Compreendendo a transexualidade: a partir da fenomenologia da percepçÃo de corpo de merleau ponty



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TRANSEXUALIDADE

É impossível falar sobre transexualidade sem citar as contribuições históricas que envolvem o tema sexualidade, para que este pudesse ser debatido nos dias de hoje.

Foi a psicanálise quem iniciou o discurso e estudos em torno da sexualidade humana, por meio de Freud (1856-1939) e posteriormente outros psicanalistas, assim como Lacan.

Freud fala que a sexualidade começa na infância e mesmo que a criança não tenha ainda conhecimento do seu corpo, a sucção do seio materno já é o protótipo do autoerotismo, ou seja, o seio da mãe faz parte do corpo do bebê. “Embora, do ponto de vista do observador, o seio materno seja considerado um objeto exterior, pode-se dizer em contrapartida, que do ponto de vista da criança ele é parte de seu corpo”. (REIS; MAGALHÃES; GONÇALVEZ, 1984, p.27).

Foucault (1988) foi um dos principais autores que abordou o tema sexualidade, a partir do século XVII que se inicia uma observação minuciosa, onde qualquer palavra de cunho sexual não poderia jamais ser mencionada, o pudor não deixava que se falasse sobre o assunto, “por intermédio de proibições que se completam mutuamente; mutismos que, de tanto calar-se, impõe o silêncio. Censura.” (1988, p.21).

Para Louro (2016), “Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário”. (p.39). Como uma afronta a população heteronormativa, que exclui os diferentes, no caso qualquer um que não se enquadre no padrão heterossexual. Assim dentro de uma perspectiva histórica no século XX, a teoria Queer passa a fazer parte do pensamento ocidental contemporâneo a qual faz-se refletir acerca das noções de sujeitos, identidades, agências e identificações.

Um dos nomes em destaque da referida teoria, mencionada por Louro (2016) é Judith Butler que segue o pensamento Foucaultiano de poder e instituições de controle, dentro do binarismo, a qual o corpo recebe a identificação de sexuado e o controle do desejo, mas ultrapassa este modelo quando pensa que os corpos são dinâmicos e instáveis ao que diz respeito ao sexo, gênero, sujeito e desejo, dando a entender uma liberdade.

Butler entende que o sujeito só se torna sujeito quando sujeitado a situações que processam a sua subjetivação. Conseguinte o sujeito não possui uma identidade fixa, coerente e contínua, ele muda conforme suas vivências e transgride as normas vigentes. Torna-se o sujeito mutável livre para expressar seus desejos e fantasias criando assim múltiplas identificações. (LOURO, 2016)

Para Louro (2016), outro nome de grande influência para a teoria Queer que contribuiu muito para o aprofundamento dos estudos, é Simone de Beauvoir, que acredita no dimorfismo sexual, a qual Butler posteriormente faz crítica quanto a isto.

Para Beauvoir é a cultura quem define a experiência da mulher, “o que define alguém como fêmea é o sexo (sua constituição biológica) e o que define alguém como mulher é o gênero (sua constituição cultural) ”. (REIS, 2013, p.361)

Ao questionar o binarismo homem-mulher, abrem-se outras possibilidades de posições sexuais e por meio da posição Queer que se pretende reestruturar as relações e as políticas sociais.

A experiência transexual só pode ser discutida numa evolução histórica acerca das normas de gênero e consequentemente a diferenciação do corpo. (BENTO, 2006)

A mulher só é mulher devido ao seu ovário e posteriormente a diferenciação de gênero determinada pelas estruturas ósseas, nervos e prazer sexual. (BENTO, 2006)

A vagina é analisada anatomicamente e é definida como o órgão côncavo que encaixa perfeitamente no pênis, e por onde os bebês nascem. Com isso, determina-se a heterossexualidade, pois a vagina é feita para o pênis e o pênis é feito para a vagina, assim como também se determina a maternidade.

Percebe-se a evolução de nomenclaturas aos órgãos sexuais, partindo do isomorfismo para o dimorfismo. Antes a mulher era o homem invertido, hoje a mulher é o inverso do homem, diferenciando agora de fato e fazendo nascer o binarismo.

O pênis era considerado um símbolo de status e não uma definição do masculino. (BENTO, 2006). Somente no século XIX que houve uma busca incessante para determinar o sexo verdadeiro numa questão de corpo e consequentemente determinando também o gênero ao corpo.

Percebeu-se que os seios eram exclusivos dos corpos femininos. A definição de gênero criada pela sociedade aponta as diferenças dos corpos sexualizados entre o sexo biológico natural e o gênero dentro de um contexto cultural.

Assim pode-se considerar o gênero uma condição heteronormativa relacionada em corpo-homem e corpo-mulher, constituída em uma linha que dá sentido as diferenças entre os sexos. No nascimento a diferença de corpo determina o sexo e criam-se expectativas comportamentais de acordo com os mesmos, como gostos e subjetividades.

O corpo é construção social e inscrita por meio de operações constantes de repetições e imposições declaradas naturais. Ou seja: ““é um menino/ou uma menina”, produz-se uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um conjunto de expectativas e suposições em torno desse corpo”. (BENTO, 2006, p.88)

As performances de gêneros se estruturam já no ventre da mãe, que fica sabendo o sexo e lança expectativas comportamentais e sobre o futuro daquele corpo.

O habitus dará sentido quanto ao gênero e a heterossexualidade, consequentemente aos corpos como entidades diferentes e será o norteador quanto às condutas do homem e da mulher. O habitus social é a matriz, mas há também os sistemas de disposições individuais, dentro delas ocorrerão os desvios e é nestes desvios que se localizam a subjetividade.

A partir da matriz se delineia uma historicidade para o corpo sexuado. Ser corpo é história, fazendo-se, tornando-se corpo dentro do campo social, a quem dita as performances de gênero. (BENTO, 2006)

A avaliação para chegar ao diagnóstico de transtorno de gênero segue um rigor exaustivo na qual passa por histórico completo do caso, testes psicológicos e sessões de terapia que segue critério do (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) DSM ligados ao Transtorno de Identidade de Gênero. (BENTO, 2006)

O tempo de terapia do candidato pode variar para cada um, afim de que não haja arrependimento após a cirurgia, de acordo com a tendência internacional do Projeto Transexualismo, este tempo deve ser de no mínimo dois anos. (BENTO, 2006)

Em transexuais masculinos, as cirurgias podem ser a mastectomia (retirada total das mamas), histerectomia (remoção do aparelho reprodutor) ou a construção do pênis. Porém para a construção do pênis, as técnicas ainda são precárias, levando a vários problemas no pós-cirúrgico. Já para as transexuais femininas, a cirurgia consiste em próteses mamária e na construção da vagina e plástica de grandes lábios e pequenos lábios.

O que de fato pode definir um parecer médico quanto aos níveis de feminilidade e masculinidade são as normas de gênero. E quanto a isto há algo que antecede o desejo de querer mudar o corpo, e isto geralmente se apresenta na infância, em como cobrir o corpo? Quais as roupas, acessórios, sapatos, penteados que darão estabilidade ao corpo?

Muitas transexuais, mesmo antes de realizar a cirurgia, passam desapercebidas aos olhares classificadores, graças as possibilidades de vestimenta e de gestos. São as roupas que trazem a articulação entre o corpo e o meio. (BENTO, 2006)

A maior parte das transexuais apresentam o desejo de se vestirem ao gênero que se identificam desde a infância, na qual eram proibidas a usarem. Menino não veste calcinha e sim cueca e a cor rosa, é cor de menina. Assim percebe-se que as roupas são indicadores de masculinidade ou feminilidade.

Um dos critérios para se classificar um transexual é de afirmarem que desde sempre nasceram em um corpo equivocado.

Pode-se perceber que o gênero se liga diretamente ao sexo biológico e tem como obrigação seguir o gênero conforme o sexo. As transexuais encaram vários conflitos por conta disto, pois não sentem que seu gênero está de acordo com seu sexo, o que o faz querer mostrar o gênero a qual pertence por meio da estética e vestimentas. Fazem de tudo para esconder características que mostrariam para o outro seu gênero ligado ao sexo. Por isso as transexuais escondem o pênis, usam bastante maquiagem para esconderem a barba, usam enxertos para aumentar o volume dos seios e os transexuais masculinos escondem seus seios com uso de faixa. “Não existe nenhuma essência interna aos gêneros, e ser de um gênero é antes de tudo, fazer gênero”. (BENTO, 2006, p.167)

O que também ajudará no diagnóstico de transexualidade, são as narrativas sobre a infância, pois não basta apenas querer ser reconhecido como homem/mulher, mas demonstrar os conflitos de gênero com as narrativas da infância.

A identidade de gênero não é uma essência que é vista pelos atos, mas ao contrário. São os atos linguísticos e corporais que dão vida ao gênero. Tem muito mais em comum com a história e os aspectos sociais e como se articulam. A subjetividade ajudará na identidade de gênero. Ou seja, a identidade é construção de vivências e por isso há uma instabilidade. (BENTO, 2006)

A idealização com base no outro ajuda na formação de identidade a partir das identificações com outros grupos ou pessoas.

A identidade transexual é alvo de muitos conflitos. “Ser “transexual” oferece uma posição identitária que dará um sentido provisório a suas vidas” (BENTO, 2006, p.209). Provisório porque quem é transexual se identifica assim antes da cirurgia, mas aos olhos alheios ainda são confundidos com gays, lésbicas ou travestis. O conflito surge quando se quer explicar ao outro o que “eu sou”, e acabam a explicar por meio do que “não sou”. (BENTO, 2006)

Até as próprias transexuais têm algumas dificuldades de dizerem o que é ser transexual e chegam a confundir-se com travestis. A identidade transexual começa apenas a se definir no ambiente hospitalar, por meio de terapias e convívio com outras transexuais. Identificar-se como transexuais as fazem lembrar a todo momento que são diferentes.

A diferença entre uma travesti e uma transexual que pode ser observável é por meio das performances, na estilística corporal e discursiva. As próprias transexuais dizem que as travestis desmunhecam, falam alto, requebram e demonstram até espanto com essas atitudes, de modo a condenar as travestis e se colocando como mais recatadas por serem mulheres. (BENTO, 2006)

Uma das principais características da identidade transexual, é não deixar que o outro veja sua genitália, pois isso revelaria ao outro algo que ela não é. Assim como também a sexualidade revelará sua identidade, por isso muitas transexuais só aceitam se relacionar sexualmente com outra pessoa se houver desinteresse pelo seu órgão genital.

Muitos transexuais não veem sentido em continuar sendo identificados como transexuais após a cirurgia. Antes eram identificados como transexuais, gays, lésbicas, travestis, e depois encaram a mudança do sexo como o fim da identidade transexual, assumindo de fato o gênero a que pertence (BENTO, 2006), “a maioria dos usuários (as) se identifica como homem ou como mulher e não pretende revelar ou sequer compartilhar a vivência da transexualidade com alguém”. (ARÁN & MURTA, 2009, p. 18)



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