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Fundamentos Teológicos: Quem Pode Fazer o Bem?



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Fundamentos Teológicos: Quem Pode Fazer o Bem?

Diversos textos da Escritura são enfáticos em afirmar a incapacidade do ser humano em fazer o bem. Escrevendo à Igreja em Roma, o apóstolo Paulo retoma o tema dos Salmos 14 e 53 e descreve o estado de pecado do ser humano nos seguintes termos: "Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer" (Romanos 3:10b-12, minha ênfase). O diagnóstico da condição espiritual de todo ser humano é claro: ele é por natureza injusto, sua capacidade cognitiva está afetada especialmente no que diz respeito à sua compreensão da vontade e caráter de Deus, todos os seus esforços são inúteis no que tange a cumprir as exigências do seu Criador. Em suma, nenhuma de suas ações pode ser considerada intrinsecamente boa, uma vez que o padrão santo de Deus seja estabelecido como critério.

O diagnóstico de Romanos 3 é perfeitamente compatível com diversas outras afirmações da Escritura que apontam para o estado de corrupção do ser humano após a queda. Como um exemplo, temos Gênesis 8:21 onde lemos: "E o Senhor... disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade [ou infância, segundo o texto original]..." Ainda que o texto de Gênesis 8:21 vincule esta condição à infância - uma tradução alternativa do vocábulo hebraico naur - o ensino geral da Bíblia deixa claro que esta é uma condição constitutiva de todo ser humano desde sua concepção. Conforme o salmista Davi, todo ser humano nasce em iniqüidade e é concebido em pecado (Salmo 51:5). O Catecismo de Heidelberg ratifica esta afirmação em sua resposta à questão 7, onde se lê que a queda e desobediência dos progenitores da raça humana "envenenou, ou corrompeu nossa natureza de tal forma que nascemos pecadores - corruptos desde nossa concepção." Este estado de corrupção, acrescenta o mesmo Catecismo, torna o ser humano incapaz de fazer qualquer bem e inclinado a todo mal, "a menos que sejamos nascidos de novo pelo Espírito de Deus."

A despeito deste trágico diagnóstico, outras passagens da Escritura referem-se a seres humanos regenerados pela ação graciosa de Deus como capazes de fazer o bem. Na parábola dos talentos, Jesus ensina que alguns servos receberam a aprovação do seu senhor, sendo individualmente chamados de "servo bom e fiel." (Mateus 25:21, 23). O próprio apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos de Corinto, manifesta sua confiança de que a graça de Deus seria capaz de fazê-los abundar "em toda boa obra." (2 Coríntios 9:8, minha ênfase). Semelhantemente, o apóstolo Pedro em sua primeira epístola exorta os cristãos a viverem exemplarmente, de modo que suas boas obras motivassem os incrédulos a glorificar a Deus no dia da visitação - provavelmente numa referência a ação misericordiosa de Deus visitando estes mesmos incrédulos para salvá-los.

O ensino de que seres humanos regenerados são capazes de fazer o bem é ratificado pela Confissão Belga em seu artigo 24, onde lemos que é a fé que "leva o homem a fazer as obras que Deus ordenou em sua Palavra." Estas obras, "procedentes da boa raiz da fé são boas e aceitáveis a Deus, desde que elas são todas santificadas pela sua graça."

Todavia, passagens da Escritura como essas acima, bem como as de alguns documentos reformados, não nos ajudam a lançar luz sobre a questão em pauta uma vez que eles afirmam que apenas pessoas regeneradas e salvas pela ação graciosa de Deus são capazes de obras boas, uma realidade que não necessariamente se aplica àqueles que praticam a filantropia.

Os Cânones de Dort (1618-19), ao tratarem da total incapacidade decorrente da corrupção da natureza humana, introduzem uma qualificação muito importante ao afirmar: "[T]odas as pessoas são concebidas em pecado e nascem como filhas da ira, inadequadas para qualquer bem salvífico, inclinados para o mal, mortos em seus pecados, e escravos do pecado..." O mesmo documento, porém, reconhece que, a despeito de sua condição decaída, permanece "com certeza uma certa luz de natureza no homem [ser humano] após a queda, em virtude da qual ele retém algumas noções sobre Deus, sobre as coisas naturais e acerca da diferença entre o que é moral e imoral, e demonstra um certo anelo pela virtude e por um bom comportamento exterior." Os mesmos Cânones se apressam em acrescentar que esta luz da natureza não só é insuficiente para conduzir o ser humano a um conhecimento salvífico de Deus, mas também que freqüentemente ela não é usada de modo apropriado até mesmo em assuntos relacionados à natureza e à sociedade.

Não há diferença conceitual entre os documentos reformados acima apresentados. O que se pode entender é que enquanto que a Confissão Belga discute os resultados da queda e regeneração a partir de categorias essencialmente soteriológicas, os Cânones de Dort, conquanto mantendo-se fiel ao ensino bíblico acerca da queda e regeneração, introduzem uma categoria que permite uma avaliação mais precisa da ação moral do ser humano não regenerado.

É possível, então, à luz do ensino da Escritura e dos documentos reformados acima citados, fazer distinção entre três tipos de bem: salvífico, regenerado e moral. O primeiro é aquele feito com vistas a satisfazer a justiça e santidade de Deus. Nenhum ser humano per se - independente dos méritos de Cristo - é capaz de fazer tal bem. O segundo é o bem realizado por aqueles que foram alcançados pela obra regeneradora de Deus. Estes são capazes de boas obras, pois estas decorrem da verdadeira fé, conformam-se com a lei de Deus e são feitas para Sua glória. O terceiro bem é aquele que se conforma às exigências exteriores da lei de Deus e é praticado independentemente de fé em Jesus Cristo ou do desejo de glorificar a Deus. A despeito de não satisfazer os quesitos para se qualificar como um bem satisfatório para a salvação, nem mesmo como um bem reconhecido por Deus como louvável, ele deve ser reconhecido como um bem real do ponto de vista da moralidade.

Dentre os reformadores, João Calvino reconhece a capacidade dos seres humanos não regenerados para boas obras nos campos cultural, científico e moral ao distinguir entre o que ele chama de coisas celestiais e terrenas. "A descoberta ou transmissão sistemática das artes," afirma ele, " é conferida indiscriminadamente sobre piedosos e ímpios, e é corretamente contada entre os dons naturais." Diante disto, Calvino exorta seus leitores a reconhecer a admirável luz da verdade brilhando nos escritores seculares, e aprender com eles, caracterizando o "Espírito da Verdade como o único fundamento da verdade," e afirmando que desprezar a verdade onde quer que ela apareça implicaria em desonrar o próprio Espírito de Deus. Conseqüentemente, Calvino reconhece que a verdade brilhou por detrás dos antigos juristas e filósofos, e que não é possível aproximar-se de seus escritos sem grande admiração e reconhecimento de que tudo louvável e nobre por eles produzido procedeu de Deus. Assim, aqueles homens que a Escritura denomina como "homens naturais" devem ser considerados "brilhantes e penetrantes" em sua investigação das "coisas terrenas ou inferiores.

Ainda segundo Calvino, a capacidade do homem não regenerado não se limita à investigação das ciências, mas ao estabelecimento da ordem cívica e da disciplina com grande equidade, incluindo, portanto, elementos morais. Retomando esta perspectiva de Calvino, Stackhouse reconhece que a graça de Deus, e não a capacidade da vontade humana profundamente afetada pelo pecado, é o fundamento por detrás das realizações do homem natural, seja num "casamento maravilhoso, numa grande escola, numa lei justa, numa ordem política pacífica..." Ainda que Fischer fundamente sua proposta filantrópica de uma economia da doação em alguns pressupostos teológicos e morais discutíveis, diversas de suas pressuposições antropológicas são, em certo sentido, consistentes com o ensino da Escritura e com a teologia reformada. Resta, finalmente, considerar a possibilidade de um modelo ético alternativo à proposta de Fischer que evite seus problemas inerentes e possa ser empregado no processo de captação de recursos.





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