Experiência docente e produção de sentidos



Baixar 219.5 Kb.
Página15/18
Encontro27.05.2018
Tamanho219.5 Kb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   18
4.2. Fragmentos II: A queixa

Passei alguns dias sem escrever, e coincidentemente foram dias bastante difíceis. (14/05/2007)




Hoje não dá!
Hoje não dá!
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar.
Hoje não dá!
Hoje não dá!


Gostaria de não saber destes crimes atrozes.
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar p'ra bem longe, mas hoje não dá.
Não sei o que pensar e nem o que dizer.
38

Ao contrário do fragmento anterior, este apresenta apenas um pequeno trecho de texto-experiência, e que indica, ainda, uma não-escrita, e a vivência de algumas dificuldades. Mas que dificuldades são essas, e porque se tornaram coincidentes com a ausência de escrita? Será uma simples coincidência? Podemos confiar nessa afirmação?

Durante este tempo de formação, desde que iniciei a estudar pedagogia, meus ouvidos se tornaram mais atentos aos assuntos que diziam respeito, de alguma forma, à educação, fosse uma conversa informal, um papo na fila do banco, uma conversa no ônibus, etc. Mas também, os ouvidos atentos aos discursos acadêmicos, ao “rádio corredor”39. Muito se fala sobre a profissão docente, é difícil encontrar uma pessoa que não tenha opinião sobre algum tema relativo à educação, e, normalmente, sobre quase todos os temas educacionais. E muito se fala, também, sobre as condições salariais e de trabalho do professor brasileiro. E muito se diz que os professores vivem a queixar-se, que o desânimo e o pessimismo tomaram conta das escolas, que as professoras representam aquelas figuras queixosas, mulheres tristes, que vivem numa profissão amarga e sem vida. “Ainda há tempo pra desistir!”, “Porque tu não estudas administração, ou direito, ou prefere passar a vida se queixando depois?”, são as frases que os estudantes de pedagogia não cansam de ouvir.

Na universidade, quantas acusações ao professor dos anos iniciais, pela sua suposta falta de atitude, de esforço, de busca por atualização. E os relatórios enfadonhos, no intuito de pôr culpas nos professores, diante dos problemas escolares. “Queixar-se é feio, é atitude de professores incompetentes, reativos!”. E aquela professora universitária que afirmava que se encontrava na queixa do docente, simplesmente 99% de sua culpa?! Ou seja, queixar-se significa atestar sua culpa, sua incapacidade, falta de competência profissional.

Frente a tais discursos sobre o professor, e mais, atravessada por estes, relendo meu diário busquei recordar aqueles momentos em que escrevia, ou melhor, em que supostamente não escrevia, tentando compreender este acontecimento.

Recordei, então, que naqueles momentos, ao deparar-me com meu diário, o qual eu sabia que seria lido, algum dia, por alguém, olhava para a tela do computador, escrevia duas páginas de queixas e mais queixas, após um dia difícil de trabalho. Eram queixas contra o governo, contra as classes sociais mais altas, contra a universidade, contra a escola, contra as famílias negligentes, contra meus alunos, contra mim, etc. E depois de escrever apagava, pois já me sentia aliviada! Toda a vez que terminava de escrever algo assim, olhava para as páginas e dizia: “Aqui não tem nada interessante, é só um desabafo!”. Mas, o diário não tinha como objetivo justamente a escrita sobre o que me afetava?! E os dias em que permanecia no silêncio? Aqueles em que não escrevia uma palavra, por quê?

“Ora, é simples, queixar-se é feio, é isso que eu aprendi!”. Esta foi a minha primeira reflexão, a partir da releitura, explicitando o que, em certa medida, estava implícito na minha escrita: as marcas ou impressões feitas em mim, pelos discursos sobre a educação, sobre a docência, sobre a escola. Marcas tão fortes, que eram capazes de silenciar-me.

Durante muitos dias fui tomada por tristezas, por deparar-me cotidianamente com dificuldades da vida, principalmente da vida infantil em meio à pobreza, as quais eu não conhecia da forma bruta como se apresentavam. Às vezes faltavam as palavras, às vezes sobravam palavras ‘feias’, as famosas queixas.

Da mesma forma que há motivos que me fazem pensar, sentir, escrever que sou incompetente, impotente, há motivos que me fazem calar, emudecer a voz, subtrair a escrita, borrar. Porém, borrar no papel não significa borrar no corpo, pois aquilo que nos afeta, pela sua força, sua intensidade, pode produzir marcas tão profundas quanto impressões digitais.

Na sala de professores eu via as professoras se queixando, e lembrava das vezes em que eu era observadora, e anotava nos meus relatórios que as professoras se queixavam demais. Depois voltava para meu lugar de docente e pensava: elas tinham razão, olha o que está acontecendo com a escola, ninguém olha pra cá, faltam professores, faltam recursos, nossas condições são demasiado precárias, porém, sobram expectativas governamentais, sobram metodologias, sobram cobranças.

Havia dias em que me perguntava: ‘O que está acontecendo? Não entendo mais, não tenho palavras pra descrever o que acontece?’ Mas pensava: ‘Eu não vou me queixar, isso significa a minha derrota, a minha morte como professora. Não vou escrever, não vou me tornar uma professora da queixa’. E a queixa não era registrada no diário de bordo, mas estava em mim, nos meus pensamentos, nos meus sentimentos.

Não prestamos atenção às queixas, e somente aprendemos que isso é feio, e nos calamos, e vamos morrendo e vamos matando. Tudo isso quando a queixa é um grito desesperado, um grito de socorro, uma exclamação! É como alguém que exclama, sentindo seu corpo doente: “Eu não agüento mais essa dor! É muito forte pra mim, para o meu corpo, para a minha vida, é insuportável”. Pode parecer trágico demais, mas se não falamos da tragédia, seguimos escrevendo e pensando sobre a educação de forma desvinculada da realidade de nossos alunos, de nossas escolas, nossa sociedade. Seguimos escrevendo sobre educação desde nossos escritórios, gabinetes, salas de estudos, e ignoramos o que está tão próximo de nós, e ao mesmo tempo longe: a desigualdade, a pobreza, a violência, a discriminação racial, e tantos outros problemas sociais.

Ao ler a entrevista do filósofo G. Deleuze (1988) à Claire Parnet, no ponto onde se dialoga sobre o conceito Alegria40, encontramos uma reflexão de Deleuze sobre a “queixa”.

“Eis o que é a queixa: ‘O que está acontecendo comigo é grande demais para mim’. Aceitando, pois, o lamento, o que nem sempre se vê, pois não é só ‘Ai, ai, que dor!’, mas também pode ser. Aquele que se queixa nem sempre sabe o que está querendo dizer. A velha senhora que se queixa de seu reumatismo está, na verdade, querendo dizer: ‘Que potência está se apoderando da minha perna e que é grande demais para que eu a suporte?’”.

Deleuze, inspirado em Baruch Spinosa, dirá que a queixa é como uma tristeza, pois a tristeza de alguém, um professor, por exemplo, resulta de um poder sobre ele que não o deixa efetuar sua potência, algo que diminui sua capacidade de ação.

Já a alegria é o aumento de sua capacidade de agir, a efetuação de sua potência. A alegria ou a tristeza consistem em questão de graus de efetuação de potência, para mais ou para menos.

Quando um professor pensa “Eu poderia ter feito diferente, eu poderia, mas não consegui,... não era permitido, não era possível....”, é uma forma de expressar a tristeza, a diminuição de sua capacidade de agir.

A queixa é uma tristeza, uma maneira de dizer: “O que é isso que é tão mais forte que eu e que não permite efetuar minha potência?!”.

Retornando à análise sobre a “impotência”, novamente me pergunto como encontrar um lugar de potência, mas uma potência alegre, um lugar onde possa aumentar minha capacidade de ação frente às dificuldades.

A alternativa apontada é o espaço e o tempo de pensamento sobre a experiência registrada no diário de bordo, pois ao tornar-me expectadora ativa de minha experiência, pela releitura e análise do texto-experiência, encontro uma possibilidade de intervenção nos acontecimentos éticos da vida.

Para Bakhtin (2003, p.24),
A situação vital do sofredor, efetivamente vivenciada de dentro, pode me motivar para um ato ético: para a ajuda, a consolação, uma reflexão cognitiva, mas de qualquer modo a compenetração deve ser seguida de um retorno a mim mesmo, ao meu lugar fora do sofredor, e só deste lugar o material da compenetração pode ser assimilado em termos éticos, cognitivos ou estéticos; se não houvesse esse retorno, ocorreria o fenômeno patológico do vivenciamento do sofrimento alheio como meu próprio sofrimento, da contaminação pelo sofrimento alheio, e só.”

Situar-se fora do sofrimento, da queixa, enriquece o acontecimento da vida, criando um lugar de efetuação de potência, potência, sobretudo, de pensamento.





Baixar 219.5 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   18




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual