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O ponto básico a ser trabalhado foi a Inserção de Fo (14) em uma família, em conseqüência de perdas múltiplas por morte, sendo que nessa família morte é tema-tabu, o clima afetivo sendo positivo facilitava as comunicações que, no entanto, esbarravam sempre no tabu. A postura corporal de Fo (14) chamava muito a atenção, pela mudança que aos poucos se operou: ele é um adolescente alto com pernas compridas, e no início parecia fazer todo o possível para ficar bem pequeno, desaparecer talvez, não ocupar espaço, falar baixo: aos poucos passou a falar alto, fazer brincadeiras com Avó e tias, até com a terapeuta. A passagem que permitiu o início dessa mudança foi, sem dúvida, a sessão em que lhe foi contado o que era sabido sobre a morte de M. Apesar da resistência, muito maior por parte da Avó, os adultos perceberam que era necessário dar essa informação a ele, usando o contexto terapêutico como suporte para enfrentar o tabu.

Como Fo (14) havia sido proibido de rezar por M, ou seja, de praticar seu ritual particular de contato com ela (o que acabou revelando que fazia às escondidas), ao longo da terapia foi possível dar flexibilidade ao sistema para a execução de um ritual nesse campo. Fo (14) foi entendendo que rezar por M era conversar com ela (seguindo seu desejo expresso), manter o contato e negar a morte. Avó e tias foram dando a ele a possibilidade de ter uma memória de M, por meio de fotografias, histórias e lembranças. Então tornou-se possível contextualizar a oração como uma despedida. Paralelamente, o sistema pôde assegurar Fo (14) que, tanto quanto é possível uma previsão desse tipo, o vinculo entre eles estava assegurado, sua pertinência ao sistema não estava ameaçada e nem condicionada a bom comportamento e bom aproveitamento escolar. Isso foi necessário porque Fo (14) evidenciou, como é freqüente encontrar em crianças, idéias de que teria sido o causador das mortes, dos afastamentos.


Com base nesse andamento da terapia, foi pedido à família que pensasse em um ritual que significasse uma despedida de M, por parte de todos, e a aceitação de Fo (14), também por parte de todos. A família escolheu mandar celebrar uma missa, especialmente para M. Não poderia ser uma missa comunitária e Fo (14) pediu que lhe fosse dada


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uma fotografia de M que sempre via junto às outras da mília, em uma caixa. Queria ter a fotografia, pois não lembrava da fisionomia de M. As discussões sobre o rituais ser escolhido deram-se nas sessões e fora delas. Segundo relato, a missa teve de fato um caráter simbólico muito importante, visto em comportamentos como: as tias tiver que mobilizar horários de trabalho para comparecer, vizinhos foram convidados (mas somente aqueles que Fo (14 escolheu), este vestiu-se com esmero e a Avó colaborou coi as providências necessárias.

O processo terapêutico foi considerado encerrado quando, após o ritual, a família parecia estar vivendo um outro momento, discutindo a possibilidade de Fo (14) começar a trabalhar, com seus planos e sonhos sendo checados diante das condições da realidade.


4. FAMÍLIA D

O pedido inicial de atendimento foi para Fa (10), a partir de M, que queixava-se de não conseguirem se relacionar bem. Era uma queixa bastante vaga, mas mencionava questões da entrada de Fa (10) na puberdade e as dificuldades, por parte de M, em particular no que se referia a passar-lhe valores femininos, principalmente da sexualidade. M tinha ainda outros filhos e, entre Fa (10) e eles, havia sofrido um aborto e perdido um bebê natimorto. A partir deste fato, o caso começou a ter outros contornos e a queixa vaga pôde ser mais bem formulada.


Nesse momento do ciclo vital familiar, com a entrada de Fa (10) na puberdade, o luto não resolvido traz à tona os fantasmas dos dois bebês, uma vez que envolvem questões do ser feminino, reprodução sexualidade, que poderiam até ter ficado adormecidas, pois outros dois bebês nasceram e estão se desenvolvendo bem. No entanto, esse tipo de luto não precisa muito para se manifestar e é inegável, nas sociedades ocidentais, o impacto que a entrada na puberdade tem no ciclo


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vital familiar: remete também ao luto dos pais, pelo fim da infância dos filhos.
Foram realizadas 13 sessões, entre setembro e dezembro de 1991, com dois observadores no espelho unidirecional. Foi utilizada caixa com material lúdico, dada a idade dos filhos, para lhes facilitar a comunicação. P esteve presente apenas na primeira sessão; depois, de acordo com informação fornecida por M, faltou a uma sessão porque o horário não lhe era favorável e, por fim, por não querer se envolver com questões por ele entendidas como de educação de filhos, ou seja: de competência feminina.

Os filhos menores ignoravam os fatos que deram origem à terapia e Fa (10) não se lembrava a respeito, de maneira que muito trabalho foi feito acerca da comunicação entre M e os três filhos.

As condições dessa família em relação aos lutos fo ram:

a)tipo de morte: um aborto em conseqüência de rubéola de M, no segundo mês da gravidez; foi aborto espontâneo, mas M chegou a ser abordada pelo médico sobre provocá-lo ou não; um natimorto no oitavo mês de gravidez, de sexo masculino, que foi registrado e enterrado, ou seja: teve uma identidade civil;


b) padrões familiares de união: P no papel de provedor, não muito envolvido com as questões familiares, M abraça-as todas, provocando ainda mais o isolamento de P;


c) flexibilidade do sistema: dependente dos papéis de P e M, portanto, não é flexível, apesar de ser um sistema familiar que deverá enfrentar mudanças, com o crescimento dos filhos;


d) comunicações, mitos e tabus sobre a morte: nem o aborto nem o natimorto eram do conhecimento dos filhos, que vieram a inquirir M apenas a partir da terapia; M associa, confusamente, que os bebês teriam “voltado fortalecidos” nos dois filhos que teve posteriormente; todos na família têm nome começando por uma mesma letra e o natimorto recebeu nome com inicial diferente, como para excluí-lo da família;


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e) recursos sociais e econômicos: família paulistana de classe média; P é advogado, o único responsável pelo sustento da casa, bom padrão;
f) papel do morto no sistema familiar: filhos que ‘não vingaram”, pelo tabu, parecem-se mais com fantasmas; para M, sinalizam sua fragilidade na função feminina; sub-ritualizados.

g) relações familiares por ocasião da morte: aparentemente, estavam bem, uma família em fase inicial do ciclo familiar, com uma filha de quatro anos, tentando ter um filho para receber o nome de P;


h) perdas múltiplas: não houve;
i) fatores simultâneos de estresse: não houve;
j) legado multigeracional de lutos não resolvidos: não há; ambos os avós de ambos os lados são vivos, não há mortes na família há anos;

k) sistema de crenças da família: são aqueles próprios de classe média, objetivando dar boas condições de vida para os filhos, moral rígida; as realizações devem vir apenas como fruto do trabalho honesto;


l) contexto sociopolítico e histórico da morte: sem significado, neste aspecto.

O fato de P não ter participado da terapia sobrecarregou M com uma tarefa que teria, sem dúvida, sido mais bem resolvida se ela não estivesse só. Por “mais bem” entenda-se a possibilidade de experimentar o sistema familiar como um todo, com presentes e ausentes. Dessa forma, a ausência de p juntou-se à ausência dos bebês, sendo que estes, segundo entendimento da mãe até aproximadamente o meio do processo terapêutico, foram substituidos pelos dois filhos mais novos.

Para M e, residualmente, para todo o sistema, a perda de maior impacto foi a do bebê natimorto, que tinha tido um tempo maior de existência. As palavras de M são eloqüentes a respeito de seus sentimentos: “D como você preparar uma festa e o homenageado não comparecer.” A ambivalêricia permaneceu e ficou clara na terapia, por exemplo, quando ela se declara impotente para educar bem os fi-


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lhos pensa em colocá-los em um colégio interno e, a seguir começa a brincar agitadamente com eles, que haviam ficado (os dois menores, pelo menos) assustados com ameaça. Parece haver um outro sistema em atuação, abrangendo P, Fa (10) e avó paterna. Esse trio desconsidera decisões de M, que se vê desarticulada por eles em sua autoridade e, por sua vez, busca união com os dois filhos menores. Configura-se aqui, mais uma vez, a lacuna aberta pela vida/morte dos dois bebês.

Com o andamento do processo terapêutico, foi possível a M relatar aos três filhos o acontecido. Fo (6) ficou muito interessado, principalmente porque foi mencionada a possibilidade de o natimorto ter recebido o nome que lhe coube, ou seja, o Júnior de P. Fo (6) precisou ser muito assegurado de que o bebê recebeu outro nome. Como era de se esperar, foram feitas muitas perguntas a respeito do destino dado a esse bebê morto, o que, por um lado, abriu a comunicação entre M e os filhos e provocou nela a emergência de sentimentos que estavam, em suas palavras, “anestesiados, amortecidos”.


Com o material lúdico e gráfico que havia na sala, as crianças passaram a desenhar cenas referentes às informações que iam recebendo ou que queriam receber. Representavam também cenas, com o bebê sozinho no berço, por exemplo, enquanto M e P choravam abraçados. A partir daí, o ritual a ser utilizado com eles foi se configurando. Uma vez que os bebês tinham tido muito mais uma existência de fantasmas do que de bebês humanos, foi proposto à família que desenvolvesse um ritual para enterrá-los, simbolicamente, na sessão. A proposta mobilizou a todos e provocou maior comunicação entre eles. Foi construído um pequeno caixão em dobradura de papel, um bebê da família de bonecos foi colocado dentro desse caixão, um pequeno cortejo circulou pela sala em busca de um local adequado para o enterro. As crianças despediram-se do bebê usando o nome com o qual ele fora batizado.

Foi muito interessante observar que, a partir dessa sessão, a família passou a falar de planos de férias, que se aproximavam. M estava muito consciente sobre a reação que causava nos filhos, ao se impacientar com eles, quase como se brigar fosse a única alternativa possível de convi-
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vência. A partir dai, mostrou-se mais atenta para deixar que os filhos encontrassem forma própria de entendimento.

Apesar dos bons resultados, quanto aos objetivos da terapia do luto familiar, a falta de P no contexto terapêutica refletiu no familiar, impedindo o completo atingimento dos objetivos. Considerando-se o que foi visto nas últimas sessões, o não-compartilhamento da morte e a não-reorganização, por parte de P, vão significar para ele o lamentável alheamento dessa nova realidade, livre de fantasmas e com filhos verdadeiros.


5. FAMILIA E


M procurou a Clínica em razão da morte de um fllho, quatro meses antes. Essa criança vivera apenas 11 dias. M queixava-se de um relacionamento dificil com P, ao mesmo tempo que se culpava pela morte da criança, pois teve hemorragias durante a gravidez e se recusou a fazer o repouso recomendado pelo médico. O bebê nasceu com uma infecção generalizada, contraído de M. O casal tem outros dois filhos: Fo (3) e Fa (2). Nas três vezes em que engravidou, M estava evitando filhos, ou com pílula anticoncepcional ou com DIU e particularmente essa última gravidez não foi desejada. M diz que nos cinco anos em que está casada, praticamente passou todo esse tempo grávida. Nunca teve confiança em P, com quem não queria ter se casado, era noiva de outro rapaz e, ao descobrir que ele tinha uma namorada, rompeu o noivado e casou-se com P. Este teve um relacionamento extraconjugal durante a última gravidez de M e deixou que ela percebesse.


M considera-se muito insegura, nervosa, agitada, sempre foi assim. Os pais se separaram quando ela tinha entre quatro e cinco anos, indo morar com a avó materna, que faleceu quando M tinha onze anos. Depois disso, M acha que começaram os problemas, voltou a morar com a mãe, com quem tem um relacionamento dificil, por serem ambas muito autoritárias. Dá-se bem com o pai, com quem


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