Gabriel Delanne G. Bourniquel Escutemos os Mortos



Baixar 356.34 Kb.
Página7/11
Encontro27.05.2018
Tamanho356.34 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11
O diabolismo na autossugestão

Para sermos completos, não deixemos de apresentar o caso contrário, muito raro em nossos dias, mas que teve um grande papel na história da Idade Média: o delírio da possessão pelo diabo. Ainda que esse gênero de manifestação não seja reivindicado por nenhuma pessoa sensata como sendo de origem espiritual, a autoridade eclesiástica insiste em ver a intervenção do Maligno e sua incorporação no possuído.

Inúmeros autores têm, há muito, discutido sobre essa forma de delírio, mas um dos casos mais curiosos foi observado pelo professor Janet que fez dele uma comunicação interessante em uma conferência na Universidade de Lion, em 23 de dezembro de 1894.

Trata-se de um certo Achille, em tratamento na Salpêtrière, que se entendia rodeado de pequenos demônios com chifres e fazendo caretas; no mais, o Diabo estava nele e o forçava a pronunciar horríveis blasfêmias: “Eu não acreditei bastante na nossa santa religião, nem no Diabo, dizia ele; ele se vingou”. Ele tentou suicídio jogando-se em um lago após ter atados os pés, mas conseguiu sair: “Os senhores veem que estou possuído pelo Demônio, diz ele, porque não pude morrer. Eu dei a prova que pede a religião e eu sobrevivi. Ah! o diabo está em mim!”. Ele murmurava blasfêmias: “Maldito seja Deus! Maldita a Trindade! Maldita a Virgem!”, afirmando que era o Demônio que assim falava através de sua boca. Ele discutia com o Diabo: “Os padres são uns miseráveis! – Tu mentes. - Não, eu não minto”. Ele se batia, se mutilava com suas unhas, sem sentir dor.

Janet relata longamente como ele conseguiu, por autossugestão, curar esse pobre homem que se tornou louco após um ato de infidelidade feito a sua mulher. Quantos homens, hoje, seriam capazes de tamanho remorso?

Os exemplos que precedem levam aos espíritas uma imperiosa obrigação de distinguir nas manifestações mediúnicas as que emanam do além e as que provêm do animismo; é preciso repudiar toda comunicação que não traga a demonstração de sua origem supra-terrestre; é preciso exigir provas.

Quanto a nós, não cessaremos de expor ao público que o espiritismo não é responsável por todas as fantasias de que é acusado e que ele não toma nada a seu encargo enquanto a autenticidade e a identidade do comunicador não estiverem estabelecidas com uma riqueza de provas que possa desafiar toda contradição.

Não estando amarrados a nenhuma escola, temos realizado nossa tarefa com a maior imparcialidade e uma inteira independência, sob o risco de termos lançado sobre nós a ira da Igreja e as críticas de alguns pedantes que não podem tolerar que se ultrapassem os limites designados por eles como sendo os do saber humano.


O ponto de vista psicológico clássico e o ponto de vista espírita

Em seu capítulo tão interessante sobre a objetivação de tipos (Ch. Richet. – “O homem e a inteligência”, página 234), o prof. Richet expõe o tipo de fenômenos sobre o qual ele baseia sua demonstração:

Ele primeiro lembra que “é a memória que constitui o sentimento de nossa identidade: é pela lembrança do que fiz ontem, há oito dias, há seis meses, que tenho consciência de ser a mesma pessoa”. Mas se, de repente, eu perdesse essa memória e alguém me sugerisse que sou um outro individuo (uma criança, uma mulher idosa)... produzir-se-ia em mim alguma coisa parecida com o que acontece com o romancista quando ele cria os diversos tipos de seu romance: ele imagina sentimentos, gestos, eventos em relação a seu personagem ideal; porém por mais fielmente que ele arrume seu personagem, mais profundamente que ele entre na ficção que ele desenvolve, ele não perde jamais o sentimento de sua personalidade. Ele sabe que é ele que imagina todos os episódios do romance, enquanto no sonâmbulo a quem se sugere ser uma mulher idosa, produz-se imediatamente uma amnésia total para tudo aquilo que concerne a sua personalidade normal e apenas subsistem em sua consciência lembranças relativas ao tipo a que a ele é sugerido.

Essas recordações se associam entre si com tal força que o sujeito se imagina realmente ser o indivíduo provocado pela sugestão e, então, seguindo seus conhecimentos pessoais, ele toma a personagem com uma fidelidade muitas vezes notável. Nesse momento, sua personalidade normal desapareceu para dar lugar a uma personalidade fictícia.

Eis aqui dois casos, citados por Richet, que nos farão compreender esse fenômeno mental, obtido por sugestão durante o sono do sujeito.

Objetivação do tipo arcebispo – A figura toma um aspecto muito sério; a voz é de uma doçura fingida e monótona; ela leva as mãos a cabeça e reflete: “É preciso que eu realize minhas tarefas. Ah! É o senhor, grande vigário, o que deseja de mim? Eu não gostaria de ser incomodado. Sim, hoje é dia 1º de janeiro e deve-se ir à catedral. Toda essa massa é bem respeitosa, não é, senhor grande vigário? Há muita religião no povo, não importa o que se faça. Ah! Uma criança; que se aproxime, eu vou abençoá-lo. Bem, minha criança!” Ela lhe dá seu anel imaginário para que o beije e em seguida faz gestos à direita e à esquerda para a benção. “Agora, tenho uma corvéia: é preciso que eu vá apresentar minhas homenagens ao Presidente da República... Senhor Presidente, velho lhe oferecer meus cumprimentos. A Igreja espera que o senhor viva longos anos; ela sabe que não tem nada a temer, apesar de cruéis ataques, uma vez que à frente do governo da República se encontra um homem perfeitamente honesto”. (Ela se cala e parece escutar com atenção. À parte:) “Sim, conversa fiada. Enfim!... Oremos!...”. Ela se ajoelha.

Objetivação de um tipo militar – Foi dada ao sujeito a sugestão de que ela é um general. Ela faz “Hum! Hum!” várias vezes, toma um ar duro e fala em tom brusco: “Vamos beber; garçom, um absinto. O que é esse galante? Vamos, deixe-me passar. O que quer de mim? (dá-se-lhe um papel que ela indica ler); Quem está aí?” alguém responde: “É um homem da 1ª do 3. – “Ah! Bom, pois!”. Ela rabisca algo ilegível. “Remeta isso ao capitão adjunto. E seja rápido. E, bom, e esse absinto?” Alguém pergunta se ele é condecorado. “É claro! – É que correm histórias a sua conta. – Ah! Que histórias? Ah! mas, minha nossa! Que histórias? Cuidado para não esquentar minhas orelhas. Quem foi que me trouxe um bobão como esse?”. Ela se coloca em violenta cólera que quase se torna uma crise de nervos.





Baixar 356.34 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual