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A Atriz - Monica de Castro



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Sobre a obra:
A presente obra é disponibilizada pela equipe 
Le Livros
 e seus diversos parceiros, com o
objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como
o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.
É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso
comercial do presente conteúdo
Sobre nós:

Le Livros
 e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade
intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem
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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por
dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."


A Atriz
Autor: Espírito Leonel
Médium: Mônica de Castro
Sinopse:
O que leva uma atriz sensual e famosa a abandonar
uma vida de luxo e brilho para morrer
em completa solidão? Por que um jovem rico e bem sucedido se distancia da família e se
entrega, impassível, à obsessão do passado? Que elo poderoso pode unir essas duas pessoas
que, aparentemente nada têm em comum?
Glamour e decadência caminham lado a lado nesta história que se desenvolve em dois
tempos, distantes na passagem dos anos, mas próximos nas experiências e sentimentos ainda
não resolvidos. Ódios nascem e são desfeitos; o amor se recolhe diante da indiferença, até que
a dor traz a compreensão da vida e o perdão ressurge como chave
para libertar a alma dos
grilhões do ressentimento.
A atriz vivencia a violência, a raiva e a decepção, transformando a morte numa passagem
para o esquecimento e fuga. Mas morrer não é a solução dos problemas, e ela descobrirá que
só com coragem e amor é que poderá encontrar o caminho para a reconciliação consigo
mesma.
Prólogo
Por entre as flores recém-desabrochadas, Tália caminhava a passos vagarosos, aspirando
lentamente o delicado perfume que se espalhava no ar. De quando em vez, detinha a
caminhada e deixava o olhar vagar a esmo, como se buscasse algo que não podia definir no
horizonte. Seria possível? Após tantos anos, já perdera as esperanças de que um dia a
encontrassem. Estava perdida para o mundo dos homens e não devia mais se preocupar com
ele.
Ainda assim, seu coração se apertava a cada passo. Sentiu uma comichão pelo corpo e se
encolheu toda, com um frio a lhe percorrer a espinha. Aos poucos, o frio foi aumentando,
como se alguém a estivesse desnudando ao vento. O que seria aquilo? Levara muito tempo
para se acostumar a não ter mais aquelas sensações, e agora isso? Olhou ao redor, mas nada
lhe pareceu anormal. O ar estava tépido como sempre, e uma brisa suave refrescava sem
enregelar. Se era assim, de onde vinha aquela sensação gelada que parecia penetrar-lhe até os
ossos?
Resolveu voltar para casa. Fazia já algum tempo que conquistara o direito de ter uma
casinha só para ela, o que era muito bom. Seu lar era simples, porém bastante asseado e claro.


Lá, tudo parecia mais límpido e branco, e o ambiente era sempre agradável e sossegado.
Talvez fosse melhor se deitar um pouco. Quem sabe não estava ficando doente?
Doente? Não era mais possível ficar doente ali. No dia em que chegou, estava cheia de
dores no peito, ardendo em febre e delirando. Logo adormeceu, e, quando despertou, o peito
parecia menos dolorido e a respiração, quase regular. Levou algum tempo para que se
recuperasse de todo, mas finalmente conseguiu. As lesões em seu corpo fluídico lentamente se
foram, e ela começou a se interessar pela nova vida. Aos pouquinhos, foi deixando para trás
as lembranças daquela outra vida, cheia de brilho e de sofrimento.
Essas lembranças a entristeceram. Ninguém, em lugar nenhum do mundo físico, sabia o que
fora feito dela. Nem ela sabia ao certo quantos anos haviam se passado desde que deixara a
terra; nunca pensara naquilo. O bem-estar
da vida espiritual era tanto, que as coisas da matéria
deixaram de lhe interessar. Contudo, uma pontinha de tristeza começava a incomodá-la,
despertando a dor de saber-se abandonada por aqueles com quem convivera tantos anos. Mas
ela jamais retornara
a
terra para saber o que fora feito dos seus. Como podia agora esperar
que se lembrassem dela, se ela mesma os havia esquecido?
Balançou a cabeça vigorosamente, tentando afugentar as lembranças, e alcançou o
portãozinho do jardim, surpreendendo-se com a presença de sua mentora e amiga parada à sua
porta.

Sílvia! — exclamou. — Que surpresa boa. Vamos entrando.
Sílvia sorriu carinhosamente e beijou Tália no rosto, seguindo-a para dentro de casa.
Sentou-se num sofazinho cor-de-rosa que havia perto da janela e esperou até que Tália se
acomodasse a seu lado.

Muito bem — falou Tália, apertando os braços gelados e sentindo uma repentina tontura.
— Essa visita inesperada tem algum motivo especial?

Receio que sim — respondeu a amiga, fitando Tália com uma expressão indefinível.

Do que se trata?

Trata-se de você. Seu corpo está sendo encontrado na terra, neste exato momento.
Com ar de assombro, Tália se encolheu toda e desatou a chorar, sentindo na pele uma
umidade glacial.

Como isso é possível?

Não está se sentindo estranha?

Tenho calafrios...
E
as lembranças de minha vida na terra surgiram repentinas... Mas não
pensei estar ainda ligada ao corpo físico.

Você não está ligada. O pensamento de certa pessoa foi que formou uma ponte energética
com você, trazendo-lhe as impressões do que tem se passado na terra.

Uma pessoa? Quem?
De repente, Tália viu-se transportada, ao lado de Sílvia, para o casebre onde seus ossos


jaziam esquecidos. Algumas árvores penetravam pelas janelas destruídas, e o teto desabara
quase por completo. O mato praticamente se fechara sobre o pequenino chalé e formara uma
parede quase impenetrável ao redor. Alguns homens, com machados e marretas, estavam
derrubando a porta, emperrada pelas dobradiças enferrujadas.
A golpes de machado, os homens derrubaram a porta e entraram. A sala estava toda em
ruínas, com os móveis comidos e apodrecidos pelo vento e a chuva. Os homens penetraram
devagar e foram percorrendo os ambientes do primeiro andar, passando pela sala, depois a
cozinha e o lavabo minúsculo. Um deles se adiantou e experimentou o primeiro degrau da
escada de madeira, que rangeu sob seus pés.

Vai subir? — perguntou Márcio, um dos rapazes.

É perigoso — respondeu outro.

Vou subir. Se há alguma possibilidade de
que o corpo de minha avó esteja lá em cima,
quero descobrir.
Tália sentiu um choque. Como assim,
avó?
Buscou os olhos de Sílvia, que apertou a sua
mão e esclareceu com voz carinhosa:

Sim, Tália, é o seu neto que está aí. Seu neto Eduardo, que hoje está com vinte e três
anos de idade.
Com olhos úmidos, Tália se aproximou do neto, que sentiu um leve arrepio e foi envolvido
por estranha emoção.

O que
houve
Edu? — indagou Márcio. — Não está se sentindo bem?

Não é nada.
Deixando de lado a emoção, Eduardo firmou o pé no degrau e começou a subir. A escada ia
rangendo e alguns degraus afundaram, fazendo com que todos se sobressaltassem, inclusive
Tália.

Não se preocupe — sossegou Sílvia. — Ele não vai cair.
Tália agradeceu com o olhar e subiu com Sílvia atrás do neto. Eduardo chegou ao andar de
cima e olhou para baixo, onde os outros o fitavam ansiosos.

E aí? — perguntou alguém. — Tem alguma
coisa?

Vou olhar agora — respondeu Eduardo, virando-se para um segundo andar destruído e
escorregadio.
A escada terminava numa espécie de saleta, com três portas ao redor. Intuitivamente,
Eduardo se dirigiu à do meio e empurrou. A porta imediatamente
cedeu
indo ao chão com
estrondo e fazendo com que todos lá embaixo começassem a gritar.

Não foi nada — avisou ele, para acalmar os amigos. — Apenas uma porta que caiu.
Com
certa
ansiedade, Eduardo passou por cima da porta e entrou no quarto frio e úmido,
tomando cuidado com as tábuas soltas no soalho.
Olhou de um lado a
outro e viu algo envolto em
trapos, sobre o que parecia ser uma cama


de ferro. Tentando controlar os
passos, caminhou para lá, e
lágrimas lhe vieram aos olhos ao
contemplar aquela
estranha visão. Misturados aos trapos sujos, vários ossos se encontravam
dispostos, formando um corpo humano perfeito.

Edu!

Eduardo!

Diga alguma coisa, cara, estamos preocupados!
Os amigos não paravam de chamar, mas Eduardo não conseguia responder, fascinado que
estava com aquela fantástica descoberta. No plano astral a seu lado, Tália chorava muito,
fitando, pela primeira vez, os restos do que um dia fora o seu corpo. O neto, sem saber,
captou-lhe as impressões e chorou também. Ajoelhado ao lado do colchão desmanchado,
passou os dedos de leve sobre os ossos e soltou um suspiro.

Ah! Minha avó, então foi aqui que você se meteu, hein?
Em poucos instantes, Márcio alcançou o quarto e acercou-se de Eduardo.

Puxa Edu! Porque não respondeu? Estávamos preocupados... — calou-se espantado,
vendo o monte de ossos aos pés do amigo. — É...
É
a sua avó?

É o que parece. Mas só um teste de DNA poderá nos dizer.

Meu Deus! O que vamos fazer?

Recolher os ossos, dar uma olhada em tudo e ir embora. O resto é com o laboratório.
Márcio foi correndo, na medida do possível,
para
buscar uma caixa. Voltou poucos
instantes depois e ajudou Eduardo a colocar os ossos lá dentro. Com cuidado, foram fazendo o
caminho de volta, escolhendo as tábuas em que deveriam pisar para não cair. Os amigos
embaixo ajudaram a descer o caixote, e Edu e Márcio desceram em seguida.
— Pronto —
disse Eduardo, batendo as mãos para limpá-las. —
Missão cumprida.

Será que é mesmo a sua avó que está nessa caixa?

indagou um dos rapazes.

Edu vai mandar fazer um teste de DNA

disse Márcio.

Não vai, Edu?

Vou sim. Ainda que minha mãe não queira nem saber, tiro o meu sangue e mando analisar
tudo. Tenho que descobrir.
Ao ouvir aquelas palavras, Tália
fitou Sílvia com ar de interrogação.

Faz muito tempo que você desapareceu

esclareceu Sílvia.

Ninguém nunca soube
do seu paradeiro. Pensaram que você havia largado tudo e sumido no mundo. Depois de algum
tempo, começaram a desconfiar que você havia morrido. Procuraram daqui, indagaram dali,
até detetive contrataram, mas ninguém conseguiu descobrir nada.

Nunca encontraram esse lugar?

Como poderiam? É longe de tudo, da cidade e das fazendas. Quando você comprou este
sítio, usou seu verdadeiro nome, lembra-se? Maria Amélia Silveira Matos. Naqueles tempos
sem televisão, quem é que ouviu falar em Maria Amélia?



Mas ninguém nunca nem desconfiou de que eu poderia ter-me escondido aqui?

Como, Tália? Por que viriam a esse fim de mundo para procurá-la? Você nunca contou
que havia comprado esse sítio.
— É
verdade...

lamentou-se com pesar.

E como foi que me descobriram agora?

Um homem comprou as terras vizinhas e se interessou por estas. Foi ao cartório da
cidade, mandou fazer uma pesquisa e descobriu que o sítio havia sido comprado por uma tal
de Maria Amélia Silveira Matos. Tampouco ele sabia quem você era, mas não foi difícil
descobrir.
O detetive por ele contratado investigou e
descobriu que Maria Amélia era o nome
verdadeiro de uma antiga e famosa vedete, Tália Uchoa, desaparecida na década de 1950.
Com essa informação, o resto foi fácil. Ele achou a sua filha no Rio de Janeiro, e ambos
chegaram à conclusão de que a assinatura no livro do cartório era mesmo a sua. Sua filha
vendeu as terras
sem nem titubear, mas seu neto, fascinado com as suas histórias, pediu para
vir averiguar. O resto, você mesma viu.
Tália chorava de emoção ao ouvir falar de pessoas e coisas que há muito enterrara em seu
passado. Sentiu que havia perdido uma grande parte de sua vida e olhou para o neto, que ia
longe com os amigos e a caixa contendo seus ossos.

Minha filha... Pelo que pude
perceber
Diana não quer nem ouvir falar de mim.

Ela ficou muito ressentida com o seu abandono e nunca conseguiu superar.
Tália balançou a cabeça, apertando os lábios para não soluçar, e indagou hesitante:

Quem foi que a criou?

O pai.

Honório?

Ela tem outro?

Mas...
Mas
Honório não sabia que ele era o pai. Eu nunca contei...

Você não contou, mas...

Ione?

Sílvia assentiu.

Não pode ser! Ela me prometeu...!

Você deixou uma filha órfã. O que esperava que ela fizesse?

Não foi minha intenção abandoná-la.

Mas a menina acabou ficando só, de todo jeito. Honório se revelou excelente pai, e
Diana cresceu em um ambiente harmonioso e equilibrado, apesar de
tudo.

Ele criou Diana sozinho? Não acredito.

Sozinho, não. Criou-a com a ajuda da esposa.

Honório se casou? Quem diria... Com quem?

Maria Cristina.

O quê? Honório casou-se a minha irmã? Como ele pôde fazer isso comigo? Ele sabia
que Maria Cristina e eu não nos dávamos bem.



Pois ela se deu muito bem com ele, e melhor ainda com Diana.

Não é à toa que minha filha me odeia.

Ela não a odeia. Foi criada pela tia porque a mãe sumiu no mundo e a abandonou. Como
esperava que ela se sentisse?

Eu não a abandonei!

Mas é nisso que ela acredita até hoje.

A verdade se perdeu depois que eu parti...

Cada coisa está no seu lugar, seguindo o curso que a natureza traçou. E depois, não vejo
por que se preocupar com isso agora. Não foi você mesma quem quis assim?

Não quis me matar

respondeu Tália acabrunhada.

Mas você morreu e a vida teve que continuar sem você.

Honório...

divagou Tália.

Foi há tanto tempo... Como será que ele está?

Se essa pergunta é para mim, saiba que ele está muito bem, apesar da idade avançada.

Ele ainda está vivo?

Hã, hã.

E Maria Cristina? E Ione? E...
Os
outros?

Ele é o único que vive entre os encarnados. Os outros já partiram.

Por que nunca os vi?

Respeitaram a sua vontade de não ser incomodada e nunca a procuraram.

E Honório?

Está com mais de noventa anos e ainda goza de
saúde regular para um homem de sua
idade. Mas agora chega. Todos já se foram. Vamos embora também.
Tália olhou para a trilha aberta na mata por seu neto e os demais e percebeu que eles
haviam
desaparecido. Olhou mais uma vez ao redor e deteve o olhar por uns segundos a mais
sobre o local em que seus ossos haviam jazido e sentiu o peito se confranger. Perdera uma
parte importante de sua vida, enfurnada no astral como se ele fosse um campo de refugiados.
Aquilo não era uma guerra. Os tempos de guerra eram parte do passado, assim como ela.

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