Experiência docente e produção de sentidos



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4.1. Fragmentos I: (Im)potência

Segunda feira foi meu primeiro dia de aula. Antes do início, na sala de professores, ouvi comentários sobre um “toque de recolher”37 que houve na escola, na sexta feira. Ligaram para a escola, avisando para evacuar até às 15 horas, pois a partir desse horário iniciaria um tiroteio na vila, provavelmente em função da recepção de drogas, algo assim. Ouvi outras pessoas dizendo que na ligação disseram que já havia sido ferido um guarda...Enfim, os comentários são muitos. Houve pânico. Em poucos minutos, não se sabe como, vários pais souberam da notícia e invadiram as salas de aula brutamente, levando seus filhos. Outros alunos quase “atropelaram” seus professores, saindo sem permissão. Logo pensei, “como estariam os alunos, o que estariam pensando” ... Porém, mesmo querendo saber suas opiniões, quando entrei na sala tive medo de perguntar sobre o ocorrido. E quando eles começaram a falar foi uma confusão, todos queriam falar ao mesmo tempo. Fiquei nervosa, meus primeiros minutos na sala e um assunto tão sério para tratar. Senti medo, eu mesmo ainda estava abalada, preocupada, não sabia o que pensar, o que dizer a eles. Me senti incapaz, impotente. (03/04/2007)




O que fazer quando um aluno grita e você percebe que tem uma ferida exposta na perna, que está infeccionada, demonstrando nenhum tipo de cuidado da família? Antes eu pensava que era quase tudo questão de metodologia, mas não pode ser. (09/04/2007)

Estava no carro, com duas professoras, quando uma delas disse que tem a sensação de que nunca vai ser competente. Sente como se sempre houvesse alguém apontando para a sua incapacidade, afinal os alunos não aprendem, não se respeitam, não se organizam... (11/04/2007)

Fracasso... Esse é o tipo de sentimento que eu só consigo verdadeiramente compartilhar com um professor que esteja na mesma situação, e sabe o que acontece na sala de aula... tenho a impressão de que qualquer outra pessoa pode apontar o dedo na minha cara e dizer que sou uma incompetente... (19/04/2007)

Fiquei muito abalada com uma situação com dois alunos, logo no início da aula. O primeiro foi com o Jonatan. Ele entrou na sala e sentou-se, quando vi ele estava chorando. Perguntei o que houve e ele disse que tinha apanhado da mãe, e seguiu chorando. O levei pra fora da sala, e ele me mostrou as costas super machucadas. Disse que apanhou da mãe porque sujou duas camisas. E também tinha ficado sem comer. O segundo caso foi o Jonas. Ele não queria entrar na sala, e não queria contar porque. Depois de insistir muuuito, ele me disse que não podia contar, pq se não o pai ia preso...ai sim me apavorei, e insisti mais, mesmo com medo...ele disse que contou para o pai que precisava de óculos (e precisa mesmo) e o pai respondeu: "Que o óculos o que, vai a puta que te pariu", e depois cravou as unhas na mão dele...realmente a mãozinha estava machucada. Passei o caso pra orientação. No fim da aula eles já estavam melhores, mas quem ficou mal fui eu, não sei o que eu posso fazer diante disso. (14/05/2007)

Hoje eu estava indo pra escola, pra participar do conselho de classe da turma. Estava no ônibus, quando a profa Flávia ligou, falando super rápido, que não era pra eu ir, que a situação estava complicada na vila. As duas entradas estavam bloqueadas pela polícia, pois tinham acontecido dois assassinatos. Novamente senti aquela impotência, parecia que eu tava num filme de ação (12/07/2007)

Iniciemos pela primeira e necessária pergunta: Porque destaquei estes fragmentos? Antes de responder, retorno a uma caracterização do contexto escolar, ou melhor, o contexto mais amplo, da comunidade em que está inserida a escola.

A comunidade, atualmente, é considerada um dos maiores bolsões de pobreza da cidade de Porto Alegre. Porém, a questão social que tem afetado a comunidade e se tornado motivo de divulgação pela mídia trata-se da violência, de forma que a comunidade vem sendo considerada, também, como uma das mais violentas da capital.

Diante desse fato, é notável a estigmatização dos moradores do bairro. Lembro-me das reações quando contava a colegas, amigos e familiares de que realizaria meu estágio de docência na comunidade em questão. As expressões eram de preocupação explicita com a minha segurança, pois muitas vezes ouvia comentários como “Lá só tem bandido!”, “Não leva a bolsa”, “Não dá pra fazer em outra escola?”, etc. O bairro, na época, era notícia quase diária nas páginas policiais de jornais ou em reportagens televisivas. E o discurso veiculado sempre o ligava a uma zona pobre “e” perigosa, uma associação quase identificatória entre pobreza e criminalidade. E era o que eu percebia nas falas: a idéia de que um bairro pobre e considerado violento somente pode ser habitado por criminosos.

E, assim como a comunidade estava marcada como pobre, violenta e perigosa, também a escola era estigmatizada. As reações se repetiam quando eu comentava o nome da escola: “Não acredito, essa escola é horrível!”, “Bah, vai fazer teu estágio lá mesmo!”, “É uma escola muito difícil”, “Os alunos se matam, não respeitam, são terríveis!”.

E foi atravessada por todos esses discursos que me dirigi à escola, com um questionamento muito latente: Eu vou conseguir? Pois, além da insegurança que poderia ser considerada habitual, e que era compartilhada com demais colegas de estágio, a insegurança e os medos de colocar-se pela primeira vez na posição de docente, assumindo responsabilidades frente à universidade, à escola, aos pais e aos próprios alunos, havia aí outra insegurança: vou conseguir atuar nesta instituição? Vou conseguir lidar com os problemas de indisciplina e violência que eram narrados?

No primeiro dia de aula me deparo com a notícia de um “toque de recolher”, e, se mesmo antes de iniciar o estágio, já punha em dúvida minha capacidade de lidar com as dificuldades que vinham sendo colocadas, agora, então, punha em dúvida minha potência de ação frente a problemas que eram maiores que eu, maiores que a escola.

Eis, então, as interrogações que foram motivos do destaque destes fragmentos: porque eu me sentia impotente/ incompetente? Por que em meu diário aparecem afirmações que põem em dúvida minha capacidade de ação e trabalho? O que me faz sentir isso, escrever isso?

Enquanto os alunos discutiam sobre o toque de recolher, estava eu, diante da turma, paralisada, e com um poema rimado na pasta, sob o título “O coelho da páscoa!”. Meus primeiros cinco minutos como docente, e diante de um impasse: ‘começamos a aula sobre a páscoa ou discutimos sobre o narcotráfico?’. Claro que eu não pensava em discutir diretamente sobre o narcotráfico, mas a partir das falas era evidente que meus alunos sabiam muito sobre isso, pois cogitavam os motivos do toque de recolher, falavam na chegada de drogas na comunidade. Por um minuto cheguei a pensar: “Como o coelho da páscoa pode me ajudar a resolver esse problema?”. Optei por seguir meu planejamento, o que me causava um desassossego, pois eu pensava que estava praticando uma violência ao fazer isso, estava calando as vozes dos meus alunos, as vozes que expressavam aquilo que lhes afetava. Porém, por mais que eu pensasse que meu ato era violento e silenciador, as vozes emergiram, não por meio da fala, mas pela linguagem da pintura. Ao final da aula, quando havia entregue um coelho de páscoa para que pintassem, em combinação com a docente titular (para enfeitar as cestas de páscoa), recebi um coelho do aluno Gio. Ele me entregou o coelho e disse: “Óh professora, aqui o coelho bandido!”. Ali estava um coelho com seu rosto pintado de cor preta, somente com o contorno dos olhos em cor branca, imagem que lembrava as tocas usadas por alguém que pretende esconder o rosto, como assaltantes.

Depois desse dia, por muitas vezes passei a me questionar: Por que estou aqui? Eu não deveria estar aqui, como professora dessas crianças? Pois acreditava que eles precisavam de uma professora mais “experiente” (referindo-me a uma profissional com alguns anos de docência), que conseguisse contornar aqueles momentos de tensão sem recorrer ao planejamento, como uma fuga. Passei, então, a pôr uma culpa sobre mim, sobre a minha “inexperiência”, passei a questionar minha formação, a considerá-la “cheia de lacunas”, pensei mesmo, num momento, em desistir da docência, o que me causava dor, porque eu queria ser professora daquelas crianças, e foi esse desejo que sustentou meu entusiasmo e otimismo, entre tantos sentimentos de tristeza.

Mas, poderia a minha suposta “impotência/ incompetência” ser resultante da minha inexperiência, se mesmo professoras com mais de dez anos de profissão relatavam ter os mesmos sentimentos? Ou ainda, poderia ser um problema de formação, se as mesmas professoras eram profissionais graduadas, especializadas e realizando cursos complementares de formação? Enfim, de quem é a culpa, onde ela está? Porque nós professoras, que estamos buscando qualificação profissional, que estudamos e nos dedicamos à profissão, por vezes, nos sentimos tão incompetentes e/ou impotentes?

Hoje penso que é provavelmente porque vivemos numa sociedade que precisa da nossa tristeza, do nosso sentimento de impotência, para manter a desigualdade e as injustiças sociais. Precisamos estar anestesiados, precisamos acreditar que somos impotentes, que não adianta lutar, que não há mais solução, que não há mais fim para a violência e a miséria, precisamos desistir, e aceitar que há coisas que são maiores que nós. E mais ainda, precisamos crer que somos incompetentes, que a culpa é nossa. A culpa é dos professores. A culpa é da escola.

Vivemos numa sociedade que afirma não termos força de transformação, e somente nos ensina modos de manter-nos “seguros”, trancados, uma sociedade em que se publicam e vendem manuais com dicas de proteção ao assalto, pois, se não temos potência diante disso, só nos resta tomar uma atitude defensiva, supostamente “preventiva”.

E sobre aquela ferida na perna do aluno, está ali, o que posso fazer? E os corpos daqueles dois alunos, machucados, agredidos? O que eu faço, como resolver isso? Estes alunos me olhavam, com seus olhares tristes, estavam tentando, mas também era mais forte que eles. A imagem da professora com seus alunos, expostos, diante da vida que se apresenta numa face tão aproximada da morte: o que dizer, o que fazer, o que sentir? Trata-se, como diz Lazzarotto (2007), do despertar para um conjunto de problemas que a dificuldade de agir faz aparecer.

E então, somos impotentes/ incompetentes, ou sentir-nos impotentes/ incompetentes faz parte do jogo social de aniquilamento de nossas forças de ação? Ainda, as perguntas talvez mais importantes: Como nos deslocamos deste suposto lugar de impotência? Que alternativas há para romper com este sentimento de impotência que afeta a tantos docentes?

Certamente as respostas a tais questões não estão ao alcance deste trabalho, mas com os aportes da teoria bakhtiniana junto à reflexão sobre minha experiência docente e exercícios de escrita, releitura e análise do diário de bordo, é possível considerar uma maneira alternativa de percorrer outros caminhos, produzir outros pensamentos que auxiliem no deslocamento deste lugar de impotência.

Ao iniciar a releitura e análise dos primeiros fragmentos de texto-experiência, é realizado um movimento de compenetração, de nova imersão no vivido. No entanto, a partir dessa nova imersão, agregam-se outros elementos (transgredientes), que não estavam registrados no diário, como a relação entre os discursos que ouvi sobre a comunidade e os meus medos, angústias. Ou também, meus pensamentos e sentimentos frente à dificuldade de tratar o tema do “toque de recolher” com os alunos.

Trata-se de um vivenciamento empático, uma compenetração em meu texto-experiência, mas que é sucedida por um retorno a minha posição exterior (de investigadora e não mais professora-estagiária), em outro tempo e espaço. Uma posição exterior que gera excedente de visão, que permite englobar um contexto mais amplo, e realizar observações desde um ponto de vista antes inacessível a mim mesmo.

A observação da recorrência, em meu texto-experiência, das palavras impotência e incompetência, opera como elemento transgrediente e disparador de novas produções de sentido.

Quando passo a refletir sobre questões sociais mais amplas, interrogando, por exemplo, sobre a existência de um jogo social ativo construção de um sentimento de impotência, há um deslocamento do plano dos acontecimentos éticos, registrados no diário, para a um plano do acontecimento estético, quando me posiciono não mais como personagem (somente vivencio empaticamente, num primeiro momento), mas como autora-expectadora-investigadora do texto-experiência. Nessa posição assumo um lugar de potência, potência de pensamento sobre a experiência-acontecimento.

Quando um sujeito autor perde o ponto de distância em relação ao personagem, fundindo-se com este, há somente um vivenciamento empático em forma de “compenetração pura”, nos termos de Bakhtin (2003, p.24). Neste caso, o autor perde a potência de colocar-se fora do acontecimento ético da vida dos personagens.

[...] uma vez que vivenciamos empaticamente apenas com a personagem, que coincidimos com ela, a interferência em sua vida está excluída, pois essa interferência pressupõe nossa distância em relação à personagem, como no caso do nosso homem do povo. (ibid, p. 73)

Tal afirmação de Bakhtin corrobora com a idéia da importância de produzir um distanciamento do texto-experiência, torná-lo estranho, interrogá-lo, tornando-se um outro, um autor-expectador, abrindo-me a possibilidade de interferir nos acontecimentos éticos entre personagens.

Se ao reler meu texto-experiência, eu o vivenciasse sem um retorno a minha posição de investigadora (sem questioná-lo, interrogá-lo, analisá-lo), eu voltaria a viver angústias, sofrimentos, medos, alegrias, não criando condições de pensar sobre o vivido. Talvez, e muito provavelmente, eu seguisse pensando que minhas angústias eram resultado de minha incapacidade, minha incompetência, no entanto, este trabalho me auxiliar a pensar em um contexto mais amplo que me afetava e que afeta a muitos professores.





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