sr. Paul Bodier cumpriu, por algum tempo, as funções de secretário, mas como não havia tempo livre suficiente, foi substituído pela srta. Jeanne Laplace, que taquigrafava todas as sessões.

Os assistentes, por volta de vinte, eram todos experientes, e nenhum deles jamais considerou essas pesquisa de outra forma que não um estudo dos mais sérios. As condições impostas eram simplesmente: observar e se calar; entretanto, era permitido pedir explicações e ninguém perdia a oportunidade.

Isso à parte, nenhum ritual, nem a menor cerimônia que pudesse sugerir a aparência de um culto. Tudo acontecia à plena luz; quando ia escurecendo o dia, acendia-se o lustre. A obscuridade, a própria luz vermelha teriam causado incômodo para o estudo dos movimentos do médium, seus jogos fisionômicos expressivos, as deformações de seu corpo.

Depois da leitura e adoção do relatório, o Presidente fazia uma breve invocação: “Nós pedimos aos bons espíritos que se juntem a nós e favoreçam as comunicações”; ele dava, quando necessário, esclarecimentos sobre diferentes pontos. Depois, o guia Camillo era chamado: “Pedimos a Camillo que se comunique pelas faculdades de Albertine”. Esta entra em processo de incorporação dentro de um ou dois minutos, sem que se faça necessário ocupar-se dela de nenhum modo e ela respondia às inúmeras e diversas questões que lhe eram submetidas.

Jamais tivemos a impressão de que as respostas dadas por Camillo e pelos outros espíritos fossem marcadas de qualquer transcendência. As informações concernentes a seus estado psíquico, dadas pelas entidades, nós as temos tido como continuando, de algum modo de uma forma inconsciente para a maior parte, sua existência terrestre.

Muitos vivem um tipo de sonho onde as sensações daqui de baixo se mesclam de maneira bizarra a seu novo meio. Em suma, nós temos nos relacionado mais com espíritos pouco evoluídos, e é provavelmente para nos fazer conhecer essa região misteriosa do além que se tem trazido a nós grande número de seres que não se dão conta exatamente de sua verdadeira situação. Entre eles, entretanto, alguns tinham conhecimento de seu falecimento.

De modo geral, é a confirmação de ensinamentos anteriores, que encontramos nas obras espíritas, e essa categoria de desencarnados foi apontada por Allan Kardec em meados do último século.

Está claro, desde então, que não poderíamos ter a esperança de obter desses espíritos explicações transcendentais; eles seriam incapazes de fornecê-las, pois eles mesmos não parecem compreender muita coisa de seu estado, e somos nós que devemos explicar a eles.

Mas o que importa aqui é o controle de sua identidade. Temos adquirido a prova de que a morte não destruiu sua personalidade e isso é o essencial; aí também está dada nossa ambição.

Não se duvida que, em outras sessões, com outros médiuns videntes ou de psicografia, não se possa entrar em relação com seres mais evoluídos que tenham condições de abordar problemas mais complexos; mas será sempre preciso contar com a extrema dificuldade inerente a esses diversos modos de transmissão do pensamento, tornados ainda mais precários pela obrigação dos espíritos de se servirem de um organismo que não é o seu.

Nas sessões da cidade de Montmorency, quando Camillo tinha terminado suas explicações, pedimos a ele que enviasse um espírito desconhecido a todos; deixamos a porta aberta a quem quisesse vir. Camillo deixou a médium e deu lugar a uma entidade que, já o dissemos, reproduzia o princípio de sua agonia, passava em seguida pelo estado tanatóide que descrevemos e, enfim, nos contava sua vida de modo mais ou menos preciso.

Se alguém entre nós ou a própria médium conhecesse esse espírito, tivesse ouvido falar dele, lido seu nome nos jornais, percorrido o país onde ele tinha vivido, a manifestação seria considerada nula; nós não estimamos senão a prova de vida além da morte, a fim de eliminar a famosa explicação pela criptestesia.

Entre essas manifestações, algumas têm uma origem nitidamente duvidosa, outras são inegavelmente errôneas. A médium deu, sob nossos olhos, cenas de um realismo impressionante, mas quando se ia às informações, era impossível encontrar o menor traço dos fatos citados e das pessoas dispostas.

Essas são duas categorias que temos reunido nesse capítulo.


O pedreiro do Panthéon

A primeira sessão data de 19 de dezembro de 1920. Eis aqui o relato, muito resumido, redigido pelo Sr. Bodier.

“A médium incorpora uma entidade dizendo ser um pedreiro vítima de um acidente ao descer de um andaime por uma corda de escalada. Esse pedreiro trabalhava no Panteon, na sublevação de uma parte desse monumento, em 1875 ou 1876, em novembro. Solicitado a dar uma data mais precisa, ele dá o dia 12 de novembro, quinta-feira. Depois de muitas dificuldades, ele diz seu nome: Chevalier (Pierre), morando na rua dos Ingleses (Paris) onde sua mulher tinha um comércio. Ele tinha 39 anos e era de Corrèze. Em seguida, a médium, desembaraçada pelo Sr. Bouniquel, dá indicações, pela vidência, que confirmam em parte as informações precedentes.”

É preciso acrescentar que durante essa incorporação a médium fazia gestos como escalasse uma corda; depois, seu rosto mostrou perfeitamente o horror de alguém que cai no vazio.

Embora algumas pessoas nos tenham afirmado ter lido em outro tempo sobre um acidente ocorrido no Panteon, mas sem poder precisar a época, não pudemos encontrar rastros de um Pierre Chevalier tendo morado na rua dos Ingleses. Duas pessoas foram sucessivamente encarregadas da pesquisa, mas mesmo as mais pacientes restaram infrutíferas.

Onde, então, a médium tinha ido procurar essa personalidade? Na sua própria imaginação? Em seu subconsciente? Inclinamo-nos a crer que ela se enganou ao dar seja o nome, seja o nome da rua onde ele morava, seja a data, seja o lugar exato onde aconteceu o acidente.

O Pierre

Eis aqui uma outra comunicação do mesmo tipo, marcada de erros idênticos e de imprecisões; o relatório de 27 de março de 1921 a dispõe assim:

“O espírito pede algo para beber e chama muitas vezes: Louise. Ele diz seu nome: o Pierre; diz que morreu em São Lourenço (Altos Pirineus), que sua mulher se chamava Louise e que ele foi tratado pelo doutor Lautier. Ele reclama do barulho que faz o pêndulo, como do barulho que uma criança faz. Ele afirma que não está morto. Pede-se a Camillo para mostrar a ele seu cadáver, para provar-lhe o contrário. Ele ri, então, faz caretas, se dá conta que o cadáver que lhe é mostrado é o seu, mas crê que está louco. Tenta-se esclarecê-lo. Ele diz que tem um filho de nome Jean. Seu nome, segundo ele, é Bugeaud. Ele diz que morreu em 1886, mas não pode precisar nada além do mês, que é junho. Seu irmão esposou a irmã de sua mulher. Seu filho tinha três anos quando morreu. São Lourenço, onde morreu, está situada entre Bagnères-de-Bigorre e Lourdes; ele morreu de meningite.”

Ao despertar, a médium teve visão correspondente a essa incorporação e acrescenta ainda detalhes complementares.

Os fatos revelados eram objetivos e suficientes como indicação; uma investigação teria sido fácil e nos teria informado sobre seu valor. Entretanto, nós não a julgamos útil por duas razões. Primeiro porque não existe São Lourenço entre Bagnères e Lourdes, mas que essa localidade: Saint-Laurent-de-Neste se encontra entre Tarbes e Montréjeau. Além disso, Albertine conhecia vagamente essa região, que ela tinha atravessado no ano anterior; ela até tinha feito uma curta estadia em Bagnères e não se deixou de objetar de que se tratava de um despertar da memória latente. Então, nós não nos apoiamos nessa comunicação e a mencionamos simplesmente para mostrar nosso cuidado de precisão e nosso escrúpulo excessivo.


O encanador do gás

Outra manifestação duvidosa é a de 8 de maio de 1921. Nesse dia, tivemos a visita de um encanador que morreu asfixiado em um porão ao reparar uma condução de gás.

“Há uma fuga, exclama ele; é preciso ver se tudo está fechado; oh! Chame o homem... Rápido, em nome de Deus!... Oh! Feche a coluna...”.

Depois de um tempo buscando fazer com que ele compreendesse que estava morto, ele declara se chamar Georges Barra, de 28 anos de idade, e morar em Lille, com seus pais, na rua Arnaud, nº4. Seu patrão, Sr. Pouré, também ficava nessa rua. O acidente aconteceu em 1882. Ele teve uma irmã, Marguerite, morta 10 anos antes dele. Ele era coxo e não foi soldado.

A visão que segue essa incorporação nos deu uma descrição completa do indivíduo, mas a médium declarou que as imagens que ela via não eram seguras.

As informações estavam certamente errôneas; é raro encontrar instalações de gás em porões, ao menos em residências; não conseguimos encontrar a família desse encanador, as pessoas às quais nos endereçamos não conhecem a rua Arnaud. O tempo do falecimento, que remetia à 39 anos, a ocupação alemã, que pesou tão fortemente sobre Lille e fez tantas vítimas e vazios nessa cidade maravilhosa, tudo isso complicava as dificuldades a ponto de sermos obrigados a renunciar a esclarecer o caso. Se algum leitor encontrar recordações interessantes relacionadas a ele, pedimos que nos comunique.

Outros erros

Tivemos, em diferentes datas, outras comunicações radicalmente falsas, notadamente a seguinte:

“Savard (Emmanuel), alfaiate, morando na rua Courte, em Epinal. Isso me revolve o estômago... limonada... chá... Tenho enfisema... Peguei gripe e ela me dobrou. Foi em 1918, setembro. Levaram-me ao hospital Hôtel-Dieu d’Epinal, onde morri. Tive duas filhas: Thérèse (16 anos) e Marie-Louise (9 anos). Eu era coxo, por isso não fui convocado. Minha mulher tinha 38 anos e se chamava Jeanne Monié”.

O secretário da prefeitura de Epinal nos advertiu da seguinte ficha:

“Tenho a honra de lhes apresentar que depois de muitas pesquisas sobre os Registros Civis da cidade de Epinal foi impossível encontrar o falecimento do Sr. Savard (Emmanuel). Funcionários da prefeitura e da polícia ignoram a residência do Sr. Savard e de sua família”.

Aconteceu o mesmo com:

Antoinette Lafforgue, nascida em Doumenc, falecida por volta de 1882, em Villefranche-de-Rouergue (Aveyron).

Jean-Marie Maillard, curtidor, falecido em Maringues (Puy-de-Dôme), que deu abundantes detalhes sobre si mesmo e sobre um de seus empregados – um malandrinho, diz ele –, que assassinou seu pai e sua mãe para lhes roubar o dinheiro; foi à guilhotina”.

A prefeitura de Villefranche-de-Rouergue e a de Maringues fizeram pesquisas que não tiveram sucesso.

Eis, então, mais três casos que demonstram a que ponto nós devemos ser circunspectos quando se trata de comunicações mediúnicas. Certamente, a boa fé da médium é aqui inegável, fora de contestação, mas isso não é suficiente. É preciso se dar conta dos erros que podem se introduzir em suas declarações, erros sobre os nomes, as datas e os eventos.

Há algumas verossimilhanças salpicadas aqui e ali; por exemplo, a localidade de Maringues existe realmente em Puy-de-Dôme e nós temos a absoluta certeza de que ela foi ignorada pela médium; além disso, nenhum de nós a conhecia. Há curtumes nessa região. Quanto ao assassinato cometido pelo malandrinho, se ele realmente aconteceu, teria sido uma razão, devido a sua publicação provável nos jornais da época, para o que não fizemos nenhuma pesquisa.

Passemos, então, todo esse capítulo por perdas e ganhos, nos reservando o aprofundamento sobre os comentários que nos inspiram esses estranhos lapsos memorizados.

.

IX



Manifestações nitidamente subconscientes


Eva, então, quem és?

Qual é, então, tua natureza?

Sabes qual é, aqui, teu objetivo e teu dever?

(A. de Vigny. — La maison du berger.)

Após as comunicações errôneas ou duvidosas, eis aqui as comunicações que certamente constituem manifestações subconscientes da memória latente. Nos dois casos que relatamos aqui, será visto que a médium tirou de suas recordações recentes os fatos dos quais falamos; ela os relatou com uma fidelidade notável e se a mediunidade subjetiva não tivesse a seu favor outra coisa senão comunicações dessa ordem, a doutrina espírita teria apoios frágeis. Seríamos os primeiros a ficar ao lado daqueles que a atacam tão duramente e nossa energia, nossos protestos, se juntariam aos deles.

Mas não é assim; encontraremos, ao avançar sobre nosso trajeto, fatos cada vez menos duvidosos e cada vez mais desconcertantes; depois dos fenômenos imputáveis à subconsciência, chegaremos a outros que serão verdadeiras revelações. Por menor que seja a boa fé, deve-se admitir, então, que as afirmações dos espíritas têm razão de ser no que concerne à sobrevivência da individualidade. “Isso nos importa tanto, disse Pascal, e nos toca tão profundamente, que é preciso ter perdido todo sentimento para se estar indiferente a saber do que se trata”.

Não receamos expor os fatos tal como se apresentam; em seguida, é sair para separar o joio do trigo. Contrariamente a aqueles que afirmam que os espíritas são crédulos que aceitam de olhos fechados tudo o que lhes chega pelo canal dos médiuns, somos os primeiros a apontar os casos onde a consciência desses últimos evoca cenas ou personagens que não têm nenhum valor probatório, porque eles foram simplesmente despertados em meio a recordações tiradas da memória latente e por vezes dramatizados sob a forma de romance subliminal.

O afogado da Ponte São Miguel

A primeira dessas manifestações ocorreu no final de 1921. Dois dias antes, A, passando de ônibus sobre a ponte São Miguel, percebeu um agrupamento considerável. Em Paris, é preciso pouca coisa para atrair os espectadores: um chapéu levado por um golpe de vento no Sena e eis imediatamente 500 pessoas inclinadas sobre o parapeito.

Mas, dessa vez, o negócio foi mais sério: um jovem homem tinha acabado de se jogar na água e as brigadas fluviais faziam buscas para resgatá-lo. Albertine fica emocionada e narra a aventura dramática.

No domingo seguinte, dia de reunião em Montmorency, Albertine incorpora um jovem homem que, aparentemente, seria o afogado. Ela reproduziu todas as fases do que se pode supor ser uma agonia desse gênero, sufoca, asfixia, mostra uma angústia extrema. Interrogado, o dito espírito não pôde, e por uma boa razão, indicar seu registro civil. Ao despertar, Albertine teve logo a visão da ponte São Miguel, depois a de um jovem homem de pé, perto do parapeito, que tirava rapidamente sua roupa e se precipitava na água.

A ação da subconsciência aqui é inegável; e ocorre o mesmo na segunda manifestação que trago abaixo.


A Virgem casada

A srta. Marguerite X tinha se casado com um médico que, por comodidade, chamaremos Robertin, e que morava na região do Norte. O casal poderia ter sido feliz, mas o Destino não quis assim. Um desenvolvimento anormal de alguns órgãos, uma elefantíase de natureza especial, impede o marido de consumar o casamento, ou seja, ele jamais pôde dar testemunhos que não de um amor exclusivamente platônico. Daí, desentendimentos, indiferença, querelas, choros e cólera.

Diante do desapontamento amplamente justificado de sua mulher, diante desse calvário doloroso que poderia ter sido previsto antes, Robertin, desamparado, encontra refúgio no álcool; cotidianamente, ele se acabava na bebida.

Esse interior logo se tornou um inferno para a infeliz Marguerite, que repetidamente teve de sofrer as brutalidades de seu marido. Isso durou doze anos. Depois desse tempo, vendo seu futuro definitivamente perdido, desejando viver sua vida, a Sra. Robertin decidiu ter um amante. Ela escolheu um médico. Qual não foi a surpresa do feliz eleito por constatar, no primeiro encontro, que sua amante, essa mulher casada há 12 anos, era virgem.

Essa história inverossímil é totalmente verdadeira. Uma de nossas amigas, Sra. C., foi confidente de Marguerite, sua amiga de pensão, e, por sua vez, contou a Albertine durante uma visita que esta lhe fez em 2 de março de 1922.

Dado o caráter confidencial desse pequeno drama íntimo, Albertine não conta a ninguém; mas, cinco dias depois, na reunião, ela incorporou um médico morto por volta de 1910 em... (cidade de uma região do norte) com 48 anos e chamando-se Robertin.

Ele conta detalhadamente os episódios que nós mal tocamos aqui; ele dá o nome de um professor da faculdade de Lille, o doutor Debierre, senador; ele crê já ter morado em Lille com seus pais, proprietários, na rua Ney, mas não estava certo disso. Ele declara ter morrido após uma gangrena nas pernas, devido a uma infecção causada por uma picada. Ele não sabia dizer o nome do prefeito da localidade onde ele tinha exercido; é, entretanto, uma personalidade política das mais conhecidas.

Como ninguém dentre os assistentes conhecia essa história, as particularidades inúmeras dessa existência atormentada mereciam ser verificadas, e o comitê designou como investigador o Sr. Le Loup de Sainville, cuja habilidade e discrição eram bastante úteis para a elucidação desse caso especial.

Sr. Le Loup não conseguiu fechar sua missão, pois, na terça-feira seguinte – tendo a Sra. C. vindo para assistir uma sessão na casa do sr. Bourniquel –, Albertine volta a incorporar o dito espírito.

Já nas primeiras palavras a sra. C. o reconheceu:

“Como é o senhor, Robertin? O que vem fazer aqui?

- Sou eu. Eu venho exprimir meu pesar por todo o mal que fiz. Minha mulher foi infeliz por minha culpa etc...”

Aí, intervimos para perguntar a Sra. C. se ela conhecia esse desencarnado.

“Creio que bem, responde ela; eu mesma contei sua história a Albertine, na última terça”.

É assim que compreendemos como Albertine conhecia a vida de Robertin. Seria o espírito dele que veio, por duas vezes, incorporar nela? Isso não é impossível, mas, em todo caso, decididos partidários da explicação mais simples, admitimos aqui a ação do subconsciente. Ela é lógica, é plausível, explica todos os fatos: seria, então, impossível não levá-la a primeiro lugar.

Notemos, todavia, que essas duas manifestações se ligam a eventos dos quais a médium teve conhecimento recentemente, a apenas 4 ou 5 dias. É, portanto, muito natural que seu subconsciente tenha registrado, e mesmo que sua consciência normal tenha conservado uma lembrança suficientemente viva e precisa desses eventos para que a médium nos tenha relatado com tamanha fidelidade.

Teria sido igual se esses fatos tivessem vindo a seu conhecimento há bastante tempo, muito tempo antes da sessão de incorporação? Teria ela guardado a lembrança latente durante 15 ou 20 anos, ou mais? Os psicólogos oficiais respondem: sim, e nada nos autoriza a contradizê-los.

Notemos que, em toda a vida psíquica de Albertine, esses são os dois únicos casos autênticos de personalidades subconscientes que conhecemos. Eles não nos provaram que a subconsciência conserva indefinidamente a lembrança de eventos antigos, mas nos dão essa certeza absoluta no que concerne aos fatos recentes.

Então, admitimos perfeitamente que é por autossugestão que Albertine, num segundo estado, personificou o afogado e o doutor.


X

Manifestações onde a subconsciência é
provável e pode ser validamente argumentada

Os homens, não podendo se curar da morte,

da miséria, da ignorância, são advertidos,

para serem felizes, a não pensarem nela.

Pascal

Chegamos a uma série de manifestações nas quais a hipótese do subconsciente possui ainda um direito de prioridade sobre todas as outras, mas com menor força que nos casos precedentes.



Nessa categoria, classificamos as comunicações feitas por espíritos de família na presença de seus parentes, de seus amigos ou de pessoas que os conheciam. Elas foram obtidas por Albertine, por incorporação, na casa dela ou de amigos íntimos.

Que ninguém se engane. Não pretendemos certificar que em todas essas manifestações o agente principal seja o subconsciente, excluindo qualquer outro. Sabemos, ao contrário, pelas dificuldades experimentadas, mesmo nesses casos particulares, para obter dos espíritos as informações que se lhes perguntam, sabemos a que ponto o funcionamento desse subconsciente se mostra tão frequentemente rebelde. Mas sabemos também o quanto ele se impõe como primeira hipótese, quando a clarividência do médium teve a possibilidade de se alimentar nos cérebros vizinhos.

Alguns sábios atestaram o poder da telepatia, outros o negaram vigorosamente; contra toda lógica, tanto um quanto o outro concordam em colocar a seu favor a maioria das manifestações subjetivas. Não importa. O subconsciente, nos casos que vamos citar, tem um valor de probabilidade, o qual seria desonesto não levar em conta.

Um 1 de maio pacífico

A tarde de 1 de maio de 1920 foi algo agitada, em Paris. As reivindicações dos trabalhadores empregavam, nesse dia, a força para se fazerem entender; houve, como de costume, telhados quebrados, manifestantes conduzidos à delegacia, e isso fez com que se desse um grande passo na questão social.

Pouco preocupados em se misturar à multidão e respirar nas ruas odores de poeira e suor, e também receber balas perdidas, o sr. e a sra. Yvonneau decidiram fazer uma visita amigável a sra. Bourniquel: “Aproveitamos, dizem eles, para pedir uma comunicação com nossos pais; há muito tempo que não os chamamos”. Foi isso que eles fizeram; obtiveram a comunicação solicitada que lhes deu, afirmam eles, a maior satisfação.

Albertine ainda estava em transe quando um senhor desconhecido chega e se apresenta: “Sou o sr. Escudier, empregado no Journal; venho da parte do sr. Delanne, que me recomendou à senhora; ele me disse que a senhora não recusaria o serviço que venho solicitar: eu gostaria de invocar dois membros de minha família, que morreram recentemente.

- Seja bem vindo, senhor; o senhor chegou em boa hora, fazíamos precisamente uma pequena sessão íntima. Albertine terminou com o sr. Y e vai lhe atender. Como se chama o espírito que o senhor deseja?

- Marie.

Sem despertar, Albertine faz, então, a agonia de uma mulher de idade, fulminada por um ataque de paralisia. Todo o lado direito apresenta a rigidez específica da hemiplegia; a face, assimétrica, está contraída de um lado com a boca estirada na direção do queixo e normal do outro lado. Ela diz seu nome, a data de sua morte, que são reconhecidos pelo sr. Escudier como se relacionando a sua mulher; ele declara, também, que ela sucumbiu a um ataque de paralisia. Muito emocionado por se encontrar com sua esposa, ele troca com ela lembranças de outros tempos.

“E Juliette, pergunta ele, você vê Juliette?”

O espírito não responde diretamente, mas balbucia:

“Vovonne... Yvonne... eu a vejo...

- Yvonne, é Yvonne que você vê? exclama o sr. Escudier, totalmente desconcertado.

- Sim, ela está ali, perto de mim.

- Yvonne? Será possível?”

Ele explica, então, que Yvonne é uma criança que ele perdeu há 28 anos; ele confessa francamente que estava muito distante de pensar nela, e então ela foi vista pela mãe, no lugar de Juliette, outra de suas filhas, morta recentemente, depois de 21 dias de casamento. Ele não sabe muito o que dizer a essa criança que não tinha mais que 4 anos; mas Yvonne lembra a ele fatos antigos que ele mesmo tinha perdido da lembrança, que só ela poderia conhecer e que emocionou o pai ao mais alto grau.

Note-se que a médium ignorava absolutamente a existência dessa família; quando ela desperta, ela fica bastante surpresa por encontrar a seu lado esse senhor desconhecido que havia chegado durante o transe.

O sr. Escudier mora no 170 bis, avenida de Paris, em Vincennes.

O suicídio do mal pagador

A sra e o sr. Yvonneau voltaram em 10 de junho e nos pediram para chamar um espírito chamado Benoît S... Este, assim que nos fizeram saber após a sessão, era um amigo de infância do sr. Y. e algum tempo depois do casamento deste último, Benoît pegou emprestado, várias vezes, importantes somas cujo total representava uma fortuna. Ele jamais foi reembolsado por esse individuo, que um belo dia foi encontrado morto na floresta de Sénart. Acreditou-se que ele tinha sido vítima de um acidente. Quanto a médium, ela jamais conheceu Benoît.

Eis o relatório que foi redigido pela sra Yvonneau durante essa sessão.

“Sr. Bourniquel pergunta qual é o nome do espírito que se apresenta.

R. – Benoît S. Eu ainda estou dormindo. Dê-me uma almofada, eu lhe peço. Eu quero fumar.

Seu desejo é realizado; ele faz o gesto de fumar e lança a fumaça com uma satisfação visível.

Ele continua o monólogo:

“Então, minha vida. É meu prazer. Eu não perturbo ninguém, não é? Eu tenho uma maneira de trabalhar sem muito sacrifício. As pessoas me reprovam por não ser honesto, mas encontro nisso grande satisfação.

Sr. B. – O que o senhor faz agora?

- Eu durmo e fumo; deixe os mortos em paz.

- O que o senhor quer?

- Isso que vejo! São homens como eu”. O sr. Y toma a mão de Benoît e diz:

- Há alguém aqui que o senhor deve conhecer.

- Há muito tempo que não tenho essa visita. É você? E. Y. (São as iniciais do consulente: Emmanuel Yvonneau). Eu te reconheço bem. Você me quis mal, dizendo sempre que Benoît era um tipo sujo; é por isso que um se afastou do outro. Mas negócios são negócios; os meus parecem desonestos. Mas, depois de tudo, eu não sou obrigado a me confessar. Por que você me emprestou? Por que colocou sua confiança em mim?

- Sr. Y. – Naquele momento, você implorava minha piedade por sua mulher e seus filhos. – Silêncio prolongado).

- Oh, esse papel! Eu representava por mim mesmo, à seu detrimento; eu sabia de onde pegar dinheiro; mas os meus não aproveitaram nada.

- Você vê sua mulher?

- Não, não posso ir até ela.

- Então, foi preciso que fosse eu a fazer com que você viesse aqui?

A médium toma um ar constrito, embaraçado; ele parece incomodado.

- Sr. Y. – Você já foi mais eloquente.

- Isso me serviu para explorar uns e outros. Todos esses documentos me serviram para acender cigarros.

- Você poderia nos dizer como morreu?

- Como morrem os covardes. Oh! Esse caminho! Eu estava louco. Essa floresta! Eu tinha bebido para tomar coragem de acabar tudo; eu ainda estaria agarrado à vida se eu não tivesse atordoado pela embriaguez. Essas árvores... essas árvores!... (sua figura exprime o pavor). Eu andei, andei por muito tempo; minha carteira roubada... mas foi simulado para que acreditassem que foi um assassinato, a fim de que os meus não tivessem vergonha de minha morte, como tiveram de minha vida. Enfim, eu cometi suicídio.

- Você viu ao seu redor o doutor Creyx, que foi chamado para reconhecer seu cadáver?

- Minha embriaguez me fez esquecer tudo; eu não me dou conta, mas eu estava em um bosque, como um emaranhado; eu estava num pesadelo; este, quando se tem ao dormir, já parece longo, e o meu durou 18 anos!

- Sr. B. – O senhor pensou no sr. Y. desde sua morte?

- Pensei nele e nas minhas outras vítimas; procurei encontrá-las para ver o que se passava com elas. Fiz muitos esforços para sair desse pesadelo.

- Sr. Y. – Você me vê bem?

- Escuto sua voz e a reconheço bem. Como acontece de eu falar e não te ver? Emmanuel! Tire-me dessa situação. Esses documentos... esse passado... Eu quase te arruinei, eu que não me importava com nada; e você, você teve de trabalhar. Sua mulher não confiava! Mas eu abusei, eu tinha a arte de envolver a todos os meus amigos, eu aprontei com todos. Eu me reconheço agora como um verdadeiro canalha”.

Em visão, a médium descreve a fisionomia de Benoît, cuja marca característica era a semelhança a um chinês, os olhos puxados e as maçãs do rosto salientes.

Esse espírito se reapresenta, oito meses depois, anunciando que ele vinha pela última vez, pois sua reencarnação estava próxima; ele pede perdão pelo mal que havia feito. Ele confirma que cometeu suicídio depois de ter simulado um roubo. Em visão, ele mostra a médium uma carteira vazia, como se alguém o tivesse roubado; suas roupas estão desabotoadas, como arrancadas. Ele está numa floresta, procura à beira do caminho uma árvore suficientemente grossa e nodosa ao redor da qual ele dá inúmeras voltas; subindo, então, em sua bicicleta, ele se lança à toda velocidade contra essa árvore e fratura seu crânio”.

O sr. Yvonneau completa essas informações dizendo que os trabalhadores, indo pela manhã para o trabalho, descobriram o corpo; foi encontrado em um de seus bolsos um cartão do doutor Creyx, a quem se pede que venha constatar a identidade.

Aqui, a única pessoa que poderia dar uma visão fundamentada seria o sr. Yvonneau; ora, ele conhece apenas uma parte das informações fornecidas pelo desencarnado e até aí a explicação pelo subconsciente do sr. Y. não seria suficiente. Mas nesse ponto, em que a explicação se torna manifestamente insuficiente, é onde se vai aplicar a ela fatos que o sr. Y. ignorava no momento em que essa comunicação lhe foi dada, e que ele teve de verificar depois.

Disponhamos de boa vontade e aceitemos provisoriamente.

Sr. Yvonneau reside na avenida do Parc-Montsouris, 35.

Marie Pichot

É o nome de uma avó idosa que nosso amigo sr. Bondon (Atualmente: em Varzy – Nièvre.) nos pediu para evocar; ela conservou uma lembrança precisa de seus filhos e netos; ela disse o nome de nove deles: Ernest, Jules, Paul, Léon, Etienne, Jean, Louis, Yvonne, Baptiste; ela não se lembra mais o nome de seu caçula Marcel, mas ela soube dizer que ele era confeiteiro; ela diz que morreu aos 80 anos de idade, fala de suas pantufas, de seu tricot, de um velho guarda-roupas, de um relógio, de um broche usado por sua filha; ela viu que sua filha Yvonne sofria da garganta e indica um remédio conhecido: a raiz de alteia fervida no vinho. Enfim, ela lembra de um acidente que aconteceu com um de seus netos: Jules, que se afogou em um lago.

Nessa comunicação, todas as informações eram ignoradas pela médium, porém conhecidas pela família que estava presente. Não daremos a ela, então, mais importância do que ela mereça, mas foi preciso relatá-la aqui, tal como a próxima que se dá do mesmo modo.


Géo

“Em 21 de dezembro de 1930, fomos, minha mulher e eu, à casa do sr. Bourniquel que nos havia convidado a uma reunião espírita. Como muitos outros, eu era cético e não acreditava nessas manifestações do além.

“Durante essa reunião, um espírito busca se manifestar; ele consegue, mas com muita dificuldade, pois nesse momento a médium foi tomada de um acesso de tosse que nos surpreendeu. Depois de instantes, ela começa dizendo:

“Bom dia, mamãe; bom dia, papai. Sou eu”.

Perguntamos: “Eu, quem?

- Sou eu, Géo; sim, sou eu; mas eu não podia vir; e, enfim, estou aqui, mas estou muito contente por poder falar com vocês dois. Você, querida mamãe, chora muito, se afunda na dor; você me faz sofrer; desde que eu deixei vocês, você passa a vida chorando. Sempre lágrimas! Mas se você pudesse saber como estou feliz. É preciso te dizer que eu parti para uma longa viagem e que você voltará a me ver um dia”. Eu pergunto, porque ainda não creio:

“De sua vida, meu Géo, sendo você, como você me chamava, e também à mamãe?

- Essa bobagem! Paiô, mãeô.

Você vê alguém em casa, no seu lugar?

- Sim, vejo o primo... Au.. Auguste; ele é soldado... aviação; ele dorme na minha cama, sim, eu vejo ele, mas não estou com ciúme, mãeô.

- Você vem bastante à casa! Vê seu quarto?

- Sim, venho com frequência, estou com vocês. Vocês guardaram esse quadro, essa caricatura, por exemplo, eu não pensava em vê-la novamente ali”.

O primo Augusto ao qual ele faz alusão serviu na aviação em Bourget; ele vem nos ver a cada permissão e dorme na cama que ocupava nosso pobre filho, mas meu filho não o conhecia, pois o primo veio a Paris depois de sua morte. É certo que na reunião nem a médium nem ninguém conhecia nenhum desses detalhes. Quanto ao quadro, eu não compreendi absolutamente o que ele queria dizer. Eu estava atordoado, mas não convencido. Perguntei, então:

“Vejamos, meu pequeno, nós não compreendemos; que quadro é esse que te faz rir e que nós conservamos?

- Ah! Ah! Eu quero dizer daquele horror que está na entrada, atrás da porta; ... mas vejamos, você sabe, esse quadro feito à lápis”.

Dessa vez, começo a crer realmente que é nosso querido desaparecido que está ali, pois estávamos bem longe, minha mulher e eu, de pensar na caricatura que colocamos na entrada de nosso apartamento, e nenhuma das pessoas que se encontrava ali jamais colocou os pés em nossa casa.

Nosso filho não somente respondeu coisas que lhe perguntávamos, mas ele lembrava fatos esquecidos há vinte anos. Em seguida, e aqui uma prova última e definitiva:

Tenho um amigo de 40 anos que está hospedado em nossa casa; ele estudou bem e discutia bastante com nosso filho, que o chamava: meu professor; seu nome de família era Marie.

Pergunto a nosso filho:

“Você vê mais alguém em casa?

- Sim, vejo o senhor... senhor... ah! eu... eu...”.

A médium passa as costas da mão sobre o queixo e, depois, como se tivesse uma barba, a toma em sua mão, mas não consegue dizer o nome. E ao fim de uma meia hora, no meio de outra questão, a médium exclama: “Marie, senhor Marie”.

Eu indiquei acima o gesto da médium alisando sua barba com as costas da mão, tal como o faz constantemente o sr. Marie.

Nessa comunicação, nós reconhecemos no espírito que se manifestou a alma de nosso querido filho, levado por esse mal que não perdoa; logo que incorporado à médium, ele faz com que se ouça essa terrível tosse. Houve fatos nessa memorável noite que minha mulher e eu nos lembraremos enquanto tivermos um sopro de vida.

Em outros tempos, eu me apiedava das pessoas que me falavam do além; creio hoje que era eu quem mais necessitava de piedade.

Louis Mastoumecq empregado no banco 8, rua Chénier, Paris”.

O tio e o sobrinho

Encerremos essa série com uma manifestação muito bonita, cujo principal interessado relata, na seguinte carta:

“Na noite de 11 de janeiro (1921), última terça-feira, encontrávamo-nos minha mulher e eu, assim como muitas outras pessoas, na casa do sr. Bourniquel, que conhecíamos há apenas um mês.

Muito sentida pelo estado de saúde grave de nosso filho Lucien Chadefaux, de 34 anos, morando na rua Lamarck, 45, sra. Chadefaux, nascida Thomas, minha mulher, pede a sra. Bourniquel para realizar a incorporação de seu irmão Eugène Thomas, falecido há 30 anos, aos 26 anos de idade, devido a uma longa e dolorosa enfermidade intestinal.

Após o habitual questionário sobre a identidade, o espírito de Eugène Thomas respondeu que não era preciso se entristecer e que ele mesmo cuidaria de seu sobrinho.

Terminada a sessão, a médium, desperta, vê: 1º o nome Thomas escrito a sua frente, depois 2º o jazigo da família Thomas ao Père Lachaise, o que não me pareceu nada tranquilizador.

Na sessão de 18 de janeiro, a médium viu Eugène Thomas recebendo a extrema unção exatamente como aconteceu e manifestando sua alegria por morrer e por estar, enfim, liberto de seus sofrimentos atrozes. Depois, aos olhos da médium, apareceu sobre o chão uma forma cinza e redonda, se abrindo como uma tampa para dar passagem a um tipo de papai Noel (disse a médium) vestido de branco, com as características de Eugène Thomas, tendo sobre a cabeça uma bola luminosa que o espírito nos declarou ser emanada por ele mesmo. Ele nos disse que essa forma cinza era uma espécie de cobertura fluídica na qual ele aumentou de peso para descer à Terra.

Esse papai Noel estava com roupas dos beneditinos brancos; de suas mãos abertas, disse a médium, saíam raios luminosos e fluídicos. Ele explica que apareceu assim para me dar uma nova prova de identidade.

(Em 1916, tendo eu mesmo alguma mediunidade na mesa, chamei a minha casa meu cunhado Eugène e ele me disse que numa existência anterior ele tinha sido beneditino em Delhi –Índia. Ele também me revelou (1916) que a guerra terminaria em 1918, que a Alsácia-Lorena nos seria devolvida, que nós não faríamos cerco a Metz, que a neutralidade suíça não seria violada, etc... Eu pude conferir tudo isso).

Uma melhora séria aconteceu ao estado de Lucien, a ponto que se pôde acreditar que estava curado; ele levantava, lia os jornais, parecia entrar em convalescença, quando um inesperado agravamento aconteceu bruscamente e ele morreu em 20 de fevereiro. Quando pedimos explicações à Eugène, ele respondeu que, apesar de tudo que ele tinha podido fazer, foi impossível salvar seu sobrinho, uma ruptura se produziu inopinadamente no cérebro, contra a qual ele não podia fazer nada”.

Louis Chadefaux, 29, rua do Mont-Cenis (Atualmente 34, Avenida de Chatillon, 14e, Arrond).

Albertine assistiu ao enterro, em São Pedro de Montmartre. Durante a missa, durante toda a cerimônia, ela viu de joelhos, orando, diante do tablado, Eugène de beneditino e Lucien, corpo fluídico sombrio, vaporoso, rosto pálido. Todas as vezes que o padre passava diante deles para abençoar o corpo, ele escondia essa visão.

O sr. Chadefaux teve algumas comunicações de seu filho na mesa, e também teve com a sra. Roy pelo tabuleiro oui-ja3.

Em 15 de março, depois de uma curta visita de Eugène, Albertine reproduziu fielmente, por incorporação, a agonia de Lucien, apresentando nos menores detalhes a paralisia direita que o levou e, como sua mãe lhe falava sobre o espiritismo, ele deu exatamente a mesma resposta que dava em vida, quando ela abordava essa questão: “Mamãe, falaremos sobre isso mais tarde”.

Ele parecia se preocupar particularmente com os negócios que havia deixado em suspenso, com seus filhos cujo futuro o inquietava, com sua mulher que não acreditava em nada disso.

“Eu não me senti morrer, acrescenta ele; eu reconheci que estava morto ao seguir meu comboio da casa mortuária até a igreja. Eu vou a minha casa; estou na Terra, mas não vejo bem. Não posso me expressar bem; estou pesado. Estou feliz por não sofrer mais.”

Essas últimas palavras: “Eu não vejo bem... eu não posso me expressar bem...” se explicam pelo fato de que Lucien Chadefaux morreu recentemente (três semanas antes); é muito raro que um espírito dê conta de si tão rapidamente. Comumente, os desencarnados ficam em perturbações por um tempo um pouco mais longo, que varia de um mês a muitos anos. Se Lucien se encontrou logo, é bastante provável que se deva à influência de seu tio Eugène Thomas, que, muito evoluído, tomou para si a tarefa.

Para terminar esse capítulo, acrescentemos uma manifestação que, ainda que não provenha de um sentimento de família, pode ser considerada como atribuível à subconsciência, pelas razões que daremos em seguida.

Juliette Barthou

5 de junho de 1921, na vila Montmorency. – Albertine geme, sufoca, tosse fortemente e sem parar: sua aparência é de um doente atormentado pela tuberculose. Terminada a agonia, ela responde bastante claramente às questões que lhe são feitas.

“Eu tive uma gripe ruim, disse ela; não fiquei muito tempo acamada. Sinto-me sufocar. Alguém fechou o quarto. É preciso abrir. Eu sinto falta de ar”.

Alguém lhe diz que ela está morta; ela, então, fala de sua mãe, que provavelmente era sonâmbula e se levantava à noite para passear, cantava músicas estranhas. Ela mesma tinha uma irmã, Germaine, morta aos 7 anos.

“Onde a senhorita morava? Alguém pergunta.

- Eu, eu era casada. Por que casei com um homem que não tinha as mesmas ideias que eu?... Eu me chamo Juliette Barthou, meu nome de solteira; eu não me lembro o nome do meu marido. Morri em novembro de 1912, em Toulouse. Eu trabalhava com camisas. Quando era jovem, morávamos na propriedade do sr. Courtois, na costa de Purpan; deixaram-nos um pequeno espaço.

- Qual foi o médico que cuidou da senhora?

- Eu tive muitos, entre eles Dargein. Não tive filhos. Fui casada por dois anos”.

Juliette Barthou dá ainda algumas outras informações concernentes a sua casa. Depois, desperta, a médium tem a visão de uma jovem loura, bochechas rosadas, olhos azuis; ela dá uma descrição completa, vê perto do espírito uma menina de nome Germaine e o irmão desta última, um militar morto na guerra. Na visão, Juliette parece extremamente surpresa por vê-lo; é também seu irmão e ele era casado.

Temos a certeza de que Albertine não conheceu Juliette Barthou, nem seus parentes. Entretanto, ela conhecia a costa de Purpan e a propriedade, assim como o doutor Dargein, ainda que jamais tenha falado com ele. Essas razões são suficientes; nada nos autoriza a crer que ela não teria podido ouvir falar de coisas referentes à essa família, embora seja extremamente improvável, e nós reunimos essa comunicação àquelas em que podem ser explicadas por uma ação subconsciente.

Importa, no entanto, especificar bem. Se a maioria dos casos que citamos pode ser explicada pela hipótese criptomésica, significa pela personificação que a consciência sonâmbula do médium reconstituiria em meio às lembranças impressas na memória dos consulentes; se, noutros casos, a hipótese de lembranças pessoais do médium lhe fossem suficientes para operar essa reconstituição, seria igualmente verdadeiro que essas duas explicações não nos satisfariam.

Pois, enfim, por que no casos de Marie Pichot, por exemplo, se essa clarividência é tão desenvolvida quanto se pretende, ela não diz o nome de Marcel que estava tão presente quanto todos os outros na memória dos parentes? Por que, ao invés de Juliette Escudier, solicitada por seu pai, é a pequena Yvonne, sobre a qual ele não pensava, que se apresenta? Por que Benoît forneceu informações desconhecidas do consulente, sr. Yvonneau, e que este aqui teve de verificar depois? Por que Geo não pôde dizer a seu pai o nome que este pensava fortemente, e por que ele diz meia hora depois, no meio de uma conversa onde o tema era totalmente diferente?

Como se vê, a questão é muito complexa e não deixará de dar bastante trabalho aos intelectuais no dia em que eles se decidirem a estudá-la imparcialmente. A conclusão a qual eles serão levados lhes causará surpresas.


XI

Manifestações onde o subconsciente é possível
e não pode ser validamente descartado

Nec omnis moriar

(Eu não morrerei completamente)

Horace


Levemos nosso estudo mais longe. Eis aqui dois casos para os quais a explicação dada sobre uma ação mental qualquer se torna cada vez mais precária e insuficiente. Não se pode, entretanto, descartar completamente a hipótese da subconsciência, a qual não é impossível que eles sejam também associados. Mas o fio que os une se torna cada vez menos forte.
A obsediada

A sra. Formosa (Todos os nomes foram mudados) era uma mulher muito bonita, pertencendo ao mundo da burguesia abastada. Grande, de boas proporções, elegante, abundantemente ornamentada por jóias, sempre impecavelmente perfumada, ela causava sensação onde quer que fosse. De aparência distinta, naturalmente amável, ninguém acreditaria no drama íntimo que envenenava sua existência. Embora todo mundo pensasse que ela fosse feliz, ela estava devorada por um tormento que se tornou para ela um horrível pesadelo.

Casada uma primeira vez com um engenheiro, que era extremamente apaixonado e violento, e que frequentemente se mostrava brutal, ela se torna viúva com a responsabilidade de dois filhos, um menino e uma menina. Ela se casou com um homem cujo caráter contrastava singularmente com o de seu primeiro marido. Doce, afável, gentil, ele fazia o impossível para assegurar a sua mulher uma existência feliz, porém, apesar de seus esforços, ele jamais pôde lhe fazer perder a atitude distante, fria, quase hostil, adotada por ela desde o casamento.

Ele aceitou se separar de sua própria filha, nascida de um primeiro enlace, e, no entanto, ele acolheu e cuidou em sua casa da filha de sua mulher (o menino morreu nos últimos anos); mas essas gentilezas, esse cuidado constante de agradar à desdenhosa esposa não modificou em nada a atitude desta última que, mesmo na intimidade, consagrando-se pontualmente a seus deveres, não se desfazia jamais da frieza aguda. Isso durou 16 anos.

A morte de seu filho acentuou a hostilidade e determinou, também, a busca da sra. Formosa, frequentando grupos espíritas onde, no socorro de sua alma, ela esperava encontrar algum consolo.

Foi nesse momento que ela foi recebida na sala da sra. Darget, seguindo assiduamente as reuniões interessantes até o mês de abril de 1920.

Na primeira sessão do mês de maio, Albertine, que assistia, foi tomada por uma entidade incoerente que deu a impressão de loucura; ela fazia o gesto de pôr um chapéu na cabeça, depois lançando-o ao chão; depois disso, um outro e mais outro. Ela tinha um riso sinistro, rangia os dentes, rolava no chão, afastando as pessoas que tentavam detê-la. A agonia que seguiu foi terrível.

Uma das assistentes, sra. Ducoureau, acreditou compreender do que se tratava. Tomando a mão da médium, ela perguntou:

“Você me reconhece?”. Um riso demente foi a única resposta. “Eu sou a sra. Ducoureau”. Nada; o espírito balbuciava palavras desconexas: Chapéus... lojas,... carros...

Albertine despertou sem ter dado outra pista; ela sentiu logo um perfume penetrante. Voltando-se, então, para a sra. Darget, ela diz: “Como está perfumada, sra. Formosa! Mas, por que, então, ela está de pé; deem a ela uma cadeira”.

Ninguém entendeu; perguntavam-se por que Albertine falou da sra. Formosa, que não estava ali.

Vendo que ninguém se mexia, Albertine recua de sua poltrona para dar lugar à dama; lhe é perguntado, então:

“Quem a senhora vê?

- Mas sra. Formosa, a senhora a vê bem, ela está ali ao meu lado”.

Nesse momento, A teve a visão de uma janela que se abria e da sra. Formosa que se precipitava no vazio.

“Ah! gritava ela, ela se matou.

- Mas, quem? Quem é?” pergunta-se de todos os lados.

Não se podia acreditar que se tratasse da sra. Formosa, que tinha assistido quase todas as últimas reuniões.

Estando a sessão momentaneamente suspensa, a sra. Ducoureau, que era a única que estava a par dos fatos, confirmou, então, a exatidão dessa dramática visão.

Ela conta que a sra. Formosa dava sinais acentuados de desequilíbrio mental desde a morte de seu filho; ela se entregava por vezes à excentricidades e certo dia em que ela foi a uma loja para fazer compras, ficou subitamente louca ao experimentar os chapéus. Ela gesticulava, jogava-os um após o outro, fazia um escândalo. Sua filha, que a acompanhava, pediu um táxi para leva-las para casa; uma cena violenta e muito triste se seguiu; a doente resistia, debatia-se, mordia. Em sua casa, ela foi posta sob vigilância; mas alguns dias depois, aproveitando-se de uma distração, ela abriu a janela situada no 5 andar e precipitou-se no vazio. Ela morreu na hora.

Imagina-se a emoção que esse relato produziu no grupo Darget, onde não somente a médium, mas também todas as outras pessoas, salvo a sra. Ducoureau, ignoravam a catástrofe.

Quinze dias depois, nova sessão a qual assistia a sra. Formosa, que foi avisada sobre o que aconteceu.

O mesmo espírito incorpora e diz:

“Hoje, eu me sinto melhor; eu fiz um grande mal, eu me matei”.

Então levantando-se, Albertine vai ao encontro da sr. F. e lhe diz em soluços:

“Perdoe-me. Eu cometi um grande mal, mas não sou culpada; eu estava muito infeliz pela morte do meu filho!

- Quem é a senhora? Qual é o seu nome?

- Anne”

Ela dá alguns detalhes e acrescenta:



“Você foi bom para mim e para meus filhos, mas eu, eu não fui boa para sua filha”.

Nesse momento, Albertine vê outro espírito; é o da primeira mulher do sr. Formosa.

Ela se põe de joelhos diante dela:

“Lisette, perdoe-me por ter obrigado seu marido a se separar de sua filha enquanto ele cuidava da minha”.

O sr. Formosa pergunta:

“Você a vê?

- Sim; ela me perdoa.

- Quantos filhos você tem?

- Um filho: Jean; uma filha: Georgette. Sua filha se chamava Suzanne. Você deve me perdoar.

- Sim, eu sabia que você não era culpada.

- Eu jamais te amei; havia uma pessoa entre nós.

- Quem era? Diga, isso te fará bem; Lisette te perdoa e também eu”.

O sr. Formosa insistia; a sra. Darget, que ignorava a natureza dessas revelações, pôs fim ao interrogatório. Digamos que essa ação se legitimava pelo rumo que tinha tomado a conversa.

De seu despertar, Albertine vê a primeira mulher do sr. F., diz que ela morreu do pulmão depois de dois anos de casamento deixando uma menina, Suzanne. Em seguida, ela vê Anne de joelhos;

“Ela pede perdão ao senhor e a sua primeira mulher. Há um mistério. Essa mulher nunca lhe pertenceu senão materialmente, ela jamais esteve com o senhor pelos sentimentos; há alguma coisa...

- Sim, continue...

Decidiu-se por remeter o esclarecimento do mistério a uma outra sessão, na casa da médium.

Durante essa sessão, estavam presentes apenas três pessoas: sr. Formosa, a médium e o sr. Bourniquel. Anne se apresenta novamente, ainda pedindo perdão.

Sr. F.: “Uma vez que estamos sós, diga agora o nome daquele que lhe obsediava. Você se sentirá melhor; isso lhe tranquilizará.

- É meu primeiro marido, Albert. Você sabe o quanto ele era ciumento quando vivo; desencarnado, manteve-se do mesmo modo, e é ele que esteve entre nós dois toda vida; é ele que me impedia de amá-lo; ele vivia em mim. Eu o achava bom, mas eu não podia amá-lo como marido; eu reclamava de você; você era o homem que me dava o bem-estar.

- Eu sempre duvidei que houvesse alguém que a obsediava; mas não haveria um outro?...

- Também, você me obriga...

- Sim, diga.

- Meu pai. Sim, eu escondi de você, durante 18 anos de casamento, que meu pai morreu por suicídio.

- Você se lembra como ele morreu? O que ele fazia?

- Ele era pastor; ele se afogou em uma piscina onde havia muito pouca água. E, bem, agora que me confessei, estou liberta”.

O sr. Formosa nos confirmou a exatidão de todas essas informações verbalmente e, em seguida, por uma carta datada de 2 de junho. Nas comunicações que ela tinha dado, sua mulher tinha atribuído seus tormentos e o suicídio, que foram a consequência daqueles, ao primeiro marido, morto vinte anos antes; ela temia que sua filha viesse a sofrer a mesma obsessão e o mesmo fim, única sobrevivente de toda a família de seu primeiro casamento. Ela implorou insistentemente nossa intervenção para a proteção de sua filha; ela igualmente insistiu para que o obsessor, Léo, fosse esclarecido, sendo-lhe apresentado todo o mal que ele havia feito.

Léo, quando vivo, era um homem violento e frio, muito autoritário, atroz ciumento. De acordo com as declarações de Anne, ele não era o único a obsediar; seu próprio pai, que tinha a reputação de um homem sábio, ponderado, exemplar, tinha posto fim à vida por um suicídio. O gênero de morte que ele havia escolhido denota uma força de caráter, uma energia sobre-humana; ele havia se ajoelhado em uma piscina contendo uma camada de água de aproximadamente 40 centímetros; ele mergulhou sua cabeça e a manteve com suas mãos até asfixiar.

Esse foi um estupor para toda a família, que não soube jamais os motivos desse fim desesperado. Espalharam rumores de um acidente.

Quando sua filha, viúva, se casa novamente com sr. Formosa, esconde-se dele cuidadosamente esse segredo de família, e durante dezoito anos em que dura o casamento, ele fica na mais absoluta ignorância quanto a esse doloroso evento. Ele deve tê-lo compreendido na ocasião de outro suicídio, o de sua mulher; é, de fato, sobre o leito de morte desta que um dos parentes não pôde conter essa confissão: “Ela morreu como seu pobre pai!”. Foi preciso, então, fornecer explicações ao marido, para quem essa exclamação tinha levantado suspeitas.

Vê-se, então, a extrema precisão das revelações feitas pelo espírito de Anne, incorporada a Albertina; esta última ignorava, é certo, qualquer palavra sobre tudo isso; o resumo que trouxemos aqui não contém mais que uma pequena parte das informações que ela forneceu; nós apenas as mencionamos por razões que todo mundo compreenderá.

Um pouco depois dos fatos relatados, em uma nova sessão, solicitamos a presença de Léo, o primeiro marido. Albertine reproduziu sua agonia da maneira mais fiel, no dizer do sr. Formosa; ela deu uma descrição exata dele: um homem muito bonito, usava barba, morreu aos 35 anos.

Esse espírito declarou que desde sua morte ele jamais deixou sua mulher; ele sempre a seguiu em vida; ele sempre se interpôs entre ela e seu segundo marido, inspirando nela animosidade contra este.

“Eu fui bruto com ela, disse ele fazendo alusão a certas cenas da época em que era vivo; algumas vezes, no momento de partir para um jantar na cidade, ou um passeio, ou ao teatro, eu dava a ela a ordem de se desarrumar e decidia que não sairíamos mais. Eu era ciumento. Uma vez morto, não quis que outro a possuísse. O ciúme me impulsionou a levar minha mulher ao suicídio para tê-la novamente comigo”.

Nós tivemos a maior dificuldade em fazer com que o infeliz compreendesse o mal que ele fez e que não deixaria de voltar para ele mesmo. Todos os nossos argumentos, toda nossa eloquência, toda nossa moral não parecia tocá-lo de início. Enfim, por insistência, ele acabou por se deixar convencer. Ele exprimiu, então, o arrependimento pelo que aconteceu por sua culpa e nos agradeceu pelo esforço que tivemos por levá-lo a sentimentos melhores. Ele terminou dizendo que estava muito infeliz porque, tendo levado sua mulher ao suicídio na esperança de encontrá-la no além, ele constatava agora que aquele reencontro se tornou impossível e que ele estava separado dela para sempre.

Observações. – É preciso notar, a princípio, a objetivação da visão de Albertine, no final do transe, na primeira sessão. A aparição era tão bem materializada para ela que Albertine a confundiu com os outros membros do grupo; ela sentia o perfume da sra. Formosa, ela reconhecia seus traços, ela via a vida luzir em seus olhos, ela admirava sua bela estatura, sua vestimenta de bom gosto, suas jóias; como não teria se enganado com todas essas coisas? Como não teria se surpreendido, fazendo a observação em voz alta, que a tivessem deixado ali, sem fazê-la sentar-se, essa amiga da casa que vinha, como usualmente, assistir à sessão? Os exemplos de uma visão tão nítida não são excepcionais e pode-se ler o relato, seja nos inesgotáveis Proocedings4, seja no tomo II das “Aparições materializadas” por Gabriel Delanne; “o Tratado de Metafísica” do professor Richet, igualmente em relação a um grande número. Mas o que valoriza esse fenômeno é o espanto que produziu no grupo em que, salvo uma pessoa, todos ignoravam a morte da sra. F.

E isso aqui exclui toda ideia de telepatia; de fato, quando a médium, incorporando o espírito, dá sinais de demência, a única pessoa que sabia do ocorrido, sra. Ducoureau, acreditou que se tratasse da sra. F., mas ela não teve certeza até chegar o final do transe, quando Albertine diz: “Como está perfumada, sra. Formosa!”. Mas até esse momento, a incerteza da sra. Ducoureau nos mostra bem que não havia correspondência estabelecida entre seu cérebro e o da médium.

Examinemos agora a questão da obsessão lembrando que a sra. F. reclama de ter sido obsediada por seu primeiro marido e também seu próprio pai.

Na Antiguidade e mesmo antigamente, nas tribos selvagens, atribuíam-se todas as doenças físicas ou mentais à influência dos maus espíritos. A ciência moderna indicou claramente as causas da afecções físicas, que suprimem toda intervenção do além. Mas a reação científica talvez tenha ido muito longe. Pessoas de valor intelectual e de boa fé frequentemente citaram casos de doenças ou, digamos assim, encerradas em asilos, ditos alienados incuráveis e que, entretanto, puderam sair ao cabo de alguns dias, após a intervenção mediúnica que conseguia libertar os espíritos obsessores.

Então, podem existir verdadeiras obsessões provocadas por seres desencarnados pouco evoluídos que, sob a influência de paixões ou de interesses diversos, obsedeiam os vivos, inspiram-lhes sentimentos ou fazem com que executem atos contrários à verdadeira natureza do obsediado.

Há todo um problema que mereceria a atenção dos alienistas; além disso, um magnetizador, sr. Magnin, publicou duas observações nas quais, tratando o doente como se realmente ele tivesse se relacionando com um ser do além, conseguiu curar duas pessoas; isso mostra a eficácia desse modo de tratamento e a utilidade incontestável de uma mediumterapia que se inspirasse em dados do espiritismo.

Em todo caso, que houve nessa manifestação uma verdadeira obsessão ou não, pois seria possível, a rigor, atribuir a uma diathesis hereditária o suicídio da sra. Formosa, todavia, a individualidade do primeiro marido foi estabelecida com uma riqueza de provas, uma abundância de detalhes e uma característica psicológica tão clara que, verdadeiramente, a hipótese espírita toma aqui um valor explicativo que ultrapassa, em muito, toda suposição criptestésica.

A médium revelou fatos precisos, cuidadosamente mantidos em segredo pela família e que ela não poderia ter obtido de nenhuma pessoa viva; no mais, nenhum jornal havia mencionado o suicídio, ela não teve conhecimento pela via da imprensa.

Façamos notar ainda que nós tivemos de mudar os nomes das pessoas colocadas em questão, por razões que serão compreendidas; excepcionalmente, não poderemos comunicar suas identidades reais àqueles que desejarem fazer uma investigação, aos quais pedimos que confie em nossa imparcialidade e nossa boa fé.

Digamos, enfim, que os espíritos por vezes ficam embaraçados pela insistência que se lhes coloca pela declaração pública de segredos de família; é preciso ter, com eles, tanta sutileza e tato quanto se tem com as pessoas vivas.

O tabaqueiro incendiário

Eis agora a décima manifestação que classificamos na mesma categoria. Ela é extremamente interessante pela natureza precisa e particular de algumas informações fornecidas pelo espírito.

Em 2 de janeiro de 1921, Montmorency. – A médium reproduz a agonia de uma pessoa que, pela aparência, morreu paralisada; todo o lado direito da figura está contraído, a boca desviada para o queixo, a bochecha flácida, enquanto o lado esquerdo está normal.

Assim que esteve em estado de responder, começamos a interrogar e obtivemos, de início, as seguintes informações:

“Estou em minha casa, em Ste. C. (Aude). Eu não faço nada. Eu me ocupo da casa. Sou uma mulher. Sou idosa. Eu me chamo Marguerite B... (Será visto mais adiante por que não damos os nomes próprios completos). Passei dos 70 anos.

- Por que a senhora treme assim?

- Isso é desde que tive o ataque, por volta dos sessenta anos; ele me deixou assim. Morri em 1876, creio que me lembro; meu marido se chama B... (Jean). Temos três filhos, duas mulheres e um homem: Marie-Anne, Joseph, Amélie. Meu filho partiu. Não sei o que aconteceu com minhas filhas.

- A senhora se lembra de algum evento importante que tenha acontecido antes de sua morte?

- Em 1870, a guerra; em 1875, as inundações.

- O que a senhora fazia de suas colheitas?

- Eu as vendia no mercado de Mirepoix, que fica a 3 horas de carro.

- A senhora nasceu em Sainte-C...? Em que ano?

- Não me lembro mais; meu marido participou da guerra de Crimée; ele era mais velho que eu. Ele estava sempre doente desde a guerra; eu não fiquei doente por muito tempo.

- A senhora está interessada no que se passa em sua casa? O que aconteceu com seu dinheiro?

- Tudo isso foi revertido para meu filho, que deixou seu bem como pensão vitalícia para uma família do país; minha filha teve uma parte, não sei o que ela fez com isso.

- A senhora fala sempre de uma filha; e a outra?

- Em outros tempos, elas estavam junto com o irmão; depois, apenas uma ficou com ele.

- Onde, isso?

- É preciso que as águas corram”.

Após essa incorporação, um de nossos espíritos familiares, Yvonne, veio nos fazer uma pequena visita para nos advertir que o espírito anterior se enganou com as datas e que seria necessário voltar em sua casa para poder nos dar maior precisão. Aproveita-se essa intervenção para perguntar a Yvonne sobre as condições da vida astral que o livro de Oliver Lodge, “Raymond”, recentemente traduzido em francês, punha na ordem do dia.

Sr. Delanne. – “Os espíritos vivem da vida material?

R. – Sim. Eles se ocupam nas casas como quando eram vivos, sem se preocupar com as pessoas que se encontram ali; eles estão em suas casas, eles as governam.

Sr. Delanne. – Seriam as casas que eles ocuparam ou casas que se encontram no espaço?

R. – No espaço não há casas, mas eles revivem das suas, eles circulam nelas como vocês. Se o espírito tem ideias materiais, ele experimenta um bem-estar e se crê viver.

Sr. Delanne. – Existem criações fluídicas do pensamento no além?

R. – Sim. Para seus usos, para suas necessidades, eles criam móveis, utensílios de casa; é uma produção ideal. O trabalhador vem a seus campos e trabalha.

Mas, quando o espírito se dá conta de si, ele se apercebe que isso não existe e que é uma criação fluídica”.

Após Yvonne dar essa breve lição de ideoplastia psíquica, Albertine teve a visão correspondente a incorporação que ela tinha feito:

“Vejo, diz ela, uma pequena senhora com um chapéu e um xale; ela tem um tique na mandíbula direita e ela diz se chamar Marguerite B... vejo uma casa em uma pequena cidade, coberta por um telhado que avança; no primeiro piso, um grande quarto e do outro lado um celeiro no qual secam feijões em feixos. Há também batatas, mas não há galinheiro nem animais. Vejo escrito espelhado o nome Sainte-C... (Aude); são dados os nomes Marie-Anne, Joseph, Amélie, Crimée. E depois, barro em um porão repleto de água suja; é a inundação.

Sr. Delanne. – A senhora vê a data da inundação?

R. – 1875. Em junho, entre terça e quarta-feira”.

Sessão de 6 de fevereiro. – Marguerite B... volta e declara que esteve em sua casa, em Sainte-C... D.

“O que a senhora viu em sua casa?

R. – Rodei por todos os cantos da casa e da outra casa.

- Que outra casa?

- Da casa onde morri; eu não morri em Sainte-C..., mas ao lado, em P.... em novembro de 1881; eu tinha 77 anos. Uma de minhas filhas está morta; ela tinha ficado comigo. A outra partiu para Alger com seu irmão; meu marido morreu antes de mim, fiquei só. Minha filha se casou; meu genro era dono de mercearia em P... Eu não sei mais o nome dele. Tenho dificuldade de falar; eu não falava francês, falava dialeto”. Ela troca algumas palavras em dialeto do Sul com o sr. Bourniquel. Este, sobre uma questão do sr. Régnault, afirma que a médium compreende o dialeto, mas que ele fala muito mal.

Sessão de 6 de março. – É o marido de Marguerite que se apresenta primeiro; ele mostra sua agonia, depois reclama de falta de ar; ele sufoca como se alguém tivesse colocado uma colcha em cima dele. Ele diz seu nome: Jean-Baptiste B... morto em 17 de maio de 1881, aos 72 anos, de um ataque. Nascido em Sainte-C, morto em P....

D. – Que aconteceu a seus filhos?

R. – Joseph e Amélie estão longe; Marie-Anne está morta.

- Antes ou depois do senhor?

- Eu não tenho como dizer. O senhor sabe, não é tão fácil retornar.

- Por que o senhor não retornou em sua casa?

- Não compreendo. Morri há 40 anos! Isso me parece estranho. Há 40 anos que eu ando como se eu estivesse perdido numa cidade. Eu não me dava conta, parecia que eu sonhava; eu via que outros homens não eram como eu.

- O senhor tinha a sensação de beber, de comer?

- Sim, eu sentia fome, sede, cansaço; eu comia com os outros, nas casas; quando a vontade vinha, eu ia até elas.

- O senhor ia comer nas casas dos camponeses, então?

- Sim, mas eles não percebiam minha presença.

- Felizmente, pois sem isso, eles o teriam recebido a golpes de forquilha.

- Não, não em meu país; não se é tão selvagem. Às vezes eu me enganava, eu não estava em minha casa; havia pessoas que não falavam como eu. Eles não tinham minhas ideias. Eu não ficava em suas casas; quando não se encontram pessoas que nos compreendam, vamos embora; é preciso que haja harmonia.

- Em que estado o senhor estava quando reviu sua mulher?

- Foi ela que me procurou; eu acreditava que a gente não estava morto.”

Sua mulher vem em seguida, em seu lugar; ela começa por uma retificação:

“Dei 1881 como data de minha morte, mas é a do meu marido; eu morri em 1888: Marguerite R..., mulher B..., morta aos 73 anos, em 19 de agosto de 1888; meu marido morreu em 17 de maio de 1881; fomos os dois lá nos aperceber.

- O que vocês fazem agora?

- Vou à igreja, aos campos, observo o que se faz na casa e não vejo ninguém que me conheça. Fui a minha casa, acreditei que alguém me dava atenção, mas, não; eu acreditei que falava, mas eu não falava como os outros.”

O sr. Delanne faz com que se note que o caso de Marguerite, que retorna constantemente a sua casa, pode se aplicar aos fenômenos de obsessão; quando esses espíritos encontram um sujeito que lhes fornece as formas de energia necessárias, eles podem provocar fenômenos físicos.

D. – A pessoa que agora mora em sua casa, ela está só?

R. – Não, com sua mulher. É Joseph, meu filho, que ficou com a casa; ele a alugou. Ele teve uma mercearia nessa casa, a mercearia está fechada; ele ficou com ela durante algum tempo; então houve uma explosão, fogo na mercearia.

- A senhora viu isso lá de cima?

- Sim, eu fui até lá. Naquele tempo, havia uma tabacaria e a mercearia; Joseph participou da guerra de 1870; ele ficou ferido e, como pensão, lhe deram a tabacaria. Tudo foi transferido; a mercearia não funciona mais e a tabacaria foi transferida para outro lugar.

- E sua filha?

- Ah! Não fomos amigas; ela era ciumenta, porque ela entendia que Joseph era privilegiado. Joseph era deficiente, suas pernas não valiam nada, ele sofria da cabeça. Havia momentos em que ele era violento: acreditava-se que ele era louco. Ele foi ferido na cabeça.

- A senhora se dá conta de que agora a senhora não está mais em P...

- Agora, sim; da outra vez também; mas não da primeira vez. Eu não estava infeliz, mas quando eu falava e ninguém me ouvia, era duro para mim. E, bem, é uma pena, vou dizer-lhe: Amélie partiu, ela deixou seu homem; eu estava morta e eu soube.

- Como a senhora soube?

- Eu fui ver o que se passava na casa de todo mundo; ela tinha partido com um homem mais jovem que ela; é uma vergonha! Ela tinha também uma mercearia, ela partiu com um empregado. Para nós, quando vemos tudo isso que acontece, é melhor tomar distância; para mim, causava-me prazer ver o que se passava; eu gosto de me misturar com o que não me diz respeito; foi o mesmo quando morri.

- Bom, está entendido; vamos fazer investigações para verificar o que a senhora disse.

- Não se deveria ser muito curioso; espalharam o boato de que Joseph tinha posto o fogo e é preciso ser prudente em suas investigações... Ele regou com óleo e ele disse que a garrafa estava rachada. Todo mundo achou isso suspeito. Ele quis sair das coisas, ele queimou o rosto e as mãos. Ele era assegurado.

- A senhora teve medo de se queimar?

- Eu não fiquei; quando ele gritou, eu tive medo e me salvei”.

Numa visão, Albertine repetiu as datas retificadas, os nomes; ela viu pacotes de tabaco, papeis para cigarro e um contrato (sem dúvida um contrato de seguro).

Mas, antes, aproveita-se para perguntar ao espírito de Eugène Thomas, que veio para libertar a médium, sobre as contradições que se observam tão frequentemente nas declarações feitas pelos espíritos.

“Isso provém, responde ele, de seu degrau de evolução. Todos não podem tratar das mesmas questões: é o mesmo com os homens, na Terra; cada um tem seu ponto de vista; todos podem se crer estando com a verdade. Com frequência os nomes lhes fogem e isso não prova que o espírito não saiba. Peçam provas, controlem; há espíritos enganosos, como nas melhores reuniões; e se todo mundo antes da reunião colocasse ali toda sua alma, não de uma forma ritual, mas com um sincero laço do coração, os resultados seriam excelentes.

- Como ocorre de alguns espíritos, tendo pertencido à elite intelectual desse mundo, realizarem comunicações num estilo epistolar dos mais modestos?

- Isso provém do cérebro do médium; um grande artista obterá brilhantes resultados com um bom instrumento; o mesmo acontece com o cérebro do médium. É isso que faz com que algumas comunicações sejam prejudicadas.

- Tomemos, por exemplo, Jaurès, que foi uma das mais maravilhosas inteligências de nossa época. Seria possível ter com ele uma conversa em relação aos conhecimentos que ele tinha quando vivo?

- Eu repito, isso depende do médium; o cérebro do médium deve estar a altura do de Jaurès, caso contrário a comunicação será prejudicada”.

Pesquisa. - A prefeitura de P... forneceu a seguinte ficha ao sr. Roy, encarregado da informação:

“Sobre os registros dos falecimentos da comunidade de P..., constatei:

1º Que no ano de 1881 e em 17 de maio morreu Jean-Baptiste B..., aos 72 anos (nº 6 do ato).

2º No ano de 1888 e em 19 de agosto faleceu Marguerite R..., viúva B...., aos 73 anos de idade (nº 3 do ato).

Do lado do estado civil, os nomes e as datas dadas por Marguerite na última sessão estavam totalmente verificadas. Tratava-se agora de encontrar as informações sobre os eventos longínquos revelados pelo mesmo espírito. Era algo difícil e delicado, tanto por serem fatos antigos quanto pela discrição que nos era necessária.

Pudemos, entretanto, obter satisfação de uma camponesa idosa que sempre morou no país, que nos escreveu a seguinte carta, que reproduzimos sem correções:

“O P... em 13 de março de 1921

Senhor,


Em resposta a sua honorável de 8 de março, venho lhe dizer que Marguerite B... viveu em P..., assim como seu marido e seus filhos. Jean-Baptiste morreu em 1881 e sua mulher em 1888, o filho tinha participado da guerra de 1870 onde foi ferido ele teve na época uma mercearia e uma tabacaria, ele deixou P... há mais ou menos 25 ou 27 anos com uma de suas irmãs para ir morar na Tunísia; antes de sua partida, houve fogo em sua mercearia; todas essas lembranças estão muito longe pois a casa cai em ruínas falta de reparos; sobre Marguerite B... eu sempre ouvi dizer que ela não era boa.

Estou a vosso dispor caso as informações não sejam suficientes.

Saudações”.

(Assinatura)

Notas. – Na sua primeira visita, Marguerite comete erros e parece não ver claramente; ela se engana sobre a data de sua morte, que ela coloca em 1876, e ela não se lembra sequer de seu nascimento. Isso não tem nada de extraordinário. Há na Terra uma quantidade de idosos que não dão mais conta de sua existência e que não saberiam dizer em que ano vieram ao mundo. Não se deve, então, espantar-se se os desencarnados não puderem precisar nada sobre esses pontos, uma vez que constatamos tão frequentemente a mesma ausência de memória nos vivos.

Na segunda sessão, ela se engana novamente; ao invés de 1876, ela diz 1881, que é a data do falecimento de seu marido, e não do seu. Ela diz que sua filha e seu filho foram morar na Algéria, mas a pesquisa nos mostra, mais tarde, que é na Tunísia; erro sem importância, muito desculpável em uma senhora que nunca se preocupou com geografia.

É na terceira sessão que ela dá, enfim, com os anos, meses e dias, as datas solicitadas. As lembranças lhe retornam em massa e seu caráter um pouco agressivo, seu amor por fofocas e tagarelices tomam rumo livre; ela denuncia seu filho e sua filha e reconhece, com visível satisfação, que ela gosta de se ocupar com o que não lhe diz respeito. Psicologia realista de camponesa ociosa e maledicente, confirmada pela carta reproduzida em nossa pesquisa.

Seria possível que nos retornassem o que esclarecíamos a propósito da objetivação dos tipos. Mas, aqui, ninguém sugeriu à médium que ela era uma senhora idosa, tendo vivido num país tal, de tal a tal data; ninguém lhe disse que ela iria representar um tipo falador, capaz de comprometer seus próprios filhos. Seria possível dizer ainda que, ao escolher a imagem de uma mulher fofoqueira, a médium tinha as maiores chances de ser exata; mas isso não passaria de um argumento sem valor e que dirigiria contra ela toda a opinião feminina.

Em suma, essa comunicação nos mostra de uma vez por todas que os espíritos pouco evoluídos estão como em um tipo de sonho; eles persistem em crer-se vivos; em geral, eles não têm nenhuma consciência das condições de uma vida futura, não experimentam a necessidade e não sofrem, propriamente falando, da indecisão de seu estado.

Eles não se apercebem e são um pouco como nós durante o sono, quando admitimos as coisas mais extraordinárias e mais inverossímeis. Elas não nos parecem nada incoerentes e as aceitamos sem discutir; não as julgamos absurdas senão ao acordar.

As sensações do mundo físico agem ainda sobre esses espíritos e produzem neles uma mistura estranha de conhecimentos; a visão do que se passa na Terra não os surpreende; eles não tiram conclusões dela como quando o farão mais tarde, ao saírem dessa estado particular que foi muito bem qualificado pelo nome de perturbação. É assim que Marguerite tem tamanho pavor do fogo, quando ele surge na casa de seu filho, que se salva para não ser queimada; entretanto, ela não deveria mais ter nenhum temor.

Além das sensações, esses mesmos espíritos têm necessidades físicas; essas necessidades não são mais extraordinárias do que aquelas que sentimos durante o sono. E assim como no sono nós apaziguamos a fome com pratos que não têm nenhuma objetividade, mas que momentaneamente são reais para aquele que dorme, do mesmo modo acontece para os espíritos a mesma realidade subjetiva; a necessidade, eles a criam por ideoplastia ou por autossugestão. É o que nós temos tão frequentemente constatado com os sujeitos sonâmbulos, aos quais se faz comer uma batata como se fosse um peixe suculento.

Esse estado pode se prolongar mais ou menos e nós veremos que quando o espírito se dá conta de sua situação, logo todas as ilusões desaparecem e, sem mudar de lugar, ele sofre transformações que lhe fazem conhecer, então, o verdadeiro além.

XII

Manifestações puramente espíritas

Meu filho, suas aulas terminaram;

seus estudos começam.

Vauvenargues

Começamos aqui o capítulo das manifestações pelas quais colapsa a interpretação de uma faculdade animista (telepatia, criptomnésia, clarividência, psicometria) encontrando seus elementos de informação, seja no subconsciente do médium seja no dos assistentes.

Se, até o presente, admitimos, não como melhor opção, essa explicação evidentemente insuficiente, não nos é permitido, a partir de agora, ir mais longe em nossas concessões. Serão, agora, nossos contraditores que estabelecerão suas diferentes teses, não mais com suposições, e sim com provas.

Quando Voltaire empreende a revisão do processo de Calas, o filósofo foi chacoalhado por um número de presunções concordantes que tinham sido acumuladas contra o inocente; essa observação lhe sugeriu uma comparação pitoresca: “vinte indícios de prova não formam uma prova, disse ele, assim como vinte pontas de fio não formam um fio”.

Entendamos bem, pois em se tratando de fios5, nossos adversários jamais se ausentam. Exigir deles a prova formal de suas negações significa engajar-nos em fornecer a de nossas afirmações, e, como disse Laplace, “o peso das provas deve ser proporcional à bizarrice dos fatos”. É esse o início de um longo dossiê no qual vertemos as testemunhas mais irrecusáveis da vida após a morte, com a esperança secreta de preencher o fosso que separou, até o presente momento, materialistas e espiritualistas; mas devemos antes destruir a desconfiança que acumularam sobre nós os preconceitos, a ignorância, a intransigência e a má fé.

Por um deixe-estar contínuo, os cérebros são insensivelmente liberados da necessidade de conhecer; a Matéria passou a primeiro plano; o homem não dá mais conta senão de seus prazeres, cuidadosamente afastando suas preocupações as pesquisas puramente especulativas. A descoberta do mundo exterior e de suas leis escondem dele a existência do mundo espiritual e invisível; ele vibra apenas pela conquista de bens terrestres e de alegrias fáceis; tudo isso o levou a esse estado de decadência e de barbárie pseudocientífica contra o qual temos o direito de combater.

Tal declaração seria vã se ela não comportasse a necessidade de levar o homem ao estudo de si mesmo e de seu Destino. Uma experiência sem ritual e sem dogmas se impõe a nós para defender a ideia da vida após a morte contra a exclusiva pronunciada por um materialismo brutal.

Para chegar a demonstrar a existência de uma atividade mental extraterrestre, viu-se que consentimos em eliminar um grande número de casos que poderiam ter sido considerados suspeitos por todos os tipos de razões que não temos ocultado.

Estamos agora na presença de fatos novos, precisos, desembaraçados de qualquer cobertura psíquica.

Ao apresentá-los como de origem puramente espiritual, esperamos com serenidade o novo vocábulo pelo qual a ciência ortodoxa tentará explicá-los, e nos lembrando de certa intransigência, diremos com o provérbio inglês: “Pode-se sempre levar um cavalo ao riacho, mas jamais se pode obrigá-lo a beber”.

O entalhador de pedras

Em 27 de dezembro de 1921 um espírito se apresentou com as seguintes informações:

“Eu me chamo Joseph Boget, entalhador de pedras. Morri no hospital de Belley, departamento do Ain, sala Saint-Louis, em 26 de julho de 1914, aos 70 anos. Eu era viúvo. Minha mulher se chamava (a médium pronuncia com dificuldade o nome que fica interpretado como Annimelinette Bojard ou Vojat). Ela morreu em Belley, em 25 de janeiro de 1907, de uma doença do coração. Nós tínhamos uma filha, Joséphine. Eu tinha me hospedado em um pequeno hotel, de frente para a estação; na casa, estabeleceu-se uma chapeleira. Deixamos essa casa depois de um processo judicial”.

Esse espírito parecia extremamente preocupado e perturbado por esse processo, sobre o qual ele nos dá informações privadas inúteis de serem aqui relatadas porque sequer foram possíveis de verificação.

Investigação. – Todavia, pudemos encontrar as duas peças seguintes:

Prefeitura de Belley

BOLETIM DE FALECIMENTO

Assinala-se no autos de Registro civil da comunidade de Belley, para o ano de 1914, que:

Joseph Boget, nascido em Virignin (Ain) em 4 de outubro de 1839, filho do falecido Joseph e da falecida Gabrielle Marchand, viúvo de Anthelmette Jouvelel, morreu na dita comunidade, em sete de julho de mil novecentos e quatorze.

Belley, 30 de dezembro de 1921

O Prefeito (carimbo da prefeitura).

Em respeito ao mesmo boletim:

Jouvelet Anthelmette, nascida em Nau, comunidade de Nattages, (Ain), 70 anos de idade, filha do falecido Nicolas Auguste e da falecida Françoise Bise, esposa de Boget Joseph, morreu na dita comunidade em 25 de janeiro de 1908. (Data e carimbo).

A essas peças foi juntada uma nota indicando que “a srta. Boget deixou Belley há aproximadamente quatro anos, sem deixar endereço”.

Estabeleceu-se, então,que essas três pessoas viveram em Belley e que as duas primeiras morreram ali: as datas não correspondem rigorosamente, como acontece frequentemente, mas é possível fazer, a respeito delas, aproximações úteis: Boget morreu aos 75 anos e não aos 70, como ele havia dito; esse evento aconteceu em 1914, no mês de julho, mas no dia 7 e não no dia 26. Ele era viúvo e tinha uma filha ainda viva. Sua mulher morreu em 25 de janeiro, mas em 1908 e não em 1907. Ela tinha um nome estranho, que a médium interpretou como Annimelinette; “lindo presente para se dar a uma criança”, disse um dos assistentes ao escutar esse nome, que na verdade é Anthelmette.

É extremamente lamentável que não tenhamos podido confirmar outros detalhes, mas, em todo caso, a existência dessas pessoas na época indicada não poderia ser negada e constitui um documento interessante que nenhuma hipótese extraespiritual poderia explicar.

Diga-se de uma vez por todas, pois não retornaremos, as personalidades que elencamos nesse capítulo são todas desconhecidas da médium e das pessoas que assistiram as experiências: nenhum laço de parentesco ou de amizade nos reúne a elas; jamais nenhum de nós ouviu falar ou leu nos jornais qualquer crônica se referindo a elas. Esses são desconhecidos, no total sentido da palavra. Nenhuma relação direta ou indireta sendo estabelecida entre a médium e essas individualidades, a clarividência não pode ser validamente invocada como explicação.

A investigação foi feita pelo sr. Chadefaux, atualmente residindo na avenida de Chatillon, 34.

Observações. – A hipótese cara ao professor Richet não pôde ser invocada aqui, pois, como se fez observar com justa razão, a criptestesia exige uma relação entre o sujeito clarividente e a pessoa ou a cena que são descritos; no caso citado, como nos que seguem, é precisamente a ausência de toda espécie de laço psíquico entre o médium e as personalidades falecidas que se manifestam que constitui para nós uma prova absoluta da independência dessas personalidades e estabelece irrefutavelmente sua realidade.

No mais, nesse caso como em outros, se era a clarividência do sujeito que estava em causa, não se compreenderia como, ao lado de fatos tão claros e precisos que se obtêm por seu intermédio, nós teríamos tido outros que não correspondem a nenhuma realidade: nem porque, se a criptestesia fosse omnisciente, nós não obteríamos à vontade, tirando ao acaso em um dicionário geográfico, o nome de uma cidade qualquer; porque nós não teríamos imediatamente detalhes precisos e circunstanciados sobre todos os indivíduos homens ou mulheres que vieram a falecer nessa localidade. Ora, isso jamais aconteceu. Por que os erros se misturam, assim, com os fatos reais? A omnisciência criptestésica deveria estar protegida contra tais falhas.

A causa que intervém é, então, independente do médium, independente de sua consciência normal ou subliminal, independente de sua suposta faculdade de clarividência. E, como essa causa nos fornece detalhes verificáveis sobre seu passado, em boa lógica nós somos obrigados a admitir que ela é a personalidade que habitou um instante sobre a Terra no endereço e nas condições que ela indica.

ATÉ QUE SE APRESENTE A NÓS UMA OUTRA SOLUÇÃO MAIS VEROSSÍMEL, MAIS ACEITÁVEL E MAIS LÓGICA, PERSISTIREMOS EM VER NAS MANIFESTAÇÕES CONTIDAS NESSE CAPÍTULO UMA INDISCUTÍVEL DEMONSTRAÇÃO DA VIDA APÓS A MORTE.

O Pequeno Gilbert

Em uma das sessões do mês de março de 1921, tivemos a visita de um espírito dizendo-se Basile Sompour, tendo vivido vizinho a Saint-Gaudens ou a Montréjeau. Não pudemos tirar outras precisões dele. Camillo, intervindo, declara que esse espírito, pouco evoluído, não conhecia sua situação, e que era preciso fazê-lo lembrar. Foi então que o fizemos em 9 de abril, mas, ao invés de Basile, foi seu filho que se apresentou.

Eis aqui um resumo do relatório taquigrafado.

“A médium é sacudida por espasmos nervosos; seu rosto muda de expressão; ela cerra os dentes, geme e faz o gesto de afastar alguém.

D. – Então, amigo, o senhor se reconhece?

R. – Mamãe, mamãe... dor de cabeça...

- Há muito tempo que o senhor sofre?

- Não. Mamãe colocou gelo e isso me fez bem.

- Quantos anos o senhor tem?

- Nove anos.

- Como se chama sua mãe?

- Mamãe Jeanne, e depois a outra, lá, mamãe Marie; mamãe Marie era a mamãe de papai.

- Era sua vovó; onde ela morava?

- Saint-Laurent.

- E você, onde você morava? (A médium pronuncia um nome que é interpretado como Vinclignan).

- Saint-Laurent é longe?

- Não muito; é ao lado de Montréjeau.

- Você já foi alguma vez à Montréjeau?

- Sim, o médico que cuida de mim é desse país; ele se chama Bordère; vieram muitos doutores.

- Você compreende que está morto?

- Eu não sei.

- Você se sente melhor que agora há pouco?

- Sim, eu tinha dor de cabeça... me mostraram coisas engraçadas, eu vejo borboletas pretas... mamãe... mamãe... Eu não quero morrer, senhor...

- Você não morrerá, meu pobre menino, porque isso já aconteceu. Vejamos: como você se chama?

- Sompour (Gilbert).

- E seu pai?

- Basile Sompour.

- Seu pai morreu antes de você?

- Não, ele estava em casa; agora está aqui comigo.

- Foi seu pai que veio da última vez?

- Sim, ele tinha perdido a memória; ele morreu de meningite, eu também.

- Você sabe a data de sua morte?

- Em 1885.

- E seu pai?

- Em 1886. Eu morava em Vinclignan, meu pai foi enterrado ali, mas eu não; é uma grande cova onde há 15 lugares.

- Onde era sua escola?

- Em Vinclignan.

- Você sabe o nome de seu professor?

- Não.


- E o nome da filha de sua mãe?

-......


-Você tinha irmãos e irmãs?

- Não, eu era o único.

- Vocês tinham bens?

- Sim; as três irmãs se casaram com os três irmãos, para manter os bens.

- Em qual lugar se localiza Vinclignan?

- Nos Altos Pirineus.

- Diga-nos os nomes de seus coleguinhas.

- Eu não sei mais; foi há tanto tempo... o cura não gostava de mim porque eu jogava bolas nos telhados. A vovó Marie teve 15 filhos”.

Visão. – Eu vejo um menino que parece ter uns dez anos, pele morena, cabelos muito escuros, assim como os olhos; ele deve ter sofrido da cabeça; meningite; ele não ficou muito tempo doente: Gilbert Sompour. Há muitos enterros em sua família. Vejo 1885, data da morte desse menino. Vinclignan. Vejo Saint-Laurent, um cemitério, que tem um nome especial, começando com a letra B. O pai deve se chamar Basile Sompour. Vejo o nome do doutor Bordère. Vejo um outro cemitério, que é menor, o de Vinclignan. Basile Sompour morto em julho, aos 41 anos... há uma mancha grande, eu não consigo ler: a mancha está sobre a cruz de pedra onde está a inscrição”.

Investigação. – Foi feita pelo sr. Sauvage, rua Chantiers, 3, que quis se encarregar de verificar essas declarações. Ele obteve o boletim de falecimento certificando que:

Somprou, Basile, maçom, 57 anos, nascido em Montégut, filho de Alexis e de Marie Lafforgue, domiciliado em Aventignan, casado com Reine Léonie, morreu em 22 de junho de 1911.

Aventignan, 18 de abril de 1921.

O prefeito

(carimbo da prefeitura)

Além disso, o sr. Sauvage recebeu do secretário da prefeitura a resposta seguinte, quanto a um questionário que ele lhe tinha endereçado:

1º Médico que cuidou de Gilbert Somprou? Provavelmente sr. Maupomé, em Montégut. A doença que teria causado a morte dessa criança teria sido de curta duração. (Sobre o primeiro ponto, há certamente um erro da parte do secretário da prefeitura: o anuário médico (Guide Rosenvald) traz o doutor Maupomé como diplomado em 1894; então, ele não pôde oferecer seus cuidados a Gilbert em 1886. Ao contrário, Gilbert tinha declarado que o médico que cuidava dele, com muitos outros, se chamava Bordère; ora, o guia Bosenvald faz figurar sobre a lista de médicos em exercício em Montréjeau o nome seguinte:

Bordère (1877) oficial da saúde; esse nome fica na lista até 1920; de outra parte, o Bottin traz o mesmo nome até 1917. Esse médico tendo sido diplomado em 1877 indica que ele exercia em 1886; é verdadeiro que ele pôde cuidar daquela criança. Nessa questão, é o morto que parece ter razão contra os vivos. Sobre o segundo ponto: a doença teria tido curta duração, foi o que disse a médium no momento da visão: ele não ficou muito tempo doente).

2º Somprou Gilbert faleceu na comunidade de Montégut por volta de 1886, 4 anos (Altos Pirineus). (Gilbert morreu por volta de 1886, aos 4 anos de idade; ele tinha dito que morreu em 1885, aos 9 anos. Ele não tinha falado de Montégut, comunidade de 249 habitantes, situada a 2 kilometros).

3º Anexo o boletim de falecimento de seu pai Somprou Basile em 22 de junho de 1911, em Aventignan. (A criança tinha declarado que seu pai morreu em 1886; o erro é aqui considerável. Quanto ao nome da comunidade Aventignan, a médium dizia Vinclignan, por causa da pronúncia, seguramente. Acontece o mesmo com o nome de família que Albertine pronunciava Sompour, ao invés de Somprou, por inversão das letras).

4º O pai e a mãe de Gilbert provinham de duas famílias cujos dois irmãos tinham esposado 2 irmãs (Gilbert, com um pouco de exagero, tinha dito: as três irmãs tinham esposado os três irmãos).

5º O nome do professor era Solle. (Gilbert declarou que não se lembrava mais desse nome).

6º Basile Somprou foi enterrado no antigo cemitério de Aventignan, hoje transformado em praça pública.

7º Não há tumba, e, consequentemente, não há inscrição. (Albertine via uma cruz com uma inscrição; essa cruz pode ou mesmo deve ter se encontrado sobre a tumba, pois não é comum enterrar um morto sem colocar uma cruz na cabeceira de sua tumba. As duas devem ter desaparecido no momento da transformação do cemitério em praça pública).

8º O cemitério de Saint-Laurent não tem uma denominação particular: (Albertine tinha dito que ele tinha um nome especial começando com a letra B).

Observações. – As inexatidões são aqui tão inúmeras quanto as precisões, mas elas se explicam muito naturalmente pela mentalidade dessa criança de 4 anos cuja memória, ainda mal assentada, não reteve fatos que remontassem a 35 anos. Quantos encarnados estão nessas condições? Quais são aqueles que poderiam se lembrar do nome de seus colegas de escola e de seus mestres? Quanto ao que aconteceu em sua casa após sua morte, a criança não tem senão uma vaga ideia, porque ele coloca a morte de seu pai em 1886, ao invés de 1911; o erro é de 25 anos. Por outro lado, ele cita o médico Bordère, que era vivo nessa época, se lembra do nome de sua avó, Marie, mas se engana sobre o de sua mãe.

Aqui, estamos incontestavelmente, e apesar das lacunas que assinalamos, na presença de uma personalidade real, que dá a prova de sua passagem sobre a Terra, e não de uma personificação obtida por sugestão ou autossugestão.

É preciso notar que o menino declara ter morrido de meningite e ter ficado bastante tempo vagando. Quando ele se comunica conosco, produz-se nele algo análogo à regressão da memória que se observa em alguns sujeitos (Ver os trabalhos dos professores Pitres, Janet, e dos doutores Bourru e Burot), mas memória ainda incompleta.

As confusões identificadas em suas declarações podem, então, perfeitamente ser explicadas por um resto de desordem mental que ele experimentou durante sua doença e que se reproduziu no instante em que se lhe levava o espírito à época de seus últimos momentos.

No mais, essa situação mental se complica ainda pela necessidade na qual se encontra essa criança, de se servir de um cérebro estranho; os erros constatados se explicam logicamente; eles não desfazem em nada as informações exatas que foram possíveis de serem controladas e que nos apresentam a complexidade psicológica desses fenômenos; a verdade e o erro são estranhamente misturados de uma maneira inextricável, contudo compreensível para aqueles que fizeram um estudo aprofundado dos estados da personalidade sonâmbula durante o sono.

A criança queimada viva

Essa psicologia das crianças mortas em tenra idade é extremamente interessante de se estudar, por vezes muito comovente pelas ingenuidades de sua expressão sempre sincera, pois esses pequenos desencarnados jamais buscam representar um papel, nem se colocar em evidência, como o fazem algumas vezes os grandes.

Em uma de nossas reuniões, no começo de 1920, evocamos, pela demanda de um amigo, seu pequeno Yéyé, bruscamente levado de seu afeto após uma curta enfermidade. Yéyé nos dá comunicações surpreendentes em precisão, de uma graça tocante que nos põe lágrimas nos olhos, e, numa de suas últimas intervenções, ele nos anuncia que nos traria sem tardar um de seus pequenos colegas do espaço; ele manteve sua palavra como se vai observar.

Eis a ordem os relatórios:

1º Sessão de 22 de abril de 1920, na casa do sr. Bourniquel. – A médium reproduziu a agonia de uma criança queimada viva (estado de transe), sua voz revela a mais terrível angústia; e por monossílabos lamuriantes, faz compreender que ele foi queimado no ventre ao mexer com fósforos, apesar da defesa de sua boa mãe, e que ele não o fará novamente. Em estado de vidência, a médium declara sentir um forte odor de fumaça vindo de panos queimados e percebeu a criança cujo espírito havia se incorporado no início da sessão. Ela faz a descrição dela.

2º Sessão de 26 de abril, na casa da sra. Capéra. – Incorporação da criança queimada. Ele diz ter três anos e se chamar Mimi. Ele reclama ainda da barriga e fala de sua avó. Ele entende não ter mais mãe. É impossível ter outras informações, mas, sobre uma questão, ele declara que há perto dele um menino pequeno com quem ele brinca.

Incorporação de Yéyé que diz que é ele que se ocupa do pequeno Mimi e ele acrescenta que esse pequenino morava em Montmirail.

“Ah, sim, interrompe alguém, Montmirail em Aisne.

- Talvez seja Montmirail em Marne, diz um outro.

- Há também as águas de Montmirail em Vaucluse”, diz um terceiro.

Mas Yéyé os coloca a todos em acordo:

“Não, diz ele, Montmirail é em Sarthe”.

É impossível saber o nome da família, mas Yéyé diz que ele enviará Mimi a casa dele e que, na próxima vez, ele estará mais lúcido. Ele repete que a criança não tem mais a mãe e que é seu avô que lhe fornece as informações concernentes a Mimi.

Em estado de vidência, confirmação dessas informações.

3º Sessão de 2 de maio, na casa do sr. Bourniquel. – Yéyé indica que o pequeno Mimi se chama Albert Lenay, morto por volta de 15 de novembro de 1885, em Montmirail, órfão de mãe, mas tendo seu pai e sua avó.

Após essas sessões, um dos assistentes, o sr. Albert Villot, advogado na Corte de apelo, quis se encarregar de tomar as informações necessárias para saber se há 32 anos uma criança morreu nessa cidade de 730 habitantes, nas condições indicadas. Eis a resposta do secretário da prefeitura.

Montmirail, 4 de junho de 1920.

Senhor,

Os dados de Registro civil obtidos na prefeitura de Montmirail mostram que Albert Arthur Raphaël Lenay nasceu nessa comunidade em 29 de outubro de 1885.



O supracitado morreu em Montmirail em 18 de novembro de 1888.

Penso que essas informações poderão satisfazê-lo.

Atenciosamente,

Secretário da prefeitura. Assinado: Bouvet.

Quanto à data, houve confusão; a criança não morreu em 15 de novembro de 1885, mas em 18 de novembro de 1888; ele tomou o ano de seu nascimento como ano de sua morte; entretanto, ele tinha três anos.

Restava, ainda, um conjunto de detalhes que seria bom esclarecer relativamente a:

1º A natureza da morte do pequeno Mimi (fósforos, tecidos, queimaduras no ventre);

2 º Se havia uma avó;

3º Se sua mãe estava morta;

4º Se seu pai vivia.

É por isso que o sr. Henri Sauvage escreveu, a seu turno, à Montmirail. Ele obteve a resposta seguinte, a qual inserimos integralmente.

Montmirail, 16 de agosto de 1920.

Senhor,

Resulta das informações que pude recolher relativamente ao falecimento de Albert Arthur Raphaël Lenay ocorrido em 18 de novembro de 1888, as 10 horas da manhã, que depois da morte de sua mãe, falecida em 4 de junho do mesmo ano, essa criança tinha sido confiada por seu pai, maître d’hotel, aos cuidados de seus avós maternos, o casal Menant, cujo marido era paralítico.



Na manhã de 18 de novembro, por volta das 7 horas, durante uma curta ausência da avó para fazer as provisões da casa, o pequeno Lenay, travesso, se levantou e, sem dúvida tendo encontrado fósforos, quis fazer fogo. O fogo passou para sua camisa de pijama. A avó, entrando no mesmo momento, se colocou de pronto ao socorro da criança pedindo ajuda, e com os vizinhos extinguiu as chamas.

O pai, imediatamente avisado sobre o acidente, chamou o médico, mas todos os cuidados foram inúteis. Todo o corpo tinha sido carbonizado pelas chamas, notadamente a barriga. A criança sucumbiu por volta de três horas depois de horríveis sofrimentos.

O sr. Lenay, pai, que ainda é vivo e mora na comunidade de Melleray, do departamento de Montmirail, sofreu uma grande tristeza pela morte do filho.

Queira apresentar minhas desculpas à sra. Villot pela demora em trazer essas informações, mas, nos interiores, nem sempre é fácil obter o que se quer.

Atenciosamente,

Secretário da Prefeitura Assinado: Bouvet

Observações. – Então, é certo:

1º Que uma criança de três anos de nome Alfred Lenay morreu em Montmirail (Sarthe);

2º Que sua passagem foi causada pelo fogo dado em suas vestimentas pelos fósforos e que foi o ventre que foi mais atingido;

3º Que ele tinha uma avó;

4º Que sua mãe tinha falecido;

5º Que seu pai existia e ainda existe. Ora, nenhum dos assistentes nas três sessões tinham morado em Montmirail e não suspeitavam sequer da existência desse lugar. Ninguém se lembra de ter ouvido falar desse fato ocorrido há 32 anos, que jamais foi publicado no jornal da localidade (evidentemente). Quando esse acidente aconteceu, a médium não tinha mais que onze meses e vivia a 920 kilometros de Montmirail. O número de detalhes exatos desfaz qualquer suposição de coincidência fortuita; a ausência de qualquer relação entre os membros do círculo e a família Lenay suprime a hipótese da psicometria.

Aqui ainda nós nos encontramos incontestavelmente diante de um caso de regressão da memória. Vemos, da maneira mais manifesta, que os espíritos que se comunicam se apresentam no estado em que se encontravam no momento de sua morte, qualquer que seja o tempo desse falecimento. Circunstância totalmente notável é o pequeno Yéyé, morto recentemente, mas desperto (ou reconhecido, seguindo a expressão usual), que serviu de guia a Mimi, bem menos avançado, embora este tenha morrido há muito tempo. Isso parece definir que a noção do tempo é uma coisa puramente terrestre; que os períodos que nos parecem muito longos são, na verdade, de pouca importância para o espírito desencarnado.

É curioso constatar que nos espíritos pouco evoluídos a última situação psicológica terrestre persiste no espaço durante um período indeterminado até o momento onde o despertar acontece.

Isso confirma o que já sabemos pelas experiências de nossos predecessores.

O locador de carros

26 de abril de 1921, Montmorency. – Quando a médium entra em transe, pede-se a um dos doutores presentes para verificar seu estado psicológico; este faz breves constatações e levanta a pálpebra do sujeito. O sr. Bourniquel faz cessar a catalepsia que estava completa, o corpo em arco de círculo, e questiona a médium, que responde com muita facilidade.

“Faz calor; ah, estou mal! Como está quente essa sala! Olhe para mim, esse sol; sufoca-se, está tudo fechado.

- Onde o senhor está?

- Estou no hospital Cochin.

- O senhor sabe que está morto?

- Sim, estou morto.

- Por qual doença o senhor foi levado ao hospital?

- Eu sofria do ventre; foi um médico que me enviou à Cochin; em casa eu não poderia me cuidar.

- O senhor mora em Paris?

- Sim, avenida de Choisy, nº 60.

- Seu nome?

- Marie Victor Menière (Todos os nomes próprios foram mudados, mas temos os verdadeiros à disposição daqueles que desejarem verificar).

- Que idade o senhor tinha?

- 30 anos.

- O senhor morreu há muito tempo?

- Sim, 1906, 17 de junho.

- Como se chama sua mulher?

- Berthe Bousquet. Eu morava com os pais de minha mulher. Eu ajudava meu sogro. Eu tinha um filho, Guillaume Victor, que tinha um ano, quando casei, em 1900. Minha mulher tinha sido criada em Auvergne.

- Sua mulher está morta?

- Ela não está mais com os velhos.

- Por quê? Ela se casou novamente?

- Ela partiu; partiu com um incompetente; ela teve dois filhos com esse tipo; ele batia nela; são dois bêbados. O senhor vai ver os velhos, o senhor verá o que dirão dessa cadela; ela mora na avenida Sainte-Marie, nº 6, cidade Doré; eles têm duas filhas; a mais velha deve ter uns oito anos. É uma bagunça. Tudo revirado, lá dentro. Minha mulher trabalha numa carvoaria; é uma sujeira. Eu não queria vir para ver essas coisas. Estou triste porque ela se conduz mal; não retornarei mais para lá.

- Em que ala o senhor esteve, no Cochin?

- Ala Saint-Louis, creio. Eu era charreteiro; alugavam-se charretes; não era um grande negócio, mas durante um tempo tivemos um cavalo; fazíamos mudanças; eu era comissário. Quando era vivo, minha mulher era honesta; ela está assim desde minha morte. Eu não queria ver tudo isso que vejo.

- O senhor tentou fazer provocar algum fenômeno físico para manifestar sua presença?

- Sim, mas eles não entendiam do que se tratava.

- O senhor sabia que estava morto?

- Eu soube quando Berthe partiu de casa. Guillaume, meu filho, agora tem 23 anos.

- Essa criança nasceu antes de seu casamento? Pois ele deveria ter 16 anos.

- Ele tem mais que isso: eu casei em 1900; ele nasceu em 1899 e eu morri em 1906...

- Então seu filho tem 22 anos.

- Sim... Eu sou parisiense, nascido no século XIII.

- Qual é sua data de nascimento?

- ..................

- Onde o senhor foi enterrado?

- Quanto a isso, eu não dou a mínima; Ivry, creio.

- E aquele que viveu com sua mulher, como ele se chama?

- Para mim, isso não tem nenhuma importância.

- Seria, então, que, durante sua vida, o senhor não teria merecido essa punição?

- Não, não; como todos os homens que trabalham, de tempos em tempos eu bebia um pouco no balcão, mas eu não era um bêbado.

- Que idade tinha sua mulher no momento do seu casamento?

- Uns vinte anos; eu tinha 24 anos; ficamos 6 anos juntos. É minha mulher que trabalha e leva dinheiro para casa; ele é um verdadeiro inútil. Já estava na hora de eu sair de lá”.

Visão. – Eu vejo um homem de tamanho médio, um pouco grande, 1 m. 75; ele tem um ar infeliz e doente, bochechas fundas, uma cabeça de tuberculoso. Ele deveria sofrer violentamente da cabeça. Ele se veste como um operário, com um macacão. Marie Victor Menière. Ele parece ter 30 anos. O bigode estilo gaulês; a linha ao lado. Vejo o hospital Cochin. Vejo charretes, um cavalo, o nome Bousquet; Berthe Bousquet é o nome de sua mulher; ele tem um filho; 1900; - 1906, é a morte desse pobre homem, 17 de junho. – Aniversário: ele deve ter nascido em 17 de junho e morrido 17 de junho. Vejo uma mulher muito mal vestida; ela deve trabalhar no carvão. Avenida Sainte-Marie nº 6. Ela deve beber; ela parece ter 40 anos; vejo 2 meninas ao lado dela, elas também estão sujas; a mais velha parece ter 8 anos, a outra 5 anos. O filho deve ser soldado.

Investigações. – Sr. Sauvage, que se encarregou de uma parte da investigação, teve alguma dificuldade em conseguir as peças oficiais. Entretanto, ele conseguiu o registro de casamento e o registro de falecimento, a seguir:

AUTO DE CASAMENTO

17 de maio de 1900; 13º Distrito de Paris

Casamento M... e B... de 17 de maio de 1900, casamento de M... Victor, nascido em Paris, 13º Distrito, em 15 de junho de 1876, 2º artilheiro na 40ª de artilharia em Châlons-sur-Marne, filho de... e B... Marie Pacifique, nascida em Paris, 10º Distrito, em 15 de dezembro de 1879, residindo em Paris, avenida de Ghoisy, nº..., filha de....

Ele não fez contrato.

REGISTRO DE FALECIMENTO

19 de junho de 1906; 14º Distrito de Paris

Falecimento de M... Victor, em dezenove de junho de mil novecentos e seis. Falecimento de M... Victor, 30 anos, cocheiro de entregas, nascido em Paris, residente... falecido, 47, rua do subúrbio Saint-Jacques, filho de....., esposo de Maria Pacifique B.... 26 anos, trabalha por jornada.

Também o sr. Ghadefaux, encarregado da investigação, teve dificuldades em encontrar essa pista; eis aqui um extrato de seu relatório:

Paris, 25 de abril de 1921.

Senhor Presidente,

... A comerciante de vinho, no nº 60, a qual eu me dirijo, avenida de Choisya, me informa que, de fato, Bousquet e seu genro Menière moraram ali em outro tempo; que eles foram substituídos por uma dama de Paris, sua parente, a qual, estabelecida atualmente em Gentilly, seria a mesma a fornecer as indicações precisas. Ela confirma os dizeres de Menière, sem poder precisar as datas e acrescenta que Guillaume, o filho, idade de 23 anos, trabalha com seu marido como entregador de carvão e que ele pernoita com eles no nº 60. Quanto à mãe desse jovem homem, ela tem uma reputação deplorável; ela vive com um imprestável de nome Fort. Visitei em seguida a Cidade Dourada (ou avenida Sainte-Marie), verdadeiro refúgio de favela cheirando a miséria e vício. A viúva Menière, dita mulher de Fort, não estava. Uma senhora idosa que me mostrou a casa me seguiu para me dizer que se eu tinha ido para uma solicitação de auxílio, eles não seriam dignos dela, estando sempre todos os dois bêbados etc...

Atenciosamente....

L. Chadefaux

2º relatório de 27 de abril: Visitei ontem Gentilly onde a sra. Paris me fez a seguinte declaração:

“Sou prima irmã de Berthe Bousquet, viúva de Marie Victor Menière. Este morreu de tuberculose aos 30 anos, no hospital Cochin, ala Saint-Louis, em 16 ou 17 de junho de 1906. Fui eu que reconheci o corpo no hospital e que solicitei o enterro em Ivry, ao invés de Bagneux. Menière morou e trabalhou por muito tempo com seu genro Bousquet, locador de charretes, avenida de Choisy nº 60. Guillaume Menière, o filho, nasceu em fevereiro... no hospital Lariboisière. Ele foi reconhecido por seu pai, depois legitimado pelo casamento. Ele deve ter 23 anos, sendo da classe 19. Na infância, minha prima Berthe foi criada por muitos anos em Vernières, próximo a Saint-Flour (Cantal). É certo que desde a morte de seu marido ela vive com um inútil”.

L. Chadefaux.

As duas investigações, então, trouxeram a confirmação de tudo que havia sido dito pelo comunicante; alguns erros muito leves mal podem ser identificados: quando ele mostra a médium, por exemplo, que a data de sua morte é a data de seu aniversário: 17 de junho – 17 de junho, enquanto as datas reais são 15 junho – 19 de junho.

Não sejamos tão severos com relação aos erros cometidos pelos espíritos; os vivos os cometem tanto quanto: a prima Paris disse que ele morreu no dia 16 ou 17 e, entretanto, foi ela que reconheceu o corpo e solicitou o enterro em Ivry. Acontece também que algumas vezes os espíritos retificam os erros dos vivos: assim, na sessão de incorporação, um de nós tendo dito que o filho, Guillaume, deveria ter 16 anos, o espírito insistiu em afirmar que ele deveria ter mais, e, verificação feita, era ele que tinha razão. A mentalidade de Victor Menière não é complicada; ele diz o que pensa e não mastiga suas palavras; ele fala como um homem sem educação, mas tem sentimentos honestos que o fazem desaprovar a conduta de sua mulher. Constata-se que ele sofre por ela e suas expressões rudes denotam uma sensibilidade aguçada. Ele vê, sem dúvida, o que se passa no abrigo miserável onde se instalou sua mulher; o quadro realista que ele faz disso parece sair da pluma de Eugène Sue. Enfim, ele sabe que está morto; desde a partida de sua mulher, diz ele, e como essa partida foi próxima à morte do marido, presume-se que Victor não ficou por muito tempo na ignorância6.

A investigação foi muito difícil de iniciar porque a casa que tinha o número indicado pelo espírito foi demolida e substituída por uma casa moderna. Um de nós, sem ter sido encarregado, fez uma investigação informal que não retorna nenhum resultado; ele não encontra nem a casa nem ninguém que possa prestar informações. Ele volta de mãos vazias. Já o sr. Sauvage se depara com dificuldades administrativas sobre as quais não insistimos, mas que o fizeram ceder desde o início de suas pesquisas. Foi diante de nossa insistência que ele as retomou, com maior sucesso desta vez. Tocou ao sr. Chadefaux completá-las da maneira mais feliz. Quando ele conheceu a Cidade Dourada, as crianças maltrapilhas e a idosa miserável, tomando-o por um pequeno manto azul, corriam atrás dele, tal como os bandidos da Corte dos milagres, na Notre Dame de Paris.

Como supor, então, que um membro do grupo onde a médium teria podido se informar, previamente, do registro civil de Victor Menière, de todas as particularidades de sua existência, das datas do casamento e da morte, seguir a pista da viúva e do filho, assistir o nascimento das duas meninas, ter sido testemunha da decadência dessa mulher ainda jovem, do estado de embrutecimento no qual ela caiu? A evidência dos fatos, a lógica, a observação e o bom senso se combinam nessa comunicação como na maior parte das outras e nos mostram a intervenção de uma inteligência que não é a nossa; ela não pode também originar de nenhum sobrevivente dessa família.


A mulher do guarda rural

19 de junho de 1921, Montmorency. – A médium reproduz uma agonia muito impressionante: ele cerra os dentes, seu rosto é completamente transformado e doloroso, os músculos do pescoço são fortemente tensionados. Ela chama:

“François!!!

- O que o senhor quer dele, de François?

- É preciso me cobrir; todo meu corpo está frio.

- Meu pobre amigo, o senhor está morto; o senhor sabe, compreende?

- Sim; eu tive um ataque, mas eu não estava doente.

- Como o senhor morreu?

- Eu estava com frio, frio, frio.”.

O sr. Bourniquel aplicou passes na médium.

“Agora o calor; o senhor está com calor, agora?”

As mãos da médium se aquecem. Pergunta-se a ele em que ano ele está; ele coça a cabeça e diz:

“Creio que estejamos em 1902... Eu morava em Pesmes, na Haute-Saône, distrito de Gray; foi lá que eu cresci. Eu me chamo Fuin (Françoise); eu devia ter uns 72 anos; meu marido estava vivo, ele se chamava François e ele trabalhava com vinhas. Fazemos um bom vinho, por lá. Tínhamos vacas em casa; morávamos na pequena cidade de Chaumersaint. Eu nasci e morri em Pesmes. Eu tive 9 filhos.

- Quantos meninos?

- Eu não sei o que aconteceu a eles. Onde estou?

- Aqui, nos ocupamos dos mortos, praticamos o espiritismo; a senhora compreende?

- Como as bruxas. Essas mulheres fazem mal ao gado, elas lançam feitiços que adoecem as vacas. É preciso chamar o cura para desfazer. Ele conserta, ele faz uma novena e o feitiço vai embora. Ah, essas pessoas, quando estão perto de alguém, é inútil borrifar sulfato nas vinhas... Quando essas mulheres passam, elas jogam um pó...

- A senhora se sente melhor?

- Não estou com calor; sim, está nevando, estamos no inverno; temos carvão.

- Conte-nos alguns fatos importantes de sua existência.

- Não é muito importante. Meu marido era guarda rural em Chaumersaint; morávamos em Pesmes; não é longe. Ele ganhava 500 francos por ano por seu trabalho; com isso não se era infeliz.

- E seus filhos?

- Quando vou a nossa casa, eu os vejo; uns estão mortos, os outros vivem; muitas vezes eu volto à casa; eles vão trabalhar nas vinhas. Eu não trabalho mais nas vinhas; mas eu apenas vou a minha casa. Eu não meu dou conta; é como um sonho. Os filhos estão enterrados em Pesmes, eu também.

- Seu marido ainda vive?

- Eu o vejo, como vejo os filhos.

- A senhora quer ir a sua casa e observar se seu marido é vivo ou se ele está morto?

-............

- A senhora já foi alguma vez à Paris?

- Paris? Muito obrigada; todo mundo tem paixão por ela... Meu marido morreu em 1907; ele era mais velho que eu: 82 anos.

- Ele morreu em Pesmes?

- Não... Eu não sei de nada disso. Vivíamos bem tranquilamente.

- Dos nove filhos, quantos restaram?

- Restam-me 3; eu perdi 6, meu nome era Françoise Puin, esposa Mazuré.

- Desde que a senhora morreu, houve mudanças, progresso; os automóveis, os aviões.

- Oh, lá lá! A mecânica; então deixe o trabalho como ele era. Noutro tempo, ia-se a pé e não havia problema, não se era rico, mas não se fazia mal a ninguém. Quando meu marido via algum caçador, ele não perdoava: ele era severo, mas justo; ele não fazia essa trabalho quando velho, mas quando jovem”.

- Visão. – A médium descreve uma mulher idosa enrugada, com uma touca sem rendas, uma faixa nos cabelos; um par de tamancos com pantufas; deve estar frio nesse lugar; ela tem um grande xale sobre os ombros, feito em lã tricotado à mão. Depois ela vê uma casa pontuda, velha, coberta por telhas; há um galpão com animais de chifres. A cidade é muito pequena com colinas e vinhas cobertas de neve. Françoise Fuin. Pesmes. Escuto Haute-Saône, Chaumersaint (distrito de Gray). Ela vê igualmente um homem carregando uma espécie de bomba como um pulverizador, de nome Mazuré; ele é idoso, parece ter 80 anos. Ele parece carregar relatórios; ele não está de uniforme, mas ele carrega documentos para as contribuições.

Em 23 de junho, o espírito, lembrado, completa assim suas declarações, que resumimos aqui:

“Eu me chamo Françoise Mazurier, nascida Fuin; meu marido nasceu em Pesmes e eu em Chaumersaint. Eu nasci em 11 de setembro de 1821 e morri em 3 de janeiro de 1897, em Dijon, onde minha filha me colocou com as irmãs, no abrigo de idosos. Minha filha se chamava Françoise Gye e seu marido era serralheiro no Portal d’Ouche; ela morreu aos 47 anos, em novembro ou dezembro de 1905. Seu filho Georges está na casa; ele trabalha como seu pai. Meu genro se casou novamente 14 meses após a morte de minha filha; ele também morreu; seu filho o sucedeu; ele é muito bravo e valente.

“Eu morri de erisipela e eu tive como um ataque. Eu me casei na República de 48; um século desde que nasci! E eis o tempo”.

Pesquisa. – Sr. Chadefaux, encarregado da pesquisa, recebeu a peça oficial seguinte:

R. F. Boletim de Falecimento

Cidade de Dijon. Registro civil.

Em cinco de janeiro de mil oitocentos e noventa e oito morreu em Dijon Jeanne Françoise FUIN, setenta e seis anos de idade, nascida em Chaumersaint (Haute-Saône), em 5 de setembro de 1821, residindo em Dijon, boulevard de Strasbourg (Asilo dos idosos), filha do falecido Antoine Fuin e da falecida Madeleine Guignolet, sua esposa, e casada com Jean Françoise Mazurier.

Por nota, Dijon, em trinta de junho de 1921.

(Carimbo da Prefeitura)

Uma nota especial da prefeitura declara:

“Não nos é possível saber se ela morreu de erisipela; essa informação não existe no ato de seu falecimento”.

Uma outra nota do secretário da prefeitura de Pesmes diz o seguinte:

“Não existiu Mazurier, guarda rural em Pesmes, e nem Mazurier falecido em Pesmes em 1902. Esse nome é bastante comum nessa região e as pessoas as quais eu pedi informações acreditaram se lembrar de haver outrora um guarda rural de nome Mazurier em Sauvigney-les-Pesmes, onde o senhor poderá se dirigir. Nasceu em Pesmes, em 1821, um Jean François Mazurier. É este que lhe interessa?”

Sr. Chadefaux, de parte dessa indicação, se dirige então ao prefeito de Sauvigney-les-Pesmes, que responde:

“Senhor Chadefaux,

“Quanto ao foco das informações que o senhor me solicita concernente a François Mazurier, eu tenho a honra de lhe dizer que esse último foi durante dez anos guarda rural em nossa comunidade, de julho de 1854 a maio de 1864. Esse home foi um bom trabalhador, criou uma numerosa família que era muito estimada.

Atenciosamente,

O Prefeito de Sauvigney-les-Pesmes. Ch. Bardy.”

(carimbo da prefeitura).

Enfim, aqui, uma outra carta que completa e justifica as informações de família dadas pelo espírito; ela está endereçada a uma outra pessoa que desejou se encarregar de uma parte da pesquisa:

Dijon, 30 de julho de 1921

Caro Senhor Grandjean,

Encontrei, enfim, um momento para fazer as investigações sobre a identidade de Mazurier. Pode-se responder que está tudo certo, e mesmo que algumas informações que poderiam parecer erradas para todo mundo são verdadeiras para os filhos e a mulher apenas. Eis aqui:

No asilo de idosos (dito as Pequenas-Irmãs) me fizeram saber que Jeanne-Françoise Fuin, esposa de Jean Mazurier, nasceu em Chaumersaint em 5 de setembro de 1821 e entrou no asilo em 26 de julho de 1897 onde ela faleceu em 5 de janeiro de 1898.

Seu marido foi guarda rural não em Pesmes, mas em Sauvigney-les-Pesmes. O neto Georges Gey (é Gey e não Gye) sucedeu seu pai serralheiro no portal d’Ouche (a última casa à esquerda da rua Monge). Ele não é o único neto da sra. Mazurier, mas o único sobrevivente de seu pai e mãe para ele. Sua mãe Françoise Gey morreu em dezembro de 1902 e não em 1905.

O senhor tem aqui, então, todas as informações sem ter necessidade de passar por Pesmes, porque o neto e sua mulher me confirmaram e retificaram tudo o que o senhor perguntou ou indicou.

Devo lhe dizer que o sr. e a sra. Gey, que são pessoas inteligentes, muito sérias, à vontade e bem criadas, ficaram muito impressionadas com todos os detalhes tão exatos e complexos de sua carta que li para eles para pedir-lhes que verificassem a precisão dela.

A princípio, duas informações lhes pareceram inexatas, como a data do casamento do pai Gey (4 anos e não 14 meses depois de sua viuvez), mas ao refletir, reconheceram que o pai começou a morar junto por volta de 14 meses depois da morte de sua mulher. O mesmo para a existência dos netos da senhora Mazurier que são vários, mas cujo filho Gey resta o único.

O senhor tem aí um caso bem definido de identidade.

A. Lafont.”

Observações. – As inúmeras particularidades dessa experiência excluem, da maneira mais formal, toda explicação pela criptestesia. Se o sr. Prof. Richet desejou se dar o trabalho de estudar esse caso e alguns outros contidos nesse capítulo, ele terá dificuldades para manter sua hipótese que, aqui, tende contra a lógica e não pode resistir à análise dos fatos.

Não reteremos mais que dois pontos de todos aqueles que foram enumerados pelo espírito, controlados pela investigação e reconhecidos exatos:

1º Meu genro estava estabelecido no portal d’Ouche. Para usar um termo parecido, seria preciso que se conhecesse bem Dijon e que se fosse de uma idade avançada, pois há muito tempo que essa denominação Portal d’Ouche foi substituída por Rua Monge. É isso que nos assegura sr. Lafont, de quem tomamos conhecimento mais tarde, em Paris, onde ele se encontrava de passagem.

2º Meu genro se casou novamente 14 meses após a morte de minha filho. Assim que se relata essa afirmação ao sr. Gey, o filho desse genro, ele declara a princípio que haveria um erro, tendo seu pai se casado 4 anos após sua viuvez. Mas é após ter refletido que ele diz: “Entretanto, o que o senhor diz poderia estar certo; eu me lembro agora que ele se veio a morar junto 14 ou 15 meses depois sua viuvez”. Não temos a honra de conhecer sr. Gey; é assim que no-lo diz o sr. Lafont, um homem sério e inteligente; também permitamo-nos insistir sobre esse ponto delicado porque ele tem uma importância considerável.

Quem conhecia esse detalhe: Georges Gey, e somente ele, porque ele é o único sobrevivente da família; ele conhecia esse detalhe, mas ele o esqueceu ao ponto de ter sido necessário algum tempo de reflexão para se lembrar. Se ele mesmo tivesse assistido a sessão de 23 de junho, a médium não teria podido encontrar essa informação na memória normal do sr. Gey, para quem a expressão casar-se novamente implica a ideia de uma formalidade administrativa e oficial. Se, de outro modo, uma pessoa do grupo ou a própria médium tivesse feito a viagem de Dijon para ir se informar com ele, diante a indiscrição de tal abordagem, o sr. Gey teria provavelmente respondido: ocupe-se com suas coisas.

Daí se erige a hipótese espírita. Ela toma aqui uma consistência, uma força tal que insistir na admissão de uma outra pareceria simplesmente ridículo. Todas as observações psico-sistemáticas da ciência incerta não podem nada contra tal feixe de provas, essas provas que Laplace queria proporcionais à estranheza dos fatos.

“Estamos, acrescenta o ilustre astrônomo, tão longe de conhecer todos os agentes da natureza e seus modos diversos de ação, que não seria filosófico negar os fenômenos unicamente porque eles são inexplicáveis no estado atual de nossos conhecimentos. Apenas devemos examiná-los com uma atenção tão mais escrupulosa que parece mais difícil admiti-las”.

Se ele tivesse vindo ao mundo com um século de atraso, as novas teorias espíritas teriam dado a Laplace a explicação de alguns desses fenômenos e a experimentação lhe teria demonstrado a exatidão dessas teorias, pois ao inverso dos sábios atuais, ele tinha o espírito aberto a todas as novidades.

Ressaltemos, enfim, que o espírito tinha dito ter morrido, na 1ª vez, em Pesmes, e na 2ª vez em Dijon; suas lembranças se tornam mais precisas na segunda incorporação.


O ferroviário

Nos idos da tarde de 12 de agosto de 1906, Etienne Dubuisson, empregada na Cia das Ferrovias do Norte, se encontrava no depósito de bagagens na rua dos Peixeiros, onde estava igualmente instalado um economato, a uso dos ditos empregados.

O calor era sufocante; nenhum sopro de ar refrescava a atmosfera. Indisposto por essa temperatura insuportável, se sentindo pouco à vontade, Dubuisson desceu ao porão esperando encontrar ali um pouco de frescor.

Depois de um longo tempo, seus camaradas, não o vendo subir, foram ver o que ele fazia; eles o encontraram sentado sobre caixas, o rosto inchado, o pescoço inchado, respirando com dificuldade.

“Então, não está bem, meu velho? Que é que você tem?”

Ele responde com dificuldade: “Oh! Minha cabeça, minha cabeça! Ah! Sinto calor!”

Ele morava no bairro, cidade Marcadet nº18; rapidamente ele é transportado; o médico chamado diagnosticou uma congestão cerebral e prescreveu compressas de gelo. Nenhum cuidado pôde impedir o progresso rápido do mal e Dubuisson morreu dois dias depois.

Ele nasceu em Vesoul em 7 de novembro de 1854. Vindo cedo para Paris, ele esteve em diferentes empregos, se casou com uma jovem da Suíça, Louise Riéder, mais jovem que ele doze anos. Ela era cozinheira há 18 anos na casa do sr. Lumas, empregado na Companhia do Norte, residindo em Cuistine, rua 3; graças a ele, Dubuisson foi contratado na Companhia. Desse casamento nasceu uma menina, Jeanne, que, mais tarde, esposou um indivíduo de má conduta, uma dessas mentes fortes que não param de resmungar contra os patrões; entretanto, seu sogro terminou por fazê-lo entrar na Companhia, de onde ele foi demitido em 1910, em tempo de greves. Quando ele se casou, em 1906, ele morava na rua Championnet.

Depois da morte de Etienne Dubuisson, sua mulher, sua filha, seu genro, bem como um menino pequeno, Jojo, nascido do casamento destes últimos, deixaram Montmartre e foram morar numa casa para operários da rua Bout-du-Rang, nº 3, em Gentilly. Episódios contínuos, provocados pela má conduta e brutalidade do genro, cresciam entre eles dia após dia. Abandonando sua mulher, então grávida de seu nono filho, o genro partiu para não se sabe onde.

Isso se passou no início de 1921. As duas mulheres deixaram logo Gentilly e foram morar em Paris, no hotel da Renascença, rua de Bièvre, 5.

No mês de dezembro elas receberam uma visita que as intrigou bastante.

Um senhor de idade, sr. Chadefaux, antigo magistrado, se apresentou à sra. Dubuisson, perguntando-lhe se ela era a viúva de Etienne Dubuisson, antigo empregado da Cia do Norte, morto em tais e tais circunstancias, como nós mencionamos acima.

“Sim, disse Louise Dubuisson, tudo isso está certo; mas como o senhor sabe?

- Bem, foi seu marido que nos disse!”

Estupefação da boa senhora que se pergunta de início se ela não estaria lidando com um louco; mas diante do tom calmo e sossegado, da atitude séria de seu interlocutor, ela se arrisca a pedir explicações:

“Como? Foi meu marido que lhe disse isso? Mas ele morreu há 15 anos!

- Isso não diz nada, ele nos disse do mesmo modo, respondeu imperturbavelmente o sr. Chadefaux.”

Dessa vez, Louise Dubuisson parou. Foi preciso explicar, longamente, como, em uma casa de Auteuil, durante uma sessão espírita, um médium tinha incorporado um espírito que tinha dado as informações em questão e manifestado o desejo de que se chegasse a sua mulher. Foi ele que indicou a rua do Bout-du-Rang, onde o sr. Chadefaux se apresentou; lá disseram-lhe sobre a mudança das duas mulheres e seu novo endereço em Paris.

Espiritismo!... Médium!... Incorporado!.... A viúva estava cada vez mais desorientada. Entretanto, ela reconheceu que tudo isso que lhe tinha sido dito concernia à história de sua vida, a de seu marido, de seu genro, de seus netos, estando rigorosamente certo.

E ela voltava sempre a esses nomes cabalísticos, cheios de mistério e do desconhecido: espiritismo... médium...

O sr. Chadefaux teve de explicar como se chegou a recolher essas informações, pela voz de uma pessoa que os ignorava completamente, e que, ao despertar, tinha visto o defunto e dado a descrição seguinte dele:

“Grande, magro, cabelos negros, bigode escuro, cheio, parecia ter de 47 a 50 anos. Ele usava um macacão e um boné com as iniciais C. N. Ele empurrava um carrinho onde estavam empilhados pacotes, mercadorias. Etienne. Eu vejo um outro nome invertido: nossiubuD. Ele deve ter morrido quase subitamente, 15 de agosto de 1906. Cidade Marcadet. Vesoul, Haute-Saône. Gentilly, casa operária, rua Bouturand. Vejo ruas em declive, pavimentações, casas velhas. Uma rua nova: aconteceram trabalhos nessa rua, casas demolidas”.

Com relação a esses trabalhos, o espírito disse que a cidade Marcadet tinha sido demolida para dar lugar à rua Léon; ele disse também que foi assistente numa loja de sapatos do boulevard de Clichy, sr. Michel; Louise Dubuisson retificou dizendo que aquele foi o fornecedor de sapatos na pequena equipe da Companhia. Ela mostra ao sr. Chadefaux seus documentos de família e os de sua filha: todas as informações eram de uma exatidão rigorosa, com exceção do nome do genro que se chama P... e não Fortin, como erroneamente pretendia o falecido sogro.

A viúva foi convidada a assistir a reunião seguinte; eis o resumo do relatório dessa visita:

Sessão de 18 de dezembro. – Sra. Dubuisson, que havia recebido o pedido do nosso presidente de vir a Montmorency, assiste a sessão. É com uma profunda e compreensível emoção que ela escuta a leitura do relatório; este evoca as lembranças de toda sua existência laboriosa, dolorosa e honesta; essas lembranças lhe trazem as duras horas de outrora, a luta contínua contra a adversidade, os lutos cruéis. Sua emoção é intensa e todos seus esforços se aplicam por contê-la. Fixa sobre sua cadeira, muda, sem um movimento, ela escuta avidamente, espantada com tantas precisões. E quando alguém lhe pergunta se ela quer se comunicar com seu marido, ela faz um gesto afirmativo em consentimento.

A médium incorpora de novo o espírito de Dubuisson. Este aperta afetuosamente as mãos de sua mulher, em um gesto de proteção e de amor. Ele se esforça por encorajá-la com palavras consoladoras, lembra a ela as memórias de um passado longínquo, sua união que teve suas horas de felicidade e de trabalho duro; seus longos esforços para viver honestamente e criar a pequena família.

Ele se interessa pelo futuro dos filhos de sua filha, pede que alguém venha em auxílio deles. Sr. Bourniquel declara que as informações que ele obteve são boas em todos os pontos de vista. Sr. Delanne, presidente, decide fazer, no final da sessão, uma coleta que produziu a soma de 67 francos e que fica remetida à Sra. Dubuisson.

Ela não mais procura reter as lágrimas; a cena é comovente ao mais alto grau; os assistentes estão vivamente impressionados e todos os olhos estão úmidos. As pessoas se sentem diante de um ato de humanidade, de justiça e de reparação.

Alguém perguntou à Sra. Dubuisson se ela se lembra de um tremor nervoso que agitava a mão da médium e se seu marido tinha esse tremor:

“-Sim, responde ela, isso lhe acontecia com frequência.

- E o nome Jojo, que seu marido pronunciou, à quem pertence?

- É o nome do meu neto, o mais velho, o único que meu marido conheceu; é uma criança que ele amava muito”.

Após a sessão, pergunta-se uma última vez à Sra. Dubuisson se ela confirma novamente as informações acima; ela declara confirmá-las em todos os pontos, exceto o nome de seu genro que era P... e não Fortin. Perguntam a ela se ela já foi objeto de alguma pesquisa que teria por objetivo inquirir as informações que em seguida tivessem sido levadas em sessão como provenientes do espírito do morto. Ela responde que jamais ninguém, exceto o senhor de idade (Sr. Chadefaux), foi se informar com ela. Ela declara, também, que jamais viu nenhuma das pessoas que estão ao seu redor, e assim o relatório com todos os membros do comitê.

A secretária taquigrafa:

Jeanne Laplace.

Complemento da pesquisa. – Eis aqui, de outra parte, o relato do sr. Chadefaux, relativo às diferentes abordagens que ele foi encarregado depois da primeira sessão.

Paris, 10 de dezembro de 1921

Sobre o pedido do nosso caro presidente Sr. Delanne, me lancei às investigações concernentes às revelações do espírito de Etienne Dubuisson.

Eis aqui o resultado de minhas investigações:

1º Ao antigo nº 18, cidade Marcadet, atualmente rua Léon, 43, Sra. Podevin, zeladora desde 1902, se lembra de ter tido outrora locatários de nome Dubuisson e dois empregados da ferrovia do Norte, sem poder precisar mais. Nenhum registro. O proprietário faleceu.

2º Aos nº 2, 3, 4, 6 e 8, rua Custine, Sr. Lumas desconhecido.

3º em Gentilly, rua do Bout-du-Rang, nº 3, cidade operária, Sra. Cygrand, gerente, me fez saber que ela teve, de fato, como locatários desde 1914 a senhora P... (e não Fortin), mãe de 9 filhos, 7 ainda vivos, e a mãe desta, viúva Dubuisson. Abandonada pelo marido, no começo do ano corrente (1921) a senhora P..., por volta desta época, e sua mãe partiram há mais ou menos um mês.

4º Rua de Bièvre, 5, Paris, hotel da Esperança, quartos 9 e 10, encontro a viúva Dubuisson e sua filha, a qual aleita seu último filho. Suas respostas a minhas questões confirmam o relato do espírito, Etienne Dubuisson, exceto que o genro se chama P... e não Fortin. Elas não sabem o que pode ter sugerido o nome Fortin. Há também dois erros de domicílios. Nos documentos de família que, por meu pedido, elas me apresentaram, assinalei textualmente isto que segue:

a) Documento de família de Etienne Dubuisson: Etienne Dubuisson, nascido em 19 de dezembro de 1854 em Vesoul (Haute Saône), assistente de loja em Paris, filho de Jean Pierre e Apolline Equé: Casado em Paris (7º distrito) em 2 de junho de 1881, com Marie-Louise Riéder, cozinheira, nascida em 10 de janeiro de 1859, em Villiers-le-Grand, território de Vaud (Suíça).

Etienne Dubuisson, falecido em 15 de agosto de 1906 em Paris (18º distrito), cidade Marcadet, 18. Filhos vivos: 1º Paul-Frédéric Dubuisson, nascido em 7 de março de 1883 em Paris (7º distrito), atualmente residindo na rua Léon, 57; 2º Jeanne Louise Dubuisson, nascida em 26 de dezembro de 1887, em Paris, rua Ambroise Paré, 2 (hospital Lariboisière).

b) Sobre os documentos de família de Emile P... (seu Registro civil, seus nove filhos, etc...)

5º Segundo a viúva Dubuisson, o casal Lumas, na casa dos quais ela foi cozinheira por 18 anos (mesmo depois do casamento), moravam no nº 17 e não no 3, da rua Custine. Sr. Lumas era chefe do Economato na estrada de ferro do Norte.

L. Chadefaux.”

Observações. – Esse espírito, segundo suas próprias declarações, teve de realizar grande esforço para encontrar sua casa, pois o bairro sofreu, após sua morte, transformações importantes mencionadas no relatório tão consciencioso do Sr. Chadefaux.

Eis aqui um extrato do Relatório, relativo a esse fato:

“Eu não conseguia me situar, nos disse Etienne; eu subi a rua ao menos vinte vezes. Enfim, eu vi minha antiga casa, as demolições, a rua fechada; foi preciso que alguém me mostrasse tudo isso para que eu pudesse me encontrar.

Quem lhe mostrou tudo isso?

- Foi um senhor.”

Nesse momento, o espírito dá uma descrição na qual reconhecemos nosso guia Camillo; ele diz que eles refizeram juntos todo o caminho, que eles foram à Companhia do Norte, que eles viram os incidentes da greve; alguém lhe mostrou que seu genro não estava mais ali; ele esteve na casa dos antigos patrões de sua mulher, depois em Gentilly, na casa de sua filha. “O senhor, diz ele, não me abandonou”.

Esse relato nos mostra, sobretudo, que a mentalidade dos mortos parece estranhamente com a dos vivos. Etienne Dubuisson, que procurou sua mulher em Gentilly, ignorava as transformações passadas em seu antigo bairro, e quando ele volta lá, ele não se situa mais. É exatamente isso que aconteceria quando vivo se, tendo partido para uma longa viagem que tivesse durado muitos anos, ele houvesse encontrado, ao voltar para casa, as novas casas que não existiam na sua partida: ele teria tido dificuldade de se situar; talvez ele tivesse sido obrigado a se informar com agentes, como o fez com Camillo. Este despertou as lembranças do espírito desvelando diante dele imagens que se passavam à maneira de um filme cinematográfico: é o sistema do pensamento criador reconstituindo o passado.

Outra particularidade a observar são as letras C.N. que a médium viu no boné de Etienne e que designam algumas categorias de empregados da Companhia do Norte, então que o pessoal dessa Companhia traz, em geral, o nome Nord bordado no boné.

Sra. Dubuisson nos confirmou a existência desses duas letras no boné que seu marido usava.

Os erros de detalhe expostos aqui, como na maioria dessas manifestações, são muito compreensíveis, provenientes da memória incompleta e falha de uma pessoa morta há muitos anos; elas se tornam, ao contrário, inexplicáveis quando se invoca as faculdades da criptestesia, faculdades omniscientes que não podem se enganar e nem conhecem lacunas.

O Auverniense

Sessão de 19 de fevereiro de 1922, Montmorency. – Nesse dia foi uma criança da Auvérnia que nos visitou; eis um extrato das notas taquigrafadas que concerne a ela:

“A médium parece sofrer muito; há uma contração dos músculos, o aspecto do rosto é doloroso; a médium parece paralisada de uma metade do corpo e atinge uma rigidez nos músculos; tensão das artérias da têmpora e no pescoço; deformação dos traços.

Os doutores presentes são convidados a examinar o estado pseudo-cadavérico do corpo. Sr. Bourniquel indica um novo procedimento, ditado por Camillo, para libertar o corpo da médium; consiste em dirigir a extremidade dos dez dedos sobre a cavidade do estômago. A médium é imediatamente desligada.

“Onde estou?... Eu não estou bem. Oh! Não!... Isso me aperta...

- O senhor tinha boa saúde antes de vir aqui?

- Oh! Boa saúde? Como um velho!

- É preciso dizer que o senhor não tem mais o seu corpo.

- Eu sei; me disseram antes de vir.

- Então, o senhor está a par.

- Eu não sei se estou a par, mas eu não compreendo mais nada.

- Como o senhor se chama?

- Antoine... Antoine Vacher.

- Que idade tem o senhor?

- 71 anos.

- Qual é sua ocupação?

- Eu trabalhava com fertilizantes para terra; eu trabalhava a terra; eu preparava fertilizantes.

- Onde, isso?

- Na nossa casa... em Seychalles (Puy-de-Dôme), ao lado de Clermont, na Auvérnia.

- Diga-nos o nome de sua mulher!

- Anne Archambert, senhora Vacher.

- Ela ainda está viva?

- Eu morri primeiro; quando ela morreu, eu vim procurá-la.

- Em que ano o senhor morreu?

- Em 1881, 14 de agosto.

- A data de seu nascimento?

- 1808, novembro, creio eu.

- O senhor teve filhos?

- Sim, três; elas estão comigo. Eu trabalhava as terras da fábrica de açúcar de Beauséjour; cultura de beterrabas. Há também Chauriac. De resto, a usina ainda existe; em Chauriac, uma de minhas filhas estava na casa do sr. Daumisaille, deputado da fazenda-escola; (observa-se um tremor acentuado nas mãos do Sr.).

“Duas das minhas filhas se casaram; seus maridos morreram; elas não tiveram filhos; elas se chamavam Marie, Antoinette e Jeanne. Eu morri de repente. Tive ataques; depois, me restou um tremor na mão direita, um pouco de paralisia; eu não segurava mais nada na mão esquerda.

- Chamaram um médico?

- Na minha idade, não há necessidade de médico; não havia nenhum conosco; não passávamos de 500 habitantes. Há em Clermont. Eu morri aos 73 anos. O senhor vê minha mulher? Ela está comigo.

- Nós não a vemos, mas logo ela se mostrará a médium, que vai retratá-la para nós.

- Minha mulher era prima do bispo de Cahors; ela morreu aos 97 anos, em 1909. Eu não sei mais o mês. Eu fui procurá-la e agora estamos juntos.

- O que o senhor fez, desde sua morte?

- Eu voltei para lá enquanto minha mulher viveu. Eu sabia que estava morto; voltar me dava prazer; então, o senhor pensa que alguém passa toda uma vida sem voltar para casa? Eu era religioso, eu ia a Igreja, eu fiz meus deveres de cristão: e, bem! Eu voltei à Igreja.

- O senhor encontrou o céu e o inferno?

- Eu não encontrei nada além desse inferno aqui, mas se eu não tivesse podido retornar para casa, isso teria sido o inferno para mim. Eu fui também às fazendas. Quando vivo, há muito tempo, fui a Paris para expor os bois do duque de Mauriac no concurso... como o senhor chama isso?

- Agrícola.

- Sr. Delanne. – O senhor vê outras pessoas de sua região mortas como o senhor?

- Sim, há muitas; e, bem, a gente anda o dia todo.

- E a noite?

- Eu não vejo noite. Nós conversamos, nós nos ocupamos das plantações.

- O senhor ainda pensa em ganhar dinheiro?

- Dinheiro? Não é nesse objetivo... o prazer do camponês é ver os campos bem cuidados e o trabalho da fábrica; ah! eles não são mais como no meu tempo! São apaches, não se pode mudar em nada suas ideias; eles não querem mais patrões; eis o novo regime.

- O senhor vê outros espíritos?

- Sim, como na terra; há os de boa vestimenta; eu sou um camponês, tenho a gola dobrada; os outros têm o colarinho rígido. O senhor vê minha boina?

Sr. Pierre Maillard. – O senhor conhece outras fábricas de açúcar nos arredores?

- Muito mais longe, mas a nossa é a mais importante. Pont-du-Château. Minha filha estava localizada lá, é a Marie.

Sr. P. Maillard. – Os fertilizantes, o senhor os tomava na usina?

- A gente fazia com as folhas e com as beterrabas que não serviriam”.

Visão. – Eu vejo um homem forte, idoso, completamente barbeado, lábios para dentro, ombros largos; mãos grandes, ele deve ter trabalhado duro. Antoine Vacher; ele parece ter 70 ou 75 anos; morto em 14 de agosto de 1881. Seychalles (Puy-de-Dôme). Uma outra data: 1808. Vejo pó como marca de café ou chicória, sobre uma pá (adubo). Refinaria Beauséjour. Ele usa uma grande boina; eu o vejo com uma mulher muito idosa; ele deve sofrer das pernas, pois ele caminha com dificuldade. Anne Archambert 1909; essa deve ser sua mulher.”

Primeira investigação. – Sr. Le Loup de Sain-ville foi encarregado de verificar essas declarações; ele se empenhou e conseguiu estabelecer seu relatório na quinzena seguinte, lançando a ele duas peças oficiais.

Departamento do Puy-de-Dôme. Distrito de Thiers. Prefeitura de Seychalles. Registro Civil.

REPÚBLICA FRANCESA.

AUTO DE FALECIMENTO

Em quatorze de agosto de mil oitocentos e oitenta e um, cinco horas da manhã, Antoine VACHER, setenta e um anos de idade, lavrador, residindo em Seychalles, esposo de Anne Archimbaud, filho do falecido Vacher e da falecida Jeanne Courty, morreu em Seychalles. Elaborado sobre a declaração de Jacques Vacher e Louis Vacher, um e outro, irmãos do falecido.

Seychalles, 4 de março de 1922. Pelo prefeito e o adjunto ausentes. O conselheiro delegado.

(Carimbo da prefeitura).

A 2ª peça é o auto de falecimento, com o mesmo cabeçalho, assinatura e carimbo, constando que:

“Em doze de novembro de mil novecentos e sete, quatro horas da madrugada, Annette Archimbaud, oitenta e um anos, sem profissão, nascida em Saint-Julien de Coppel, residindo em Seychalles, viúva de Antoine Vacher, filha dos falecidos Benoît Archimbaud e de Michelle Grimard, morreu em Seychalles, sobre a declaração de Jean Vacher, lavrador, genro da falecida, e de Joseph Tarragnat, guarda rural”.

Por outro lado, uma carta do secretário da prefeitura declara que o casal Vacher tinha 4 filhos:

1º Jeanne Vacher, esposa de Jean Laire, residindo em Seychalles;

2º Miette Vacher, solteira, morando em Paris;

3º Marie Vacher, esposa de Coissard, morando em Saint-Julien de Coppel;

4º Mariette Vacher, falecida.

Enfim, o relatório do Sr. de Sainville:

Primeira investigação sob o tema da incorporação de 19 de fevereiro de 1922:

“A entidade incorporada declarou, resumidamente, que se chama Antoine Vacher, nascido em 1808, em Seychalles, Puy-de-Dôme, morto em Seychalles, em 14 de agosto de 1881, aos 71 anos;

Sua mulher, Anne Archimbert, morta em 1909, aos 97 anos, era prima do bispo de Cahors;

O casal teve três filhas, mortas sem filhos: Marie, Antoinette e Jeanne;

Antoine Vacher trabalhava na propriedade e na refinaria de Beauséjour, pertencente ao duque de Mauriac;

Sua filha Marie estava localizada em Chauriac, na casa do Sr. Daumirail, deputado de Creuse.

As informações foram buscadas em diferentes anuários e solicitadas por carta ao secretário da prefeitura de Seychalles; ao secretário da Prefeitura de Puy-de-Dôme; ao arquivista da diocese de Cahors; ao arquivista da Câmara dos Deputados. Somos infinitamente gratos pela atenção cortês nas informações prestadas, o que nos permitiu avançar nessa investigação tão importante do ponto de vista metafísico.

Os resultados (a completar) são em parte exatos e muito interessantes, apesar de alguns pontos indicando uma perda ou deformação da memória da entidade.

A cidade de Seychalles existe (região de Lezoux), [tem] 670 habitantes, mas nenhuma propriedade ou refinaria de Beausejour parece existir nos arredores. O nome do duque de Mauriac parece desconhecido. Entretanto, uma vizinha comum tem o nome de Beauregard (Beauregard l’Evêque, situada no distrito de Clermond-Ferrand, a 6 kilometros de Pont-du-Château: há também o distrito de Riom, Beauregard-Vendon, 766 habitantes; mas nós supomos que a refinaria de Beauséjour se encontre na comunidade de Bourbon, próximo a Clermont; Sr. Herscher, administrador (N. D. L. R.), 4 kilometros de Seychalles. (Esse nome poderia ter ensejado a confusão na memória de Antoine Vacher).

Este, de acordo com o auto de falecimento, morreu em 14 de agosto de 1881, aos 71 anos (o espírito tinha dito 73 anos).

Sua mulher é Anne Archimbaud e não Archimbert. Ela morreu em 12 de novembro de 1907, aos 91 anos de idade (o espírito tinha dito 97 anos).

Ele indicou que sua mulher era prima do bispo de Cahors; o auto de falecimento indica que ela era filha de Benoît Archimbaud e de Michelle Grimard. Ora, um bispo de Cahors, de nome Grimardias, ocupou esse posto episcopal de 1866 à 1896, na data em que devíamos procurá-lo, contemporâneo ao casal Vacher. A entidade, então, teve a lembrança do parentesco de sua mulher com o Bispo de Cahors, com uma deformação na memória do nome desse bispo. Será útil pesquisar a exatidão desse parentesco.

A cidade de Chauriac, onde teria sido localizada Marie Vacher, se chama, na verdade, Chauriat, muito próxima a Seychalles.

O deputado Daumirail é completamente desconhecido nos Arquivos da Câmara dos deputados onde foram feitas as investigações em todas as legislaturas e todos os departamentos.

Enfim, Antoine Vacher teria tido 4 filhas e não 3; apenas uma, Mariette, estaria morta.

O secretário da Prefeitura de Clermont, interrogado sobre os nomes Beauséjour em Mauriac, não respondeu.

Le Loup de Sainville”.

56, rua N.D. de Lorette

Antes de avançar, notemos ainda que o Sr. Pierre Maillard, engenheiro de Artes e Manufaturas, que conhece perfeitamente todas as manipulações da indústria de refinaria, nos certificou que os dejetos de beterraba eram, de fato, utilizados para a fabricação de adubo.

Sessão de 4 de março. – A médium incorpora o espírito Camillo.

Sr. Delanne. – O senhor poderia nos dizer por que o espírito de Vacher, que citou fatos muito nítidos, parece ter perdido a noção de muitas coisas; eles nos disse, por exemplo, que suas filhas estavam todas mortas. Ele não via, então, em Seychalles, onde ele morava, Jeanne, sua mais velha?

Camillo. – O espírito nem sempre se apercebe e acontece de ele confundir um encarnado com um desencarnado.

- O senhor poderia chamá-lo?

- Sim, vou ceder meu lugar”.

Questionado, Vacher declara que ele nem sempre se apercebe e que por vezes acontecia de não poder conversar com suas filhas: ele pode dar apenas o nome de três de suas filhas. Ele traz precisões:

“Um dos meus genros se chamava Coissard, em Saint-Julien de Coppel.

- E sua filha Jeanne?

- Ela casou com Jean Laire.

- E sua mulher, o senhor disse que ela se chamava Archimbert; observe bem.

- Archimbaud; ela era prima do bispo de Cahors. Minha sogra se chamava Michelle... Mardias... Os senhores sabem que, quando minha mulher morreu, eu não fiquei lá; minhas filhas não foram boas, há apenas Marie; ela deve estar idosa agora, ela nasceu em 1850”.

Sobre todos os outros pontos, Vacher cometeu os mesmos erros que antes. Era evidente que essas partes restavam obscuras em sua memória falha.

O sr. de Sainville consegue o boletim de nascimento de Marie Vacher: ela nasceu, como disse seu pai, em1850, 24 de julho.

Observações. – As declarações de Vacher, nessa segunda sessão, são de pouco interesse e não tiveram, a nosso ver, nenhum valor probatório, pela razão de que uma investigação tinha sido feita entre 19 de fevereiro e 24 de março e que uma leitura dela havia sido dada no início dessa última sessão do comitê. Na ausência da médium, bem entendido, mas isso não exclui a ideia da subconsciência. Nós nos impusemos uma regra de acolher essa hipótese toda vez que ela fosse admissível; e ela nos pareceu ser passível para essa sessão de 4 de março.

Mas não é o mesmo para a de 19 de fevereiro.

A pesquisa, muito conscienciosa, do sr. de Sainville, esclareceu tudo o que havia de verdadeiramente notável na manifestação desse desconhecido. De tudo que disse este último, apenas uma coisa era conhecida de um de nós: é a fabricação de adubo em meio aos dejetos de beterraba.

Se nossos contraditores querem se servir desse ponto de apoio frágil para daí deduzir que há um laço estreito entre a fabricação de adubo e os nomes, datas e fatos fornecidos pelo espírito, aqui incluindo, com todo respeito, o Bispo de Gahors, nós nos recusamos a acompanhá-los, e, enquanto se espera algo melhor, guardamos nossa convicção.


Se ele estivesse morto, alguém saberia

No final da sessão de 5 de março de 1922, Albertine disse ouvir uma voz que lhe falava e, por frases entrecortadas, deu algumas informações bastante vagas:

“Edouard Bréga 2 avenida... 1910. Crise de albuminúria. Caduceu. Farmácia. 62 anos. Mês de julho; 2 filhos; Henriette, Charle; minha mulher: Hélène”.

Supondo se tratar de um espírito que desejava se manifestar, guardamos para mais tarde sua incorporação. Ela aconteceu quinze dias depois.

Sessão de 19 de março, Montmorency. – Pergunta-se a Camillo se não seria possível aos espíritos superiores ajudar os espíritos pouco evoluídos com passes magnéticos, ou de outra forma. Por exemplo, Vacher não se lembrava de seus filhos; ele acreditava que estavam mortos e eles estão vivos; esses são pontos obscuros que procuramos elucidar. Camillo responde que essas lacunas são imputáveis ao cérebro do médium e a dificuldade que ele tem de nos fazer compreender, transmitir o pensamento dos desencarnados; isso é inevitável e sempre nos deparamos com essa barreira.

A médium entra, então, em agonia; quando termina, Albertine se desprende sozinha, o que não é de seu hábito. Começam a fazer-lhe perguntas.

“O senhor sabe quem é? O senhor se apercebe de sua situação?

- Sim; estou morto.

- O que o senhor teve?

- Albuminúria (A médium morde as extremidades dos dedos). Meu estado geral é ruim, sei bem como estou.

- Quem cuidou do senhor?

- Um velho amigo, o doutor Hambert (Todos os nomes foram mudados). Estou com sede.

- O senhor sabe o que lhe era dado para combater essa albuminúria?

- Muito leite, mas é tudo. Eu não quis fazer nada. Eu tinha 62 anos, meu nome é Edouard Bréga. Sou farmacêutico.

- Onde o senhor morava?

- Paris, rua D..., nº 2; minha botica ficava na esquina, em frente à igreja.

- Em que ano o senhor morreu?

- Em 1910. Minha mulher se chamava Louise Romeau; eu tinha dois filhos, um menino e uma menina; Charles, 18 anos; Henriette, 15 anos. Eu era da Picardia; de Guise, (a médium pronuncia: Gui-se) Aisne. Minha mulher era parisiense; era órfã. Ela tinha sido adotada pelo Sr. Rolantin, um artista pintor; ele tinha feito trabalhos para Napoleão III, pinturas no Tulherias. Eu tinha dois empregados: Dupoix, que era meu preparador e Vicente, o segundo.

- O senhor sabe o que aconteceu a eles?

- Eu não sei mais me situar. Trabalhei muito; passei noites. Eu era um pouco duro; eu não era muito fácil.”

Esse espírito dá muitos detalhes sobre seu casamento, sua situação financeira, seu tipo de vida; ele fala, sobretudo, de seus dois amigos:

“O senhor perguntará ao meu velho amigo Hambert, o doutor; nossa casa era o refúgio dos médicos. Havia um outro... espere. Aquele tinha um nome como Bamorot; ele morava no boulevard Péreire, 1.

- Onde estão seus filhos, agora?

- Não sei; oh! Se o senhor soubesse! Isso não é fácil para mim e como eu me debato ali dentro (Uma aproximação com as comunicações da sra. Piper, nas quais o espírito que se manifesta diz que em pouco tempo ele é como que asfixiado pela atmosfera terrestre. Outros dizem que a luz diminui e se esvai, o que os torna incapazes de continuar.) Fiz meus estudos em Paris; meu pai era militar reformado, nas imediações de Guise.

- O senhor acreditava em vida futura?

- Eu acreditava, mas eu não era um praticante, eu era indiferente, não me preocupava com as essas coisas.

- Diga-nos o nome de seu sucessor?

-?..... Quando obtive meu diploma, eu tinha 23 anos; o senhor vê, não foi ontem. Eu trabalhei em....., (ele não se lembra); quando eu morri, eu tinha 62 anos, eu tinha bronquite, um pouco de tudo; eu tive uma crise de albuminúria e foi muito rápido. O outro médico que vinha à casa se chamava Bamaurot; nós éramos quase da mesma idade; ele era do Cantal. Hambert e ele eram dois solteirões. Minha mulher tinha um irmão que está morto: Henri Romeau; ele era ferreiro, no centro. Ele deve ter morrido uns 15 anos antes de mim. Eu acreditava que, no céu, a gente repousava eternamente. Eu queria ver meus filhos; para mim, é um tormento”.

Pergunta-se em seguida a Camillo se a médium poderia dar a assinatura de Edouard Bréga; Camillo responde que será preciso tentar e que se não for possível, será preciso recomeçar nas outras vezes. Depois da sessão, Albertine traçou com um lápis várias assinaturas e algumas palavras ilegíveis” (Nas nossas experiências, que continuamos, nos dedicaremos particularmente a obter a assinatura e a escrita dos comunicantes).

Visão. – “Eu vejo um homem com a barba grisalha; os cabelos igualmente grisalhos e cheios; ele parece ter 55-60 anos; parece jovem, grandes olhos negros, olhar duro; 1m. 70 mais ou menos. Edouard Bréga. Escuto rua D..., 2; Henriette, Charles, meus filhos; não vejo os filhos com ele, eles ainda devem estar vivos. Eu vejo uma mulher perto dele; ela é pequena, loura, seus cabelos são muito claros, uma figura singela; 1m. 55; ela é bonita, muito elegante, vestida de cetim preto; ela parece ter 40-50 anos. A moda do vestido é de antes da guerra (1912 ou 1913). Lucie Romeau; essa deve ser sua mulher; ela me mostra a aliança. Albuminúria; ele me mostra uma ampola; ele se cuidava assim. Doutor Hambert – Doutor Bamaurot – Boulevard Péreire. É tudo”.

 Investigação. – Relatório do sr. Le Loup de Sainville.

“Talvez seja útil narrar as dificuldades dessa investigação para dar maior força às provas finalmente encontradas, de uma exatidão quase completa.

A farmácia existe, na rua D...., 2, mas, na ausência do titular, me disseram insistentemente que o sr. Bréga, um de seus predecessores, não morreu; sabe-se que ele se mudou para um subúrbio, recentemente, mas alguém o viu há poucos anos, e se ele morreu há pouco, alguém saberia na farmácia. Entretanto, me indicaram retornar para ter informações mais precisas.

Na prefeitura do XVII, os arquivos pesquisados mostram que não há nenhum falecido Ed. Bréga entre 1903 e 1920, e me disseram que, mesmo alojado fora do distrito, um farmacêutico do XVII deve ter seu falecimento transcrito. (No caso do qual nos ocupamos essa formalidade tinha sido omitida)

Essas primeiras aproximações foram desencorajadoras. Entretanto, pude encontrar o farmacêutico da rua D...; ele me disse que seus empregados estranhamente se enganaram e que o sr. Bréga faleceu. Ele não manteve relações com essa família e ignora o que se passou com ela; ele não pôde dar outras informações. Ele sabe que o sr. Bréga morreu por volta de 1912, ou talvez antes, mas ele não pôde precisar. Ele não conhece nem os doutores Hambert e Bamaurot, nem os alunos Dupoix e Vincent. Ele me indica, contudo, um antigo aluno que conheceu o sr. Bréga e que deve estar vivo. Ele se chama sr. Vuillaume e ele deve ter passado por uma farmácia da rua de L.... onde alguém poderá talvez me prestar informações.

Rua de L..., o patrão conhecia vagamente o nome do sr. Vuillaume, desaparecido há bastante tempo; mas um empregado, indagado, acreditava se lembrar que esse senhor mora em Pantin e me dá um endereço quase exato.

Em Pantin, eu finalmente encontrei o sr. Vuillaume e tive através dele as informações mais completas. Ele foi por 18 anos o colaborador do Sr. Bréga e manteve relações com sua família. Segundo ele, o sr. Edouard Bréga morreu por albuminúria, na primavera de 1912, a data é imprecisa em sua memória. Ele tem, diz ele, uma excelente memória para tudo, exceto para datas; o que se nota.

O sr. Bréga, fraco e doente há muitos anos, teve de vender sua farmácia; ele foi morar em Passy, depois na rua de Moscou, onde morreu. O sr. Vuillaume o velou durante sua última noite.

A sra. Bréga, nascida Louise Bomeau, ainda vive. O sr. Vuillaume ouviu falar de um sr. Rolantin, amigo da família, mas não sabe se ele criou a sra. Bréga; conserva-se preciosamente um vitral decorativo que deve ser a obra desse artista. O defunto era originário de Guise (Aisne), mas seu pai teria sido comerciante de grãos, e não militar. O nome dos dois filhos era Charles e Henriette.

O sr. Vuillaume me confirma que o doutor Bamaurat e não Bamaurot era amigo do falecido, solteiro e auverniense. O outro doutor é o sr. Chambert e não Hambert; ele deve estar vivo ainda. Houve uma confusão nos endereços dados pelo desencarnado. O doutor Bamauratest, morto em janeiro de 1922, em uma clínica.

O sr. Vuillaume sabe que a sra. Bréga tinha um irmão ou uma irmã, vagamente, e não pôde dizer nada sobre o sr. Henri Romeau, o ferreiro; ele conheceu o aluno de farmácia Dupoix, que foi seu predecessor na oficina, mas não conheceu o sr. Vincent.

As informações me foram comunicadas em 1 de abril.

Le Loup de Sainville.

Esse relatório está acompanhado do auto de falecimento seguinte, entregue ao VIII distrito:

Extrato dos autos de falecimento.

Em três de junho de mil novecentos e treze, três horas e quinze da tarde, faleceu em seu domicílio, rua de Moscou, nº...., Louis Edouard Bréga (Lembremos: mudamos todos os nomes da família) nascido em Guise (Aisne), aos sessenta e quatro anos, sem profissão (Ele tinha vendido sua farmácia há muitos anos atrás), filho de Louis Edouard e de Zénaïde Dauchy, esposo de Louise Romeau.

Leitura feita, as testemunhas assinaram conosco etc...

Data, carimbo, assinatura.

Observações. – Notemos, a princípio, em quais condições aconteceu essa manifestação: o espírito se apresenta a médium ao fim de uma sessão onde ele não estava em questão, e ele dá assim algumas informações, exatas em sua maioria. Parece que nesse momento ele já estava nos bastidores, pronto para entrar em cena. Ele incorpora na sessão seguinte, o que permite supor que durante quatorze dias ele não a perdeu de vista; ele não se apossa dela, como acontece normalmente, nesse estado particular de rigidez cataléptica que chamamos estado tanatoide ou tanatomórfico; ao contrário do que sempre acontece, a médium pôde se desvencilhar sozinha, sem a intervenção de ninguém.

Esse espírito parece mais evoluído que os outros; para empregar um termo usual nos meios espíritas, ele é bem consciente7. É possível constatá-lo na abundância de detalhes que ele deu e que, por critério, não é possível reproduzir todos. Ele sabe que está morto; ele se lembra exatamente de seu sobrenome, nome, profissão e domicílio, assim como aqueles, muito aproximativos, dos dois médicos que eram seus amigos íntimos, e dos quais um, diz ele, era do Cantal; ele se lembra de seu próprio país de origem, que ele pronuncia, bem como enfatiza na sessão o sr. Maillard, como se pronuncia em Aisne: Gui-se; ele se lembra igualmente dos sobrenomes e nomes de sua mulher e de seus dois filhos, e também o do sr. Rolantin; ele se lembra até de ter sido um pouco duro no caráter; apenas uma coisa lhe escapa: o nome de seu sucessor.

Nessa autobiografia relativamente longa, ele cometeu apenas dois erros: um quanto a data de sua morte, que aconteceu em 1913 e não em 1910; um sobre a situação social de seu pai que teria sido comerciante de grãos e não militar. Os amantes de estatística e de porcentagem têm aqui sobre o que exercer seu talento.

Seria possível, verdadeiramente, atribuir ao subconsciente uma manifestação tão clara, precisa e nítida, ao passo que é fácil provar que nenhum membro do Comitê conhecia o sr. Bréga nem seus amigos?

Andemos mais longe e, por mais supérflua que seja essa questão, nós a colocamos:

A médium não teria podido conseguir essas informações antes da sessão?

Digamos, então, que a médium mora em Paris desde 1916, enquanto Bréga morreu em 1913; é, pois, absolutamente certo que eles jamais se encontraram em vida. Quanto a conseguir as informações depois do falecimento deste último, isso lhe seria extremamente difícil se tivermos em mente os impedimentos encontrados pelo sr. de Sainville que não pôde obter a verdade senão após muitas pesquisas junto a diferentes pessoas; e se tivermos em mente, de outro lado, as reservas feitas sobre certos pontos pelo sr. Vauillaume, a pessoa mais informada que nos revelou a investigação teria sido impossível agrupar todas essas informações, a menos que se fosse demandá-las à única pessoa no mundo que poderia no-las dar, a viúva do sr. Bréga. Ora, é fácil provar que nesse momento essa dama não conhece a médium e que a médium não a conhece. Nós podemos dizer o mesmo sobre todos os outros membros do Comitê.

Foi preciso do sr. de Sainville um verdadeiro devotamento, um desejo sincero de saber e uma tenacidade digna de elogios, para não desanimar diante do resultado de suas primeiras pesquisas; o que disseram desde o princípio, na farmácia da rua D...: “Sr. Bréga? Mas ele não está morto; se estivesse morto, alguém saberia, nós saberíamos, aqui, nessa farmácia que pertenceu a ele...”. O que disseram na prefeitura do XVII distrito, nos escritórios de Estado-civil, e depois de pesquisas infrutíferas: “Nenhum falecimento de Bréga entre 1903 e 1920; nem morto para além do distrito, nós teríamos recebido notificação”. Eis o que é peremptório.

Antes de obter informações definitivas, o investigador é obrigado:

1º Ir uma primeira vez a farmácia onde o sr. Bréga já foi titular;

2º Voltar lá uma segunda vez;

3º Ir a prefeitura do XVII;

4º Ir a farmácia da rua L...;

5º Ir a Pantin, na casa do sr. Vuillaume;

6º Ir a prefeitura do VIII onde ele, enfim, teve o testemunho oficial.

Se, então, a médium (ou um membro qualquer do Comitê) tivesse desejado mistificar os outros assistentes, suposição que fazemos simplesmente por necessidade científica, teria sido necessário:

1º Que ele tivesse conhecido Bréga antes e que este tivesse desejado confiar a ele os pormenores que foram revelados; ora, sendo dado o caráter um pouco rígido do defunto, é de se supor que ele não devia se deixar levar facilmente a confidências a estranhos. Sobretudo, há uma outra coisa que Bréga, vivo, não teria podido indicar: a data, mesmo aproximada, de sua própria morte;

2º Ou que sua viúva tivesse feito as confidências; é fácil verificar o contrário;

3º Ou que o sr. Vauillaume as tenha feito; sendo durante 18 anos o colaborador do defunto, ele estava bem a par das coisas; mas, segundo ele mesmo, ele não tem memória para datas. No mais, alguns detalhes lhe escapam: ele não sabe se o sr. Rolantin criou a sra. Bréga; ele diz que o pai do defunto teria sido comerciante de grãos; que o doutor Chambert deve estar ainda vivo; ele não sabe nada do sr. Henri Romeau, o ferreiro; ele não conheceu o sr. Vincent. Se, então, fosse ele a dar as indicações à médium ou a um dentre nós, antes da sessão de 19 de março, as mesmas lacunas existiriam na comunicação dada nesse dia.

4º Ou que um dos amigos do defunto tivesse feito essas confidências; mas, de seus amigos conhecidos, apenas um estava vivo: o doutor Chambert, e nós veremos que ele não é do tipo de pessoa que se presta a tal combinação.

Impostores ou crédulos. – Ao reler todos os relatórios redigidos durante essas sessões interessantes, fomos chacoalhados por essa declaração do sr. Vuillaume: “o outro doutor é Chambert e não Hambert; ele ainda deve estar vivo”. O sr. Vuillaume indicou até o endereço provável. Isso nos sugeriu a ideia de escrever a ele; nós estimamos que um médico, sendo, por definição, um cientista, não poderia ter senão interesse em estudar um caso dessa natureza, em analisá-lo, dissecá-lo, submetê-lo ao crivo de uma crítica rigorosa, seja para constatar nele o valor probatório, seja, ao contrário, para demonstrar nele o erro e fornecer, dessa manifestação, uma explicação de acordo com seu próprio ponto de vista.

Foi, então, de boa fé e com a maior cortesia que nós escrevemos a ele, apontando a origem mediúnica de nossa informação; nós lhe perguntamos se ele seria o antigo amigo do sr. Bréga. Pensávamos receber uma resposta no mesmo tom que utilizamos, e que geralmente se considera o único tom usado entre pessoas de boa educação.

Parece que nos enganamos. Eis a resposta que recebemos:

“Senhor,

Sobre o túmulo de Shakespeare se lê o seguinte epitáfio: “Blessed be he that spares these stones. And curs be he that moves my bones” (“Bendito seja aquele que respeita essas pedras. E maldito seja aquele que toca meus ossos”). Paz aos mortos, paz às cinzas de meu velho amigo Bréga! Seu registro civil corresponde à descrição que me foi feita. A meu ver, ele emana do aqui-embaixo e não de lá-de-cima. Quanto ao ocultismo, há dois tipos de adeptos: os impostores e os crédulos. Eu não preciso de outra prova além da declaração feita, no momento da morte, por Holmes (O honorável contraditor confunde com Home.), o mais célebre dos médiuns: “Eu afirmo jamais ter estado em comunicação com os mortos, mas me servi desse meio para agir a meu bel-prazer sobre a imaginação das mulheres.” Esse mesmo Holmes, convidado por Napoleão III e sua mulher a uma sessão de ocultismo em Biarritz, foi surpreendido em flagrante delito ao acariciar com o pé os rosto da imperatriz, cujas mãos, entretanto, estavam em contato com as do médium. Após essa façanha, ele foi expulso do palácio. Flammarion, em uma recente obra de tom científico, cita alguns fatos de telepatia muito impressionantes a uma análise superficial. Ele esquece de relacionar os milhares de fatos cotidianos denunciados por nossa imaginação e que não acontecem. Ainda mais recentemente, um comitê de professores trouxe à tona a fraude de uma médium que se tornou no mundo dos impostores uma bela celebridade.

Por todas essas razões e outras ainda muito pessoais, não posso compartilhar de vossa fé nessa matéria. Desculpe-me, senhor; eu falharia na consideração que lhe devo e que lhe exprimo se mascarasse meu pensamento.

Dr. Chambert”.

Assim, pois, a uma simples solicitação de informações, esse homem cortês responde com uma brutal declaração de guerra. Os senhores estão na rua e pedem orientação sobre o caminho a um transeunte, ele lhe dá um direto na mandíbula. É um belo trabalho e o cavalheiro Carpentier ou o rei do nocaute Criqui não fariam melhor.

Não pensem mais em defender suas ideias, os senhores já têm muito a fazer defendendo a pele. Calem-se! Cuidado! Cuidado sobretudo com argumentos à moda de Lloyd-George. É assim que alguns compreendem hoje a discussão livre, o desenvolvimento e a evolução do pensamento puramente especulativo!

Então, o túmulo de Shakespeare traz a inscrição em questão. Mas não foi Shakespeare que abriu o monólogo de Hamlet com esse verso: Ser ou não ser, eis a questão? Não seria o mesmo Hamlet quem disse: Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que pode conceber a filosofia?

Que pena que nosso correspondente não agregou essas citações àquela que ele nos enviou como um golpe! Ele teria medo de servir muito abundantemente seu prato inglês ou ele teria lembrado (um pouco tarde) dessa reflexão de Macbeth: “Há mais almas que montam guarda em torno de nossas más ações do que estrelas no Céu”?

O que quer que seja, de seu temível cartel retemos isso aqui: seu velho amigo Bréga existiu e seu registro civil corresponde à descrição que foi feita. Esse testemunho um pouco azedo se juntando àqueles que pudemos agrupar constitui uma nova prova da existência da alma e de sua imortalidade.

O pé plebeu e a bochecha imperial. – nosso honorável correspondente não hesitou, em sua carta, em fazer eco à essas invenções maliciosas que, de todos os tempos, não tiveram outro objetivo senão desconsiderar os médiuns mais sinceros; nessa campanha violenta, a multidão espumante jamais deixou de seguir sem melhor exame os campeões da mentira.

Florence Cook, Eusapia Paladino, acusadas de fraude, foram inocentadas, em seus tempos, das acusações contra elas. Não obstante o sr. doutor Chambert, constatamos que aconteceu o mesmo com Daniel Douglas Home, e não Holmes, como ele havia ortografado. As marcantes experiências de Home foram analisadas pelo Comitê da Sociedade dialética de Londres, depois por William Crookes, Gabriel Delanne, Gardy, Jones, etc... O sr. Régnault (Henry Régnault. – “Os Vivos e os Mortos”, páginas 349 e posteriores.) reproduziu artigos publicados por Sevemsonn, Myers, Wallace, demonstrando a ignomínia do triste indivíduo que, sob o pseudônimo de doutor Philip Davis, chamado Léo Taxil, forjou cada frase da história estúpida de Home acariciando a bochecha da imperatriz Eugénie com seu pé nú, durante uma sessão; ninguém jamais pôde dizer de modo preciso se o fato teria se passado em Tuileries ou em Biarritz, nem quais pessoas teriam sido testemunhas.

“Essa história, diz o sr. Sevemsonn, não tem nenhum fundamento, e ficamos verdadeiramente surpresos que ainda haja alguém para lembrá-la. Ela sequer tem um começo de verdade. Sempre, quando alguém a reedita, se tem o cuidado de rodeá-la de testemunhos de pessoas mortas há muito tempo e que jamais, quando vivas, tinham dito ou escrito algo semelhante”.

Esse procedimento é, de fato, muito cômodo. Ele foi bastante posto em prática por algumas municipalidades que, não tenho suficiente confiança no discernimento dos eleitores, faziam votar os mortos e assim se asseguravam da maioria.

Frédéric Myers, desejando esclarecer alguns pontos da vida de Home, em vão se esforçou para chegar à origem dessa história e não pôde jamais recolher nenhum testemunho que lhe apoiasse. A única coisa que ele descobriu foi uma carta da Imperatriz datada de 1863, na qual ela agradecia amavelmente a Home por enviar para ela seu livro Incidentes da minha Vida. Ora, tendo acontecido a famosa sessão fraudulenta, de acordo com o sr. Dicksonn, em 1857, como admitir que ao fim de seis anos a imperatriz tivesse esquecido totalmente o incidente, essas familiaridades andantes, tão injuriosas para ela?

De seu lado, Russel Wallace energicamente defendeu Home, que tinha entre seus amigos eminentes personalidades científicas.

“Durante vinte anos, diz ele, Home foi exposto ao exame amargo e à suspeita jamais abrandada de inúmeros investigadores; entretanto, nenhuma prova de trapaça jamais foi dada e nenhum fragmento de maquinaria ou de aparelhos jamais foi descoberto. Além disso, as manifestações são tão espantosas que, se fossem fraudes, elas não poderiam ser realizadas senão por engenhos de natureza da mais complicada, da mais variada e da mais volumosa e exigiria a assistência de muitos apoios e cúmplices”.

Quanto às palavras citadas pelo doutor Chambert: “Eu afirmo jamais ter estado em comunicação com os mortos, mas me servi desse meio para agir a meu bel-prazer sobre a imaginação das mulheres”, continua colocado em má hora. Home jamais as pronunciou e elas não foram publicadas senão após a morte do célebre médium. O meio era prático; ele evitava o desmascaramento.

Agora que terminamos o caso Bréga, continuemos a passar pelo crivo de outras identificações.





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