Do Estigma à Humanização: práticas, dinâmicas e vivências No caminho da reinserção social



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Caracterização Histórica

  1. Das Origens

Foi de Bissaya Barreto que partiu a ideia de construir nos arredores de Coimbra um local condigno para prestar assistência a doentes mentais, associado a uma colónia agrícola, situado fora da cidade, mas a ela ligada por transportes acessíveis. Deste modo, em 1945, o Decreto-Lei 34.547 de 28 de Abril cria um Hospital Psiquiátrico a que foi dado o nome de Sobral Cid em homenagem ao insigne psiquiatra que fora mestre de Bissaya Barreto na Universidade de Coimbra e seu conselheiro em matéria de assistência psiquiátrica. Aquando da sua construção, afastou-se das linhas arquitecturais da maioria das construções hospitalares, ao separar os pavilhões com grandes avenidas e sebes. O Hospital é estruturado como se fosse uma aldeia pequena, em que as unidades de internamento são casas tipo vivenda, com 1º e 2º piso. A ideia seria inserir os doentes num espaço aberto, com facilidades de sociabilidade, onde permanecessem de uma forma terapêutica e agradável. Esta organização espacial realça a sua lógica humanizante. Quando foi construído o Hospital tinha 15 pavilhões; actualmente, é constituído por 18 edifícios, numa área de 10 hectares, onde predominam as zonas verdes.

A 1 de Janeiro de 1948, “o Hospital Sobral Cid passou a ter autonomia administrativa, orçamento próprio, personalidade jurídica” (Mendonça, 2006: 67). Começaram a processar-se importantes transformações. Introduziram-se os primeiros psicofármacos (neurolépticos e anti-depressivos), utilizados em abundância, o que “iria modificar por completo o ambiente hospitalar e o trabalho de enfermagem, ao conterem como verdadeiras «camisas-de-forças químicas» a exuberância dos sintomas mais temíveis, como a agressividade e a violência (…) A falta de liderança psiquiátrica, o isolamento científico, a contenção química dos doentes, fomentam rotinas terapêuticas simplificadas, imobilismo e degradação progressiva, que atingem o seu auge nos primeiros anos da década de 60” (Mendonça, 2006: 80). Até 1963, este hospital transformou-se num asilo superlotado, de condições deploráveis, conservando como clínicas apenas os pavilhões de menor lotação. A sua área de influência abrangia toda a zona centro do país; e, “competia-lhe exercer sobre essa área uma tríplice finalidade assistencial: tratar doentes agudos, recuperar crónicos, asilar inválidos” (Mendonça, 2006: 100).

A lei 2118 de 3 de Abril de 1963 – Lei da Saúde Mental – procurou introduzir a valorização da prevenção em psiquiatria, a actuação extra-hospitalar diversificada, o trabalho em equipa multidisciplinar, a valorização da relação cliente-terapeuta. Esta lei visava evitar a doença mental, evitar a segregação dos doentes mentais e fomentar a sua integração progressiva na sociedade. Todavia, não mereceu aceitação geral, e tudo se foi mantendo inalterado durante anos, nunca chegando a ser concluída a sua regulamentação.

Os doentes ocupavam-se com uma ergoterapia simplista baseada em tarefas úteis para o hospital, como o trabalho agrícola ou em oficinas. À data não existia serviço social nem consulta externa. Em Maio de 1968 nasceu o Serviço de Recuperação de Alcoólicos.

Em 1979, acertou-se uma nova organização do trabalho hospitalar. A área divide-se em dois sectores (A e B), com pavilhões masculinos e femininos para o internamento, com médicos e assistentes sociais fixos. “Foi sentida a necessidade de intervir mais junto das famílias, de as trabalhar no sentido de receberem sem receio os seus doentes de evolução prolongada, com a garantia de apoio domiciliário regular, de administração domiciliária de medicação retard, de novo internamento, temporário, se necessário. Assim aumentou o número de altas consideradas impossíveis até aí” (Mendonça, 2006: 198). Em 1981 é admitida a primeira terapeuta ocupacional e em 1982 o primeiro psicólogo. Em 1990 começa a implementar-se o Serviço de Reabilitação, que englobava a terapia ocupacional e outras técnicas de reabilitação. Este serviço permite desenvolver um processo de integração socioprofissional mais completo, respeitando as competências de cada um. Neste mesmo ano, a consulta externa passou a realizar-se no hospital. Foi cedido o Pavilhão 15, sofrendo, assim, o tratamento ambulatório um desenvolvimento exponencial.

Em 1993, o Ministério da Saúde definiu que o Centro Hospitalar de Coimbra – Hospital dos Covões passaria a ser responsável pelas urgências psiquiátricas externas, ficando também acordado que aí se realizariam as análises e exames dos utentes do Hospital Sobral Cid (HSC). Para além do acordo com este centro hospitalar, o HSC tinha ligações com o Hospital Geral e com alguns Centros de Saúde. Através da realização de protocolos com instituições de acção social, como a Casa Abrigo Padre Américo, deu-se uma grande abertura do Hospital à comunidade.






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