Experiência docente e produção de sentidos


Texto, Produção de Sentidos e Excedente de Visão



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2.3. Texto, Produção de Sentidos e Excedente de Visão

Cabe agora perguntar-nos sobre os conceitos de texto e produção de sentidos, apresentados ao final da sessão 2.1.

Novamente deparamo-nos com um conceito usual no âmbito pedagógico: o texto. Recorremos à interrogação: O que é texto?

Segundo a perspectiva sociológica de Carlson & Apple (2003), durante a maior parte do século XX o texto, inclusive na área da educação, foi considerado como o produto da descrição objetiva de uma determinada realidade, tomando assim, um estatuto científico de verdade. Em tal perspectiva, considerado como um corpus de conhecimentos a respeito de um campo particular de investigação, ou seja, um “conhecimento oficial”.

Os textos pedagógicos que descreviam os lugares/ funções de professores, alunos e escola, e que ditavam o que deveria ser ensinado e aprendido, constituíam conhecimentos pedagógicos sobre a educação escolar. No entanto, infelizmente não podemos sustentar o uso destes verbos no passado (descreviam, ditavam, constituíam), pois ainda que estejamos no século XXI, segue vigente o uso dos textos como meio para instituição de verdades sobre o que é ser aluno, ser professor, o que significa estar na escola, sobre os deveres da escola, dos alunos e dos professores, etc28.

A partir da perspectiva em que o texto é concebido como descrição objetiva da realidade, seria possível a expressão da experiência docente, como a entendemos, por meio do texto escrito?

O conceito de experiência aqui adotado torna-se incompatível com tal conceito de texto, pois a experiência é única, não objetiva, e sequer a escrita pode torná-la reproduzível.

Buscamos, então, nos estudos de filosofia da linguagem de M. Bakhtin, uma concepção ou teoria do texto que fosse compatível com a noção de experiência de J. Larrosa. Pretendemos, assim, uma articulação teórica que nos ajude a problematizar a releitura e análise dos registros de minhas experiências docentes. Iniciemos por contextualizar os estudos de Bakhtin em sua época.

Bakhtin, na década de 20, posicionou-se criticamente em relação aos formalistas russos29, pelo modo como praticavam a lingüística e a poética. Criticava a concepção formalista de que a arte e a literatura teriam um fim em si mesmas, como se fossem objetos autônomos, sem relação com o mundo exterior, com outras obras, com os autores e os leitores. Segundo Tzvetan Todorov (2003), Bakhtin criticava a focalização dos estudos nos processos, na composição, na coerência, ou seja, nos elementos internos da obra, sem levar em conta a sua inserção num contexto de produção, nele incluindo o próprio autor (e também o seu leitor, e os demais textos já produzidos em produção).

Entretanto, Bakhtin não se deteve na oposição aos formalistas russos. O tema que estava no centro de seu interesse, situado no campo da estética, referia-se à relação entre autores e seres criados, entre autor e herói, ainda, entre autor e personagem ou obra. É, portanto, a partir destes estudos que abordaremos alguns conceitos para pensar a minha relação, enquanto docente e investigadora, com a escrita sobre minhas experiências.

Retomemos o conceito de texto. Bakhtin entende o texto, oral ou escrito, como enunciado, incluído na comunicação discursiva de dado campo (2003, p. 309).

O enunciado é a unidade real da comunicação, distinguindo-se das unidades convencionais da língua, como as palavras e orações. Para Bakhtin, o que define o enunciado como unidade, compondo seus limites, é alternância de sujeitos do discurso, ou seja, a alternância dos falantes. Aí reside a diferença entre enunciado e oração: os limites da oração enquanto unidade da língua nunca são determinados pela alternância dos sujeitos do discurso (ibid, p. 277).

Além disso, somente o sistema da língua é suscetível de repetição. Pois, a reprodução do texto pelo sujeito (a retomada dele, a repetição da leitura, uma nova execução, uma citação) é um acontecimento novo e singular na vida do texto, o novo elo na cadeia história da comunicação discursiva (ibid, p. 311).

O texto, então, não é visto como um conjunto de orações compostas por palavras, mas como um enunciado singular.


O enunciado nunca é apenas um reflexo, uma expressão de algo já existente fora dele, dado e acabado. Ele sempre cria algo que não existia antes dele, absolutamente novo e singular, e que ainda por cima tem relação com o valor (com a verdade, com a vontade, com a beleza, etc.). Contudo, alguma coisa criada é sempre criada a partir de algo dado (a linguagem, o fenômeno observado da realidade, um sentimento vivenciado, o próprio sujeito falante, o acabado em sua visão de mundo, etc.). Todo o dado se transforma em criado (ibid, p. 326).

A experiência e o texto. A experiência narrada, por meio do texto, oral ou escrito, pode-se afirmar, constitui-se como uma nova experiência, à medida que os enunciados sempre acrescentam algo novo ao dado: o texto recria a experiência, no plano da linguagem.

Todo enunciado ou texto possui um destinatário, do qual o autor espera uma compreensão de natureza responsiva ativa:Toda a compreensão é prenhe de resposta, e nessa ou naquela forma a gera obrigatoriamente: o ouvinte se torna falante” (Bakhtin, p.271).

Dois enunciados, ao entrarem em relação, um em resposta ao outro, estabelecem uma relação dialógica. Tais relações se dão entre textos e no interior de um texto (ibid, p. 309). É importante considerar que, segundo Bakhtin, os enunciados não se definem apenas pelo diálogo no seu sentido mais comum, ou seja, não se limitam às réplicas do diálogo real, cotidiano que se estabelece entre sujeitos. Pois,


dois enunciados distantes um do outro, tanto no tempo quanto no espaço, que nada sabem um sobre o outro, no confronto dos sentidos revelam relações dialógicas se entre eles há ao menos alguma convergência de sentidos (ainda que seja uma identidade particular do tema, do ponto de vista, etc) (ibid, p. 331)
No entremeio dessas relações dialógicas entre enunciados instaura-se a produção de sentidos, à medida que os sentidos se estabelecem na resposta de um enunciado a outro.

Para seguir com nossas reflexões, passaremos a utilizar o termo texto-experiência, para referir-nos à experiência narrada, compondo um texto ou enunciado escrito.

Ao adotarmos o conceito bakhtiniano de texto, supomos que não há uma leitura ou interpretação “verdadeira” de um texto, visto que este segue em constante transformação, aberto a uma multiplicidade de leituras e sentidos.

Para Bakhtin, o sentido depende da relação entre sujeitos em um contexto, de forma que só se atualiza no contato com outro sentido, o sentido do outro [...] Por isso, não pode haver um sentido primeiro ou último, pois o sentido se situa sempre entre os sentidos, elo na cadeia do sentido que é a única suscetível, em seu todo, de ser uma realidade. (ibid, p.386).

Voltemos ao problema de pesquisa: Como a releitura e análise do diário de bordo, reverbera na produção de novos sentidos sobre as experiências docentes?

Perguntamo-nos, então: No que consiste produzir sentidos sobre a experiência, em particular sobre a experiência docente, enquanto texto-experiência?



Ao reler o texto-experiência entramos numa relação dialógica em que se produzem sentidos, e que o abrem a possibilidades de estabelecimento de diálogos com outros textos distantes no espaço e no tempo, tornando o texto-experiência um elo na cadeia histórica da comunicação discursiva.

Até este ponto buscamos elucidar os conceitos de experiência, texto e produção de sentidos, compondo ligações entre eles, tecendo nosso referencial teórico. Seguimos com nosso desenvolvimento teórico-conceitual, introduzindo o conceito bakhtiniano de excedente de visão ou exotopia30.

Todorov escreve, em seu prefácio à Estética da Criação Verbal (2003, p. xix) que,
uma vida encontra um sentido, e com isso se torna um ingrediente possível da construção estética, somente se é vista do exterior, como um todo; ela deve estar completamente englobada no horizonte de alguma outra pessoa; e, para a personagem, essa alguma outra pessoa é, claro o autor: é o que Bakhtin chama a “exotopia” deste último.

Para Bakhtin, a criação artística ou estética pressupõe o encontro entre dois sujeitos, duas consciências. Pressupõe um segundo sujeito, que a partir de seu excedente de visão, em relação ao primeiro, dá o acabamento à obra.

Pensemos num exemplo real, pautado na relação do investigador e seu trabalho de escrita, semelhante à relação que estou vivendo enquanto elaboro este texto: desde a posição que ocupo, enquanto estudante/ investigadora, minha visão se restringe, de certa forma, ao meu campo de estudo. E, quando um segundo sujeito entrar em contato com este texto que estou produzindo, por exemplo, a minha professora orientadora, se produzirá uma tensão entre nossos dois olhares. O olhar da orientadora intervirá com suas posições teóricas, problemáticas, trazendo ao meu trabalho novas questões, sobre as quais não pensei, não lancei olhar.

Trata-se, sobretudo, de um encontro, mas no qual não há fusão na posição dos sujeitos. Pois se houvesse fusão ou identificação absoluta de suas posições, não seria gerado um excedente de visão, visto que o excedente gera-se a partir de algo que é visto por um sujeito desde seu lugar no mundo, e que é inacessível ao outro.

Assim como um homem que admira o pôr do sol, sentado à beira de um lago, mas que nunca poderá admirar a sua própria imagem ou figura contempladora, como um elemento da paisagem. A imagem do homem contemplador é, para si mesmo, um elemento que Bakhtin denomina transgrediente. No entanto, um segundo sujeito, desde uma posição distinta e singular, poderá pintar ou fotografar o contemplador, desde suas costas, enquadrando a imagem do homem que contempla o sol. O fotógrafo ou pintor é um artista, que ao realizar sua obra, dá sentido e acabamento à vida do homem retratado, e com a possibilidade de apresentar ao mesmo tempo algo que a ele seria eternamente inacessível: a imagem de sua posição ao lado do sol e do lago.

Essa relação de tensão entre duas posições ou olhares distintos, que produz um excedente de visão, é o que constitui o gesto exotópico de acabamento ou exotopia31. Segundo Bakhtin (2003, p.21),


Quando contemplo no todo um homem situado fora e diante de mim, nossos horizontes concretos efetivamente vivenciáveis não coincidem. Porque em qualquer situação ou proximidade que esse outro que contemplo possa estar em relação a mim, sempre verei e saberei algo que ele, da sua posição fora e diante de mim, não pode ver: as partes de seu corpo inacessíveis ao seu próprio olhar - a cabeça, o rosto e sua expressão -, o mundo atrás dele, toda uma série de objetos e relações que, em função dessa ou daquela relação de reciprocidade entre nós, são acessíveis a mim e inacessíveis a ele.

Por outro lado, no que tange a mim e à escrita de meu próprio diário de bordo, meu texto-experiência, pelo fato de ele se dar como uma expressão direta do vivido, seria quase possível afirmar, num primeiro relance, que neste momento de escrita, estou quase em fusão com este texto, somos quase extensão um do outro, o que escrevo faz parte de mim. E, assim como uma parte de meu corpo, consigo vê-lo somente desde meu ponto de vista, de minha perspectiva, que é absolutamente limitada. Já Ao ler reler cada uma de suas páginas, vou percebendo a coerência desejada, as idéias organizadas. Além disso, sempre que me distancio, quando permaneço dois dias sem lê-lo, acontece algo: nas questões que pareciam já formuladas, organizadas, sempre encontro algum ponto a ser repensado, reelaborado, reescrito, operando essa escrita como um trabalho infinito. E, penso que isso se deve ao fato de que, a cada retomada, estou transformada pelas leituras teóricas que venho realizando, pelas discussões com colegas, pela construção de novos conceitos que me ajudam a seguir com as problematizações.

Diante do fato de que consigo criar uma determinada relação de distância com meu texto, gerando um excedente de visão, poderíamos pensar que posso tornar-me um outro em relação a mim mesmo? Posso tornar-me um outro que completa e que dá acabamento ao meu texto, ao englobar este num novo contexto em que se agregam elementos que anteriormente estavam transgredientes à minha própria visão?

Segundo Bakhtin, há a possibilidade do sujeito colocar-se fora de si mesmo. Da mesma forma que minha orientadora torna-se outro, ao ler meu texto, também posso produzir um distanciamento, criar um excedente de visão, e entrar numa posição de segundo sujeito, um outro, em relação a este.

O movimento em que se vai configurando este excedente de minha visão é de grande interesse para o presente trabalho, visto que desde o tempo da experiência vivida (durante o período de docência), até o tempo das releituras do texto-experiência (durante o período de escrita deste trabalho), destacam-se dois pontos de configuração do excedente de visão, que estão relacionados, também, com a posição de sujeito tomada por aquele que escreve, ou seja, por mim, enquanto docente-estagiária e investigadora. Cabe, agora, delinear tais posições de sujeito, o que será realizado a partir de uma relação espaço-temporal.

O espaço e o tempo onde têm início a experiência docente tratam-se, respectivamente, da instituição escola e do período de estágio. Este espaço e tempo constituem o plano do vivido, o plano em que se imerge nos acontecimentos. Aqui não se escuta nem se vê a si mesmo, devido à imersão na experiência docente, em que se fundem a graduanda de pedagogia, a mulher, a filha, a irmã, a amiga, a bolsista, a professora-estagiária, etc. Se fundem vários “eu” num sujeito, um sujeito da experiência.

Tal como o contemplador que não se vê ao lado do sol e do lago, o sujeito da experiência aqui não se vê como professora-estagiária na escola, mas vê a escola, os alunos, os pais, os colegas, interagindo com estes como se representassem personagens num mesmo teatro, co-atuantes num mesmo cenário. Curiosamente, um teatro sem espectadores!

Considerando, como referido, que as experiências podem ser vistas como acontecimentos, daquilo que ocorreu, aconteceu comigo (e é claro) na relação com um outro, nessa medida os acontecimentos são sempre éticos, pois que se dão nos encontros entre personagens, entre professora e alunos, professora e pais, professora e escola. A escola, uma instituição vista como personagem também, pois do que é feita uma instituição, senão de pessoas/personagens?!, de cristalizações de relações eu-outro?! Os acontecimentos não são nomeados éticos em razão de alguma questão moral, no sentido estrito, mas são éticos porque tem ligação com valores, sentimentos, crenças, afetos, explicitados nas relações de encontro eu-outro, nos modos em que essas relações se dão, acontecem.

Estabelecer limites de espaço é um trabalho complexo e talvez irrealizável. A escola pode ser definida enquanto espaço físico, mas a escola para o sujeito da experiência, professora-estagiária, era mais que isso, pois a escola se estendia à sua casa, ao seu trabalho, à universidade. O espaço-escola não era abandonado às 17 horas quando terminavam as aulas, mas era vivenciado até mesmo em sonhos. De tal maneira que as experiências docentes não poderiam ser consideradas somente como as experiências vividas no interior e nos limites concretos da escola, pois tinham relação com um tempo, o da docência.

A escrita do texto-experiência, no entanto, é realizada por um segundo sujeito, embora a sensação de imediatidade entre a escrita e o vivido, tornando-a quase que uma extensão do mesmo, como enunciado pouco antes. Ainda que pareça tratar-se do mesmo, o sujeito que escreve já não é mais o sujeito da experiência, situado no plano do vivido, mas trata-se de um sujeito da linguagem, um sujeito que escreve sobre o vivido. Portanto, um outro em relação a si mesmo.

Para Bakhtin, o sujeito da linguagem constrói-se pelo uso efetivo da linguagem, em diversos contextos onde se dá a comunicação discursiva.

O sujeito que produz o diário de bordo é o que faz uso da linguagem escrita para escrever sobre a experiência já vivida, portanto, um sujeito da linguagem.

Neste ponto, reconfigura-se o espaço e o tempo, bem como se movimenta a posição de sujeito. Emerge entre a vida vivida e o texto-experiência os primeiros ensaios de afastamento exotópico e de acabamento estético do vivido. Configura-se um excedente de visão que permite o diálogo consigo (entre duas consciências), abrindo o texto-experiência à possibilidade dialógica.

Para Bakhtin (ibid, p. 5), quando o artista fala sobre sua criação, costuma substituir sua atitude efetivamente criadora, em que vivenciou apenas a sua personagem, para então externar uma posição em face da obra, enunciando a impressão que ela produz sobre ele como imagem artística.

Ao tratarmos o texto-experiência como uma obra, entendemos que a sua existência pressupõe um primeiro deslocamento/distanciamento: eu, professora-estagiária, não me situo mais como sujeito da experiência e personagem, mas passo a colocar-me fora do vivido, ao escrever sobre minhas afetações em relação à experiência, ao olhar (de fora) contemplativamente para as relações eu-outro no tempo da experiência, para os valores em jogo, enfim para os atos éticos levados a efeito e como os mesmos afetaram e foram afetados pelos sujeitos da experiência envolvidos (eu-outros).

O espaço e o tempo de produção texto-experiência não são necessariamente definíveis, pois este cumpre uma função de ponte ou passagem entre dois espaços e tempos, situando-se no entremeio: entre o acontecimento ético (entre personagens) e o acontecimento estético (entre personagens e o autor - de como o autor da escrita contempla e vê os personagens sujeitos da experiência vivida)32.

No plano do vivido o sujeito da experiência era visto como uma personagem de sua própria história. Posteriormente, numa espécie de “entre-planos” ou ponte, ao escrever sobre si e sua experiência o sujeito realiza um certo deslocamento de sua posição de personagem, constituindo-se como um sujeito da linguagem. Tal sujeito da linguagem, ao realizar a releitura e análise de seus registros, desloca-se, ainda, para um outro plano, o plano do pensamento sobre o vivido, em que se dá o acabamento e acontecimento estético.

Quando retorno ao meu texto-experiência para relê-lo e analisá-lo, encontro a possibilidade de abarcar integralmente a personagem que eu constituía no plano aberto do vivido, em que os acontecimentos eram éticos, se davam na convivência com o outro. Tal possibilidade se abre em função da tensa distância no espaço e no tempo. O espaço e o tempo agora são outros: o espaço é o da universidade, no meu retorno ao campus acadêmico, e o tempo é o da investigação sobre a experiência, em que é possível interagir com diversos autores, professores, colegas, discutindo sobre o passado, na tentativa de atualizá-lo no presente, e na escrita de um trabalho de conclusão de curso.

O sujeito da linguagem que escreveu e agora relê seus escritos, constitui-se também como sujeito autor, na medida em que se coloca à margem de si, e dá acabamento estético à experiência vivida pela própria vida, totalizando-a com elementos que antes eram inacessíveis, elementos aos quais somente um autor pode ter acesso.

Calcando-nos no exemplo do teatro, em que o ator-personagem não vê a si mesmo enquanto atua, podemos pensar que o sujeito autor atua como um expectador/contemplador, tendo uma visão mais ampla e acabada da cena contemplada, colocando o ator-personagem ao lado e dentro do cenário, vendo-o como parte do cenário. Não ocupa a mesma posição que o contemplador admirador do sol, como vimos antes, mas uma posição de expectador como pintor ou fotógrafo, que está fora da cena, e possui uma visão de todos os personagens e dos acontecimentos éticos entre eles. O acabamento dado pelo sujeito autor dá-se por meio de sua capacidade criadora de proceder a um distanciamento e contemplar o todo.

Segundo Bakhtin (ibid, p. 23),
Urge que o excedente de minha visão complete o horizonte complete o horizonte do outro indivíduo contemplado sem perder a originalidade deste. Eu devo entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dele, e depois de ter retornado ao meu lugar, completar o horizonte dele com meu excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele, converta-lo, criar para ele um ambiente concludente a partir desse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha vontade e do meu sentimento. (grifo meu)

O princípio do acabamento estético, para Bakhtin, se dá na compenetração, ou seja, no estabelecimento de uma relação de empatia com a personagem: “Eu devo vivenciar – ver e inteirar-me – o que ele vivencia, colocar-me no lugar dele, como que coincidir com ele” (ibid). Porém, a atividade estética realmente se realiza quando retornamos ao nosso lugar fora da personagem, e damos acabamento ao material da compenetração, quando se preenche tal material com os elementos transgredientes, que encontramos em nossa posição exterior, em nossa vida particular.


Com um só e único participante não pode haver estético; a consciência absoluta, que não tem nada que lhe seja transgrediente, nada distanciado de si mesma e que a limite de fora, não pode ser transformada em consciência estética, pode apenas familiarizar-se, mas não ser vista como um todo passível de acabamento. Um acontecimento estético pode realizar-se apenas na presença de dois participantes, pressupõe duas consciências que não coincidem. (ibid, p. 23)
Além de pressupor a presença de duas consciências, há que se considerar que tais consciências não coincidam, não se fusionem, pois é a tensão da distância entre elas que fundamenta o acontecimento estético. Onde há a fusão do autor com a personagem, não há uma passagem do acontecimento ético para o acontecimento estético, logo, deixa-se de enriquecer a vida com um ponto de vista antes inacessível e com novas produções de sentido.

A empatia que caracteriza um vivenciamento da personagem, pelo autor, para Bakhtin não consiste na pura e simples empatia de colocar-se no lugar do outro, mas envolve um elemento, a “simpatia”: “Para que comecemos a vivenciar empaticamente com alguém, essa pessoa deve tornar-se simpática para nós” (ibid, p.75).

Bakhtin criará, então, a expressão “empatia simpática”, para referir-se ao vivenciamento simpático da personagem, que é atravessado, sobretudo, por um sentimento de amorosidade.
A empatia simpática com a vida da personagem é o seu vivenciamento em forma totalmente diferente daquela que essa vida foi ou poderia ter sido vivenciada pelo seu próprio sujeito. Essa forma de empatia não aspira, absolutamente, ao limite da coincidência total, da fusão com a vida objeto da empatia, uma vez que tal fusão equivaleria à perda desse coeficiente de simpatia, de amor e, conseqüentemente, da forma que era criada por esses sentimentos. (ibid)
A amorosidade é considerada um elemento esteticamente produtivo. Elemento criado pelo autor, sujeito ativo, que estabelece uma relação simpática e amorosa com a personagem, possibilitando um vivenciamento empático não fusionado com este.

Com isso, quando realizo a releitura de meu texto-experiência, tal exercício, para que se torne esteticamente produtivo, deve estar permeado por um sentimento de amorosidade, por um desejo de reviver a experiência. Porém, reviver a experiência não significa reviver as angústias, os sofrimentos, as alegrias, pois assim não haveria um deslocamento de posição, e se continuaria vivendo a vida como um personagem. Nesse caso, se perderia a posição potente de situar-se fora, como autor de sua própria história, com a capacidade de reinventar a experiência, produzindo novos sentidos sobre ela.





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