Experiência docente e produção de sentidos



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4.3. Fragmentos III: Aproximação

Depois que comecei o estágio tenho sentido uma vontade enorme de escutar funk, rap, hip hop... como se estivesse contaminada por essa cultura que os alunos trazem. (16/04/2007)

Hoje aconteceu algo muito legal! Estou muito feliz! A professora titular tinha determinado que alguns meninos ficariam sem educação física, e respeitei a decisão dela. Na hora da educação física chamei seis meninos pra ficarem na sala trabalhando comigo. Um se negou e fugiu. Os outros reclamaram muito. Fomos para a sala e fizemos um grupo. Entre queixas e reclamações da parte deles, justifiquei o motivo porque cada um estava ali comigo, falando sobre seus comportamentos nos últimos dias. Pedi que abrissem o caderno, e realizassem as atividades que não haviam feito. Enquanto eu os auxiliava, começamos a conversar, e eles começaram a me falar sobre cachorros. Fiz perguntas sobre o animal e eles iam respondendo bastante interessados. Num momento, um aluno me mostrou o desenho de um homem armado. Ele disse que tinha desenhado usando “pichação”. Me interessei pelo desenho, e perguntei que outros desenhos usando “pichação” eles tinham feito. Então começaram a mostrar seus cadernos cheios de pichação. Escreveram meu nome nessa técnica. E começaram a contar que a pichação tem a ver com o hip hop, quais os melhores grupos de hip hop, como os rappers se vestem... Dei atenção à fala deles, e perguntei se poderiam me ensinar a pichar. Eles adoraram. Começaram a dizer que estava sendo muito legal estar na sala, só o grupo pequeno, sem barulho. Aproveitei para lembrá-los o quanto é importante valorizar os momentos de silêncio quando estamos em aula. Percebi que naquele momento eles refletiram sobre a importância do silêncio. Eles perguntaram se eu poderia ficar na hora do recreio com eles, porque no pátio eles só ficam brigando, e ali na sala estava mais legal. Eu disse que sim, e pedi que fizessem uma listinha de materiais que precisamos para fazer a pichação, para eu trazer outro dia. (25/04/2007)

T


omei a decisão de almoçar na escola. Está sendo uma ótima oportunidade de aproximação. No primeiro dia convidei meus alunos pra sentarem à mesa comigo. Foi impressionante como me senti mais próxima deles, ali no mesmo espaço, comendo a mesma comida, e eles ficaram impressionados de me encontrarem no refeitório... Nos primeiros dias me olhavam, cochichavam entre si, agora já se acostumaram.(15/05/2007)

Eu estava trabalhando na bolsa41, quando entrou um rapaz na sala, perguntando pelo professor de cabelo grande (ele se referiu ao Andrei, antigo bolsista, e que dava aula de informática ou artes pra meninos de rua). Eu disse que o Andrei foi morar em SP e perguntei o que ele queria. Ele disse que precisava escrever uma música no computador e passar pra um disquete. Perguntei se ele tinha a música escrita, e ele respondeu que só tinha na cabeça. Então entreguei um papel e caneta, e pedi pra ele sentar numa mesa do saguão e escrever a música, que depois eu ia digitar pra ele (q tb não tinha o disquete). Depois de uns minutos, fui ver se ele tinha escrito. Ele estava com o papel na mão, amassado e me respondeu que não sabia escrever em "papel liso". Sentei com ele, que me ditou a música. Disse que tinha feito pra uma apresentação na escola, em que ele e outros três colegas iam participar de um concurso de hip hop. Ele se foi, com a música  que dizia assim:

- “Com Jesus Cristo e paz no coração

Levo a minha vida com amor e devoção

Só vou na fé e acredito

Nos meus manos que pensaram que a vida tava quase acabando

Mas uma luz divina aliança tocou na minha vida,

Trouxe amor e esperança.

De tudo que há de mais bonito

Não se pode comparar com Jesus Cristo

Pode um milagre acontecer é só você acreditar

Pois a minha vida de vez em quando era criança, tinha muitos sonhos e muita esperança

Mas Jesus Cristo transformou a minha vida, devolvendo paz, amor, saúde e harmonia” -

 O rapaz, Émerson, ficou todo envergonhado pq eu percebi que ele não sabia escrever, mas saiu feliz com o disquete. E eu fiquei com aquele nó na garganta. (23/05/2007)

O que há em comum entre esses fragmentos de texto-experiência que os interligam e os tornam uma unidade analítica?

Durante as múltiplas releituras do diário, e mesmo do relatório de estágio que recebeu o título Narrativas sobre um processo de sensibilização, desassossego e pertencimento construído durante a experiência docente, observei algo que permeava todo o texto, e que se tornava explícito em alguns fragmentos: a necessidade de aproximação dos alunos. Pois, cada acontecimento que parecia indicar uma atitude sensível da minha parte, uma mínima aproximação, era registrado com muita alegria. Como por exemplo, a minha atitude de almoçar no refeitório da escola, o meu desejo de escutar funk e hip hop porque meus alunos haviam dito que eram seus estilos favoritos de música. E, mesmo fora da escola, no trabalho, quando realizei a escuta do adolescente que precisava escrever sua música de hip hop para concorrer ao festival da escola.


Agora me pergunto: Por que não narro momentos em que me senti distante dos meus alunos? Será que somente me afetaram as cenas em que me sentia próxima a eles? E ao interrogar-me, curiosamente, lembrei-me de uma situação que não foi registrada no diário, e que passo a narrar:

Eu estava decidida a trabalhar com funk, minha orientadora de estágio também incentivava a idéia. Pensamos que seria legal, pois eles gostavam. Mas a intenção era trabalhar com letras de funk que trouxessem alguma mensagem, principalmente em relação à paz, como em algumas letras de hip hop. Encontrei, então, um funk que tinha a seguinte letra42:


Quero voar como um passarinho

Quero ser livre como um colibri

Eu quero amor, quero carinho

Eu quero paz e ser feliz


Nunca tive nada fácil

Mas não desisti

Lutei com todas minhas forças

Hoje eu consegui


Eu vim lá da favela,

tenho amor por ela

Sempre sonhando em cantar

Com tanto sofrimento

Com garra fui crescendo

Hoje tenho meu lugar


Comecei do samba,

também já fui bamba

Levo minha vida assim

Mas conheci o funk e fiquei radiante

Hoje eu sou colibri

Um dia, cheia de expectativas, levei o rádio para a sala de aula, e coloquei a música pra que escutássemos. Todos os alunos se mantiveram quietos, durante a música, e ao final perguntei o que tinham achado. Para meu espanto, eles seguiam calados, atitude que não conseguia entender, até que uma aluna perguntou: “Professora, a gente não mora numa favela, aqui é um bairro!”. Eu respondi que não estava dizendo que eles moravam numa favela, mas não consegui seguir com aquele argumento, pois realmente o questionamento da minha aluna fez-me pensar que, mesmo inconscientemente, era isso que eu estava dizendo a eles, que apesar de morarem naquele bairro, naquela favela, eles poderiam crescer na vida e ser felizes. Não estou afirmando que essa seja a mensagem da música, mas era a minha mensagem, a minha intenção. E, minha aluna (acredito ainda que outros alunos, pela reação da turma) deu-se conta disso.

Depois de pensar durante algum tempo sobre essa cena, e buscar uma explicação sobre o motivo que me levou a não registrá-la, foi relendo o diário que observei o estilo de narrativa que vinha produzindo. Como dito antes, toda a situação que, de certa forma, demonstrava alguma aproximação de meus alunos ou que demonstrava o desenvolvimento de alguma sensibilidade frente ao outro eram registradas com alegria, pois, para mim, era muito importante sentir-me parte daquela escola, daquela comunidade, da vida daquelas crianças, era necessário perceber que eu estava sendo sensível às suas necessidades. Esses eram objetivos que eu havia estabelecido: estar aberta à experiência, escutar ao outro, aproximar-me, deixar-me afetar. E foi nesse movimento, que inconscientemente, sem planejar, deixei de registrar uma situação (e talvez outras) que demonstrava que eu ainda era insensível a várias situações. Era um movimento de criar uma verdade para mim, de que eu estava desenvolvendo uma escuta cada vez mais sensível, o que de fato pode ter acontecido, mas não numa linha ascendente, pois como vimos, houve atravessamentos, desvios, conflitos.

Destaco mais um trecho do diário, em que manifesto desprezo pela minha suposta falta de sensibilidade, quando afirmo sentir-me um “monstro”, por não acreditar em meu aluno, e pensar que ele estava inventando algo que para mim era concebível somente no plano da ficção.


Estava chegando na escola, virei a esquina, quando me dei conta que estava pisando num ‘rio’ de sangue. Olhei, assustada, e imaginei que era sangue de um animal, provavelmente de algum cavalo. Chegou o Jefferson ao meu lado e disse: “Professora, mataram um homem com cinco tiro na cabeça e duas facada na barriga”. Respondi: “Jefferson, para de fantasiar!”. O Jefferson tem hábito de contar esse tipo de histórias na sala de aula, e minha reação, espontânea, foi dizer isso pra ele. Entrando na sala de professores, a conversa era o assassinato de um homem, com cinco tiros e duas facadas. Me senti um monstro, pensando na resposta que dei ao Jefferson. Quantas vezes ele contou essas histórias, e que deveriam ser


[

continuação] verdade. É muito maluco viver nesse mundo que não se sabe direito o que é ficção e o que é realidade. O que é concebível pra mim, somente no plano da ficção, pra uma criança de 10 anos é realidade, muitas vezes cotidiana. (19/06/2007)

Por outro lado, é possível também uma análise de que meu desejo de aproximação dos alunos, minha tentativa de abertura à experiência, à escuta, tiveram efeito na reverberação dos sentidos, ainda no espaço e no tempo de passagem, no ‘entre-planos’, entre o vivido e a escrita sobre o vivido.

Nas duas análises anteriores, foram focados os acontecimentos estéticos no momento da releitura do texto-experiência, no plano do pensamento sobre o vivido. De forma diferente, nesta última unidade analítica destacamos também o acontecimento que se dá no plano onde se configurava o primeiro afastamento exotópico.

O desejo de almoçar com meus alunos, no refeitório da escola, por exemplo, é um desejo que emergiu quando procedi à releitura dos escritos no diário de bordo nos últimos dias. Ao reler a narrativa do dia 25 de abril, sobre minha conversa com alguns alunos, percebi que eu poderia descobrir ou produzir outros modos de aproximação, de diálogo, talvez, para além da sala de aula.

Tais acontecimentos eram registrados com alegria, como já foi dito, e eram relidos algumas vezes, durante o período do estágio, o que me motivava a seguir nosso trabalho (meu, dos alunos, da escola, das minhas orientadoras). Os sentidos que eram produzidos a partir das releituras reverberavam na produção de novas experiências, no desejo de produzir bons encontros, experiências de bons encontros com meus alunos, ou mesmo, com o menino compositor de hip hop, como narrado no dia 23 de maio.

Segundo G. Deleuze (1970), a partir de uma leitura de Spinoza, os bons encontros são aqueles aumentam a nossa potência de agir, aqueles que compõem relações entre os corpos, que geram alegria.

Já os maus encontros são aqueles que diminuem nossa potência de agir, aqueles decompõem relações entre os corpos, e que geram tristeza.

Tais foram os bons encontros com meus alunos, que eu os narrava com alegria, pois sentia que estava se compondo entre nós um outro tipo de relação, uma relação diferente, mais “afetuosa”, nos sentidos tanto de afeto, enquanto carinho, como no sentido de afetação, em que se produzem experiências.



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