Entrevista n.º 2 Profissão: Psicóloga Clínica



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Entrevista n.º 2

Profissão: Psicóloga Clínica


E: Boa tarde! Vamos começar.

Na sua opinião, o que é um doente mental?

e: Um doente mental é alguém que sofre de uma doença psiquiátrica, sendo que a mesma pode ter várias vertentes, não é?! Não só em termos biológicos, mas também em factores sociais, familiares, acontecimentos da vida. Todos esses aspectos são importantes no que diz respeito ao desenvolvimento de uma doença mental. Ainda que muitas vezes, esses factores mais sócio-familiares, culturais, os acontecimentos de vida sejam… estejam em detrimento dos outros. Acabam por valorizar muitas vezes a parte biológica em detrimento dessa. Para além disso, um doente mental é um doente em termos do seu funcionamento que se encontra deteriorado nas suas várias vertentes, não é?! E que implica muitas vezes uma fuga da norma, aquilo que é considerado a norma em termos sociais ou em termos do seu funcionamento laboral, académico. As pessoas com uma doença mental têm, digamos assim, uma fuga à norma em termos desse funcionamento.

E: Qual é a importância da sua profissão para o tratamento do doente mental?

e: É assim, se nós de facto considerarmos a vertente mais psicológica, social, familiar… de facto a Psicologia Clínica pode dar um contributo importante nesse tipo de tratamento e em termos da reabilitação do doente. Primeiro, a própria avaliação que nós fazemos do doente dá outro tipo de informação. Por exemplo em termos das capacidades cognitivo-intelectuais, da avaliação da personalidade… Nós dispomos de instrumentos que mais facilmente nos permitem fazer uma caracterização mais pormenorizada das dificuldades do doente. Por outro lado, em termos do tratamento nós vamos trabalhar não só a vertente das crenças, das ideias, dos factores que mantém as suas dificuldades, mas também em termos de comportamento, da modificação de toda uma serie de comportamentos que leva a que as pessoas muitas vezes vão mantendo também essas dificuldades… Para além da intervenção em termos familiares, por exemplo em termos sistémicos, não é, também dão uma ajuda… até porque nós sabemos que muitas vezes esses factores também acabam por contaminar a evolução dos quadros. Portanto, eu penso que há uma mais-valia importante no contributo da Psicologia Clínica para esse tipo de situações.

E: Pode haver alguma situação em que pense que o doente deveria falar com um Psiquiatra e não consigo?

e: Hum…

E: Qual é a diferença entre o Psicólogo e o Psiquiatra?



e: Eu penso que todos os doentes beneficiariam quer de uma intervenção psiquiátrica quer de uma intervenção psicológica. Portanto, eu acho que o critério em termos da avaliação e intervenção deveria ser sempre do psicólogo e não do psiquiatra. Muitas vezes o facto de nós não termos a totalidade dos doentes acompanhados pela Psicologia Clínica tem a ver com o número escasso de técnicos que há. Agora, em termos da diferença eu acho que são perspectivas que se complementam. Agora, também depende muito das situações… por exemplo, se nós tivemos um doente com uma esquizofrenia, obviamente que a parte psiquiátrica e da medicação acaba por ter um peso muito maior, uma importância muito maior no tratamento do que noutro tipo de situações… por exemplo, uma depressão reactiva… obviamente que a medicação é muito importante mas a Psicologia Clínica pode fazer um trabalho mais consistente e com melhores resultados do que numa esquizofrenia. Portanto, eu acho que mais do que diferença, eu acho que a Psiquiatria e a Psicologia Clínica devem ser complementares.

E: Qual é a principal intervenção de um Psicólogo?

e: Depende do contexto em que nós trabalhamos. Repare, relativamente à minha prática aqui, em primeiro lugar temos a parte da avaliação, quer em termos da entrevista clínica, quer em termos da avaliação psicométrica… em termos das avaliações neuropsicológicas, avaliações de personalidade, avaliações às capacidades cognitivo-intelectuais. De facto, nós dispomos de instrumentos para avaliarmos. Em termos da intervenção, nós temos vários modelos e vários tipos de abordagem. Por exemplo, e reportando-me mais ali às patologias aditivas, um tipo de abordagem que nós fazemos muito importante junto desses doentes é a abordagem motivacional. Porque nós temos tendência a avaliar a motivação como uma variável estanque em que o doente está motivado ou não está motivado. Quando nós sabemos que o próprio conceito é mutável e daí é uma das abordagens iniciais do tratamento que nós fazemos, e claro que pode ser aplicado noutro tipo de situações como é o caso das doentes aqui da clínica feminina. Depois temos a intervenção cognitivo-comportamental individual, temos de grupo, fazemos sessões de grupo onde verificamos as alterações dos comportamentos e também das cognições, das crenças. Fazemos também a abordagem familiar. Com algum tipo de situações fazemos a reabilitação cognitiva, doentes com quadros demenciais ou com deterioração cognitiva em contexto de quadros psicóticos ou quadros de perturbação por consumo de substâncias. Agora, depende do modelo de base de cada pessoa. O nosso é o cognitivo-comportamental, depois consoante o contexto em que a pessoa trabalha e o modelo que usa, as intervenções variam um bocadinho…mas mais ou menos são estas.

E: É o médico que sinaliza qual o doente que necessita da intervenção do psicólogo ou este tem autonomia para fazer as suas avaliações?

e: Ai está! Depende muito do Pavilhão… Aqui no Pavilhão 1 não, é só por indicação do médico. Nós só acompanhamos as pessoas, iniciamos um processo de avaliação e intervenção por indicação do médico psiquiatra que está a assistir a pessoa. Já no Pavilhão 3, por exemplo, todos os doentes são distribuídos pela Psicologia Clínica, todos os doentes são intervencionados por nós.

E: É opção do serviço, então?

e: Sim, podemos dizer que sim.

E: E na Consulta Externa, tenho reparado que na listagem vêm consultas para a Psicologia.

e: Hum, hum…

E: São os psicólogos que marcam, como é que se processa?

e: A via de acesso dos doentes é variável. Portanto, pode ser o próprio, a pessoa que pura e simplesmente nos telefona ou chega lá e marca a consulta; ou por indicação dos cuidados de saúde primários, por exemplo o médico de família pode fazer um encaminhamento directo para a Psicologia; ou então doentes sem internamento que nos são encaminhados pelos médicos que os assistem na consulta externa ou doentes que transitem do internamento e que já no internamento tinham um acompanhamento psicológico que mantém na consulta.

E: Como é que um maior ou menor período de internamento interfere no processo de reinserção social?

e: Eu acho que depende muito do tipo de situação que nós temos em causa. A minha experiência diz-me que às vezes quando são internamentos que se prolongam demasiado, isso acaba por ser contra-procedente em termos da integração do doente na comunidade. Agora aí está, mais uma vez depende muito do tipo de patologia de base e de todos os outros factores que envolvem a pessoa e das condições que ela tem. Eu acho que aí não podemos definir um período exacto ou correcto de um internamento porque…

E: Não é linear.

e: É, é, é.

E: Como contribui o hospital para a integração social do doente mental?

e: Pois. Em relação a isso eu tenho uma opinião distinta. Eu acho que por um lado, o facto de nós termos cá doentes internados ou que dizem que vêm cá ao Sobral Cid à consulta externa, isso muitas vezes e dada a sociedade que nós temos, isso acaba por os controlar de determinada forma e muitas vezes não é facilitada a integração. Por outro lado, eu acho que a grande vantagem… nós temos uma instituição que à partida vai ajudar a compensar os doentes e a criar todas as condições para que eles possam ter um processo reabilitativo em condições. Eu penso que quer por essa vertente quer depois por todos os outros meios que podem ser disponibilizados pelo hospital pode de facto ser uma mais-valia. Ou seja, é por intermédio da instituição que se consegue uma integração numa formação profissional, por exemplo, ou a articulação com as infra-estruturas locais que actualmente podiam não estar tão a par da situação. Portanto, eu acho que essa é a grande vantagem. O hospital deve abrir várias portas em termos do tratamento.

E: Em relação à psiquiatria na comunidade, qual é a sua opinião?

e: Para ser franca, eu não tenho muita informação acerca disso. Agora, quando reflicto acerca da psiquiatria comunitária levantam-se-me algumas questões que me deixam um bocadinho de pé atrás. Até porque em comparação com a experiência que já ocorreu noutros países, como é o caso da Áustria e da Itália… eu acho que o conceito de psiquiatria comunitária era importante e interessante se se criassem as condições de base para isso. Agora, a gente pensar em desinstitucionalizar os doentes sem lhes criar alternativas em termos comunitários e apenas usar os meios que a gente tem tido até agora, não é? E o Serviço Social sabe bem as dificuldades que há para integrar os doentes. Portanto, eu acho que isso assim não vai funcionar. Acho que o processo está um bocadinho invertido, está-se a começar pelo fim.

E: Não há nada…

e: Não há alternativas de base, e a experiência dos outros países diz-nos que a experiência é negativa por esse aspecto. Isso é uma das coisas que eu acho que devia ser repensada. Outra das questões que também me coloca algumas reservas é sobre o papel que nós teremos em termos comunitários. Porque é assim, se uma das ideias é nós irmos à comunidade fazer o despiste das situações, a avaliação e a intervenção, então para que é que serve a consulta externa? Eu acho que idealmente e quanto mais próxima da comunidade envolvente a gente estiver, melhor. Agora, é preciso haver infra-estruturas e técnicos para fazer esse trabalho.

E: Têm de ser reunidas as condições.

e: Ora bem!

E: Onde se manifesta a exclusão social destes doentes?

e: Ai, eu acho que é em muitas vertentes, muitas vertentes. E tem a ver um bocadinho com os rótulos, não é?

E: Hum, hum.

e: Por exemplo, um aspecto que para mim é óbvio é quando nós temos um doente cá internado e tentamos fazer a integração dele numa instituição e eles nos pedem um comprovativo em como o doente não tem doença mental. Eu acho que só por isso… e as próprias instituições que deviam estar receptivas a isso, demonstram de facto a questão da exclusão social de que esses doentes são vítimas. Já para não falar da questão laboral, em termos comunitários. Por exemplo os doentes inimputáveis acabam por ser um grupo um bocadinho à parte, mas de qualquer das formas eu acho que isso é bem patente neles e se manifesta em todas as áreas, nomeadamente na dificuldade que nós às vezes temos de integrar os doentes porque não temos resposta. E essa falta de resposta tem a ver com o preconceito e com uma serie de crenças erradas que as pessoas têm acerca da doença mental.

E: Qual é o papel da família no tratamento e na reinserção do seu doente mental?

e: Eu acho que tem um papel fundamental. E, cada vez mais eu chego à conclusão que o papel das famílias é muito importante. Não é por acaso que nós na nossa intervenção também dedicamos tempo a trabalhar junto das famílias. Aliás, há muitos estudos que demonstram isso. Só para lhe dar um exemplo, nós sabemos que nas esquizofrenias, se se trata de um doente que provem de uma família com uma elevada expressividade emocional, ou seja de uma família que é muito crítica ou que tem um contacto hostil, ou por outro lado, que é super protectora… o facto de haver esse tipo de postura por parte da família aumenta cinco vezes a probabilidade da recaída do doente. O exemplo dos doentes com patologias aditivas também é flagrante a esse nível. Se nós só trabalharmos o doente sem trabalhar a família, em termos de mudar as crenças, as expectativas… a maneira como a própria família pode e deve ajudar o doente ou incentivar a vir à consulta… eu acho que é fundamental. É um trabalho paralelo que é mesmo importantíssimo e sem isso muitas vezes acontecem as recaídas.

E: Pela sua experiência, a família é apoiante? Participa, reage bem a vir ao hospital…

e: É assim, inicialmente a família pode vir com algumas reservas, um bocado de pé atrás, também com uma serie de ideias mal arrumadas, digamos assim, em torno dos problemas que trazem cá os familiares, mas eu acho que… pronto, a minha experiência diz-me que, por norma, as pessoas são colaborantes, participam nos processos. Pensando em termos globais não tenho grande razão de queixa.

E: No processo de reinserção social, eu estou mais a par do trabalho do serviço social, o psicólogo também participa neste processo?

e: Na integração física, ou seja, levar o doente, falar com os técnicos na comunidade, ou na preparação da integração?

E: Na preparação.

e: Depende um bocadinho de tudo. Por exemplo, eu consigo dizer de forma muito mais estruturada ali, por exemplo no 3 que é o serviço onde eu passo mais tempo, do que aqui que é só em part-time, não é?! Aí essa preparação é muito mais consistente e continuada. É aí obviamente o papel principal, na minha opinião, é do assistente social, faz avaliação mais global, digamos assim, o contacto… tem o papel primordial e fundamental. Agora… estava a lembrar-me de uma situação concreta que tenho neste momento… É uma moça que está internada ali no 3 e que vai ser integrada na APPACDM. A avaliação em torno do QI, das capacidades cognitivo-intelectuais, das capacidades de funcionamento da doente, o que é que ela é capaz de fazer ou não, isso é feita por mim. Eu faço um relatório… em termos da preparação do processo, sim. Em termos locais, às vezes não tanto como eu desejava, mas ainda assim vamos…

E: É importante irem?

e: É, É. E aí está, eu acho que é uma das áreas em falhamos um bocadinho… Eu acho que se houvesse um trabalho mais consistente a esse nível, que nós pudéssemos acompanhar o serviço social… Trabalhar a questão do preconceito lá, a integração, trabalhar junto das famílias, as instituições localmente, eu acho que isso seria um trabalho importante a fazer. Mas, de facto por questões de constrangimento de tempo acaba por não dar. Eu acho que seria uma das coisas em que valeria a pena investir.

E: Não sei se esta pergunta se pode aplicar a si. Nos últimos meses foram internadas algumas doentes menores aqui no Pavilhão 1.

e: Sim.

E: Eu queria a sua opinião relativamente a esse facto. Se é benéfico, se se justifica o internamento dessas doentes.



e: Se eu reportar exclusivamente à sintomatologia psiquiátrica, eu acho que faz sentido nalguns casos que os doentes possam ter um contexto mais protegido com técnicos especializados no sentido de trabalhar as suas problemáticas. Agora, uma instituição com as características da nossa… eventualmente não será o contexto mais adaptado. Quanto mais não seja pela diferença de idades, pela diferença de interesses… isso tudo são fenómenos que depois nos podem contaminar… a própria adesão ao tratamento, a motivação das jovens para a mudança. Portanto, se eu acho que deve haver internamento nalguns casos? Sim, acho que sim. Se este serviço será o mais adequado para receber este tipo de doentes? Acho que não.

E: É fácil avaliar se é um problema psiquiátrico? Pode ser um problema educacional…

e: Eu acho que nesse aspecto… Repare, normalmente fazemos estudos de personalidade. Formalmente, antes dos 18 anos não podemos diagnosticar um distúrbio de personalidade. Agora, eu acho que o facto de elas serem “apanhadas mais cedo” pode ser uma vantagem. Porque nos permite identificar alguns traços prodórmicos, de que alguma coisa não está bem, provavelmente terá aquela evolução, e trabalharmos o mais precocemente possível. Nesse aspecto, eu acho que pode ser uma vantagem. Agora, muitas vezes não é fácil porque quando nós falamos de uma pessoa com 15, 16, 17 anos que está internada, é porque à partida há muitos factores que estão envolvidos. Provavelmente já estamos a falar de casos mais complicados. Muitas vezes com consumo de substâncias à mistura, o que nos complica muito quer em termos do diagnóstico quer em termos da intervenção. Quanto mais cedo é detectada a psico-patologia, à partida pior será o prognóstico, não é? O que acaba por ser contraditório, porque a verdade é que também, quanto mais cedo a gente começar a trabalhar, provavelmente, mais hipóteses temos de as coisas correrem bem. Eh… Não sei se respondi à pergunta…

E: Sim. Não seria mais benéfica uma instituição educacional?

e: Depende muito do tipo de caso, depende muito. Se você me disser, por exemplo, que é uma jovem com um distúrbio indumentado, que está com um índice de massa corporal baixíssimo… aí uma casa de correcção não irá fazer nada e convém ser hospitalizada. Agora, por exemplo, se você me disser alguém com alterações de comportamento, aí provavelmente faria mais sentido uma casa reeducativa do que propriamente um hospital. Mas depende muito das características das instituições. Porque não basta só o tipo de hospital, não basta só o tipo de instituição, depende muito da equipa que está a trabalhar, dos objectivos, das condições e… pronto. Primeiro, acho que há poucas, devia haver mais respostas do que aquilo que há; e depois dentro daquelas que há, algumas de que se tem bons exemplos e de que as coisas correram bem e há outras em que de facto correram muito mal. Varia sempre.

E: Fez-me um bocado de confusão ver crianças tão novas já internadas num ambiente como este.

e: Aí está, Bárbara, se a gente tivesse uma pedopsiquiatria que funcionasse melhor, talvez não houvesse necessidade de essas doentes virem para cá. Acho que isso só nos leva a questionar porque é que essas doentes nos chegam. Se teoricamente o nosso regulamento diz que nós somos vocacionados, digamos assim, para doentes menores de idade a partir dos…18 anos, então porque é que essas doentes nos chegam? É porque a gente trabalha muito bem ou é porque há alguém a trabalhar muito mal?

E: Pois.


e: Temos aquele caso da jovem com bulimia, que a gente cá teve. Se calhar esta não era a instituição mais vocacionada para a receber, quando há outros serviços com consulta de distúrbios alimentares que teoricamente funcionam muito bem, porque é que vêm para aqui? (silêncio) É um segredo dos deuses. Não sei.

E: Como é que é a sua relação com os outros técnicos de profissões distintas?

e: Olhe, nesse aspecto eu acho que as coisas correm bem. Acho que não há… quer dizer, às vezes eu acho que poderia haver alguma confusão no que são os papéis e as funções de cada um. Pessoalmente, não noto essa dificuldade. Acho que cada um sabe quais são os seus objectivos, as suas funções. Nesse aspecto acho que não há interferências. Naquilo que eu tenho que dar a mão à palmatória, é que às vezes, e por falta de disponibilidade, não trabalho de forma tão articulada como eu acho que seria o ideal. Isso é que eu acho que funciona menos bem, digamos assim.

E: Mas há multidisciplinaridade no serviço? No sentido da interacção das profissões no tratamento do doente.

e: (Risos) É assim, idealmente devia haver. Nalguns casos há, talvez não tanto como eu desejava. Porque uma coisa é a multidisciplinaridade, outra coisa é cada um fazer por si e depois estamos uma vez por semana todos juntos a falarmos sobre os casos. Acho que há questões que podiam mais facilmente ultrapassáveis se de facto houvesse essa real multidisciplinaridade no atendimento das pessoas. Mas aí está, eu acho que não é pelas pessoas não terem noção disso… se os técnicos não tiverem disponibilidade para isso e, mais uma vez estou a falar por mim, acho que tem mesmo a ver com o facto de nós sermos muito poucos, com muito trabalho. Muitas vezes não há disponibilidade para a gente se sentar um bocadinho a conversar, a trocarmos impressões sem ser no contexto de reunião. Portanto, é mais por práticas logísticas e de tempo do que propriamente com a preparação, formação e perspectiva dos técnicos acerca disso.

E: Não existe, por exemplo um “médico-centrismo”, isto é, o médico faz o diagnóstico, traça um plano de tratamento e depois, entram os psicólogos, os assistentes sociais?

e: É assim… nalgumas situações pode haver isso, mas… eu defendo que para a gente conquistar o nosso papel temos que investir, temos que estudar, temos que saber, temos que estar presentes. Ora, se nós estamos numa e reunião e não damos a nossa opinião, ficamos inseguros ou perdidos em relação ao que estamos a fazer com o doente, claro que não podemos conquistar um papel que é tão importante ou tão digno seja um psicólogo, seja um assistente social ou seja um médico. Portanto, aí eu acho que nada se consegue por acaso e sem trabalho. Se fosse há uns atrás provavelmente essa questão colocava-se muito mais do que agora. Claro que ainda se passa, mas eu penso que aos poucos…

E: Falando dos psicólogos como um grupo, como estão com as outras profissões?

e: (Risos) Se os psicólogos se dão bem com as outras profissões… Mais uma vez eu vou ter de responder apenas por mim. No meu caso, e mais uma vez, não tenho razão de queixa. Acho que isso tem a ver um bocadinho com o que falamos anteriormente. Se cada um souber qual é o seu papel, se o fizer de forma adequada e com o devido investimento eu acho que não há motivo para as pessoas não se entenderem. Nenhum de nós está cá a mais, nenhum de nós está a substituir as funções do outro. Acho que não há motivos…

E: Como é que ‘sente’ que os médicos vêem os psicólogos?

e: Depende do psicólogo… (Risos)

E: Se valorizam o trabalho…

e: Eu acho que sim, sim. Não tenho razão de queixa. É assim, idealmente eu acho que todas as doentes de um serviço como este deveriam ser avaliadas e intervencionadas do ponto de vista psicoterapêutico. Agora, eu acho que, e pelos motivos que já explanei, ainda assim o trabalho acaba por ser valorizado e reconhecido.

E: Penso que já respondeu a tudo… a psicologia está em todos os serviços?

e: Já me está a fazer perguntas difíceis… (Risos) Teoricamente ou na prática?

E: As duas coisas.

e: As duas coisas… Então, teoricamente todos os serviços estão cobertos pela psicologia clínica. Na prática, nós somos sete.

E: São só sete psicólogos?

e: Sete psicólogos. Portanto, num Centro Hospitalar com treze unidades é impossível a gente conseguir chegar a todo o lado. Das duas uma, ou vamos tapando buracos e não fazemos nada devidamente estruturado, nada devidamente continuado e com cabeça, tronco e membros; ou então temos de ter prioridades e definimos áreas preferenciais de intervenção. Neste caso, em termos de agudos, ou seja, clínica feminina, masculina e adições o serviço está assegurado e há psicólogos a trabalhar directamente nesses serviços. Em termos da forense, também, estão duas psicólogas lá a tempo inteiro. Hospital de Dia também. Aqueles que estão mais desprotegidos, digamos assim, são os crónicos. Pelas características da própria patologia, pela institucionalização. Claro que obviamente haveria muito trabalho a fazer, mas por uma questão de disponibilidade o trabalho é muito, muito reduzido. E acho que estão todos… a Violência Doméstica é um caso à parte, têm a própria equipa.

E: É uma equipa de fora?

e: Sim, em termos de psicologia sim. Consulta externa, também estamos lá… só mesmo os crónicos é que estão mais desprotegidos.

E: De forma geral, gosta de trabalhar aqui?

e: Eu venho do Lorvão, como você sabe.

E: Não sabia.

e: Ah. Eu trabalhava na Unidade do Lorvão antes de vir para cá. Muito honestamente gostava mais de trabalhar lá.

E: Era melhor?

e: É assim, há coisas que aqui funcionam muitíssimo melhor, por exemplo, em termos de Serviço Social eu acho que aqui existe um peso enorme. Agora, eu acho que lá era um contexto mais familiar. Eram internamentos com menos pessoas, dava para a gente fazer um trabalho mais individualizado. E, depois, aqui como é por múltiplos pavilhões o próprio contacto com os técnicos é menor. Isso é uma das coisas que eu tenho sentido. Lá era mais fácil articular informação, nem que fosse num corredor ou no café. Aqui é mais complicado por isso, as pessoas cruzam-se pouco. Também há coisas que acho que funcionam melhor lá do que aqui, por exemplo, uma unidade de agudos com trinta e tal camas… é muito. E, claro, por melhor que seja a equipa que está a trabalhar… não conseguimos chegar. A unificação das coisas é sempre mal pensada. Como os inimputáveis, eu não concordo que a gente tenha cem inimputáveis. Estamos a falar de inimputáveis perigosos, tanta gente junta… não há condições de fazer um trabalho como a gente gostaria de fazer. Por isso acho que o Lorvão tinha essa vantagem, tinha um ambiente familiar, com outro tipo de contacto. Aqui, de facto temos mais recursos, temos mais pessoas, é mais central, temos outro tipo de respostas.

E: Bom, terminámos. Obrigada pela colaboração.





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