Ficha Catalográfica Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica



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Meditacoes Marco Aurelio.pdf



Ficha Catalográfica
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica
Denny Guimarães de Souza Salgado
Willy de Almeida Rodrigues Salgado
Editora Kiron
Editoração Eletrônica da Capa
Paulo de Tarso Soares Silva
Editora Kiron
Organizador da Coleção
Daniel Alves Machado
Tradução
Thainara Castro Lima
Revisão
André Vasconcelos Barros
Impressão e Acabamento
Editora Kiron (61) 3563-5048 / (83) 3042-5757 www.editorakiron.com.br /
editora@editorakiron.com.br
1491
Marco Aurélio
Meditações / Marco Aurélio. Tradução de Thainara Castro. – Brasília:
Editora Kiron, 2011.
188 p. : il ; 15 cm
ISBN 978-85-8113-030-9
1. Filosofia. 2. Estoicismo. I. Título.
CDU: 180


Apresentação
A palavra filosofia vem do grego philos (amigo ou amante) e sophia (sabedoria). O filósofo é,
portanto, aquele que ama a sabedoria e, por não tê-la, busca-a constantemente, em toda forma de
conhecimento e em todos os lugares.
A Coleção Filosofia à Maneira Clássica resgata as grandes obras do pensamento universal, que
são como ferramentas para essa busca. Possibilita um estudo comparativo de diversas tradições,
tanto do Oriente quanto do Ocidente, visando a responder aqueles questionamentos que todo ser
humano se faz: “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?”.
Estude Filosofia de forma prática, dinâmica e atrativa, aprendendo com os grandes mestres de
sabedoria a encontrar respostas e entender melhor a si mesmo e ao mundo!


Introdução
Marco Marco Aurélio Antonino Augusto, conhecido como Marco Aurélio, nasceu em 26 de abril
de 121 e foi imperador romano desde 161 até sua morte em 17 de Março de 180.
Seu nome de nascimento é, na verdade, Marco Ânio Catílio Severo. Em seguida, tomou o nome
de Marco Ânio Vero pelo casamento. Somente ao ser ser designado imperador, mudou o nome para
Marco Aurélio Antonino, acrescentando-lhe os títulos de Imperador, César e Augusto. Aurelius
significa “dourado”, e a referência a Antoninus deve-se ao facto de ter sido adotado pelo seu tio e
imperador Antonino Pio.
O imperador Antonino Pio designou Marco Aurélio como herdeiro em 25 de Fevereiro de 138
(pouco depois de ele mesmo ter sucedido ao imperador Adriano). Marco Aurélio tinha, então, apenas
17 anos de idade. Antonino, no entanto, também designou Lúcio Vero como sucessor. Quando
Antonino faleceu, Marco Aurélio subiu ao trono em conjunto com Vero, na condição de serem co-
imperadores Augusto.
Não se sabe ao certo os motivos da sucessão conjunta, mas especula-se que pode ter sido
motivada pelas cada vez maiores exigências militares que o Império atravessava. Durante o reinado
de Marco Aurélio, as fronteiras de Roma foram constantemente atacadas por diversos povos: na
Europa, germanos tentavam penetrar na Gália; e na Ásia, os partos renovaram os seus assaltos. Sendo
necessária uma figura autoritária para guiar as tropas, e não podendo o mesmo imperador defender as
duas fronteiras simultaneamente.
Sendo assim, Marco Aurélio teria resolvido a questão enviando o co-imperador Vero como
comandante das legiões situadas no Oriente. Vero era suficientemente forte para comandar tropas, e
ao mesmo tempo já detinha parte do poder, o que certamente não o encorajava a querer derrubar
Marco Aurélio. O plano deste último revelou-se um sucesso - Lúcio Vero permaneceu leal até à sua
morte, em campanha, no ano 169.
Marco Aurélio casou-se com Faustina, a jovem, filha de Antonino Pio e da imperatriz Faustina, a
Velha, em 145. Durante os seus trinta anos de casamento, Faustina gerou 13 filhos, entre os quais
Cômodo, que se tornou imperador após Marco Aurélio, e Lucila, a qual casou com Lúcio Vero para
solidificar a sua aliança com Marco Aurélio.
O imperador faleceu em 17 de março de 180, durante uma expedição contra os marcomanos, que
cercavam Vindobona (atual Viena, na Áustria). As suas cinzas foram trazidas para Roma, e
depositadas no mausoléu de Adriano. Diz-se que, com a morte de Marco Aurélio, também foi a morte
da Pax Romana (paz romana), período de relativa paz, instaurado em 27 a.C. por Augusto César, no
qual a população romana viveu protegida do seu maior receio: as invasões dos bárbaros que viviam
junto às fronteiras.
Porém, nem as misérias, nem as inúmeras calamidades que se desencadearam sobre o Império,


nem as constantes lutas contra os bárbaros que incessantemente planejavam invadir, e invadiam,
Roma, nem as desgraças familiares puderam debilitar aquela inteligência e aquela vontade presente
no imperador. Essa é uma característica marcante nesse imperador-filósofo, que manteve sempre sua
honra, sua bondade e seu senso de justiça.
Em meio a tudo isso, Marco Aurélio escrevia reflexões pessoais para si mesmo, repletas dos
mais altos códigos morais, aproveitando os momentos livres que lhe deixavam suas campanhas,
como uma fonte para sua própria orientação e para se melhorar como pessoa. Provavelmente, ele não
teve a intenção de publicar seus escritos, cujo título inicial foi Solilóquios, ou A mim mesmo.
Os escritos apresentam bem as ideias estóicas que giram em torno da negação de uma emoção,
de uma habilidade, que, segundo o imperador, libertarão o homem das dores e dos prazeres do
mundo material. A única maneira de um homem ser atingido pelos outros seria se ele permitisse que
sua reação tomasse conta de si. Marco Aurélio não mostra qualquer fé religiosa em particular nos
seus escritos, mas parecia acreditar que algum tipo de força lógica e benevolente organizasse o
universo de tal maneira que até mesmo os acontecimentos “ruins” ocorressem para o bem do todo.
Posteriormente, foi intitulado, “Meditações” e é, com certeza, uma das mais célebres obras da
humanidade.


Livro I
1. Aprendi com meu avô Verus: o bom caráter e a serenidade.
2. Da reputação e memória legadas por meu pai: o caráter discreto e viril.
3. De minha mãe: o respeito aos deuses, a generosidade e a abstenção não somente do agir mal, como
também de incorrer em semelhante pensamento; mais ainda, a frugalidade no regime de vida e o
distanciamento do modo de viver próprio dos ricos.
4. Do meu bisavô: o não haver frequentado as escolas públicas e ter desfrutado de bons mestres em
casa, e ter compreendido que, para tais fins, é preciso gastar com generosidade.
5. Do meu preceptor: o não ter pertencido à facção nem dos Verdes, nem dos Azuis, nem partidário
dos Grandes-Escudos, nem dos Pequenos-Escudos; o suportar as fatigas e ter poucas necessidades; o
trabalho com esforço pessoal e a abstenção de excessivas tarefas, e a desfavorável acolhida à
calúnia.
6. De Diogneto: o evitar inúteis ocupações; e a desconfiança do que contam os que fazem prodígios e
feiticeiros sobre encantamentos e invocação de espíritos, e de outras práticas semelhantes; e o não
dedicar-me à criação de codornas nem sentir paixão por essas coisas; o suportar a conversa franca e
familiarizar-me com a filosofia; e o ter escutado primeiro a Báquio, depois a Tandárido e Marciano;
ter escrito diálogos na infância; e ter desejado a cama coberta de pele de animal, e todas as demais
práticas vinculadas à formação helênica.
7. De Rústico: o ter concebido a idéia da necessidade de direcionar e cuidar do meu caráter; o não
ter me desviado para a emulação sofista, nem escrever tratados teóricos nem recitar discursos de
exortação nem fazer-me passar por pessoa ascética ou filantrópica com vistosos alardes; e o ter me
afastado da retórica, da poética e dos belos modos. E o não passear de toga pela casa e nem fazer
coisas semelhantes. Também o escrever as cartas de maneira simples, como aquela que ele mesmo
escreveu em Sinuessa para minha mãe; o estar disposto a aceitar com indulgência a chamada e a
reconciliação com os que nos ofenderam e incomodaram, assim que queiram retratar-se; a leitura
com precisão, sem contentar-me com umas considerações gerais, e o não dar meu consentimento com
prontidão aos charlatões; o haver tido contato com os Comentários de Epicteto, das quais me
entregou uma cópia sua.
8. De Apolônio: a liberdade de critério e a decisão firme, sem vacilo nem recursos fortuitos; não
dirigir o olhar a nenhuma outra coisa além da razão, nem sequer por pouco tempo; o ser sempre
inalterável, nas fortes dores, na perda de um filho, nas enfermidades prolongadas; o ter visto
claramente, em um modelo vivo, que a mesma pessoa pode ser muito rigorosa e, ao mesmo tempo,


despreocupada; o não mostrar um caráter irracional nas explicações; o ter visto um homem que
claramente considerava como a mais ínfima de suas qualidades a experiência e a diligência ao
transmitir as explicações teóricas; o ter aprendido como se deve aceitar os aparentes favores dos
amigos, sem desejar ser subornado por eles nem rejeitá-los sem tato.
9. De Sexto: a benevolência, o exemplo de uma casa governada patriarcalmente, o projeto de viver
conforme a natureza; a dignidade sem afetação; o atender aos amigos com presteza; a tolerância para
com os ignorantes e para com os que opinam sem refletir; a harmonia com todos, de tal forma que seu
trato era mais agradável que qualquer adulação, e os demais, naquele preciso momento, sentiam o
máximo respeito por ele; a capacidade de descobrir com método indutivo e ordenado os princípios
necessários para a vida; o não ter dado nunca a impressão de cólera nem de nenhuma outra paixão,
mas antes, ser o menos afetado possível pelas paixões e, ao mesmo tempo, ser o que mais
profundamente ama a humanidade; o elogio, sem estridências; o saber multifacetado, sem alardes.
10. De Alexandre, o gramático: a aversão à crítica; o não repreender com injúrias os que tenham
proferido um barbarismo, solecismo ou som mal pronunciado, mas proclamar com destreza o termo
preciso que deveria ser pronunciado, em forma de resposta, ou de ratificação ou de uma
consideração em comum sobre o próprio tema, não sobre a expressão gramatical, ou por meio de
qualquer outra sugestão ocasional e apropriada.
11. De Frontão: o ter me detido a pensar como é a inveja, a astúcia e a hipocrisia própria do tirano, e
que, em geral, os que entre nós são chamados “eupátridas”, são, de certa forma, incapazes de afeto.
12. De Alexandre, o platônico: o não dizer a alguém muitas vezes e sem necessidade ou lhe escrever
por carta: “estou ocupado”, e não recusar, assim, sistematicamente, as obrigações que impõem as
relações sociais, com a justificativa de ter muitas ocupações.
13. De Catulo: o não dar pouca importância à queixa de um amigo, ainda que casualmente fosse
infundada, mas tentar consolidar a relação habitual; o elogio cordial aos mestres, como faziam
Domício e Atenodoto; o amor verdadeiro pelos filhos.
14. De “meu irmão” Severo: o amor à família, à verdade e à justiça; o ter conhecido, graças a ele, a
Tráseas, Helvídio, Catão, Dião, Bruto; o ter concebido a idéia de uma constituição baseada na
igualdade ante a lei, regida pela equidade e pela liberdade de expressão igual para todos, e de uma
realeza que honra e respeita, acima de tudo, a liberdade de seus súditos. Dele também: a
uniformidade e constante aplicação a serviço da filosofia; a beneficência e generosidade constante; o
otimismo e a confiança na amizade dos amigos; nenhuma dissimulação para com os que mereciam sua
censura; o não requerer que seus amigos conjecturassem sobre o que queriam ou o que não queriam,
pois estava claro.
15. De Máximo: o domínio de si mesmo e o não deixar-se arrastar por nada; o bom humor em todas
as circunstâncias e, especialmente, nas enfermidades; a moderação de caráter, doce e, ao mesmo
tempo, grave; a execução, sem teimar, das tarefas propostas; a confiança que todos tinham nele,
porque suas palavras respondiam a seus pensamentos e em suas atuações procedidas sem má fé; o


não surpreender-se nem perturbar-se; em nenhum caso, precipitação ou lentidão, nem impotência,
nem abatimento, nem riso a gargalhadas, seguidas de acessos de ira ou de receio. A benevolência, o
perdão e a sinceridade; o dar a impressão de homem reto e inflexível mais que retificado; que
ninguém se sentisse menosprezado por ele, nem suspeitasse que se considerava superior a ele; sua
amabilidade enfim.
16. De meu pai: a mansidão e a firmeza serena nas decisões profundamente examinadas. O não
vangloriar-se com as honras aparentes; o amor ao trabalho e à perseverança; o estar disposto a
escutar aos que podiam contribuir de forma útil para a comunidade. O dar, sem vacilo, a cada um
segundo seu mérito. A experiência para distinguir quando é necessário um esforço sem desmaios, e
quando é preciso relaxar. O saber por fim às relações amorosas com os adolescentes. A
sociabilidade e o não consentir aos amigos que participassem, sempre, de suas refeições e que não o
acompanhassem, necessariamente, em seus deslocamentos; mas antes, quem o tivesse deixado,
momentaneamente, por alguma necessidade, o encontrasse sempre igual. O exame minucioso nas
deliberações e na tenacidade, sem aludir a indignação, satisfeito com as primeiras impressões. O
zelo ao conservar os amigos, sem mostrar nunca desgosto nem louca paixão. A auto-suficiência em
tudo e a serenidade. A previsão de longe e a regulação prévia dos detalhes mais insignificantes sem
cenas trágicas. A repressão das aclamações e de toda adulação dirigida a sua pessoa. O velar
constantemente pelas necessidades do Império. A administração dos recursos públicos e a tolerância
à crítica em qualquer uma dessas matérias; nenhum temor supersticioso em relação aos deuses, nem
disposição para captar o favor dos homens mediante agasalhos ou esmolas ao povo; pelo contrário,
sobriedade em tudo e firmeza, ausência absoluta de gostos vulgares e de desejo inovador. O uso dos
bens que contribuem para uma vida fácil e a fortuna, os usufruía em abundância, sem orgulho e, ao
mesmo tempo, sem pretextos, de tal forma que os acolhia com naturalidade, quando os possuía, mas
não sentia necessidade deles quando lhe faltavam. O fato de que ninguém o tivesse tachado de
sofista, vulgar ou pedante; pelo contrário, era tido por homem maduro, completo, inacessível à
adulação, capaz de estar à frente dos assuntos próprios e alheios. Além disso, o apreço pelos que
filosofam de verdade, sem ofender aos demais nem deixar-se, tampouco, ser enganado por eles; mais
ainda, seu trato afável e bom humor, mas não em excesso. O cuidado moderado do próprio corpo,
não como quem ama a vida, nem com excessos nem com negligência, mas de maneira que, graças ao
seu cuidado pessoal, em contadíssimas ocasiões, teve necessidade de assistência médica, de
fármacos e remédios. E, especialmente, sua complacência, isenta de inveja, aos que possuíam alguma
faculdade, por exemplo, a facilidade de expressão, o conhecimento da história, das leis, dos
costumes ou de qualquer outra matéria; seu afinco em ajudá-los para que cada um conseguisse as
honras de acordo com sua peculiar excelência; procedendo em tudo segundo as tradições ancestrais,
mas procurando não fazer ostentação nem sequer disso: de velar por essas tradições. Além disso, não
era propício a movimentar-se nem a agitar-se facilmente, mas gostava de permanecer nos mesmos
lugares e ocupações. E, imediatamente, depois das fortes dores de cabeça, rejuvenescido e em plenas
faculdades, se entregava às tarefas habituais. O não ter muitos segredos, mas muito poucos,
excepcionalmente, e apenas sobre assuntos de Estado. Sua sagacidade e cautela na celebração de


festas, na construção de obras públicas, nas designações e em outras coisas semelhantes, é próprio
de uma pessoa que olha exclusivamente para o que deve ser feito, sem se preocupar com a aprovação
popular em relação às obras realizadas. Nem banhos fora do tempo, nem amor à construção de casas,
nem preocupação pelas comidas; nem pelas telas, nem pelas cores dos vestidos, nem pela boa
aparência de seus servidores; a vestimenta que usava procedia de sua casa de campo em Lorio, e a
maioria de suas vestes, das que tinha em Lanúvio. Como tratou o cobrador de impostos em Tusculo
que lhe fazia reclamações! E todo o seu caráter era assim; não foi nem cruel, nem arrebatador, nem
duro, de maneira que jamais se pudesse falar sobre ele: “até o suor”, mas tudo havia sido calculado
com exatidão, como se lhe sobrasse tempo, sem perturbação, sem desordem, com firmeza,
concertadamente. E caberia bem a ele o que se recorda de Sócrates: que era capaz de abster-se e
desfrutar daqueles bens, cuja privação debilita a maior parte, enquanto que seu desfrute lhe faz
abandoná-los. Seu vigor físico e sua resistência, e a sobriedade, em ambos os casos, são
propriedades de um homem que tem uma alma equilibrada e invencível, como mostrou durante a
enfermidade que lhe levou à morte.
17. Dos deuses: o ter bons avós, bons pais, boa irmã, bons mestres, bons amigos íntimos, parentes e
amigos, quase todos bons; o não haver me deixado levar facilmente, nunca, a ofender nenhum deles,
apesar de ter uma disposição natural idônea para poder fazer algo semelhante, se a ocasião tivesse
sido apresentada. É um favor divino que não me apresentava nenhuma combinação de circunstâncias
que me colocassem à prova; o não ter sido educado muito tempo junto à concubina do meu avô; o ter
conservado a flor da minha juventude e o não ter demonstrado antes do tempo minha virilidade, mas,
inclusive, ter demorado por algum tempo; o ter estado submetido às ordens de um governante, meu
pai, que deveria arrancar de mim todo orgulho e me fazer compreender que é possível viver no
palácio sem ter necessidade de guarda pessoal, de vestimentas suntuosas, de candelabros, de estátuas
e outras coisas semelhantes e de um luxo parecido; mas, que é possível centrar-se em um regime de
vida muito próximo ao de um simples cidadão, e nem por isso ser mais desgraçado ou mais
negligente no cumprimento dos deveres que, soberanamente, a comunidade exige de nós. O ter tido
sorte de ter um irmão capaz, por seu caráter, de incitar-me ao cuidado de mim mesmo e que, ao
mesmo tempo, me alegrava por seu respeito e afeto; o não ter tido filhos anormais ou disformes; o
não ter progredido demasiadamente na retórica, na poética e nas demais disciplinas, nas quais,
talvez, pudesse ter me detido, se tivesse percebido que estava progredindo em um bom ritmo. O ter
me antecipado a situar meus educadores no ponto de dignidade que imaginava que desejavam, sem
demorar, com a esperança de que, já que eram tão jovens, o faria na prática mais tarde. O ter
conhecido Apolônio, Rústico, Máximo. O ter me mostrado claramente e em muitas ocasiões o que é a
vida de acordo com a Natureza, de maneira que, na medida em que depende dos deuses, de suas
comunicações, de seus socorros e de suas inspirações, nada impedia já que vivia de acordo com a
natureza, e se continuo ainda longe desse ideal, é culpa minha por não observar as sugestões dos
deuses e, com dificuldade, seus ensinamentos; a resistência do meu corpo durante longo tempo em
uma vida com essas características; o ter me afastado de Benedita e de Teodoto, e inclusive, mais
tarde, embora ter sido vítima de paixões amorosas, ter me curado delas; o não ter me excedido,


nunca, com Rústico, apesar das frequentes disputas, do qual teria me arrependido; o fato de que
minha mãe, que deveria morrer jovem, vivesse, entretanto, comigo, nos últimos anos; o fato de que
todas as vezes que quis socorrer um pobre ou necessitado de outras coisas, jamais ouvi dizer que não
tinha dinheiro disponível; o não ter caído, eu mesmo, em uma necessidade semelhante para pedir
ajuda alheia; o ter uma esposa de tais qualidades: tão obediente, tão carinhosa, tão simples; o ter
conseguido facilmente, para meus filhos, educadores adequados; o ter recebido, por meio de sonhos,
remédios, principalmente para não escarrar sangue e para evitar enjôos, e o de Gaeta, em forma de
oráculo; o não ter caído, quando me enamorei pela filosofia, nas mãos de um sofista, nem ter me
entretido na análise de autores ou de silogismos, nem ocupar-me demasiado com os fenômenos
celestes. Tudo isso “requer ajudas dos deuses e da Fortuna”.



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