Experiência docente e produção de sentidos



Baixar 219.5 Kb.
Página9/18
Encontro27.05.2018
Tamanho219.5 Kb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   18


Logo após a professora narrar este acontecimento, que para ela se tornou marcante, uma segunda professora narrou a seguinte cena:
Quando eu dava aula pra adolescentes, tinha uma aluna que vivia incomodando. Um dia nós começamos a discutir e ela foi levantando a voz, e eu também, até que as duas estavam gritando uma com a outra. Aí ela me perguntou: ‘Porque tu tá gritando comigo?’ e eu respondi: ‘Porque eu gosto de ti’. Ela ficou paralisada (maio, 2007).
A experiência narrada por um professor jamais é idêntica à narrada por outro, no entanto, é possível que nesses encontros de experiências, por meio das narrativas, produzam-se sentidos24 diversos entre os professores.

Infelizmente, diante de tantas experiências, muitas delas são esquecidas com o passar do tempo, e nós professores, somente nos recordamos de algumas que foram mais significativas, marcantes. As narrativas orais, linguagem a partir da qual normalmente nos expressamos, não produzem um tipo de registro mais duradouro25, que possa ser consultado, após um período, para releitura da experiência. Além disso, o que é dito, é dito uma única vez, pois ainda que as mesmas palavras sejam repetidas, a entonação de voz e o contexto (espaço e tempo) serão diferentes, o que muda o sentido do texto enunciado.

Esta última característica da linguagem oral concerne também à linguagem escrita: a irreprodutibilidade do sentido. Embora a existência do texto escrito e a possibilidade de sua releitura permita infinitamente a atualização das experiências, esta se faz acompanhar da instauração sempre de sentidos outros, produzindo enriquecimento da experiência.

Ambos os registros (oral e escrito) são sempre únicos, pois tanto a repetição oral quanto a releitura de um texto escrito se dão em contextos novos, instaurando novos sentidos. O que parece diferente é a qualidade do registro: na oralidade, parece que há: (a) primeiro, uma tendência dominante a relembrar a experiência acontecida através da narrativa, ou seja, a ênfase parece ser na narrativa a cada vez que a experiência é relembrada; (b) segundo, a narrativa oral tende a enfatizar, omitir, transformar elementos outros do próprio fato da experiência, a cada narrativa, ou seja, o próprio enunciado material tende a mudar. Já com relação à escrita: (a) a narrativa já está feita, com todos os elementos materiais, sempre os mesmos, à disposição, (b) a ênfase é antes na produção de novos sentidos pela releitura, que mudam a cada retorno em forma de leitura, pela mudança de contextos, mas como não há preocupação em reenunciar o acontecido (pois ele já se encontra enunciado), a ênfase recai no acabamento do todo, do conjunto narrado (reflexão, criação em outro nível de complexidade).

É a partir destas considerações que trazemos em nosso estudo o diário de bordo, como ferramenta ou suporte para a escrita do docente sobre suas experiências, afetos, com o objetivo de pesquisar como a releitura e análise dos registros reverbera na produção de sentidos sobre tais experiências. E, mais especificamente, pretendo reler e analisar meu diário de bordo, com vistas à produção de novos sentidos sobre as experiências produzidas nos encontros com a escola, com os alunos, com os professores, com os pais, enfim, com a comunidade escolar, durante o período de meu estágio de docência.

Para continuar a reflexão sobre o texto escrito como linguagem para expressão das experiências docentes, e, em específico, tratar o diário de bordo como suporte para o registro destas, aliaremos ao quadro teórico de J. Larrosa, os estudos do russo M. Bakhtin, filósofo da linguagem, que nos aportará contribuições sobre os conceitos de texto, produção de sentidos e excedente de visão.

Porém, antes de iniciar a apresentação dos conceitos bakhtinianos, articulando-os com nossa questão de estudo, parece-nos importante elucidar sobre o que consiste o diário de bordo.



Baixar 219.5 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   18




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual