Elementos da constituiçÃo e autonomia profissional docente que emergem do percurso formativo de professores



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A AUTONOMIA DOCENTE NA ABORDAGEM HISTORICO-CULTURAL: CONTRIBUIÇÕES AO ESTUDO DOS PROCESSOS FORMATIVOS.
Priscila Larocca – UEPG

Neste trabalho abordamos pesquisa focada na identificação de elementos do percurso formativo dos professores que contribuem para a aquisição do sentido de autonomia.

A autonomia é uma qualidade desenvolvida nos processos formativos, consistindo responsabilidade de planejamento, desenvolvimento e avaliação das próprias experiências. Inclui atividades profissionais e de formação, nas quais o professor, individual ou coletivamente, toma a iniciativa de promovê-las. Todavia, o conceito de autonomia aqui compreendido não se restringe apenas ao sentido de auto-formação, embora o contemple, mas pretende ir além, ancorando-se na concepção de professores como intelectuais críticos e transformadores, em busca da emancipação para si e para os que são oprimidos. (GIROUX: 1997; FREIRE: 1999).

A autonomia docente não se separa de uma idéia de cidadania ativa, guiada por princípios de justiça para toda a sociedade. Entendemos que, numa perspectiva emancipadora, o professor analisa sistematicamente sua situação como profissional, problematiza aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos que permeiam a escola e a prática educativa, questiona seu próprio trabalho, suas concepções de sociedade, escola, currículo, ensino, metodologias e assume responsabilidades de produção e utilização do conhecimento. Ao mesmo tempo, compromete-se com a transformação do pensamento e da prática social dominantes.

Os estudos que respondem de forma mais completa às questões do processo de constituição profissional docente estão inseridos na Psicologia Histórico-Cultural desenvolvida por Vygotsky. Sua amplitude e complexidade são tamanhas, que pretendemos fazer aqui apenas algumas referências aos aspectos centrais que correspondem ao nosso interesse.

O princípio básico de sua teoria é o de que as formas superiores de comportamento consciente do homem originam-se de sua vida em sociedade, nas relações sociais que mantém com outros seres humanos. Por essa razão, o homem é “um agregado de relações sociais encarnadas num indivíduo.” (VYGOSTKY, 2000a, p. 33), o que equivale a dizer que o homem se constitui como ser humano não pelas características elementares herdadas (naturais ou biológicas), mas nas relações que estabelece com a história social dos homens.

Da mesma forma, o professor constitui-se professor, não por vocação, dom, aptidão natural ou herança, mas nas relações que estabelece na dinâmica do seu meio social, compreendendo a sua vivência social geral, no seio familiar, no ambiente escolar ou no exercício profissional.

O desenvolvimento do homem é um desenvolvimento histórico constituído por uma relação dialética entre natureza e cultura. A cultura como a “totalidade das produções humanas portadoras de significação” (PINO, 2003, p. 45, grifo do autor), torna-se parte da natureza humana num processo histórico, ao longo do desenvolvimento da espécie e do indivíduo. A relação homem e natureza, homem e o outro, é sempre mediada por produtos culturais humanos. A apropriação da própria cultura pelo sujeito, ocorre sempre na interação com outro sujeito. É na relação com o outro, mediada pelos signos, que o homem apropria-se das significações socialmente construídas. No entanto, “a apropriação não é tanto uma questão de posse, de propriedade, ou mesmo de domínio, individualmente alcançados, mas é essencialmente uma questão de pertencer e participar nas práticas sociais.” (SMOLKA: 2000, p. 37). A apropriação é, pois, uma categoria essencialmente relacional.

Através da internalização, o indivíduo reconstrói internamente (processo intrapessoal) as atividades culturais com as quais interagiu externamente (processo interpessoal). Esse é o movimento que caracteriza a constituição do sujeito. Todavia, a internalização não é uma transposição do mundo exterior para o interior, pois o homem não é passivo perante as influências exteriores, cópia ou conseqüência das relações sociais, mas é interativo, produzindo cultura e se transformando com as relações sociais. Esse entrelaçamento do social com o pessoal supõe uma subjetivação, pois, ao apropriar-se da história humana, imprime nela sua própria marca. (ZANELLA, 2004). Dessa maneira, a constituição do sujeito se dá na unidade do natural com o cultural, tanto pelas relações sociais, quanto pelo sentido subjetivo que nelas o sujeito incute. Sob esta perspectiva, a autonomia é uma busca, um fim, uma construção e um exercício permanente do processo de constituição.

Na constituição do professor, a conquista da autonomia está relacionada às experiências formativas desse profissional, ao longo de sua trajetória de vida, razão pela qual, os aspectos metodológicos e procedimentos da pesquisa realizada basearam-se na história oral de vida, que permite perceber características próprias de cada percurso, bem como captar como cada sujeito se constitui e vivencia o processo de formação.

Nossos sujeitos (duas mulheres e dois homens) foram selecionados a partir de critérios: a) ter atuado ou atuar como professor da educação básica; b) ter se aposentado recentemente ou estar em vias de aposentadoria. Para a coleta de dados utilizamos a técnica da entrevista recorrente (LAROCCA: 1996), a partir de roteiro colocado nos seguintes termos: quando e onde estudou; curso superior: o ingresso, a duração, o relacionamento com colegas e professores, disciplinas, leituras, preparação, estágios, participação em agremiações, influências teóricas e políticas; pós-graduação; cursos de extensão; congressos; ambientes e estratégias de formação continuada etc, havendo sempre a liberdade de o sujeito explorar o que achasse conveniente. Foram realizadas em média três sessões de entrevista com cada sujeito.

Numa breve caracterização dos sujeitos podemos dizer o seguinte: O Sujeito 1 possui 55 anos, casada, mãe, professora com graduação em Pedagogia e Especialização. Atuou nas séries iniciais durante 17 anos, como supervisora durante nove anos e durante quatro anos lecionou de 5ª a 8ª série. O Sujeito 2 possui 61 anos, também casada, mãe, professora com graduação em História, Especialização em História e Mestrado em Educação. Lecionou na educação básica durante 25 anos. Há 17 é docente no ensino superior e atua em cargos administrativos. O Sujeito 3 possui 61 anos, casado, pai, professor graduado em Ciências e Biologia. Especialista em Biologia, lecionou por 16 anos de 5ª a 8ª séries e 29 anos no ensino médio. Possui 20 anos de experiência no ensino superior. O Sujeito 4 tem 51 anos, divorciado, pai, é professor graduado com especialização em História. Leciona há 23 anos, com um intervalo de seis, de 5ª a 8ª séries e ensino médio. Foi diretor de escola durante oito anos e Gerente de Recursos Humanos no ramo empresarial durante dez anos. Leciona no ensino superior privado e é coordenador de um cursinho pré-vestibular.

Encerrada a fase das entrevistas recorrentes, a partir da transcrição das narrativas, foram identificadas unidades significativas das falas dos professores.


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