Gabriel Delanne G. Bourniquel Escutemos os Mortos



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O tapeceiro

A manifestação seguinte não oferece grande interesse, em razão do pequeno número de informações que foram dadas; todavia, ela ressalta do espiritismo o mais incontestável e lhe traz um novo apoio. É sob esse título que nós a mencionamos.

Ela aconteceu no final de uma sessão na cidade, em 8 de janeiro de 1922; no momento em que a reunião terminava, a médium diz o seguinte:

“Eu vejo: Lafarge, desenhista, rua Saint-Sauveur. Vejo desenhos representando objetos religiosos, virgens, etc...

“Eu vejo um homem que parece ter 70 anos, branco, muito grande, por volta de 1.75m, ele tem os ombros curvados; ele escreve; é um operário; ele desenha; ele mostra 1873.

“Escuto: Narcisse François Charles; Goincourt, Oise.

Ele morreu em 1873. É Narcisse François Charles.

- Charles é o nome de família.

“Eu vejo uma mulher muito idosa, é sua mulher, Julie Marie Beule; ele tem uma filhinha de 4 ou 5 anos.

“Escuto: 1840, Marie Charles à Goincourt; esse espírito teria desejado vir; ele escreve Andralem. Eu vejo: Hélène Charles, professora em Beauvais, instituição livre, rua Louis Grave.”

O livro de registros consultado nos dá: Goincourt (Oise), 476 habitantes a 4 kilometros de Beauvais.

Sra. Lescornez, que mora precisamente na rua Saint-Sauveur, nº 99, foi encarregada da investigação; ela não pôde encontrar traços, nessa rua nem em outras, do desenhista Lafarge. Ela recebeu, de Goincourt, a seguinte carta:

Prefeitura de Goincourt (Oise).

2 de março de 1922

Senhora,

Para meu grande pesar, não foi possível conhecer o endereço da sra. Hélène Charles. Desde a morte de seu pai ou seu avô, sua família a perdeu de vista. Ela deixou Goincourt para morar em Paris e eis a única lembrança que sua família guardou...

Atenciosamente...

Beauvais


Essa carta estabelecia a existência da sra. Hélène Charles, que é, verdadeiramente, a filhinha que tinha 4 ou 5 anos na morte de Narcisse; tratava-se de estabelecer a existência legal dos dois esposos e a morte do marido; sra. Lescornez consegue o extrato do registro dos autos de registro civil da prefeitura de Guincourt constando que:

No ano mil oitocentos e setenta e dois, quinta-feira, nove de agosto, às 3 horas da madrugada, morreu em seu domicílio o senhor Jean François Narcisse Charles, tapeceiro, nascido em 20 de julho de 1820, filho de Jean Charles e Marie-Louise Fosse, esposo de Julie Désirée Bélou, 54 anos de idade, dona de casa.

(Data, assinatura e carimbo).

Em resumo: um homem de nome indicado pela médium que acrescentou dois primeiros nomes morreu em Goincourt (Oise) em 1872 e não 1873 (erro de data); ele era casado com Julie Désirée Bélou (a médium tinha dito Julie Marie Beule); a médium indicou, além disso, uma moça Hélène Charles cuja existência foi confirmada. Se tivéssemos invocado Narcisse em incorporação, não há dúvida de que ele nos daria informações mais completas.


Uma zeladora que não gosta de voz alta

Sessão de 23 de abril de 1922, Montmorency. – A médium apresenta contrações nitidamente visíveis nos músculos do pescoço; o lado direito está completamente deformado. O doutor Viguier, convidado a verificar o estado dela, faz as seguintes constatações:

No começo da incorporação, 120 pulsações.

Durante a contração, 114 pulsações.

No final da incorporação, 96 pulsações.

Pulso normal.

Perguntamos, então, a entidade que se manifesta; eis as declarações tomadas pela srta. Jeanne Laplace, em taquigrafia, e resumos:

“De beber... Marie, minha filha... 38 anos...; eu me chamo Léonie Parlange.

- Diga-nos o seu nome de solteira.

- De que isso lhe serviria? Ninguém me pede isso. (Nesse momento, o sr. Bourniquel mostra que o ventre da médium tomou um volume desproporcional; inchou enormemente, como uma hidropisia. O sr. Bourniquel diz que vai fazer uma punção para desinchar e com seu dedo apoiado sobre o ventre do sujeito, ele obtém o efeito desejado).

A entidade declara que ela tinha problemas no ventre; ela pede um pároco.

“A que igreja se deve ir?

- Avenida Victor Hugo; Saint-Honoré d’Eylau.

- Escute…

- Mas eu lhe escuto; quando se sofre, não há necessidade de ouvir gritar em seu entorno, como os senhores fazem.

- Bem, eu vou falar mais suavemente, como aos doentes. Seu marido ainda vive? O que ele fazia?

- Eu sou viúva. Ele era zelador, na rua da Bomba, 71, no Sindicato dos domésticos. Ele era parisiense.

- Em que ano a senhora morreu?

- Junho de 1914. Havia uns quinze anos que meu marido tinha morrido. Eu tinha 71 anos. minha filha não era casada; ela faz chapéus; modista.

- Onde a senhora nasceu?

- Em Meuse. E eis histórias. Por que o senhor me pergunta tudo isso? Vá a minha casa. Lá o senhor encontrará minha filha; é uma mulher séria e pia; ela se chama Marie, 38 anos.”

A entidade não soube dizer o nome de seu médico e se engana quanto ao nome do marido, que ela diz ser Jean; a investigação revelou que ele se chamava Etienne.

Visão. – Como de costume, a médium teve em seguida, em estado de vigília, a visão relativa aos eventos acima. Saindo da sessão, um dos membros do comitê, o sr. Gatte, morando na rua Bachaumont, 9, teve a curiosidade de verificar no local, para sua própria satisfação, os detalhes dessa visão da qual ele teve o cuidado de tomar nota. Nós colocamos entre parênteses os resultados dessa verificação, feita com o concurso da filha da defunta.

A médium diz: “Eu vejo uma mulher de alguma idade, um pouco amarela, tez de doente, cabelos brancos, arrumados com duas faixas que passam sob o queixo; eu vejo óculos com as lentes escuras; sobre as mãos, manchas amarelas. (Todas essas informações são exatas, exceto as lentes que são brancas. A srta. Parlange me mostra um retrato de sua mãe e pude constatar que os detalhes do penteado correspondem completamente a aqueles dados pela médium. A srta. Parlange morreu aos 69 anos).

Escuto: Léonie Parlange. (É o nome de sua filha).

Tamanho médio, 1m 55. Saias longas. Ela usa sapatos de estrela sem salto (Exato).

Ela tem um rosário entre os dedo, com contas grandes e pretas. Numa ponta há uma cruz de metal. Ela deve ter morrido com ele. (Exato em todos os detalhes).

Vejo a rua da Bomba, 71. (Ela vivia nesse endereço. Ela morreu ali).

Tenho a impressão de que ela era cozinheira; vejo caçarolas, em volta dela há muito cobre; tenho a impressão de que não é na casa dela. (Ela não era cozinheira, mas era zeladora do imóvel no qual se encontra uma filial do “Cordon Bleu”, curso de culinária e confeitaria.)

Investigação. – De outro lado, o sr. Le Loup de Sainville, encarregado de fazer a investigação, nos entregou a seguinte peça:

Cidade de Paris. Registro Civil. Prefeitura do 16º distrito. Boletim de falecimento.

Sobrenome.......... Martinsic

Nome................... Marie-Anne

Profissão.............. Zeladora

Idade de............... 69 anos

Nascida em........... Réchicourt (Meuse)

Falecida em Paris, em 26 de setembro de 1908

Filha de Henry e de Marie-Rosalie Houssard.

Viúva de Etienne Parlange.

Fornecido em Paris,.....

(Carimbo da prefeitura)

A esse boletim foi anexado um longo relatório do qual extraímos o que segue:

“Investigação sobre a incorporação da sra. Parlange, morta, rua da Bomba, 71, e cuja filha, modista, mora como zeladora, sucedendo sua mãe, no mesmo endereço; muito bom resultado com ligeiras imprecisões apenas, em meio a um conjunto excelente. – Nesse imóvel, há uma filial do “Cordon Bleu” curso de culinária. – O marido morreu em 1893, zelador dessa casa. Ligeiro erro quanto aos nomes que foram invertidos: a mãe se chamava Marie e a filha Léonie. Há também um erro na data do falecimento: a sra. Parlange morreu em 1908 e não em 1913. A filha não sabia que sua mãe tinha problemas no ventre, mas ela de fato tinha um ventre muito inchado e proeminente. Ela usava óculos para trabalhar; seu marido era parisiense.

E. Le Loup de Sainville.”

A catástrofe de Melun

Poder-se-ia crer que comunicações desse gênero não podem ser dadas senão de modo muito excepcional, por médiuns especializados, e depois de treinamento de muitos anos. A experiência nos provou que não é assim e que, por vezes, pessoas que ignoravam sua faculdade mediúnica forneceram espontaneamente, sobre desencarnados desconhecidos a todos e a elas mesmas, informações que uma identificação ulterior veio confirmar. Acontece muito frequentemente que sujeitos que não se envolvem com essas pesquisas têm revelações dessa natureza; estamos certos de que o fato seria ainda mais frequente se os bons médiuns não fossem tão frequentemente solicitados pelas famílias, naturalmente desejosas de estar em relação com seus entes que partiram, e não empregassem todo seu tempo nessas comunicações íntimas.

Eis aqui um caso muito interessante que foi apresentado pela sra. Darget, em 7 de junho de 1922; ele nos foi assim relatado por uma das testemunhas, o capitão B. – Médium: sra. Mariaud.

“A médium entra bruscamente em um estado cataléptico e depois de alguns passes para desembaraçá-la, ela fica em transe e dá às pessoas presentes o simulacro pungente de um corpo se retorcendo em sofrimentos atrozes e por lamúrias e gritos repetidos:

“Estou queimando... estou sufocando... tarde demais...” sugere a ideia de alguém morto em um incêndio. O estado dura por volta de sete minutos e, então, depois de vários passes, a calma se estabelece e a entidade faz a seguinte fala:

“Sou o capitão Amic, do 98º regimento de infantaria, na guarnição de Roanne; morri em meio a torturas atrozes no acidente da ferrovia de Melun, em 1913. Tive as duas pernas esmagadas e a metade do corpo carbonizada.

“Eu estava com minha mulher, nascida Maria Louise Rouvière. Não tive mais notícias dela desde a catástrofe: não sei se ela sucumbiu comigo. Desejo reencontrá-la. Vim com esse objetivo, guiado pelo sobrinho do comandante Darget. Eu voltaria se os senhores permitissem e agradeço-lhes.”

Durante a incorporação, o rosto da médium estava calmo, grave, com uma atitude um pouco altiva. Ele falava com uma voz lenta, medida, dando um pouco a impressão de preciosidade, de correção fria e digna. A saudação militar que ele fez ao comandante Darget no momento em que, de sua demanda, ele foi apresentado, foi feito com grande correção e à moda antiga, que dizer, o cotovelo bem elevado e a mão quase horizontal.

No objetivo de controlar a identidade dessa incorporação, o capitão B. da guarnição de Paris dirigiu-se ao círculo militar onde consultou os anuários de infantaria, do que resulta:

1º que o capitão Amic (Camille Léon) pertence ao 98º regimento de Infantaria, na guarnição de Roanne, durante os anos 1912 e 1913;

2º que ele não consta nos quadros desse regimento em 1914, mas que esse anuário traz na parte inferior da página do dito regimento a menção: oficiais removidos dos quadros de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 1913: Amic, capitão, falecido.

Esse controle é preciosamente completado pela declaração seguinte, do comandante B, da guarnição de Grenoble (não espírita e que não assistiu à sessão). Esse oficial conheceu bem, em duplo título, o capitão Amic, então tenente estagiário na 14ª Companhia da Base de Abastecimento, em Lyon, depois mais tarde, após seu casamento. Sua declaração traz toda a luz desejável na presente investigação, pois ela verifica de modo indiscutível a atitude da médium no que se refere ao modo de ser, de falar e de saudar do capitão Amic. Ora, a médium, espírita há menos de 3 anos, jamais tinha visto, conhecido ou ouvido falar do capitão Amic; ela jamais esteve em Roanne.

Declaração do Comandante B.

“Conheci em 1900 o capitão Amic (uma das vítimas da catástrofe da ferrovia de Melun que aconteceu em novembro de 1913), enquanto ele era tenente no 22º regimento de infantaria e fazia um estágio no 14º esquadrão da Base de Abastecimento, corpo ao qual eu pertencia.

De 1900 a 1904, após o casamento do tenente Amic com a srta. Rouvière, do meu com a cunhada de um farmacêutico de Lyon e do irmão deste com uma outra dama Rouvière, conheci Amic ainda mais, e foi quem, para mim, de camarada tornou-se amigo.

“Na noite da catástrofe, eu viajava de Charolles para Paris e foi lendo os jornais, ao chegar em Paris, que tive conhecimento da catástrofe de Melun, e que um capitão Amic e sua mulher ali encontraram a morte.

“Alguns dias depois, por cartas da minha família de Lyon, eu soube que o capitão Amic, de quem os jornais tinham anunciado a morte, era o meu amigo e obtive os detalhes que seguiam o tema dessa morte e da sra. Amic.

“Para a viagem, eles se instalaram no primeiro vagão da 1ª classe que estava próximo à locomotiva; no momento em que aconteceu o choque, o vagão foi levantado pela força do trem contra a locomotiva que freava e a sra Amic, que teve as duas pernas cortadas (sem dúvida pelos bancos) foi projetada para baixo do vagão até a fornalha da locomotiva. Os detritos do trem apoiados sobre suas coxas, seu sangue escapava gota a gota e a morte não se fez até as 4 horas da manhã, sendo que a catástrofe aconteceu por volta das 9 ou 9 e meia da noite...

“O capitão Amic também teve suas duas pernas decepadas; apanhado alguns instantes após a catástrofe, ele morreu enquanto era transportado ao hospital de Melun.

“Era um rapaz bem colocado, falava lentamente e com uma voz forte e grave; ao primeiro olhar, ele parecia cheio de si, mas no fundo era um excelente rapaz. A maneira que o capitão B me retratou o capitão Amic (falando por intermédio de um médium) corresponde perfeitamente à lembrança que conservo do dito capitão.

Assinado: comandante B.”

“Nota. – Se alguém vier a pensar que a médium, tendo lido os jornais da época relatando a catástrofe de Melun, tenha tirado de seu subconsciente as informações e detalhes que ele nos deu estando em estado de transe, convém colocar em evidência:

1º Que o comandante B que, ele também, leu esses mesmos jornais, só teve, entretanto, a convicção de que se tratava de seu amigo Amic pela leitura das cartas de sua família, e que apenas essas cartas lhe deram a certeza, pois os jornais não mencionavam mais que “o capitão e sra Amic” e eles só davam os sobrenomes, não mais que o sobrenome de família da sra. Amic. Ora, a médium nos trouxe: Marie-Louise Bouvière, nome e sobrenome que ela não poderia ter tirado dos jornais e, por conseguinte, de seu subconsciente.

“Além disso, convém colocar em relevo um 2º elemento de verificação constituído pela atitude, a saudação, a maneira de ser e de falar do capitão Amic que foram reconhecidas exatamente as mesmas pelo comandante B.

“Em 5 de julho, um mês depois da primeira incorporação, o capitão Amic voltou a mesma médium, sra. Mariaud. Os assistentes ficaram muito interessados pelas palavras e a atitude tocantes da entidade, que agradeceu com emoção aos investigadores pela ajuda benfazeja que lhe havia sido dirigida; em termos selecionados e confirmando uma alta elevação de pensamento, o capitão Amic abordou diferentes temas cuja exposição não tem como ser feita aqui, considerando que ele não trazia nenhuma prova nova a aquelas, muito suficientes, dadas em 7 de junho.

Capitão B”.

Não temos a fazer, sobre esse caso interessante tão bem observado, outros comentários senão aqueles do capitão B e do comandante B, e fazer uma homenagem à sagacidade com a qual eles observaram e analisaram esses detalhes.

Chegamos agora à última manifestação e ao mesmo tempo, a mais notável, tanto em razão da multiplicidade e precisão de detalhes que foram dados quanto pela dificuldade que encontramos ao procurar verificá-los. Se, depois de acompanhar a exposição que segue, alguém persistisse em ver nessa comunicação nada mais que um jogo de faculdades criptestésicas brilhantes, isso seria de desesperar o bom senso humano.

Em busca do inencontrável

2 de abril de 1922, Montmorency. – Nessa sessão, particularmente importante por seus resultados, assistiam:

Senhor Delanne, presidente; Bourniquel, Gatte, Chardon, doutor Viguier, Maillard, doutor Pigot, Le Loup de Sainville, Grandjean, de Chessin; senhoras Bourniquel (médium), Marillard, Colligno; senhorita Jeanne Laplace (taquigrafa).

Sr. Bourniquel, em ligeira indisposição, não pôde tomar a direção das experiências; sr. Gatte foi designado pelo presidente para substituí-lo.

Camillo, o guia das sessões, incorpora e declara que há ali um outro espírito que seria muito interessante, que as investigações seriam difíceis, mas que isso daria maior valor aos fenômenos.

A médium entra em agonia; ela parece sofrer muito, sufoca, a boca para dentro, feições de dor; grande contração dos músculos do pescoço; aspecto de pessoa velha. O sr. de Sainville faz um esboço.

Sr. Gatte. “Como o senhor está? Tente falar.

R. – Eu... eu... estou paralisado da garganta”.

(Alguns passes são dados à médium).

Sr. Gatte. “Diga-nos seu nome.

R. – Edmond.

- Agora, o nome de família?

- Duhêtre (Todos os nomes de família foram alterados). Morri de paralisia.”

(A mão direita é tomada de um tremor muito acentuado; a mandíbula, em movimento contínuo, parece ter um tique.)

As perguntas feitas em seguida são respondidas de forma lenta, fragmentária, nitidamente procurando reunir as memórias. Eis o resumo dessas declarações:

“Eu me chamo Edmond Duhêtre; eu morri em Paris; eu tinha 80 anos. Quando morri, eu morava em Nanterre (A entidade declarou, a princípio, ter morrido em Paris, e um momento depois, em Nanterre; é esta última localidade que ele persistiu em designar como sendo o lugar de seu falecimento.)”

Nesse momento, os traços relaxam e tomam uma expressão normal.

“Eu morava na rua dos Ponvains, em Nanterre; eu era casado, mas minha mulher estava morta; eu morri em 1913; eu tinha duas filhas: Pauline e Louise; esta ficou comigo; a mais velha, Pauline, é religiosa na Apresentação, rua Denfert-Rochereau, nº 68. Eu era rico. Eu tinha um escritório de consultoria em advocacia ao lado do Boulevard dos Italianos, rua Feydeau, nº 7. Minha mulher morreu antes de mim uns quinze anos: ela era italiana: Jeanne Joanni.

- Você percebeu que estava morto?

- Sim, mas não tem muito tempo. Eu percebi que havia algo, porque quando eu fui para casa, eu via todo mundo, eu falava com eles e ninguém me respondia. Como eu estava velho, sofria de paralisia, eu sabia que meu tempo estava perto e eu era religioso: eu sabia, então, que a alma não morre. Eu sabia que eu viveria, mas de uma forma diferente; morri com os Sacramentos; Eu comungava muito frequentemente; Eu ia à missa todos os dias; mas eu sabia que eu não podia ir para o Paraíso; eu tinha muitas coisas pequenas a me culpar. Há muito tempo estou procurando; eu gostaria de me comunicar com minhas filhas.

- As pessoas devem ter feito missas para o senhor.

- Ah, sim! Minha filha Pauline é irmã Marie-Adrienne. Eu não podia vê-la muito, elas são enclausuradas. Ela manteve por muito tempo o véu branco, antes de tomar seu véu negro; minha mulher não queria dar o seu consentimento, ela deu antes de morrer.

Sr. Delanne. - Quando fizeram missas para o senhor, o senhor sentiu algo?

- Não, nada mudou; no entanto, há um mundo orando por nós, mas isso não serve de nada. Eles ainda acreditam no céu como quando em vida, eles oram para ir para lá: a mentalidade aqui não é alterada, é como na Terra; essa esperança me acompanha sempre.

- Quem lhe trouxe aqui?

- Uma força, como uma intuição; de repente, fui impulsionado a ir em outra direção: eu fui atraído a vir aqui.

Sr. Delanne. – O senhor não conhecia os fenômenos do Espiritismo?

- Ah, não! Ah, não!

- O senhor percebe que você está falando aos vivos?

- Mas os senhores estão mortos, como eu.

- Não, estamos na Terra.

- Eu pensei que eu estava falando com pessoas como eu.

- O senhor vê o lugar em que estamos? Fisicamente, o senhor vê todos?

- Não, não percebo.

- Toque seu cabelo, toque seu peito, e diga-nos se esses são seus cabelos, seu peito.”

A médium passa a mão nos cabelos dela e fica sonhadora. Então, ela suavemente acaricia o peito, e esse contato parece para trazer-lhe uma lembrança. “Rachel!... Rachel! Uma amiga...”

Ele conta, então, que essa pessoa, uma bela garota de Cabourg, onde ele tinha uma propriedade, tinha estado a seu serviço e que, mais tarde, ela veio morar em frente a seu escritório, na rua Feydeau. O espírito acrescenta que ele tinha uma irmã casada com um redator do Universo, o Sr. Paul C., que era cego; esse casal morava em Saint-Germain (o nome desta cidade é alterado.), e ambos morreram 15 ou 18 anos antes dele.

Sr. Delanne. – “O senhor crê que suas filhas vão admitir que pudemos falar com o senhor? Elas atribuirão ao diabo.

- Para fazer isso, é preciso dizer a elas coisas que só elas sabem. Eu tinha uma grande fortuna; Pauline teve seu dote. Louise, de Nanterre, não se casou; ela queria dar sua fortuna a uma comunidade8; eu preferiria que fosse repartido entre muitas obras. Será necessário falar sobre tudo isso com Louise; o senhor tem que dizer-lhe isso, ela vai entender: eu vivi muito tempo com minha mulher e depois nós casamos em Saint-Michel; isso é muito importante na minha vida, mas é muito delicado, é preciso ter muito cuidado. As filhas são minhas; minha mulher foi casada duas vezes; ela era italiana, eu parisiense.

-No que concerne às boas obras das quais o senhor fala, nós não temos nenhuma qualidade; alguém logo diria: vejam, esses espíritas, eles procuram tomar o bem dos outros. Dê-nos um detalhe que faça a sua filha entender que é o senhor que falou.

-Fale a ela de Saint-Michel. Foi lá que nos casamos; as meninas o sabiam muito bem, elas já eram nascidas; ninguém ao nosso redor sabia, foi por volta de 1900.”

Visão. - Vejo um homem, rosto magro, bochechas cavadas, um tique na mandíbula, corpo grande; ele deve ter morrido subitamente; parece de muita idade, cabelo branco, cabeça meio calva, um pequeno tufo de cabelos brancos logo acima do queixo. Edmond Duhêtre, rua Feydeau. Eu ouço: Pauline, - irmã Marie Adrienne. Ele deveria ter uma pronúncia ruim (Essa observação demonstra a minúcia com que a médium vê e escuta). Eu escuto: Louise, Nauterre, rua dos Pouvains, Jeanne Joanni; vejo uma mulher ao lado dele, que parece impotente; pequena, gorda, bonita, cabelos pretos volumosos, ondulados, cacheados; ela não devia conseguir se abaixar; é sua mulher; ela parece ter uns cinquenta anos.

Primeira investigação. -Sr Le Loup de Sainville, responsável pela investigação, estabelece o relatório abaixo, na data de 22 de abril, que foi lido ao Comité na reunião do 23:

"Apesar da precisão do relato detalhado feito pela entidade Edmond Duhêtre, a investigação leva a um completo erro.

1 ° Atualmente não existe rua de Pouvains em Nanterre, nem outra rua semelhante.

2 ° Os registros de Nanterre dos anos 1911-12-13-14-15 não contêm nenhum falecido de nome Duhêtre, mas apenas um Napoleão D. morto em um asilo, aos 90 anos de idade.

3 ° Os anuários para os anos de 1853-57-61-63-70 não mencionam nenhum advogado residente na rua Feydeau, nº 7, nem as listas de advogados no Tribunal;

4 ° O nome de C. dado como o de seu cunhado, jornalista no Universo, não é mencionado em nenhuma destas datas.

5 ° O pároco de Nanterre nem seu vigário conhecem a srta. Duhêtre. O mesmo para o convento da cidade;

6 ° Um advogado não registrado no Tribunal viveu em 1870 no n. º 206 (Nós colocamos um número-fantasia no lugar do verdadeiro.) da rua Feydeau; chamava-se Duhêtre;

7 ° Na rua Denfert-Rochereau existe um estabelecimento religioso da Visitação, não da Apresentação.

Diante desses resultados negativos, conclui-se por uma invenção forjada por um desencarnado romanesco.

Sessão de 23 de abril. - Sr. Delanne apresenta ao guia Camillo os resultados da investigação; Camillo responde: “Esse espírito não morreu em Nanterre; a casa ainda existe.

- As investigações foram feitas; a rua dos Pouvains não existe.

- A rua existia; antigamente rua dos Pouvains.

- O senhor afirma?

- Sim, eu afirmo. Sua filha ainda vive; essas pessoas pagam impostos. Tudo isso é verdade. O espírito está ali; ele insiste; ele diz ter duas filhas: Louise e Pauline.

- Pergunte se ele não tem que corrigir alguns pontos; nós o traríamos novamente.

-...


- Já que ele é muito religioso, peça a ele para afirmar diante de Deus a realidade das coisas que ele nos revelou.

- Sim, ele afirma.

- Como o senhor o vê, Camillo? Ele parece estar em seu estado normal; esse espírito, em vida, não sofria de uma doença mental?

- Ele me parece muito sincero. É inútil trazê-lo, pois ele não vai acrescentar nada ao que ele disse antes.”

Suplemento da investigações. - Relatório: “Continuei a investigação por conta das declarações de Camillo sobre Edmond Duhêtre; o resultado ainda é um completo fracasso. Novas pesquisas em Nanterre não foram capazes de descobrir a rua dos Pouvains, mesmo antes de 1913, até 1903. O nome de Joanni é desconhecido nos conventos de Nanterre e para os padres da paróquia. Em Paris, minhas pesquisas na Câmara Municipal do 29º distrito me deram a certeza de que Duhêtre não morreu na Feydeau; não há nenhum Duhêtre que possa ser relacionado ao que procuramos, entre 1905 e 1918. No nº 206, onde o livro me indicou um E. Duhêtre em 1870, não se encontra rastro de nenhum inquilino de mesmo nome; a zeladora está lá há dez anos. No 208, onde a zeladora está na função há 18 anos e conhece bem o edifício vizinho, nenhuma informação; no 204, nada diferente. Finalmente, visitei todos os números da rua, encontrei vários zeladores muito antigos; não consegui obter nenhum rastro de Edmond Duhêtre.

E. Le Loup de Sainville”

Sessão de 7 de maio. - Sr. Delanne, presidente, apresentou aos membros do comitê e depois a Camillo, os numerosos erros que nos impedem de encontrar o rastro de Duhêtre.

Camillo. – “Esses vê do próprio espírito; o espírito está ali; bem, ele viveu em Nanterre. Ele tinha outras propriedades que ele falou para os senhores, incluindo Caboury; os senhores poderiam ver.

-Por que ele deu um nome que é desconhecido? Ele fala de suas filhas... Isso seria não um sonho desse pobre homem?

- Não, ele insiste. Ele diz: Se alguém for ao convento, encontrará pistas da minha filha.

- Mas este convento é fechado, seria muito difícil; especifique; que convento é esse?

- A Visitação, 68, rue Denfert-Rochereau.

- Como é que ele continua a dar o nome de uma rua que não existe em Nanterre?

- Ele insiste sempre; sua propriedade existe; antiga rua dos Pouvains, quando ele a comprou.

- Pergunte a ele quando ele comprou e o nome do tabelião.

- Por volta de 1885. Ele não se lembra do nome do tabelião. O espírito continua a afirmar que ele morou na rua Feydeau; ele acredita ter morrido lá.”

Abandono e retomada da investigação. - Essa terceira sessão não trouxe elementos novos, como não foi possível solicitar mais da complacência do investigador, a manifestação foi considerada como errônea, e o caso encerrado.

As férias chegaram, as sessões terminaram.

Mês de junho. Sra. Maillard, que não faltou a nenhuma, se encontrando em um salão com uma senhora de idade que viveu há muito tempo em Nanterre, teve a ideia de perguntar se ela não teria conhecido um senhor de nome Duhêtre; a senhora se lembra de ter conhecido, e dá sobre ele algumas informações que confirmam aquelas fornecidas pelo espírito, durante as três sessões. Duhêtre, que acreditava ter seus segredos de família e pecados bem escondidos, não poderia supor que havia pessoas tão perfeitamente a par de sua vida. Infelizmente, a senhora não se lembrava mais o nome atual dado à antiga rua Pouvains, da qual ela certifica a existência.

Esse encontro fortuito e feliz nos engajou a retomar nossas pesquisas; na ausência do sr. Le Loupe, que saiu de férias, o sr. Gatte foi encarregado da nova informação; ela lhe poupava algumas surpresas e tribulações as quais ele observa no seguinte relatório:

Domingo, 8 de outubro de 1922. (Primeira viagem para Nanterre). – Estando fechada a prefeitura, perguntei a vários comerciantes se poderiam direcionar-me à rua dos Pouvains e se eles se lembram de uma família Duhêtre tendo vivido ali; por todos os lados, tive resposta negativa. O pároco não tem nenhuma lembrança nem da rua dos Pouvains nem dos Duhêtre. Encontro várias pessoas de idade que me dizem morar em Nanterre há muito tempo e que não sabem de nada.

19 de outubro. (Segunda viagem à Nanterre). No tabelião, o subtabelião foi consultar os arquivos; depois de algumas pesquisas, ele encontra um ato notarial em nome de Sr. Jules Edmond Duhêtre, morando em Nanterre, rua dos Pouvains, datado de 1892, o qual menciona sra Duhêtre, nascida com o sobrenome Giovanni (Lembremos que alteramos todos os nomes de família). Meu interlocutor não pôde me dar nenhuma informação sobre a rua dos Pouvains, a qual ele ignora.

Na prefeitura onde me dirijo, no escritório de Registro civil, são consultados os registros de falecimento de 1900 até 1916, sem encontrar vestígios do nome de Duhêtre (Nesse caso, devemos agradecer os municípios que facilitam nossa tarefa muitas vezes ingrata e expressar-lhes o reconhecimento de todos os pesquisadores boa fé.).

Pergunto se a rua dos Pouvains é conhecida; as pesquisas parecem vãs, quando um antigo funcionário disse lembrar-se que a rua dos Pouvains existia em Nanterre e que é hoje chamada rua Chanzy. Ele também lembra de uma jovem Duhêtre que viveu nesta rua no nº...

Eu vou à rua Chanzy; a propriedade atende às indicações dadas pela entidade; o atual inquilino nunca conheceu a sra. Duhêtre, mas ele sabe que essa propriedade foi vendida após o armistício para o proprietário atual, que vive em uma pequena cidade no sudoeste.

Em uma carta escrita a ele pelo Sr. Bourniquel, este senhor respondeu em 20 de outubro e dá como provável endereço da srta Duhêtre o n º 23 do boulevard da República, Saint-Germain (Lembremos que nós mudamos o nome da cidade).

23 De outubro. (Primeira viagem para Saint-Germain).- No n º 23 do boulevard da República a srta Duhêtre é desconhecida. Procuramos no anuário da cidade e encontramos uma jovem senhora de Duhêtre no 27 do mesmo boulevard. Eu vou lá: esta senhora está ausente durante o dia. Obtenho dos zeladores que o Sr. Edmond Duhêtre morreu no edifício em 1906 (Outro erro! Veremos mais adiante que a morte data de 1908. É, então, difícil saber a verdade!) e a srta Louise é sua filha, que viveu em Nanterre, onde ela possuía uma casa de campo; que seu pai era muito rico, que também era o proprietário de casas de campo em Cabourg. Dizem-me também que a srta Louise tem uma irmã religiosa no convento da Visitação, rue Denfert-Rochereau, em Paris, na religião é irmã Adrienne. Os zeladores conheceram o Sr. Duhêtre; eles nunca viram a Sra. Duhêtre, mas eles sabem que ela era de origem italiana. Todas essas informações são dadas a mim sem que eu as tenha provocado.

Eu peço a esses homens para anunciarem minha visita à srta. Duhêtre para o próximo sábado. Em seguida, vou ao cemitério; nos registros, encontro traços do falecimento do sr. Edmond Duhêtre, em 4 de julho de 1908. A partir das indicações dadas pelo funcionário, vou à sepultura, uma lápide negligenciada e coberta de limo sobre a qual se lê a simples inscrição:

GIOVANNI-DUHÊTRE sem data, sem outra indicação.

Sábado, 28 de outubro. (Segunda viagem a Saint-Germain). – A srta. Duhêtre se recusa categoricamente a receber-me, sob o pretexto de que ela não me conhece; ela não quer ouvir nada. Recebido em sua porta, ela disse não conhecer os negócios de sua família e me encaminha a seu advogado para todas as informações, onde não julgo útil me dirigir.

10 de novembro. (Terceira viagem a Saint-Germain). – Eu vou ao escritório de Registro Civil onde o boletim de falecimento anexado me é entregue e onde obtenho que a sra. Duhêtre, nascida Jeanne Giovanni, morreu em Nanterre, em 10 de novembro de 1896.

Rua dos Pouvains. – Tendo as pesquisas encontrado dificuldade para encontrar essa rua, decido completar a investigação com informações mais precisas; em 11 de novembro, vou mais uma vez à Nanterre. Rua Chanzy, me dirijo a vários habitantes, alguns morando ali há mais de 30 anos. O proprietário de uma casa na esquina da rua Chanzy com a praça do marechal Foch me diz que ele mora na mesma casa há uns 40 anos. Ele acredita que a rua dos Pouvains foi rebatizada depois da guerra de 1870, mas, no que lhe concerne, ele sempre a conheceu com o nome de rua Chanzy.

Eu digo que vi um ato notarial datado de 1892 onde a rua dos Pouvains se encontra mencionada; ele me responde que isso é muito normal, pois os atos notoriais geralmente registram ruas, praças, etc. como o nome que elas trazem no momento da construção dos imóveis em causa.

Muitas pessoas no bairro conheceram o sr. e a sra. Duhêtre, e as informações que me dão quanto aos aspectos físico e moral corroboram perfeitamente com os detalhes dados pela entidade. Um comerciante da rua Chanzy, vizinho de muro do sr. Duhêtre, conheceu este último. Entre outros detalhes, ele se lembra do tique nervoso da mandíbula que o afetava, e diz que o sr. Duhêtre morreu de paralisia, todas as informações dadas pela médium.

Eu devo acrescentar que, nas minhas pesquisas, para encontrar a rua dos Pouvains, eu me dirigi à gendarmaria assentada a uma distância de uns dez metros da atual rua Chanzy, e que não encontrei ali nem informações, nem diretivas (Essa é a gota d’água.).

Paris, 12 de novembro de 1922

Gatte

Rua Bachaumont, 9”



A esse relatório é acrescentado o Boletim de Falecimento seguinte:

Prefeitura de...

De um AUTO DE FALECIMENTO dirigido à prefeitura de... em 4 de julho de 1908, aparece que Sr. Jules-Edmond D...... advogado, nascido em Paris (2º distrito), em 15 de agosto de 1824, viúvo de Jeanne......... residindo em......... 27, boulevard da República, faleceu em 4 de julho de 1908, à......

..... 10 de novembro de 1922.

(Carimbo) Assinatura.

Observações. - É realmente útil enfatizar o caráter verídico e claramente espírita dessa manifestação extraordinária? Ela traz tantas evidências, inatacáveis, irrefutáveis, controladas, que nos é suficiente listá-las sem que seja necessário sustentá-las com uma longa argumentação.

Antes da primeira incorporação, que remonta a 2 de abril, Camillo tem o cuidado de nos advertir que o espírito que irá se comunicar será muito interessante, mas que as investigações serão difíceis (no plural). Já vimos como essa previsão foi fundamentada, uma vez que as investigações que começaram desde o dia ulterior à sessão só terminaram em 12 de novembro: assim, duraram mais de 7 meses. A dificuldade vinha principalmente da impossibilidade dos dois investigadores de encontrar a rua dos Pouvains, rebatizada há 50 anos (a médium não tem mais que 35), as pessoas que ali vivem há 40 anos ignoram essa antiga denominação; apenas a senhora encontrada pela Sra. Maillard em um salão de Paris e o antigo funcionário da prefeitura em Nanterre conheciam essa particularidade.

E dificuldades ainda para encontrar a filha de M. Duhêtre: levou 6 meses e meio. O mesmo para as outras informações que puderam ser confirmadas. Camillo e Duhêtre insistem veementemente nas sessões seguintes e Duhêtre, que foi um homem pio e religioso, não hesita em atestar diante de Deus que ele fala a Verdade.

Independentemente dos testemunhos de toda espécie, há ainda o túmulo no qual estão enterrados os dois cônjuges; o Sr. Gatte, da maneira mais conscienciosa, realizou sua investigação até o fim; ele esteve no cemitério, certificou-se da existência passada desses dois seres, enterrados lado a lado; e, após essa visita, ele teve de fazer uma nova viagem, a sexta e última.

Não será possível dizer que a informação foi obtida de modo aligeirado.


XIII

Juntemos os fatos


Vocês fizeram o corte;

Agora é preciso costurar.

(Uma rainha da França, para seu filho)

Quando assistimos experiências nas quais se procuram figurar outras personalidades, não demoramos a perceber que a imaginação dos sujeitos é menos rica que se poderia esperar. A personalidade de um militar, de um padre, de uma dançarina, etc., se reproduz quase sempre com variações imperceptíveis; vê-se nitidamente que o reservatório onde a imaginação subliminal se alimenta não é inesgotável.

É muito diferente quando são individualidades desconhecidas que são conhecidos por nós por meio dos médiuns; aqui, a variedade é infinita, como a que se encontra ao frequentar personagens humanos. Em geral, sua maneira de falar é característica, em estreita relação com os costumes, o estilo de vida, os negócios do desencarnado. Estas são diferenças que nos permitem distinguir perfeitamente o que vem do fundo intelectual do médium daquilo que chega a ele externamente.

As nuances de caráter são igualmente muito marcantes; algumas entidades do além suportam com muita dificuldade o interrogatório ao qual são submetidos; algumas se exprimem com veemência ou grosseiramente, como o faria um indivíduo rude ao qual se colocassem questões que lhe parecessem indiscretas: “De que isso poderia lhe s...?” protesta um deles; e um outro: “Por que o senhor está me perguntando tudo isso? O senhor não é nem meu parente, nem meu amigo; em que isso poderia interessar-lhe?”. Outros, um pouco mais complacentes, consentem, depois que sumariamente informados, em fornecer alguns detalhes íntimos e isso é um dos pontos mais interessantes, porque nos permite uma verificação ulterior.

É de se notar que os espíritos de camponeses continuem a se interessar pelo trabalho da terra; eles falam dele com visível satisfação, e todos, de resto, em tudo que foi aqui sua principal ocupação.

Aqueles que são mais instruídos se exprimem com um vocabulário mais refinado, vindo de sua educação; mas, de modo geral, os espíritos com os quais estivemos em relação nos pareceram pouco evoluídos. Eles seguiram o curso da vida comum sem tentar compreender por que eles vieram ao mundo e, salvo exceção, (notadamente Duhêtre), não parece que os ensinamentos religiosos tenham deixado neles um traço profundo.

Inconscientemente, eles eram materialistas, ou mais exatamente, agnósticos; eles deixavam correr sua existência de uma maneira quase automática e a responsabilidade das faltas que eles possam ter cometido parece singularmente atenuada, eles não parecem estar verdadeiramente incomodados por elas; eles não têm, não mais, grandes satisfações; é possível senti-los num grau inferior da vida astral. Para a maioria, não fazem mais que despertar, e ainda incompletamente, da turbidez que sucede a morte.

Pudemos libertá-los dessa situação e permitir-lhes tomarem melhor consciência de si; será interessante, em pesquisas ulteriores, proceder com o estudo dessas individualidades, a fim de nos dar conta das mudanças que poderão acontecer em seu estado.

Muitos dentre eles não duvidam que existem em seu meio seres mais evoluídos: eles são tão ignorantes dos habitantes do além quanto quando estavam na terra. Parece que seus sentidos perispirituais não são mais desenvolvidos do que eram seus órgãos de encarnados, eles não têm mais que sensações materiais por vezes diminutas, e, necessariamente, sua mentalidade não se encontra consideravelmente modificada; nesse ponto de vista, a morte não criou hiatos entre esses dois modos de existência e mais uma vez se verifica o aforismo de Leibniz: Natura saltus non facit.

A vida terrestre continua na vida astral e a turbidez em que esses espíritos estão imersos pode se prolongar por muito tempo, uma vez que temos constatado que alguns indivíduos mortos há meio século ou ainda mais pareciam despertar de um longo sonho e retomavam a vida astral do mesmo ponto do Tempo que a tinham deixado.

É, então, o perispírito o verdadeiro corpo permanente da alma, e a mentalidade do ser é devida às sensações registradas nele, mesmo depois que ele se separa do corpo físico.

Mas, e a observação é importante, quando se chega a mostrar a esses seres sua situação real, sua mentalidade se modifica; pouco a pouco, eles tomam consciência de seu novo estado e à medida que se identificam nele, eles passam a ter novas percepções; eles veem outros espíritos que são superiores a eles e recebem ensinamentos deles. É assim que Camillo tem frequentemente ajudado alguns desencarnados não somente a se reconhecerem, mas também a se familiarizarem com a vida do espaço.

De acordo com o que sabemos pelas investigações feitas anteriormente, é certo que aqueles não ficarão nesse estado inferior; eles acabarão por adquirir o inteiro conhecimento do que são e, ao mesmo tempo, vão desvanecer progressivamente as criações ideoplásticas que faziam com que as novas condições de vida fossem consideradas análogas à da terra. Encontramos o mesmo em Camillo, quando ele diz (sessão de 4 de março de 1922): “o espírito nem sempre se apercebe: acontece de ele confundir um encarnado com um desencarnado”.

É, portanto, de extrema importância para cada um de nós conhecer desde agora os diferentes estados da vida futura; isso vai evitar que venhamos a ser a presa de monoideísmos que por longos períodos impedem a alma desencarnada de compreender a realidade; seria bastante útil porque as condições pós-morte são muitas vezes muito penosas, quando o espírito se imagina estar no purgatório ou no inferno e experimenta dessa ilusão sofrimentos indizíveis.

Nós tivemos contato com um pequeno número de habitantes do além, nossa investigação não poderia comportar o conjunto de desencarnados, mesmo na categoria daqueles que ainda estão nas camadas mais vizinhas à da Terra; porém, nosso contato é bastante demonstrativo porque nos mostra que a sobrevivência é a lei e que o princípio pensante é realmente independente do organismo físico daqui.

Ele nos mostra, também, o períspirito guardião indefectível de nossa individualidade e de nossos estados de consciência, arquivista de nossa vida mental, conservador de nossas aquisições psíquicas, que uma transformação tão radical como a morte não poderia destruí-las.

É possível fazer aproximações úteis entre os fenômenos que observamos entre nós, tais como o da regressão da memória, e o que acontece no além. É certo, por exemplo, que o pequeno Mimi Lenay não ficou desde sua morte preso aos horríveis sofrimentos de sua agonia, a reproduzida por Albertina; do mesmo modo para os outros espíritos que figuraram os sintomas das doenças que os levaram à desencarnação. É infinitamente provável que esses seres pouco evoluídos, ao incorporarem, sofram automaticamente essa regressão da qual fomos testemunhas com muita frequência.

Parece, pois, que os estados mentais e psico-fisiológicos concomitantes se conservam integralmente no invólucro fluídico e que eles se reproduzem automaticamente, necessariamente um chamando o outro.

Daí, não é de surpreender que se encontrem na memória dos desencarnados as mesmas confusões, os mesmos erros, as mesmas lacunas que se constatam nos humanos nas mesmas condições, quer dizer, durante o delírio ou nas doenças que entravam as faculdades do cérebro.

Independentemente dessas causas psicológicas, é preciso notar que nossas relações com os desencarnados, tal como diversas vezes apontamos, se complicam pela dificuldade que o espírito experimenta ao servir-se de um organismo que lhe é totalmente estranho.

Já na Terra, temos muitas vezes a experiência de que é bastante difícil fazer-se compreender por meio do telefone de um correspondente cujo posto receptor está em más condições. Repete-se a mesma palavra com uma impaciência crescente e sempre chega deformada a outra extremidade do fio. Essas damas do P. T. T. poderiam falar disso voluntariamente.

Não sejamos, pois, demasiado exigentes supondo que as relações devam estabelecer-se entre dois postos cuja afinação é tão difícil de realizar; a corrente fluídica que as liga nem sempre pode se dar na mesma intensidade, nem a vibração perispiritual em sincronismo constante com o receptor mediúnico.

Mais tarde, sem dúvida, quando esses estudos forem levados aos laboratórios pelos intelectuais, chegaremos a descobrir as leis que presidem esses problemas.

Nesse dia, um imenso passo será dado.

No capítulo VI fizemos um estudo das visões psicométricas da senhorita Jeanne Laplace. Apoiando em sua fronte um objeto vindo da pessoa que deseja se consultar, ela tem imediatamente a visão muito nítida de eventos relacionados a essa pessoa. O fato é bem conhecido, ele foi estudado de modo muito completo, nas obras de vários psiquistas.

O objeto levado à vidente é necessário para estabelecer uma relação psíquica entre ela e o consulente, estando este presente ou não; e nos casos bem controlados, quando esta condição não é atendida, a visão não acontece. Do contrário, assim que estabelecida a relação, imediatamente se apresentam imagens, cenas animadas, pessoas. A médium não faz mais que seguir a pista e descrever os eventos que se desenvolvem diante dela, como numa tela.

É, pois, o contato do objeto que desperta a lucidez do sujeito. Se fosse necessário apoiar nossa afirmação com uma prova formal, nós a encontraríamos em uma experiência feita em Varsóvia, por M. Ossowiecki. A relação foi publicada pela Revista Metafísica (julho-agosto de 1922, página 251. Ver também a “Revista científica e Moral do espiritismo”, dezembro de 1922, páginas 364-5); ela foi enviada ao doutor Geley pela testemunha direta, a Sra. Aline de Glass, mulher do juiz da corte suprema da Polônia.

Durante uma visita a casa da general Krieger, mãe de Ossowiecki, a Sra. de Glass pergunta a ele se ele poderia informar sobre um broche que ela tinha perdido. Ele, então, descreve a ela um broche que foi encontrado na mesma caixa que o outro, mas ele não conseguia dar informações mais precisas, salvo se tivesse algo de material relativo ao objeto.

“Senhor, diz a Sra. de Glass, o broche estava preso aqui neste vestido”.

Ossowiecki pousa seus dedos sobre o lugar indicado e ao cabo de alguns segundos diz: “Sim, eu o vejo; ele é oval, de ouro, muito leve, é um broche antigo que lhe é caro como uma lembrança de família; eu poderia desenhá-lo para a senhora, pois o vejo claramente. Ele tem como que orelhas; é composto de duas partes, que entram uma na outra como se fossem dedos entrelaçados...

- Mas é extraordinário o que o senhor diz; justamente há como que dedos entrelaçados.

- Eu vejo, a senhora o perdeu muito longe daqui (realmente foi a uma distância de 4 kilometros). Sim, rua Mokolowska, esquina da rua Koszykowa.

- Mas, sim, foi lá que eu fui hoje.

- Um homem de bigode preto se inclina e o pega. Será muito difícil recuperá-lo. Tente fazer anúncios nos jornais”.

No dia seguinte, meu irmão vem a minha casa e exclama: “Milagre, milagre! Seu broche foi encontrado. Ossowiecki me telefonou dizendo que você apenas deve ir amanhã, às 5 horas, a casa da general Jacyna, irmã dele, e que ele o enviará”.

Em 7 de junho vou à general; pergunto ao sr. O.: “E meu broche, o senhor está com ele?

- Esteja certa, senhora, nós vamos vê-lo. E ele me mostrou meu broche. Era um verdadeiro milagre.”

O. conta então a seguinte história:

“No dia seguinte ao nosso encontro, fui pela manhã ao banco. Na entrada, reparei um homem que me parecia já ter visto em algum lugar; no mesmo momento, lembrei que era justamente o homem que eu vi, nas minhas ideias, ter pego seu broche. Eu o tomei gentilmente pela mão e lhe disse: “Senhor, o senhor encontrou ontem um broche na esquina da rua Mokolowska e Koszykowa. – Sim, ele disse espantado, - Onde ele está? – Em casa; mas como a senhora o sabe?” Eu dei a descrição do broche e contei tudo que havia acontecido. Ele ficou pálido e confuso. Ele me trouxe o broche cuja descoberta ele iria anunciar nos jornais”.

Esse relato é muito sugestivo; ele nos mostra o sujeito procurando em vão visualizar e perdendo o objeto; ele encontra o caminho assim que toca com os dedos a parte de uma vestimenta sobre a qual o broche esteve preso; a visão é tão nítida que ele pode, em seguida, reconhecer o homem que o havia encontrado e fazer com que ele o restitua.

Isso demonstra indiscutivelmente a necessidade de estabelecer pelo contato de um objeto pessoal uma relação psíquica entre a pessoa que consulta e o médium; é isso que sempre acontece nas experiências tão marcantes feitas com a srta. Laplace.

Trata-se aqui de uma faculdade cinematográfica muito interessante, mas à qual é preciso dar, antes de tudo, uma interpretação animista.

Bem ao contrário, na série experimental de Albertine, que se tratem de visões ou de incorporações, nenhuma relação psíquica, direta ou indireta, intervém entre ela e o comunicante; nenhum dos assistentes jamais soube, no momento da abertura das sessões, qual espírito iria se manifestar; nenhum teve o menor indício sobre a existência terrestre desse último.

Não seria, portanto, na prática psicométrica que se poderia encontrar explicação de suas experiências que, já dissemos e precisamos, são de uma ordem diferente.

Entre as revelações que fizemos, fomos frequentemente obrigados a lançar um véu espesso sobre verdades por vezes muito brutais. Atos desonestos, delituosos ou criminosos, incêndios voluntários, abortos, desvios, nos foram confessados pelas entidades desejosas de aliviar a consciência. Por meio de investigações discretas, conseguimos verificá-las.

Se nós não estivéssemos atrás apenas do interesse de nossas concepções; se, imitando alguns jornalistas esgotados em sua seiva intelectual, não tivéssemos procurado mais que a publicidade pelo escândalo, estaríamos abundantemente providos; mas nosso desejo de ver triunfar nossas ideias se impôs diante das conveniências, diante do segredo profissional que, na circunstância, era um segredo confessional. Não teria sido leal fartar a curiosidade do público apresentando fatos privados cuja confiança de pobres desencarnados nos havia feito os guardiões involuntários.

E, no entanto!... quanta força de convicção, quantas provas absolutas nessas confissões por vezes ingênuas!

Quem, pois, entre nós, teria imaginado tal ou qual detalhe sinistro ou macabro, cuidadosamente escondido em segredos de família e que uma alma errante vinha nos confiar em sua aflição? Quem, pois, teria suspeitado a probidade de uns, a fidelidade de outros? Quem, pois, teria podido conhecer o drama íntimo no qual em outro tempo se empenhava toda a honra de uma casa?

Esses numerosos fatos, que foram grandes eventos para aqueles que os vivenciaram em outros tempos e dos quais muito frequentemente não resta nenhuma testemunha, nós não o inventamos. Ainda que se desse à criptestesia toda amplitude, toda extensão que se desejasse, seria impossível conhecê-los.

E se o professor Richet tivesse escutado diretamente o relato deles, ao invés de dizer: A prova da vida após a morte não está dada, mas apresso-me a acrescentar que estamos muito perto dela (“Tratado de Metafísica”, página 778), nós teríamos a certeza de que ele teria fielmente declarado: A prova da vida após a morte é, de agora em diante, um fato confiável.

Os leitores de boa fé reconhecerão, de fato, que tratamos de descartar todos as causas de erro, e apesar da dificuldade de evitá-las por completo, estimamos que alcançamos o objetivo. Isso não impedirá os contraditores, principalmente aqueles que jamais assistiram nossas investigações, de insinuar que nossos procedimentos não são científicos.

Mas, primeiro, o que se entende por: científico? O que é científico e o que não é? Nós não vamos, à exemplo de Brunetière, proclamar a falência da ciência; mas, enfim, com seus métodos, suas teorias e seus dogmas, ela pretende a tudo demonstrar?

Ela pode explicar a magnetização, o fluido elétrico, o magnetismo terrestre, a atração universal, as manchas solares?

Por que os raios do sol chegam quentes à Terra, depois de ter perdido todo calor nas regiões de frio intenso pelas quais passaram?

Por que as nuvens formadas seja por partículas sólidas (erupção do Krakatoa), seja pelo gelo, não caem?

Por que os raios de luz atravessam o vidro polido e os raios refletidos pelo olho não o atravessam?

Por que, nos compostos químicos, jamais se encontram as propriedades dos componentes? Exemplo: o cloreto de sódio (sal marinho) não possui nem a toxidade do cloro, gás asfixiante, nem a afinidade para o oxigênio do sódio, que queima espontaneamente na água.

Por que, quando uma mesma quantidade de calorias é absorvida por dois corpos de natureza diferente, mas tendo a mesma forma e mesmo volume, a elevação da temperatura não é a mesma?

A nutrição dos seres animados exige uma desmaterialização total da matéria; se se admite que a matéria animada traz em si sua personalidade, deve-se admitir ao mesmo tempo que quando o antropófago come seu vizinho, a personalidade da matéria muda. O mesmo quando vemos um cachorro engolir uma costeleta ou um boi ruminar alfafa, acontece isso: a ovelha se transformará em cachorro e a erva em boi. Como e por que?

Assim, convivemos todos os dias com mistérios que nos espantam e aos quais o costume nos leva a não prestar atenção neles. Desconfiemos do testemunho de nossos sentidos.

O Monsenhor Sibour, em viagem, se encontrava à mesa do anfitrião ao lado de um caixeiro viajante que comovia por não querer crer além de sua compreensão.

“O senhor compreende, pergunta o prelado, por que o fogo faz derreter a manteiga e endurecer o ovo?

- Não, respondeu o outro.

- Isso lhe impede, replica Monsenhor Sibour, de crer em omelete?”

As aparências das coisas nos induzem constantemente ao erro; os antigos, vendo o sol se levantar no leste e se deitar no oeste, tinha a ilusão de que o sol girava em torno da terra. Os erros são devidos com frequência a nossa ignorância das causas verdadeiras; é assim que um bastão mergulhado na água nos parecerá quebrada se ignorarmos as leis da refração.

Se, então, nos ativermos somente ao lado exterior das coisas, se não virmos para além da Matéria, se não formos capazes de libertar uma filosofia daquilo que nos revelam nossos sentidos, nos manteremos sempre no erro.

O futuro da Matéria, de resto, parece muito comprometido. De todas as partes, ela recebe assaltos aos quais ela resiste ainda valentemente, mas já se escutam rachaduras significativas do lado do trono soberbo do alto do qual ela reina sobre o mundo. As células se dissociam, os átomos explodem, os elétrons dançam uma vertiginosa sarabanda em torno dos íons. A Matéria v...ai embora, diria a sra. du Barry.

Seria curioso saber o que pensam os intelectuais quanto a esse estado de coisas.

As últimas teorias não parecem tê-las prejudicado. Impavidum ferient ruinoe. Sra Curei, que o sr. Paul Henzé é o único a considerar como espírita, a sra. Curie não parece bem decidida: “Quem pode saber o que é a Matéria? Eu sei, Eu, o que é a Matéria?” declara ela, sorrindo.

Então, se essa pessoa douta está tão mal informada, quem o estaria mais que ela?

Teriam os intelectuais consagrado tanto zelo ao estudo da Matéria para chegar a essa negação: Nós não a conhecemos, mas ela existe? E isso lhes dá maior autoridade para dizer da Alma, que eles jamais estudaram: Nós a conhecemos, mas ela não existe?

Eles sabem melhor o que é a Morte?

Eles sabem somente, de modo preciso, em que momento a Vida se torna Morte?

Eles não parecem seguros quanto a isso.

Bouchut afirma que há tantos sinais exatos, imediatos e distanciados da Morte que é impossível que um médico verdadeiramente instruído possa confundir a morte aparente com a morte real. E ele aponta, para evitar que se enterrem pessoas vivas, dezesseis índices entre os quais se encontra a falha na ação da atropina sobre o olho morto (Doutores Bouchut e Desprè. – Dicionário de Medicina).

Precisamente, os doutores Ginestous e Lande tiveram recentemente a oportunidade de examinar os olhos de um guilhotinado 25 minutos após a decapitação. Eles relatam à Sociedade de Medicina e de cirurgia de Bordeaux os resultados desse exame.

“Às 6h45, dizem, portanto ¾ de hora depois da execução, instilamos no olho direito 3 gotas de um colírio com atropina e no olho esquerdo 3 gotas de um colírio com eserina (A atropina dilata a pupila e a eserina a contrai). Depois de ¼ de hora, a pupila direita pareceu sofrer uma leve dilatação; a esquerda não variou. Porém, por volta das 8 da manhã, um de nós e nosso confrade Portamn constatamos um aumento da midríase (dilatação) na direita e, o contrário, miose (contração) na esquerda. As pupilas parecem, então, ter reagido” (Savoir. – 7 de outubro de 1922).

Assim, duas horas depois da decapitação, quando todos os vasos se encontravam cortados com o eixo nervoso, quando o cérebro não recebia mais do coração seu alimento fisiológico, a persistência da vida se manifestava ainda na cabeça do morto.

Bouchot é formal: enquanto há vida, a influência da atropina se revela em poucos minutos, em meia hora no máximo, pela dilatação da pupila: mas quando a vida se foi, a iris resta imóvel e a atropina não tem mais nenhum efeito sobre a pupila (Dr. Bouchut. – Os sinais da morte).

No dicionário das Ciências Médicas, de Dechambre, (artigo suplícios) encontra-se uma relação equivalente: Duas cabeças guilhotinadas tendo sido expostas durante quinze minutos à uma luz viva, pálpebras suspendidas, se fecham rapidamente. Um outro guilhotinado, de nome Dutillier, virava os olhos para o lado onde o chamavam...

Esses exemplos provam que a vida e a consciência não foram cortadas pelo golpe do carrasco; este, com o aço, libera o espírito preso ao corpo físico, como se fosse uma gota de ácido pondo em liberdade a bolha de gás contida num pedaço de giz.

Fizeram-nos uma queixa quanto a condição humilde dos espíritos que vêm a nós. Certamente, estaríamos muito honrados de ser visitados pelos gênios da humanidade e nós teríamos mostrado, por recebê-los dignamente, que sabemos o que se exige de nós, a hierarquia, o protocolo e a deferência.

Porém, Victor Hugo ficou calado e Gambelta não trovejou; nós nos consolamos, pois o que nós temos precisamente buscado são pessoas sem notoriedade e sem História. A bela dificuldade, verdadeiramente, para um sujeito bem exercido, de acampar um Napoleão belicoso e proclamador ou de recitar um desses epigramas que Voltaire lançava aos senhores e que faziam enrubecer as damas (Sem contar que os discursos desses pretensos médiuns são sempre falhos e que suas estrofes são tolas). Os grandes homens? Deixemo-los dormir em paz; eles talvez tenham mais necessidade de repouso do que os pequenos. Seus raciocínios são frequentemente falsos; eles também, como os outros, têm necessidade de ir à escola e, em todo caso, eles não teriam podido nos dizer do que nós queremos saber no que se refere a essas grandes questões; de resto, nós jamais o chamamos.

Nossas concepções ampliaram, graças a essa psicologia experimental que nos leva progressivamente à descoberta da alma, a constatação de sua existência, de sua preexistência e de sua sobrevivência. Por ela, conhecemos a lei moral que tudo rege.

Todos os deístas partem do princípio de que se existe uma inteligência diretora do Universo, esta deve ser justa e a experimentação espírita confirma essa indução. O espírito de Léo que impulsionou ao suicídio sua viúva, Sra. Formosa, acreditava poder encontrá-la no além; ele percebeu estupefato que essa violação da lei moral o separava do objeto de seu amor por um período indeterminado.

Eis uma confirmação experimental que, juntando-se a várias outras, nos forneceu uma prova de que a justiça imanente não é uma palavra vã, mas uma realidade efetiva e que todo ato moral comporta uma sanção inevitável.





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