Gabriel Delanne G. Bourniquel Escutemos os Mortos



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Algumas reflexões acerca da faculdade da visão

É desconcertante constatar que um fato desse gênero, tão notório, e sobre o qual a sra. Flammarion pensava muito intensamente, não pôde ser percebido pela médium, enquanto outros fatos menos conhecidos, menos importantes e sobre os quais ela não pensava, vieram se objetivar da maneira mais espontânea e foram visualizados por Albertine.

Isso demonstra, de uma vez por todas, aquilo que nós tivemos oportunidade de dizer algumas vezes: na mesma medida em que os sujeitos hipnóticos e magnéticos são sensíveis à telepatia, os médiuns espíritas são insensíveis a essa ação, seja no estado de transe, seja no estado de vigília.

Seria fastidioso reproduzir aqui todos os processos verbais e relatórios relativos a essa forma de mediunidade; certo que fatos que temos relatados até o presente momento poderiam ser atribuídos, à rigor, a uma faculdade de clarividência do médium, embora, na verdade, a faculdade de tomar conhecimento de imagens contidas nos cérebros de outros que não o do vidente seja inconciliável com a teoria materialista.

O cérebro é um agente puramente receptor; ele não entra em relação com o mundo exterior senão pelos sentidos e pelos agentes físicos que acionam cada um desses sentidos. Daí, o ácido fosfórico contido na caixa craniana, e que não sai dela, está materialmente impossibilitado, por nenhum meio físico conhecido, de tomar conhecimento do que foi registrado por uma outra massa cerebral que não pode irradiar seus pensamentos para fora do organismo de outro modo que não pela via dos sentidos.

Mas, é diferente se a inteligência humana for capaz de tomar conhecimento diretamente do mundo exterior e de entrar em relação com outras inteligências até encarnadas, pois estas têm meios de comunicação hiperfísico que a ciência não conhece, mas que descobrirá precisamente ao estudar os casos de clarividência e de telepatia.

Qualquer que seja a extensão que se queira dar à criptestesia, apresento um caso onde ela certamente é inoperante.

O caso Clarinval

Em 17 de março de 1922 recebemos a seguinte carta:

“Cara senhora,

Não posso esquecer a maneira tão agradável que a senhora e seu marido me receberam numa noite de terça-feira. Também espero que os senhores me permitam ir a outra de suas reuniões com uma de minhas amigas; digam-me o dia que menos lhes atrapalhe; obrigada e perdão pelo incômodo que eu lhes causo e esteja certa, cara senhora, de minhas melhores lembranças.

Baronesa de Bournat

35, rua Théophile Gauthier”.

Essas duas damas vieram há apenas duas semanas; a sessão tinha começado já há uma meia hora e a médium estava em transe quando elas chegaram; elas se sentaram no fundo da sala. Albertine continua a incorporação, sem se dar conta da presença das recém-chegadas.

Quando a sessão terminou, uma hora e meia depois, ela desperta, mas ao invés de ter, como de costume, a visão de espíritos que ela acabou de incorporar, ela se volta para o lado das duas damas, sentadas lado à lado em um canto escuro, e pareceu muito surpresa de ver alguém num lugar anteriormente desocupado.

“Senhora, diz ela à desconhecida, eu escuto Marcel: é seu filho?

- Não, é meu genro.

- Vejo que ele morreu na guerra.

- Sim.

- Mas a senhora perdeu um outro filho na guerra; escuto René.



- Sim.

- 25 de maio de 1920.

- É a data em que soube onde ele estava.

- Agora, vejo um avião que plaina; ele cai aos seus pés; está completamente estraçalhado. É seu filho que morreu em um combate de aviões.

- Sim, e o que surpreende é que nas sessões, ele jamais vem primeiro; é sempre Marcel que o precede; a senhora o vê?

- Não, ainda não...; (ao cabo de um momento): ah! agora, ele se forma atrás da senhora; tem as mãos apoiadas sobre seus ombros”.

Ela faz uma descrição precisa e indica sua idade.

“Agora, acrescenta, ao lado dele eu vejo duas cabeças, como medalhas, não muito materializadas. A senhora deve ter enfrentado muita dificuldade para encontrar seu filho”.

A amiga da baronesa de Bournat nos diz, então, quem ela era: Sra. Clarinval. Seu filho René foi dado como desaparecido em 2 de setembro de 1916, depois de um combate de aviões. Em 25 de maio de 1920, encontrando-se à sua janela, a sra. Clarinval viu a figura de seu filho, muito pálido, aparecer em um bouquet de árvores da rua Ribéra, acompanhado de dois jovens soldados, um Russo e um Alemão.

Após essa visão perturbadora, a mãe fez pesquisas longas e difíceis e depois de tribulações inúmeras, acabou por descobrir em um cemitério alemão os despojos de seu filho enterrado entre um Russo e um Alemão.

Pode-se ler o relato detalhado dessa comovente história no 3º volume de “A Morte e seu Mistério”, de Camille Flammarion, página 313 e seguintes; para evitar aproximações fáceis aos nossos contraditores, acrescentaremos que essa obra apareceu em 18 de maio de 1922 e que a visão de Albertine se produziu em 28 de março do mesmo ano. Poder-se-ia, entretanto, objetar que a Revista Espírita tinha feito menção ao caso Clarinval em um número anterior a 28 de março; mas nós respondemos a essa objeção dizendo que Albertine não pôde conhecer esse fato pela Revista Espírita, que ela jamais leu e que, sobretudo, nem nessa Revista nem no livro de Flammarion ela poderia ter encontrado elementos que lhe permitissem dizer à senhora Clarinval que ela tinha um genro de nome Marcel.

É o primeiro nome que ela pronunciou ao despertar, atraída por uma voz ao lado das duas damas; ninguém entre nós conhecia a identidade da pessoa que acompanhava a baronesa de Bournat. Albertine já estava em transe quando elas entraram na sala; quando ela despertou, ela não soube, a princípio, devido à luz insuficiente, que era a baronesa que estava ali, mas mesmo que ela soubesse, isso não lhe teria dado nenhuma indicação sobre a identidade da outra dama.


Seria um caso de desmaterialização?

Que nos seja permitido esse pequeno petisco, relativo a um fato curioso que se passou na casa de Ct. Darget, em 22 de janeiro de 1921.

Umas trinta pessoas se encontravam reunidas no salão, para assistir às experiências de Albertine; esta acabava de chegar e estava no meio do grupo, onde falava-se um pouco de tudo.

Ao cabo de um momento, a sra. Darget, muito emocionada, diz:

“Sra. Bourniquel, eu... eu não a vejo mais”.

E todos os assistentes, participando de sua emoção, se levantam de seus lugares; os mais próximos puderam perceber que, de fato, a figura da médium ficou totalmente invisível; apenas a gola decotada ficou visível.

Sr. Alloncins se aproxima e pede a médium para elevar a mão à altura da figura: a mão fica visível e a figura invisível. Ele tira um jornal de seu bolso e o aproxima da figura que, então, foi iluminada pelo reflexo do papel; ela volta a ficar invisível quando o papel é retirado.

Durante esse tempo, perfeitamente desperta, Albertine compreendia o que se passava ao redor dela, via os assistentes ansiosos e, para não prejudicar o fenômeno, ficou completamente imóvel.

Isso durou por volta de três minutos, de acordo com as pessoas mais próximas, mais especificamente a Sra. Dargel, Roy, Ducourreau, a srta. Jeanne Laplace, Sr. Alloncius etc...; depois, tudo volta ao normal. À que se pode atribuir isso que aconteceu?

A primeira explicação que se apresenta é a da desmaterialização parcial do corpo em estado de vigília; mas, nesse caso, os assistentes teriam visto os objetos localizados atrás da cabeça da médium; é isso que se produzia na desmaterialização dos membros inferiores da Sra. Espérance: o vestido dela repousava diretamente sobre a cadeira e a continuação das pernas tinha desaparecido completamente.

Aqui, nada semelhante; de resto, Sra. Roy, particularmente bem localizada para observar, e que não tinha perdido o sangue frio, fez algumas observações que nos levam a rejeitar esta primeira explicação.

Segundo ela, o desaparecimento do rosto não foi instantâneo, mas progressivo. Ela viu, a princípio, como um véu que cobria quase toda a figura, deixando visível apenas uma pequena parte. Esse véu se fez cada vez mais espesso à medida que a superposição das camadas fluídicas iam se acumulando, até o momento em que ele esconde quase completamente a figura. “Isso produzia o efeito, disse a Sra. Roy, de um véu espesso”.

Diante dessa constatação formal, foi possível supor que esse curioso fenômeno teve como causa determinante a formação de um invólucro fluídico muito espesso que se colocou por meios de camadas sucessivas, no lugar desejado, opondo-se como uma barreira aos olhares.

Essa explicação, que nos parece aqui a mais lógica, não poderia se aplicar a todos os fatos da mesma ordem, para os quais se tem invocado a desmaterialização.

VI

Experiências psicométricas


Nec mortale sonans

(cuja voz não tem a sonoridade dos mortais).

Virgile

A lucidez psicométrica é extremamente atraente; dela muitas vezes nos foi dado ser testemunhas, notadamente com uma jovem muito bem educada que agrega a uma graça e a uma elegância nativas uma educação e uma alegria de bom tom que a tornam uma pessoa simpática e amável.



Quando nos conhecemos, a Srta. Jeanne Laplace se divertia em fazer girar as mesas das quais ela recebia, por vezes, mensagens assinadas: Voltaire. Seu entorno crédulo a encorajava a procurar relações lisonjeiras; não tivemos muita dificuldade em fazê-la compreender que ela errava e a aconselhamos a cultivar, de preferência, a lucidez psicométrica de que ela parecia possuir os germes. Outros amigos competentes lhe deram o mesmo conselho, o que vai tornar possível que se vejam resultados interessantes.

Eis aqui alguns relatórios que nos foram comunicados e que reproduzimos com tanto zelo que até conhecemos intimamente os autores; podemos, consequentemente, dar garantias da autenticidade dos fatos. Acrescentamos que se pode dar a essa faculdade uma interpretação puramente animista.

Experiências na casa da Sra. Roy. – “Foi em uma de nossas reuniões familiares que se descobriu a mediunidade psicométrica da Srta. Jeanne Laplace. Meu marido e eu lhe demos uma carta dentro de um envelope. Ela a colocou sobre sua testa.

“Eu vejo, disse ela, um país de montanhas; frio no inverno; é uma mulher que a escreve; alguém que vocês não gostam”.

Ela parecia endereçar essa observação à Sra. Roy.

Ora, como o envelope vinha de nosso amigo, o capitão V, que morava em Orleans, onde não há montanhas, dissemos: a senhorita tomou o caminho errado; e, para provar, retiramos a carta do envelope; para nosso grande espanto, constatamos que, com a carta, havia uma outra da mãe do capitão V. Essa senhora mora em Auvergne, país de montanhas, frio no inverno, e ela não me inspira nenhuma simpatia. Achamos esse caso muito interessante, pois nosso pensamento estava voltado para o capitão e apenas os fluidos da outra carta tinham impressionado a médium. Então, nada de transmissão de pensamento.

Com uma pregadeira, que pertencia a Sra. S, a qual eu não conhecia e sobre quem não se tinha a menor informação:

“Essa dama é loura, muito forte, casada; eles tiveram grandes perdas de dinheiro devido à guerra, quase arruinados; em seguida, fizeram uma grande fortuna. Família de grandes burgueses, vindo cada um de sua parte; o marido tem uma doença do coração”.

Depois, nos certificamos da exatidão de tudo isso.

Com um grampo de cabelo, que pertencia a uma empregada que trabalhava comigo e da qual eu conhecia assim a vida:

“A senhora teve uma vida infeliz; uma decepção amorosa: a senhora tem um filho que tem 12 anos. A senhora vai para o exterior, empreenderá um comércio na Inglaterra; será bem sucedida. A senhora sofre do estômago e das pernas”.

Tudo está exato.

Com uma carta endereçada a um de meus pais, ela deu a descrição exata do remetente:

“Vejo círculos metálicos, em espiral sobre os quais haveria como que imagens de Épinal; creio que sejam filmes. Vejo um café onde se conversou sobre negócios com esse senhor; ele tomou um aperitivo; vejo sobre o pires: 2 francos e 75. Sinto um cheiro de absinto”.

Exato, tudo.

Com um inalador ela descreveu exatamente a pessoa que a ofereceu, dá a inicial de seu nome, L, acrescenta que o perfume foi enviado do sul a ela e a outras pessoas.

Com uma moeda Luís:

“Vejo um senhor com um colarinho de recorte nas pontas; ele jamais quis vestir outro tipo; casado; uma filhinha muito inteligente; ele era muito instruído, fazia matemática; engenheiro; devia dirigir uma usina; foi morto no início da guerra; foi uma alma muito direita, pouco expansivo; amava apenas sua mulher e sua filha”.

Escrupulosamente exato, em todos os detalhes. Enfim, última prova: Eu fui convocada à prefeitura onde friamente me deram nota da morte de meu filho, morto havia 3 meses, no Marrocos; ao mesmo tempo me avisavam que ele me deixou uma carta e uma herança de 25 francos. Minhas pernas falharam e eu caí em uma cadeira. A srta. Laplace, a quem dei a carta com um ar indiferente, me disse:

“São notícias que vêm de longe; vejo areia, é um deserto; palmeiras, um uniforme cáqui, não é graduado, não é seu filho mais velho, Robert, não tem sua bela alma. A senhora teve grande agonia ao receber essa carta; depois a senhora fez um movimento; deve ter sido um aviso de falecimento. Oh! Mas a senhora me esconde uma grande dor, suas pernas fraquejaram. Ele morreu de doença; vejo uma ambulância; ele teve um delírio, ele sofria da cabeça e do intestino; o fígado foi atingido; ele morreu em coma, não se deu conta”.

Tudo estava exato: a srta. Jeanne me apresentou suas visões absolutamente como num filme que se passa. Eu recebi mais tarde uma carta do major da ambulância de M... no Marrocos; ela me advertia que meu filho tinha morrido de tifo (doença localizada no cérebro e intestinos). Todas as visões são impressionantes.

Aimée Roy.

43, rua Saint Georges”.

Sr. e Sra. Dérosier, 7, praça Gambetta, igualmente passaram por experiências com a Srta Laplace; eis aqui o resumo de suas observações, o sujeito indicando suas visões:

O espírito (Temos de enfatizar que as experiências desse gênero não permitem que se conclua pela intervenção dos espíritos.) do Sr Deh... disse que foi morto por uma bomba de avião e descreveu claramente o lugar do atentado, praça de Bitche; todas as particularidades dessa praça são dadas: velha igreja, mercado, escola, próximo a um canal, rua populosa, muitas crianças etc...

O espírito do Sr. I.S indica que ele deixou uma obra inacabada, invenção à qual ele consagrou seus dias e suas madrugadas; ele mostra o desenho da invenção: uma grande roda com raios vazados. Meu pai foi quem pesquisou o movimento perpétuo: a roda foi a primeira forma de suas pesquisas. Ele diz, ao falar sobre isso: Quimeras! E, entretanto, eu espero que outros se aproximem ainda mais de meu sonho.

O espírito de Dér... se fez ver em sua fazenda; ele mostra seu caixão com duas garrafas que foram colocadas a seu pedido. Ele mostra seu filho lhe dando de beber em seu leito de morte; o menino o serve rapidamente, durante a ausência da mãe. Perfeitamente verdadeiro, como todas as outras visões.

O espírito de Valentine S. apresenta, para ser reconhecido, brincos formados por um azul turquesa torneado de rosas.

O espírito de sua mãe lembra a M. E. G. os girassóis que ele plantou próximo à casa, quando criança.

O espírito de M. W. M. se apresenta no mar, em suas ocupações habituais; ele disse que trabalhava com o resgate de navios naufragados; ele mostra que usava escafandros.

Eu quis lembrar, aqui, apenas alguns fatos dos quais não se pode dizer que sejam comuns a todos os espíritos que se apresentam nas sessões; parece-me que cada um deles tem sua originalidade.

Marcelle Dérosier”

Srta. Jeanne Laplace teve experiências interessantes com o capitão B., escritas num relatório que resumimos assim:

“1º Ela descreveu física e moralmente o falecido Sr. Michaudon, meu sogro, morto em 1894, e disse que lhe é mostrada uma fotografia de uma explosão que ela não pode definir claramente (explodiu um curtume). ‘Vejo água clara, diz ela; mas o que se retira dessa água?’ Nós pensamos que se retiram dela peles e que a água não é muito límpida; mas ela acrescenta: ‘Eu gostaria de saber o que é isso: diamante ou oro’. Nós a teríamos retirado, pelo pensamento, de seu erro, mas ela continua: ‘Eu vejo também um monte de animais com chifres, bois, o país é árido, selvagem, muito selvagem, o terreno é seco, avermelhado’. O capitão B então teve o pensamento de que tudo isso se reportava não a seu sogro, mas ao irmão deste, que partiu para a América e do qual não se teve mais notícias desde 1886; ele fez a observação e a médium confirma, dando o primeiro nome desse parente: Claude; depois, a descrição precisa de seu físico e de seu caráter. Ela acrescenta que ele morreu acidentalmente numa queda de cavalo”.

“2º Em julho de 1922, o capitão B... se encontrava de viagem com sua família, para Ploumanack. Durante 3 dias, ele teve como vizinho de mesa, no Hotel onde se hospedou, um inglês que, ainda que falando o francês com dificuldade, disse-lhe entre outras coisas: ‘Eu venho aqui fazer uma estadia de repouso. – Minha mulher veio a França no último mês com um amigo; eu parti no momento de seu retorno. – Eu tomo meus banhos no pé do penhasco chamado Castelo do Diabo.’

A terceira frase me fez lhe advertir que o lugar era perigoso, que era imprudente se banhar ali: ‘Lugar bom para mergulhar’, ele me respondeu.

Ora, aconteceu que, no terceiro dia de sua chegada, esse inglês não apareceu na hora do almoço. As pessoas se inquietam por sua ausência e constatam que ele tinha levado sua roupa de banho e um roupão. Ele deixou uma carta inacabada, endereçada a sua mulher, na qual ele dizia ‘que ele adorava se banhar à beira dos grandes rochedos; que as praias eram boas para os franceses’.

Caiu a noite, notificou-se a guarda de Perros Guirec. A investigação descobriu suas roupas sobre as rochas do Castelo do Diabo.

O exame de seus documentos definiu que ele era Coronel no exército inglês; uma foto mostrava sua mulher e seus cinco filhos: 3 meninos e 2 meninas.

Eu observei, na foto, que sua mulher era ainda jovem e muito bonita (ao contrário de minha suposição).

A investigação concluiu pelo desaparecimento, muito provavelmente causado por um afogamento, e esperava-se que, em 9 dias, o mar retornasse com seu cadáver, o que não aconteceu.

O capitão B... teve a impressão de que esse desaparecimento, creditado a um acidente, poderia ser um suicídio.

Ao cabo de 3 semanas, o irmão do desaparecido veio para a liberação das roupas e objetos que lhe pertenciam.

Um cartão sem valor, destacado do álbum do coronel inglês, foi deixado, seja por esquecimento ou como objeto sem interesse. O cartão foi dado ao capitão B..., que fazia pintura; ele o envolveu cuidadosamente, pensando em fazer psicometria junto a Srta. Laplace.

Foi isso que aconteceu desde seu retorno a Paris, em agosto de 1922.

Nenhuma indicação foi dada a médium; ela descreveu o inglês com exatidão, o que se estendeu a suas roupas. Ela continua:

“Ele tem por volta de 50 anos; se casou por amor, mas não durou e ele teve graves desentendimentos em seu lar. Ele tem 3 filhos” – (Eu fiz a observação de que isso não estava muito exato).

“Sim, ele tem 3 meninos, depois duas filhas, mas apenas os meninos contam para ele; ele os ama e os deixou com pesar.

“Esse homem partiu com a ideia de não mais voltar. Eu vejo ideias de suicídio, de afogamento, mas elas não se realizam. – Esse homem ainda vive. Eu vejo agora uma outra mulher, mais velha que a sua, à qual ele está muito ligado; ela estava com ele nesses últimos dias. Eles falam com alguém do país. Eu vejo que alguém leva roupas em um barco, perto dos rochedos; a mulher não está no barco, mas não está longe.

“Eles querem fazer com que pareça suicídio, o que arranjaria muitas coisas, notadamente uma situação de dinheiro.

“Eu afirmo, ainda, que esse homem não está morto, mas moralmente não está nada bem. Ele era oficial. Ele não retornará a seu país”.

O capitão B... estima que há interesse em se estabelecer um relatório sobre essa curiosa experiência, pois o amanhã, tão fértil e imprevisível, pode trazer esclarecimentos e, talvez, a prova da exatidão da visão da Srta. Laplace.

A enfatizar, igualmente, que a médium não absorveu do pensamento dos signatários os elementos de sua vidência, pois nesse caso ela teria visto uma morte por “afogamento acidental” ou por “suicídio”, e não uma simulação de acidente.

Paris, 18 de setembro de 1922

Capitão B.”

As visões da Srta. Laplace são extremamente vívidas e rápidas; nós tivemos a prova em julho de 1922, quando uma delegação de espíritas espanhóis, de passagem por Paris, a encontraram na casa do Sr. Bourniquel. Ela teve, para cada delegado, visualizações psicométricas de uma precisão tal que, de seu retorno à Espanha, o chefe dessa delegação, Sr. Quintin Lopez, diretor da Revista “Lumen”, quis submetê-la a uma experiência mais convincente; ele enviou, uma primeira vez, uma mecha de cabelos de uma pessoa que ela não conhecia; alguns dias depois, foi uma carta escrita em idioma catalão, indecifrável. Srta Jeanne Laplace psicometrizou os dois objetos e o resultado das duas provas foi enviado ao Sr Lopez que respondeu, em 11 de novembro de 1922:

“Srta. Laplace triunfou em cada linha. Tenho a intenção de publicar as duas experiências e gostaria de juntar seu retrato. Seria possível obtê-lo? Reservo a publicação para o nº de janeiro. As pessoas interessadas na experiência me encarregam de transmitir sua inteira gratidão. Acrescento meus agradecimentos pessoais”.

No número de janeiro de 1924, a Revista científica e moral do espiritismo, página 11, nos revelou o seguinte artigo:


Uma experiência de psicometria

Nós temos o prazer de contar dentre nossos amigos a Srta Jeanne Laplace, com a qual pudemos fazer algumas experiências de psicometria, notadamente a seguinte:

Uma vez se encontrando entre nós a Srta Laplace, minha mulher coloca entre as mãos dela uma pequena caixa de marfim, que lhe foi dada recentemente, e pergunta a médium o que ela pensa desse objeto. Colocando a caixa sobre sua fronte durante alguns minutos, a srta Laplace, que estava perfeitamente desperta, pronuncia as seguintes palavras:

“Essa caixa lhe foi dada recentemente, por uma dama, mas não está impregnada de fluidos porque foi embrulhada em papel de seda. Ela foi comprada muito longe daqui e viajou por muito tempo em uma mala, entre roupas. No mais, ela não foi comprada para a senhora”.

A partir dessa experiência, minha mulher e eu fomos informados sobre os pontos seguintes, desconhecidos da vidente: A caixa foi dada a minha mulher por sua cunhada, recentemente vinda da República Argentina: ela tinha comprado essa caixa ao passar por Las Palmas e no-la trouxe embrulhada em papel de seda.

Tendo reencontrado nossa cunhada após alguns dias, perguntamos a ela a história da caixa. Ela não nos esconde que ela tinha sido comprada sem nenhuma intenção determinada ao passar por Las Palmas: ela pensou em presentear alguém, mas sem saber quem. Apenas em Paris ela teve a ideia de nos presentear. Para levar a caixa para a França, ela a colocou em uma mala, entre suas roupas, por razões... aduaneiras; a caixa ficou nesse estado até o dia em que nos foi dada.

Esses últimos detalhes nos eram completamente desconhecidos no momento da experiência, o que exclui toda ideia de leitura de pensamento da parte da vidente.

Pierre Maillard. Engenheiro E. C. P.

46, avenida de Suffren

Último atestado.

“Há alguns anos, meu filho tendo ido a uma excursão para Cherchell, houve a oportunidade de abrir uma tumba romana inviolada por séculos. Ele me traz como lembrança desse passeio algumas ossadas encontradas nessa tumba. Eu morava em Argel, nessa época, e conservei com muito zelo essas ossadas. De volta à França, trouxe-as junto a bibelôs e os coloquei em uma vitrine de minha sala.

Encontrando-me um dia com a srta Laplace, dou a ela um desses ossos, embrulhado de tal modo que lhe seria impossível adivinhar a natureza do embrulho.

Ela o coloca sobre a fronte e diz rapidamente:

“Esse objeto é muito antigo; ele acaba de fazer uma longa viagem, muito fechado, imprensado contra outros objetos; ele passou pelo mar, depois foi colocado em uma vitrine.

- Bem; agora, remonte-se ao passado.

- Esse objeto é de alta antiguidade; não é uma jóia, é um tipo de relíquia. Foi encontrado durante uma excursão ou um passeio por um homem jovem, moreno, alto, de olhos azuis, cujas iniciais são C. O., pessoa que lhe é muito próxima. O senhora conservou esse objeto com certo respeito; sua antiguidade é autêntica; ele viu muitas lágrimas, muitos choros, o próprio terror. Sofreu muitos cataclismos, muitos tremores de terra; foi encontrado em uma cidade cujo nome começa com C. O mar é próximo; uma alta montanha está acima, um antigo vulcão, sem dúvida, que não está alheio às mudanças e ao terror dos quais esse objeto foi testemunha. Eu vejo pessoas vestidas com todos os tipos de túnicas. Eu não sei onde isso pode ser, uma colônia francesa no Egito, alguma parte por ali. Esse objeto pertenceu a uma mulher, era-lhe muito próximo... Oh! Mais próximo ainda... um pedaço dela mesma, dessecado: uma parte de múmia!”

Então, eu abri o pacote e mostrei o osso encontrado em uma tumba romana em Cherchell, cidade que foi destruída muitas vezes pelos tremores de terra, ao pé de uma montanha alta, o Chenoua. A descrição física de meu filho está exata, assim como as primeiras letras de seu nome. O osso tinha tudo registrado e a médium pôde lê-lo.

Uma outra experiência foi feita alguns dias depois:

Uma senhora tinha dado a minha irmã um pequeno embrulho contendo um par de brincos formados por dois dentes de criança fixados sobre prata.

“Esses objetos, diz a psicometrista, viram muitas lágrimas; pertenceram a uma jovem boa musicista, morta ainda jovem. Eu vejo um túmulo, uma exumação. Esses objetos foram enterrados com essa jovem, ficaram muitos anos em seu caixão e retirados no momento da exumação. Talvez sejam jóias; entretanto, eu tenho mais a sensação de que sejam dentes”.

Paris, 7 de janeiro de 1923

Sr. Chevalier.

5, subúrbio Saint-Jacques.



As condições do experimento

Nós temos que alertar quanto a alguns experimentos que, para evitar informar os médiuns por uma palavra imprudente ou pelo menor gesto, se acreditam obrigados a lhes observar face-a-face numa atitude fechada, glacial, arriscando parecer hostis. Não é preciso mais para que se prejudique toda a tentativa experimental, sobretudo quando o sujeito é de natureza tímida, receosa ou impressionável, o que é o caso da maioria deles.

Se se quer ser bem sucedido, é preciso colocar os médiuns nas condições que lhes são habituais.

Longe de diminuir sua faculdade de percepção por um silêncio ácido, é preciso tratar de exaltá-los pelas marcas exteriores e uma confiança absoluta, mesmo quando não a tem. Isso não impede os assistentes de exercer seus meios de observação, de sagacidade, de dedução, e isso ajuda fortemente os fenômenos.

Esse silêncio distante, que alguns psiquistas creem indispensável para evitar dar uma orientação às pesquisas do vidente, esse silêncio é nocivo, pois, se um médium lhe diz, por exemplo: “Seu filho foi morto pela explosão de uma bomba”, você não fará muito ao responder, segundo o caso, sim ou não, e isso não será uma indicação que permitirá a ele lhe dizer, num momento posterior: “Sua tia é aleijada e mora em Perpignan”.

Então, regra geral, deixem os sujeitos à vontade.

É por ter mal compreendida a necessidade do sorriso e por vezes da boa conduta, que alguns experimentadores inconscientemente fizeram falhar inúmeras experiências; nós não somos os primeiros a fazer esta constatação.

O Sr. Ossowiecki, o extraordinário vidente polonês que participou em Varsóvia, na presença dos doutores Richet e Geley, de sessões psicométricas nas quais sua lucidez se manifestou de maneira totalmente espantosa, descreveu assim suas impressões de vidente (Revista Metapsíquica: julho-agosto 1922, páginas 254 e 255):

“Aparentemente, eu perco uma certa energia; a temperatura se torna febril e os batimentos cardíacos irregulares. O que confirma essa suposição é que quando eu paro de pensar, há como que fluidos elétricos que atravessam durante alguns instantes minhas extremidades.

“Isso dura um momento, depois uma verdadeira lucidez se apossa de mim; surgem quadros, mais frequentemente do passado. Vejo o homem que escreveu a carta e sei o que ele escreveu. Vejo o objeto no momento em que ele se perde, com os detalhes do acontecimento; ou percebo, sinto a história de um objeto qualquer que tenho em mãos. A visão é nebulosa e exige grande tensão. É preciso bastante esforço para perceber algumas condições e detalhes das cenas.

“O estado de lucidez é evocado por vezes em poucos instantes e, outras vezes, ele pode se fazer esperar por horas. Isso depende em grande parte do ambiente: a incredulidade, o ceticismo ou mesmo uma atenção mais concentrada sobre minha pessoa paralisa o sucesso rápido da leitura ou da sensação... Na minha sessão ocorrida no Instituto Metapsíquico de Varsóvia, estou certo que a facilidade e a rapidez com a qual eu li duas cartas se deveu a harmonia geral e a disposição do espírito de simpatia das pessoas presentes, que me favoreciam”.

VII

Estudo sobre a memória subconsciente


Periculosum est credere et non credere.

(É igualmente perigoso crer e não crer)

Fedro

Tem-se acusado frequentemente os espíritas de uma falta de discernimento na interpretação dos fenômenos que eles observam. Como aqui iremos precisamente nos encontrar na presença de identificações obtidas durante o transe, cremos ser útil, antes de seguir mais adiante, descrever os trabalhos dos intelectuais que se ocupam dessa questão e mostrar em quê suas explicações diferem das nossas.



Está perfeitamente definido pelas pesquisas de psicólogos contemporâneos que existe em nós uma memória profunda que é batizada de subconsciência: é nela que vêm se registrar não apenas todas as sensações visuais, auditivas, táteis etc... que percebemos normalmente, mas também aquelas que agem sobre nós durante o estado de distração.
Despertar da memória subconsciente no sonho

O sonho tem por propriedade fazer renascer essas imagens, mesmo que elas saiam da consciência ordinária. Em seu livro “O Sono e os sonhos”, páginas 123 e 124, Maury cita o seguinte caso:

Um tintureiro que ficou cego descreveu com bastante precisão os traços de um de seus primos que lhe apareceu em sonho e que ele jamais havia encontrado, apesar de o primo não ter nenhuma privação na visão. Essa aparente intuição era devida, como ele acaba por se lembrar, a ele já ter observado em outro tempo o retrato de seu primo em um outro de seus pais.

É, evidentemente, uma lembrança esquecida que renasce durante o sonho normal; se esse fato se produziu em um sono magnético ou em transe, ele teria totalmente a aparência de uma revelação exterior.

No exemplo seguinte, há mais que uma simples lembrança da memória. Parece que um certo número de impressões visuais foram registrados inconscientemente, como veremos adiante que isso é possível; depois, sob a influência da atenção, elas foram reencontradas durante o sono. Eis o caso:

“Chegando ao hotel Morley às 5 horas, diz a sra. Bickfort Smith, terça-feira, 20 de janeiro de 1889, eu percebi que eu tinha perdido meu broche de ouro e supus que eu o tivesse deixado em um provador na Swan e Edgar. Mandei ver e fiquei muito desapontada por ter que todas as buscas tinham sido inúteis. Eu estava muito contrariada e à noite sonhei que eu o encontrava em um número da Queen, que tinha estado sobre minha mesa; no meu sonho, eu via até a página onde ele estava. Fixei uma das gravuras dessa página. Logo depois do almoço, fui a Swan e Edgar e pedi os jornais, contando ao mesmo tempo meu sonho às jovens. Os jornais tinham sido levados dali, mas alguém os reencontra e, para grande surpresa de todos, eu digo: eis o que contém meu broche. Ele estava, de fato, na página que eu indiquei”.

Não se poderia colocar esses casos na conta da clarividência, nem na do espiritismo; estes são pura e simplesmente fenômenos de criptomnésia, como, com sua mania de criar neologismos, os psicologismos atuais batizaram.


Despertar da memória subconsciente na hipnose

Não podendo nos estender mais longamente sobre esse tipo de exemplos, passemos a um segundo revelador dessa memória latente, que é a hipnose.

É uma linha muito geral a de que o sono sonambúlico aviva as lembranças mais fugidias da vida normal.

“Os sonâmbulos, diz Richet (Ch. Richet. –”O homem e a inteligência”, p. 194), representam com uma riqueza incrível de detalhes precisos os lugares que eles já viram em outro tempo, os fatos aos quais eles assistiram. Durante o sono, eles descrevem com muita exatidão tal cidade, tal casa que já visitaram ou avistaram; mas quando acordam, é com dificuldade que podem dizer que eles estiveram lá em outro tempo. X..., que cantava o ar da Africana durante o sono, não pôde refazer sequer uma nota quando despertou”.

“Léonie, diz o sr. Janet (P. Janet. – “O automatismo psicológico”, p. 267), é capaz de reler, por alucinação2, páginas inteiras de um livro que ela leu há tempos, e distingue a imagem com tamanha nitidez que ela observa ainda sinais particulares, como os números das páginas e os números das folhas na parte inferior de certas páginas”.

Devemos nos convencer de que nada que entra no espírito, conscientemente ou não, pode dele sair. Apesar do esquecimento ser uma condição para uma boa memória (Ribot. – As doenças da memória, p. 15), a palavra esquecer não é sinônimo de desaparecimento da imagem mental. Ao contrário, esta parece inalterável: cada impressão deixa uma marca que dura e que reaparecerá, mesmo que se a tomem por irrecuperável, quando as circunstâncias o permitirem.

Parentesco do sonambulismo natural e do sonambulismo provocado

As lembranças do sonambulismo natural são quase sempre ignoradas ao despertar, elas podem ser retomadas em um sonambulismo artificial, o que estabelece o parentesco desses dois estados. A relação que se vai ler atesta isso (Pitres. – “Lições sobre a histeria e o hipnotismo”, p. 200):

Dr. Dufay, senador do Loir-et-Cher, publicou a observação de uma jovem que, num acesso de sonambulismo, tinha trancado em uma gaveta as jóias que pertenciam a sua patroa. Esta acusa sua doméstica de tê-las roubado. A pobre jovem protestava sua inocência, mas não podia dar nenhuma informação sobre as causas do desaparecimento desses objetos. Ela foi colocada na prisão em Blois; o doutor Dufay, que era médico nessa prisão, já havia feito algumas experiências de hipnotismo com essa jovem. Ele a colocou em transe e a interrogou sobre o delito do qual ela foi acusada e compreendeu, assim, que por medida de segurança, a empregada havia trancado as jóias em um outro móvel. O juiz, informado dessa revelação, se dirigiu à casa da dama, encontrou as jóias e retornou a jovem a liberdade.

Uma das formas mais surpreendentes da renovação da lembrança é a reconstituição completa de toda uma época da vida passada de um sujeito. É a isso que Pitres chama de delírio ecmnésico. Se um sujeito de uma faixa de trinta anos de idade, por exemplo, perde subitamente a lembrança de tudo o que conheceu nos últimos quinze anos de sua vida, ele se colocará a raciocinar, falar, agir como o faria há quinze anos atrás. É o caso de uma paciente, A. M., de vinte e oito anos de idade, que se encontra reportada à idade de sete anos, quando se ocupava em vigiar a vaca de sua ama; ela joga as Cinco Marias, não sabe mais se expressar senão em dialeto etc...

Percepções inconscientes

Há ainda melhores. Fatos que não percebemos conscientemente podem deixar seus traços indeléveis e surgir em um momento inesperado, renovados por uma sensação próxima. São imagens que a alma ignora e que estão adormecidas nela.

Tomemos de Ribot (Ribot – “As doenças da memória”, p. 143) dois exemplos desses fenômenos.

Uma dama, em seus últimos dias devido a uma doença crônica, foi levada ao campo. Sua filha, que ainda não falava, foi levada e, depois de uma curta estadia, reconduzida à cidade. A dama morreu alguns dias depois. A filha cresceu sem se lembrar da mãe até a idade adulta. Foi então que ela teve a oportunidade de ver o quarto onde sua mãe morreu. Embora ela o ignorasse, entrando nesse quarto ela estremeceu; como alguém lhe perguntou a causa de sua emoção: Eu tive, disse ela, a distinta impressão de já ter estado nesse quarto. Havia nesse canto uma dama deitada, parecendo muito doente, que se inclinou sobre mim e chorou.

Eis o segundo caso:

Um senhor foi visitar com seus amigos um castelo que ele não se lembrava de já ter visto; ao se aproximar, ele teve a viva impressão de já ter visto e ele revia não somente a porta, mas as pessoas instaladas na parte superior e, na inferior, asnos sob o pórtico. Ele pede alguns esclarecimentos a sua mãe e obtém dela que quando ele tinha dezesseis meses ele foi levado a esse lugar em um cesto, no dorso de um asno e que ele foi deixado embaixo com os asnos e os empregados enquanto os mais velhos do grupo se instalaram acima do portal para comer.

Esse renascimento do passado pode ser provocado também por uma causa mórbida:

Quando tinha quatro anos, diz o doutor Abercombrie, uma criança, devido a uma fratura no crânio, sofreu uma trepanação. Retomando a saúde, ele não tinha guardado nenhuma recordação nem do acidente nem da operação. Mas quando tinha quinze anos, tomado por um delírio febril, ele descreveu para sua mãe a operação, as pessoas que o assistiam, sua toilette e outros pequenos detalhes, com a maior exatidão. Até aí, ele jamais tinha falado disso e jamais tinha ouvido ninguém dar todos esses detalhes.

Nós só podemos dar alguns breves exemplos dessas numerosas lembranças, tão completamente saídas da memória que elas parecem desconhecidas: são elas que dão ao autômato a falsa crença de uma intervenção do além, quando ele as encontra relatadas sob a assinatura de um amigo ou de um parente morto. É preciso, então, não ver nelas senão o que elas são: fenômenos de subconsciência, a menos que outras particularidades nos demonstrem a evidência da intervenção de espíritos.


As múltiplas personalidades

A observação permitiu constatar que podem existir, em alguns sujeitos, modificações espontâneas da personalidade, provenientes de perturbações nervosas ou de autossugestão. Desde que o Dr. Azam chamou a atenção dos sábios para o caso de Félida, esses fenômenos interessantes foram estudados por muitos autores: Léontine e Léonore por Janet; Ansel Bourne por Hodgson e James; Hélène Smith por Flournoy; Smead por Hyslop. Binet os consagrou todos em uma obra (Binet. – “As alterações da personalidade”.).

Lembramos desses casos apenas por memória, pois eles, na verdade, não têm mais que um relato bastante distanciado dos fatos que vamos passar em revista; entretanto, é bom assinalar essas possibilidades, a fim de mostrar que temos visto todos os aspectos que podem revestir a personalidade humana em suas diversas modificações durante o estado normal ou após crises nevropáticas.

Um dos casos mais interessantes é o da senhorita Beauchamp, minuciosamente estudado pelo professor Morton Prince, a partir de 1898, durante um período de sete anos (Morton Prince. – “A dissociação de uma personalidade”).

Srta. B. é uma estudante trabalhadora, em quem se desenvolveram muitas personalidades, cada uma guardando seu caráter e lembranças próprias; essas personalidades se sucedem de momento a momento, de hora em hora ou de dia em dia; sua diferença se manifesta por uma maneira de ver, ideias, crenças, gostos, um temperamento, um estado de saúde, hábitos, lembranças distintas. No começo, elas se ignoram mutuamente, de modo que há na memória de cada uma delas vazios que correspondem aos momentos em que as outras estavam incorporadas.

Um estado de coisas tão anormal produz situações extremamente embaraçosas; acontece que a srta. B. faz planos, marca encontros aos quais ela se oporá um momento posterior.

De um caráter reservado, refinado, de boa educação, amante dos livros, apaixonada por literatura, impressionável e nervosa, ela encontrou sua antagonista em uma de suas personalidades segundas, que ela encarna sob o nome de Sally; esta é gaga (nos começos), rebelde, inconstante, robusta; ela ignora a fadiga e a doença.

Primeiro, o professor Morton Prince tem dificuldade em se situar perante essas personalidades que se sucedem tão rapidamente.

“Vocês têm os mesmos braços e as mesmas pernas”, disse ele a uma delas, ao que ela responde muito sabiamente:

“Braços e pernas não faz com que sejamos a mesma pessoa.

- Então, se são pessoas diferentes, como você se chama?”

E essa questão a mergulha em grande embaraço.

Desde que Sally apareceu, constata-se a coexistência de duas consciências separadas e distintas; Sally fuma e a srta. Beauchamp, retomando posse de si mesma, se surpreende por encontrar em sua boca o sabor acre do tabaco; ela se atrapalha, escreve numerosas cartas a si mesma.

Para que duas vontades possam se opor uma a outra, é preciso que elas coexistam; então, Sally, não simplesmente alternando com a srta. B., coexistia com ela; ela a odiava; ela tinha ciúme.

“Por que, dizia ela, eu não posso viver como ela? Eu tenho tantos direitos quanto ela”. É mesmo uma personalidade distinta; ela não tem a cultura da srta. B., ela não conhece o francês como ela. Uma noite, depois de ter fechado as janelas, a srta. B., em um acesso de neurastenia, tinha aberto as válvulas do gás e se colocou na cama; mas Sally, agindo como um anjo da guarda, imediatamente se levanta, fecha as válvulas, abre as janelas e, assim, salva sua vida. (Página 202).

Agindo como um anjo da guarda! A expressão é do próprio Morton Prince. À beira do abismo espírita, ele vai se deixar cair ao fundo do precipício escancarado onde lhe chamam vozes encorajadoras?

Não. O professor Prince pertence a essa classe de intelectuais que não recebem uma palavra de ordem senão da Matéria; nem um só momento ele suspeita que essa personalidade de Sally poderia ser, simplesmente, a incorporação de um espírito independente, como há tantos na fenomenologia espírita. Essa hipótese teria, pois, mérito para ser examinada de perto; mas o sábio americano, como muito de seus pares, não se digna a observá-la.

No final dessa obra, encontramos um exemplo chocante do que é a probidade científica, vista por alguns lados.

No último apêndice (Apendice R, página 521), ele cita um caso de visão nitidamente espírita, complicado pela audição.

Um desencarnado aparece a sua mulher e conversa com ela. As condições nas quais se produziu essa manifestação foram perfeitamente precisas; elas não dão margem à menor dúvida. Com uma serenidade parcial, Morton Prince atribui esse caso à alucinação. Segundo ele, a visão não passou da percepção consciente de uma fotografia do marido, e, quanto as palavras ouvidas, elas eram apenas, disse ele, a repetição de palavras que uma amiga tinha dito à viúva dois meses antes para consolá-la. Ora:

1º A viúva disse a ele que ela não tinha ninguém com quem desabafar;

2º As palavras que ela tinha escutado eram as seguintes: “Se eu ainda pudesse sentir as emoções terrestres, nada poderia me deixar mais infeliz do que ver como você está agora. Quando eu estava perto de você, meu desejo era de lhe ver feliz. Lembre-se de mim ou esqueça de mim, isso não tem importância, o amor não morre jamais. Não tenha mais pensamento sombrios de desespero, goze todos os prazeres da vida, e você me permitirá uma vida mais plena e mais elevada.”

Sobre essas palavras, que na boca da amiga ou de qualquer outra pessoa viva não teriam nenhum sentido, Morton Prince afirma friamente que foram pronunciadas anteriormente pela amiga da viúva, as quais ela teria escutado de novo dois meses mais tarde por autossugestão.

É verdadeiramente fazer troça do mundo.

Senhores, os super-doutores que exigem de nós tantas provas, testemunhos e atestados, não verão com maus olhos que, a nosso turno, nós não nos contentemos com suas simples afirmações e que lhes peçamos um pouco dessa probidade que muitas vezes falta à exposição de suas teses. Recusamo-nos a nos inclinar diante de sua autoridade, por mais alta que seja, quando ela não estiver acompanhada das mesmas garantias que nós mesmos trazemos.

Um outro caso muito interessante de dupla personalidade foi estudado sucessivamente pelo doutor Stevens, por Hodgson e por Frédéric Myers; Sr. Chevreuil o tornou, em 23 de dezembro de 1917, o tema de uma conferência que foi publicada na Revista Científica e Moral do Espiritismo (janeiro e fevereiro de 1918) sob o título: “A Maravilha de Watseka”.

Trata-se de uma criança de treze anos, Lurancy Vennum, moradora de Watseka (Illinois) que, após uma crise, perdeu bruscamente sua própria personalidade, a qual deu lugar a de uma outra criança, Mary Roff, morta há doze anos. As duas crianças nem seus familiares jamais haviam se conhecido.

Daí, durante quase quatro meses Mary Roff fala e age com os órgãos de Lurancy Vennum, reconhece as pessoas e os objetos que ela conheceu quando viva, se identificando de uma maneira rigorosa com a consciência da falecida. Ela esqueceu completamente tudo que a médium conhecia, não reconheceu ninguém da família dela, mas reconheceu uma boina outrora usada por Mary, se lembrou de uma viagem dela ao Texas, de um golpe de faca em que ela machucou o braço, recorda que seu irmão foi queimado por um aquecedor.

Ao final de quatro meses, nos quais ela deu provas cotidianas de sua lembrança do passado, ela retomou consciência e tornou-se novamente Lurancy Vennum.

Tentou-se associar esse caso às dissociações da personalidade; mas, como observa justamente o sr. Chevreuil, o que nunca se viu é uma dissociação capaz de criar uma personagem que não seria saída da própria personalidade, capaz de fornecer um registro civil, de provar sua identidade, uma pessoa que tinha uma família, amigos e domicílio. Um caso tal não pode advir de uma dissociação e é também a opinião do Dr. Hodgson, que concluiu que esse fato, na sua forma culminante, pertence à categoria espírita.

O misticismo e a autossugestão

Sabemos o quanto o estado de credulidade é fácil de se produzir em pessoas facilmente excitáveis e o quanto a autossugestão tem poder sobre elas. Podemos reconstituir o estado d’alma desses místicos que, em todas as épocas, acreditaram estar em relação com a divindade, com os anjos ou com os santos.

A sra. Guyon, amiga de Fénelon, compunha livros que ela supunha ditados pelo próprio Deus ou por Jesus Cristo; ela publicou o “Tratado Completo da Vida Interior”, depois o “Comentário sobre a Santa Escritura”, o “Comentário sobre o Cântico dos Cânticos”; tendo perdido seu Comentário sobre os juízes, este lhe foi ditado uma segunda vez. Encontrando, posteriormente, seu primeiro manuscrito, observa-se que as duas versões estavam em conformidade em todos os pontos (Matter. – “O magnetismo nos tempos de Fénelon”).

Em 1885, apareceu uma Vida de Jesus editada por ele mesmo, que nos parece puro produto da imaginação do pseudo-médium; nada nesse trabalho leva a nenhum traço do grande espírito do qual ele traz o nome. A passagem seguinte revela o estado de excitação do sujeito e as fontes de onde ele tirou os materiais que lhe serviram para compor subconscientemente sua elucubração:

“Eis aqui como me foi ditada essa obra: eu percorri muitos autores da Vida de Jesus; feitas essas leituras, tive a convicção de que o melhor desses ensaios representava um romance mais frutuoso materialmente para seu inventor que para a inteligência e a instrução dos leitores. O desejo de saber mais me atormentava incessantemente, de modo que arrisquei uma questão a meu guia sempre tão fiel de tão devotado. Thiphis me respondeu: Se queres conhecer a verdade, pergunte-a ao próprio Jesus, ele a dirá”.

Não há dúvida de que a exaltação mística leva a uma excitação nervosa, um exagero das faculdades intelectuais que permitem compor obras muitas vezes brilhantes, infelizmente não contendo nenhuma prova de sua origem exterior.



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