Curso de psicologia


A VISÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DA FOBIA SOCIAL



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3. A VISÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DA FOBIA SOCIAL


A fobia social como categoria diagnóstica, é inserida dentro dos transtornos de ansiedade no DSM-IV. Para alcançarmos uma compreensão mais ampla dos processos de ansiedade dentro de uma perspectiva cognitiva, é importante destacar como o próprio conceito de ansiedade é caracterizado segundo alguns autores.

A abordagem cognitiva caracteriza-se basicamente pela idéia de que a ansiedade envolve processos de conhecimento, além da função dos estímulos. Qualquer que seja o seu conteúdo específico, ela é sempre um estado de desprazer, insegurança ou impotência.

Segundo Lazarus (1966) apud Pessotti (1978, p.77), “a ansiedade é uma experiência de um estado afetivo disfórico”. O que difere a ansiedade de outros estados afetivos e lhe da especificidade é a sua dependência de uma ameaça, de uma percepção de perigo: caracteriza-se basicamente por ser um estado que resulta da percepção de um sinal ou estímulo que significa algo. É neste ponto que a abordagem cognitiva baseia sua idéia chave. Ou seja, não é a percepção de um som, por exemplo, que dispara a ansiedade, mas sim a percepção de um som com um significado específico. E a atribuição do significado é um processo cognitivo de interpretação, ou seja, a ansiedade resulta então da interpretação do estímulo como ameaça.

O conceito de ameaça é fundamental neste contexto, e apresenta duas propriedades principais: primeiro, ele é antecipatório, ou seja, envolve expectativas de dano futuro, e segundo, ele é dependente de cognições, tais como percepção, aprendizagem, memória, julgamento, e pensamento.

As respostas típicas de ansiedade, ocorrem quando uma situação contém estímulos que sugerem a impossibilidade de um desempenho funcional ou adequado diante de certos outros estímulos, que na experiência anterior do indivíduo, adquiriram o “poder” de alterar os seus estados afetivos. Esses estímulos podem ser percebidos no ambiente externo, ou fazer parte do próprio estado subjetivo do indivíduo. Podemos pensar então que algumas vezes o sistema psicológico do indivíduo é quem confere o valor de ameaça ao estímulo, e outras vezes o sistema psicológico é, de fato, ameaçado por ele.

O desenvolvimento global da ansiedade, para Lazarus (1966) apud Pessotti (1978), pode resumir-se da seguinte maneira: um dado estímulo apresentado é avaliado como ameaça a algum sistema psicológico. Uma vez que a avaliação confira ao estímulo funções de ameaça, ocorrem reações de dois tipos: afetivas e comportamentais, típicas do estado de estresse.

Podemos pensar a ansiedade dentro desse modelo como sendo o estado de estresse quando produzido por uma ameaça. Portanto, quanto mais clara for a percepção da impossibilidade de dar livre curso a um comportamento, mais intensas serão as reações afetivas e comportamentais de estresse.

Pessotti (1978) recorre à teoria de Mandler e Watson (1966) para ampliar a compreensão do fenômeno da ansiedade. Os autores revelam que os elementos básicos da ansiedade são os seguintes: a interrupção e o controle (ou expectativa de controle).

Esses elementos são condições mutuamente excludentes, onde credita-se à interrupção o conteúdo aversivo da ansiedade, enquanto que o controle implica no planejamento de uma seqüência de eventos, ainda que nela se incluam estímulos aversivos esperados. A interrupção de uma seqüência em curso, leva à percepção da perda de controle, e dessa percepção resulta a alteração fisiológica que é parte do estado de ansiedade. A parte restante, que são os comportamentos inadequados conseqüentes da emoção disfórica, depende de mais uma condição: a percepção da inexistência de respostas ou comportamentos alternativos, ou seja, a não disponibilidade de tais respostas, ou ainda, a impotência.

Dentro dessa teoria, entende-se que qualquer comportamento pertence a uma seqüência natural, aprendida ou esperada, em que alterações ambientais e a atividade dos organismos ocorrem simultaneamente, onde qualquer uma destas seqüências está sujeita à impasses devido à eventos estranhos. A intensidade dos efeitos fisiológicos ou comportamentais decorrentes desses impasses, é função do grau de impotência que produzem.

Segundo os autores, “a impotência pode ser definida como a percepção da ausência de atividades alternativas que permitem prosseguir e completar a seqüência interrompida”. (MANDLER & WATSON, 1966 apud PESSOTTI, 1978, p.87) Essa impotência, portanto, é um déficit significativo do repertório de comportamentos do indivíduo, seja por carência de respostas, seja por falta de estímulos discriminativos que sugiram a viabilidade de uma resposta disponível no repertório de experiências anteriores. Isso provoca uma desorganização no desempenho comportamental que é característica da ansiedade.

Um outro conceito-chave da teoria de Mandler e Watson, refere-se ao controle, que segundo os autores, vai além da simples possibilidade de manipulação ativa sobre as condições do organismo e do ambiente. Isso sugere que uma seqüência de comportamentos estará sob controle quando seu curso corresponde à expectativa do indivíduo, e haverá interrupção quando algum evento estranho implica em uma “quebra” da seqüência planejada.

Por exemplo, quando um professor esquece um passo de uma aula preparada, temos uma interrupção com seu efeito automático: perda de controle.

No caso de um professor experiente, que já foi submetido várias vezes a tais interrupções e aprendeu maneiras efetivas de lidar com elas e continuar sua aula, os efeitos da ansiedade não serão tão intensos, o que não ocorre com um professor principiante.

O que difere um do outro, é a percepção de respostas alternativas possíveis, que é deficiente no caso do professor principiante. Então, de acordo com essa teoria, a idéia de interrupção de uma seqüência aprendida ou esperada, mostra-se central, tratando assim de uma das fontes clássicas da ansiedade ao longo dos tempos: o imprevisto, a interrupção.

Nardi (2000) aponta que a ansiedade difere do medo em sua definição. O autor coloca que a ansiedade é uma sensação difusa e imprecisa que leva o indivíduo a enfrentar as situações, agradáveis ou não, com sucesso. Já o medo, é ligado a uma situação ou objeto específico que apresenta perigo, real ou imaginário, que leva o indivíduo à evitá-lo. O autor nos remete ainda a um exemplo:

Um exemplo é o medo de assalto. Todos evitamos as situações que nos possam deixar mais vulneráveis. Uma fobia, entretanto, é diferente do medo e se caracteriza por um medo excessivo, imensurável, de um objeto ou situação; comportamento de esquiva em relação ao objeto temido; grande ansiedade antecipatória quando próximo ao objeto em questão; e ausência de sintomas ansiosos quando longe da situação fóbica2.

Tendo abordado algumas teorias da ansiedade pertinentes à esse estudo, podemos compreender um pouco melhor as bases deste estado afetivo em um enfoque cognitivo. Pensando especificamente na ansiedade social, temos algumas contribuições à respeito das suas causas, de como ela se desenvolve e se mantêm. A primeira linha de contribuição, refere-se à biologia, onde fatores biológicos seriam entendidos como a causa primária da fobia social. (SHEEHAN, 1966 apud MARKWAY, 1999)

As explicações biológicas da fobia social foram extraídas principalmente da bioquímica, e da genética. As idéias principais, dentro desta concepção que poderiam contribuir para o desenvolvimento da fobia social são: irregularidades bioquímicas, predisposições genéticas, e a evolução de sensibilidade biológica à desaprovação, já que a fobia social seria em essência o medo da desaprovação dos outros.

A outra linha de contribuição, refere-se aos fatores ambientais, onde três variáveis principais se destacam para o desenvolvimento da fobia social: experiências sociais negativas, modelos de comportamento de medo social, e transmissão incorreta de informações sobre situações sociais. Essas linhas de estudo, tanto biológicas, quanto ambientais, que visam explicar as possíveis causas da fobia social, não podem ser analisadas isoladamente, ou seja, há um interação complexa entre diversos fatores biológicos e ambientais que contribuem para o desenvolvimento do transtorno e sugerem a sua origem. Contudo, é importante ressaltar que a fobia social é um transtorno multicausal.

Tendo abordado os possíveis fatores causais da fobia social, vejamos agora os aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais que funcionam basicamente como mantenedores do transtorno, fundamentados no modelo cognitivo.

De acordo com esse modelo, o indivíduo fóbico, ao defrontar-se com a situação social temida, ativa suas crenças centrais de ser inadequado socialmente, apresentando alterações cognitivas típicas como: auto-afirmações depreciativas; avaliação negativa de seu desempenho social; atenção e memórias seletivas para situações de desempenho negativas no passado e no presente; e a presença de autoconsciência pública elevada.

No nível fisiológico, o indivíduo apresenta sintomas de ansiedade como já foi destacado anteriormente, onde predominam: taquicardia, sudorese, espasmos musculares, náuseas, boca seca, tremores, rubor facial, entre outros. No nível comportamental, destacam-se sintomas típicos como: evitação freqüente das situações temidas, habilidades sociais inibidas (ou não desenvolvidas) e comportamentos de segurança, que são evitações sutis, mas que freqüentemente passam despercebidas. (CLARK & WELLS, 1995; BUTLER & WELLS, 1995; RAPPE & HEIMBERG, 1997 apud KNAPP, 2004)

Nardi (2000), ressalta que a abordagem comportamental entende as limitações sociais sofridas pelos indivíduos fóbicos como resultado de sua esquiva freqüente das situações sociais ou de desempenho. Segundo o autor, um aspecto importante na fobia social é a alta probabilidade do indivíduo de que a conseqüência negativa prevista, geradora de ansiedade antecipatória, venha a acontecer de fato.

Isso sugere que o portador de fobia social não reflete racionalmente a cerca de previsões realistas, manifestando distorções catastróficas para o seu desempenho social. Em termos absolutos, podemos pensar que o fóbico social tem medo da sociedade como um todo. Isso vai de encontro a idéia de que existem processos sociais complexos que atuam como variáveis geradoras de ansiedade, e desencadeiam percepções de ameaça frente ao outro. Esse ´´outro´´ é visto como uma ameaça potencial, seja uma ameaça física ou moral, e que deve ser evitado. Qualquer contato social, por mais familiar que seja, é capaz de disparar um grau de ansiedade significativa, e que é sentida e interpretada pelo indivíduo como uma prova de que é inadequado, inferior ou defeituoso. Isso explica em parte o freqüente comportamento de esquiva, adotado pelos fóbicos sociais para lidar com o seu temor. O autor destaca o seguinte:

Os próprios sintomas ansiosos contribuem para que as conseqüências indesejáveis se tornem realidade. Um indivíduo com medo de falar em público, por exemplo, deseja ter um bom desempenho ao proferir uma palestra, mas ao passar pela situação, seu coração dispara, sua voz treme, ele esquece o conteúdo e nada sai como planejado. Este processo cria um ciclo vicioso em que a antecipação de um resultado negativo inevitável gera níveis elevados de ansiedade a cada novo confronto com a situação3.

A possível explicação desta reação aparentemente paradoxal sugere que a falha do processamento cognitivo do indivíduo, que tende a distorcer a avaliação de suas experiências interpessoais está envolvida no processo. Neste contexto, o indivíduo experimenta pensamentos patologicamente negativos acerca de si, suas experiências e seu futuro, e seletivamente procura evidências que confirmem sua visão negativa, o que reforça suas crenças e perpetua os sintomas cognitivos, fisiológicos e comportamentais do transtorno. Esses erros sistemáticos de processamento, por sua vez, favorecem a manutenção das crenças distorcidas do indivíduo apesar das evidências contrárias, promovendo ativação da ansiedade e comportamento de esquiva.

De acordo com Markway (1999, p.39), “o que o indivíduo pensa, e a forma como pensa, pode ter um enorme impacto sobre o seu comportamento”. Por exemplo, um indivíduo que comete um erro infantil de pronúncia em frente aos amigos pode interpretar o engano como uma oportunidade para riso, ou como um momento de descontração, e não pensar mais nisso. Enquanto que um outro indivíduo, que tenho tido a mesma experiência pode interpretá-la como altamente humilhante, e pode remoê-la por vários dias.

O medo que os fóbicos sociais tem, em geral, são desencadeados basicamente por cognições disfuncionais que tomam tipicamente duas formas: distorções de probabilidade e distorções de severidade. As primeiras ocorrem quando o indivíduo antecipa exageradamente que algo ruim possa acontecer em determinada situação social, essencialmente a desaprovação ou rejeição dos outros. Enquanto que nas distorções de severidade, o indivíduo exagera a gravidade das conseqüências, caso algo ruim realmente aconteça. Isso indica o papel chave dos processos cognitivos na ansiedade social.

É importante entender melhor o papel destas cognições disfuncionais na manutenção da fobia social.

Vamos analisar três cognições essenciais que contribuem para essa manutenção. A primeira refere-se aos pensamentos automáticos típicos que o indivíduo fóbico social tem. Os pensamentos automáticos são basicamente involuntários, e surgem com pouco ou nenhum esforço em nossa mente, sendo reações automáticas à qualquer situação que estejamos vivenciando no momento.

Com freqüência as pessoas não se dão conta da ocorrência destes pensamentos, ou seja, passam desapercebidos, sendo a emoção associada mais facilmente reconhecida. (J. BECK, 1997)

Indivíduos fóbicos sociais têm muitos pensamentos automáticos negativos em relação a si, ao seu desempenho e aos outros nas mais diversas situações em que ele se encontra tendo que estabelecer algum contato com os outros. Esses pensamentos automáticos negativos, por sua vez, tem origem em um nível de pensamento mais profundo e enraizado: as crenças centrais, e em um nível mais intermediário: as crenças subjacentes.

Aqui faz-se importante uma breve explicação sobre as crenças centrais e as crenças subjacentes. Segundo J. Beck (1995) apud Knapp (2004, p.24):

as crenças subjacentes, também conhecidas como crenças intermediárias ou pressupostos condicionais, são construções cognitivas disfuncionais, subjacentes aos pensamentos automáticos. São regras, padrões, normas, premissas e atitudes que o adotamos e que guiam a nossa conduta.

Essas crenças de nível intermediário, podem tomar basicamente três formas específicas, como por exemplo, a forma condicional, pressupondo que se determinadas regras, normas e atitudes forem cumpridas, não haverá problemas. Por exemplo: “Se eu fizer o que os outros esperam, então irão gostar de mim”. Se esta suposição condicional for seguida com êxito, o indivíduo tende a se sentir confortável, com a sensação de que agiu da forma que considera adequada.

Outra forma bastante comum que essas crenças são estruturadas é sob a forma de regras, que são afirmações do tipo “tenho que”, “deveria”. Por exemplo: “Tenho que ser perfeito em tudo que faço”; “Não devo me mostrar como sou, pois verão que sou incapaz”; dentre outras. E por último sob a forma de atitudes rígidas e inflexíveis, do tipo: “É terrível ser inadequado.”, ou “ “É desprezível agir assim.”

As crenças centrais, por sua vez, são definidas como as idéias mais básicas e fundamentais do indivíduo a respeito de si, do mundo e das pessoas, sendo denominadas por alguns autores como esquemas. (J. BECK, 1997)

Elas são formadas nas experiências de aprendizado na infância, podendo ser tanto positivas (“Eu sou competente”), quanto negativas (“Eu sou vulnerável”). Essas crenças processam as informações que chegam até nós e, assim, determinam como percebemos os eventos, independente de como esses eventos se apresentam. Há uma tendência do indivíduo a percebê-los de forma absoluta e inflexível, de forma que se “encaixe” no conteúdo da sua crença.

Beck (1964) postulou que as crenças centrais negativas, se encaixam essencialmente em duas categorias amplas: desamparo, e de não ser amado. Alguns indivíduos tem crenças que se encaixam em ambas as categorias. Tanto as crenças subjacentes, e principalmente as crenças centrais tem caráter rígido e absolutista como já foi mencionado. Elas servem como princípios gerais a respeito das pessoas, do mundo e de si mesma.

No caso específico da fobia social, algumas das crenças disfuncionais mais comuns que contribuem para o quadro conforme Markway (1999) podem ser delineadas a seguir como: ´´Se eu ficar ansioso, não vou conseguir fazer nada com outras pessoas por perto´´; ´´Se eu cometer um erro, os outros não vão gostar de mim´´; ´´Se os outros pensam que eu não sou bom, isto deve ser verdade´´; ´´Se eu demonstrar alguma ansiedade, ou outros me julgarão fraco´´; ´´Se os outros me desaprovarem, não serei capaz de suportar´´.

Muitas dessas crenças, e outras que possivelmente os fóbicos sociais têm, centram-se na idéia de perfeccionismo, e de evitar a desaprovação dos outros. O perfeccionismo aliás, é um problema comum nesses indivíduos. O perfeccionista tende a definir metas não-realistas e inatingíveis. Ele freqüentemente pensa que cometer um erro diante dos outros é inaceitável, e que precisa ser perfeito em tudo.

Outro aspecto significativo que constitui a essência da fobia social, é o foco na desaprovação. Os indivíduos fóbicos acreditam fortemente que têm de ser amados e aprovados por todos, e sentem-se incapazes de lidar com a rejeição ou desaprovação. O problema principal deste tipo de crença é a inevitável frustração e perda de auto-estima, na medida em que ninguém é amado por todos e nem tem aprovação universal para todas as suas ações. O perfeccionismo e o medo patológico de ser desaprovado pelos outros, por sua vez, acaba gerando uma auto-crítica obsessiva que mantém e reforça a baixa auto-estima.

O autor faz uma referência também as expectativas distorcidas que freqüentemente os fóbicos têm. Essas expectativas são influenciadas e tem origem nas crenças disfuncionais do indivíduo. No caso dos portadores de fobia social, há uma distorção cognitiva que toma a forma de expectativas catastróficas da ocorrência de desaprovação pelos outros, e a expectativa de não suportar a desaprovação caso ela realmente ocorra.

Os fóbicos sociais vêem a desaprovação como muito provável e muito grave, o que aumenta consideravelmente a sua ansiedade social.

Focalizando agora alguns modelos cognitivos específicos da fobia social podemos citar o modelo desenvolvido por Clark e Wells (1995), que envolve algumas variáveis relevantes que o fóbico apresenta de forma sistemática. Essas variáveis incluem padrões inflexíveis, irrealistas e exageradamente elevados de adequação do desempenho social; suposições condicionadas sobre a avaliação social (“Se eu cometer um erro, vou ser rejeitado”); e idéias absolutistas e inflexíveis a cerca de si mesmo, ou seja, crenças centrais de “ser incapaz, inaceitável, anormal ou inferior.”

Os autores ressaltam que na base destas crenças, está o intenso desejo de ser aceito por meio de um bom desempenho social e de uma marcada insegurança na própria capacidade de fazê-lo. Quando o indivíduo entra em contato com o estímulo fóbico (situação social), as crenças centrais negativas sobre si e os outros são automaticamente ativadas, gerando uma interpretação irrealista da situação como perigosa, e a conseqüente manifestação dos sintomas cognitivos, fisiológicos e comportamentais da ansiedade. Além disso, esse modelo destaca o papel da atenção autofocada que se faz presente no quadro, ou seja, o desvio da atenção do ambiente externo para dentro de si, o que reforça ainda mais suas crenças negativas e os sintomas ansiosos.

Desse modo, constitui-se um círculo vicioso que mantém o quadro, ou seja, as cognições disfuncionais disparam os sintomas ansiosos, que reforçam tais cognições de inadequação social, enquanto que a atenção autofocada contribui para essa manutenção no sentido de impedir que o indivíduo desconfirme e corrija a sua visão distorcida, por meio de uma avaliação realista e objetiva do ambiente externo. (CLARK & WEELS, 1995 apud KNAPP, 2004)

O modelo de Rapee e Heimberg (1997) diz que os indivíduos com fobia social mantém crenças negativas profundas em relação à auto-avaliação de seu desempenho social, e à opinião que os outros terão sobre ele na situação social temida, tendendo a deslocar o foco de atenção para fora da situação vivida. A idéia básica desse modelo, diz respeito as expectativas e previsões catastróficas iminentes de desaprovação social, anteriormente mencionadas, e a incapacidade de lidar com isso, decorrente de uma baixa confiança nos recursos de enfrentamento para lidar com ameaças, o que faz com que esses indivíduos apresentem déficits comportamentais significativos ao interagir socialmente, reforçando seu sistema de crenças negativas. Os autores referem que nessa perspectiva também há a produção um círculo vicioso:

Nessa situação, também se estabelece um círculo vicioso, onde o indivíduo se mantém em um processo de permanente comparação entre suas crenças de que será avaliado negativamente pelos outros, e aquilo que ele acredita serem os resultados esperados e adequados para uma situação social específica, seja de desempenho social, ou interação verbal4.

Um outro modelo de Beck e Emery (1985), traz o conceito de esquema, definido por esses autores como “ o conjunto de regras que classificam, priorizam e interpretam a informação que entra na pessoa e facilita a recuperação de informação relevante a partir da memória”, como o conceito central. Os esquemas, segundo os autores, funcionam de modo a delinear uma tendência no processamento de informações que opera em todas ou quase todas as situações vivenciadas pelo indivíduo.

Em indivíduos ansiosos, esses esquemas operam no modo da vulnerabilidade, ou seja, o indivíduo vê o mundo como um lugar perigoso, no qual ele deve constantemente ficar em alerta contra uma ameaça potencial. Em conseqüência, evidências neutras ou positivas são interpretadas erroneamente, desconsideradas ou negligenciadas.

No transtorno de ansiedade social, a hipervigilância para indícios que indicam a possibilidade de avaliação negativa pelos outros é o foco principal. Esses indícios podem ser situacionais, como por exemplo, um comentário precipitado de um professor sobre as próximas apresentações em sala de aula; interpessoais, por exemplo, um conhecido que deixa de responder a uma saudação, ou internos, por exemplo, freqüência cardíaca acelerada, o que sinaliza a ansiedade que pode ser visível aos outros, ou interferir no desempenho de um comportamento exigido. Por limitar sua atenção aos indícios de ameaça social, a importância destes indícios pode, então, estar exagerada, de modo que uma gagueira claramente perceptível durante uma conversa, é interpretada desvalorização total do “eu”. (BECK & EMERY, 1985 apud BARLOW, 1999)

Um último modelo cognitivo da fobia social que será aqui exposto refere-se ao modelo de auto-apresentação da ansiedade social de Schlenker e Leary (1982). Esse modelo sugere que a ansiedade social ocorre quando o indivíduo deseja causar uma boa impressão nos outros e duvida da sua capacidade de conseguir isso. Essas duas variáveis são centrais nesse modelo, ou seja, a preocupação está focada em atingir uma impressão positiva aos outros e a competência para fazê-lo. Segundo Leary (1988), fatores situacionais e de disposição podem aumentar a motivação do indivíduo para envolver-se no manejo da impressão.

De acordo com o autor, o indivíduo pode estar excessivamente motivados para criar uma impressão positiva, por causa de uma alta necessidade de aprovação por exemplo.

Entretanto, outros fatores devem ser levados em conta no que diz respeito a motivação e expectativa do indivíduo para alcançar o objetivo de manejo da impressão positiva. Entre eles estão as deficiências reais ou imaginárias em habilidades sociais, baixa auto-estima e baixa perspectiva de resultados. A baixa auto-estima, por exemplo, contribui para a intensificação da ansiedade social, porquê o indivíduo supõe erroneamente que os outros o considerarão tão inferior ou inadequado como ele mesmo se considera.

No caso das deficiências percebidas nas habilidades sociais, ocorrem baixas expectativas de eficácia, ou seja, falta de confiança em que se possa desempenhar um dado comportamento adequadamente. Leary (1988), tomando como referência o conceito de Bandura (1977) de baixa perspectiva de resultados, sugere que tal característica pode resultar de uma baixa auto-estima ou de uma opinião negativa sobre a formação de impressão ou das interações sociais. (SCHLENKER & LEARY, 1982, 1988 apud BARLOW, 1999)

Focalizando agora alguns aspectos comportamentais para a manutenção da fobia social, podemos destacar algumas formas não-adaptativas de lidar com a ansiedade ou enfrentá-la. Entre essas formas não-adaptativas, inclui-se principalmente a evitação ou esquiva das situações que geram ansiedade. Para o indivíduo ansioso socialmente, esta estratégia parece ser efetiva, pois produz um alívio temporário dos sintomas, porém a longo prazo ela mantém e reforça a ansiedade, sem resolver o problema.

De acordo com Markway (1999), a evitação das situações temidas é uma das estratégias mais comuns de lidar com a ansiedade que os indivíduos encontram para obter alívio. Entretanto, evitar as situações, e obter um alívio temporário dos sintomas, gera outros prejuízos mais significativos à longo prazo. Um destes prejuízos refere-se a uma restrição da vida como um todo do indivíduo, além de não permitir que ele teste as suas crenças disfuncionais e descubra se estava ou não exagerando o perigo social. Na medida em que ele evita as situações, a autoconfiança diminui, e quanto menos confiante, mais ansioso o indivíduo estará quando se defrontar com uma situação socialmente temida, e mais tentado a evitar a situação ele estará, perpetuando o problema.

Outro fator de manutenção importante da fobia social, é a preocupação. Essa preocupação refere-se a ficar remoendo a respeito de um perigo que pode ou não acontecer. Ela manifesta-se através de uma repetição obsessiva de pensamentos ansiosos, difíceis de controlar, e diminui a habilidade de gerar soluções ou de lidar efetivamente com a ansiedade. (MARKWAY, 1999)

No indivíduo fóbico social, essa preocupação está centrada basicamente no desempenho social, na reação dos outros, e no modo como ele irá lidar com essas reações, onde tais preocupações intensificam de forma significativa a ansiedade. Um foco comum de preocupação na ansiedade social, refere-se à uma auto-avaliação rígida e perfeccionista que o indivíduo faz do seu desempenho enquanto executa algo. Existe uma preocupação excessiva com a possibilidade de que o seu comportamento esteja sendo observado, se ele está se “saindo bem”, e o que os outros possam estar pensando à seu respeito. Segundo Markway (1999, p.43):

a preocupação consigo mesmo atua como um estímulo que aumenta a ansiedade, ou seja, quando o indivíduo está muito preocupado com o seu desempenho, ou tenta adivinhar a reação dos outros, menos se concentra naquilo que está fazendo, e é mais provável que cometa um erro. E o fato de ter cometido um erro, pode torná-lo mais ansioso, afetando seu desempenho e aumentando as chances de cometer um erro temido.

Tendo focalizado os aspectos teóricos da fobia social fundamentados na abordagem cognitivo-comportamental, os próximos itens irão abordar os aspectos práticos e operacionais do processo de intervenção passo a passo. Inicialmente, como em qualquer processo terapêutico, começaremos focalizando o processo de avaliação cognitivo-comportamental (ACC).






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