Clara Regina Rappaport


Capítulo 1 Influências pré-natais no desenvolvimento 1.1 Influências pré e perinatais no desenvolvimento



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Capítulo 1
Influências pré-natais no desenvolvimento
1.1 Influências pré e perinatais no desenvolvimento
Clara Regina Rappaport
Ë de fundamental importância para o psicólogo ter noções de como ocorre o processo de fecundação e crescimento da criança no útero materno porque muitos problemas de comportamento, deformidades físicas e distúrbios de personalidade têm origem nesta fase. Não faremos uma revisão completa destes aspectos, pois inúmeros autores já a fizeram, quer de forma breve, quer de forma exaustiva. Citaremos alguns deles apenas a título introdutório, pois a própria crendice popular tem mostrado ao longo da história que os mistérios da vida intra-uterina e as formas pelas quais o ambiente pode influenciar esses processos despertam o interesse de tõdos.
Antes do advento da embriologia, acreditava-se que qualquer evento influenciando a mãe durante a gravidez afetaria o feto, como, por exemplo, se uma futura mãe fosse assustada por um cão, a criança poderia desenvolver fobia por este animal; se desejasse algum tipo de alimento e não o obtivesse, a criança poderia ter aspecto deste alimento; que não se pode recusar qualquer tipo de alimento oferecido por uma gestante, etc. Estas crenças derivavam de uma suposta conexão neural entre o sistema nervoso da mãe e o do filho e da transmissão direta de emoções, desejos, angústias, etc., o que obviamente não tem sentido devido às grandes diferenças de maturidade do sistema nervoso central de um adulto (mãe) e daquele que ainda está se formando no feto.
Atualmente, sabe-se que grande número de substancias passam através da placenta da mãe para o feto. Alterações na fisiologia da mãe produzem mudanças no feto, embora isto ocorra por um mecanismo muito mais complexo do que fazem supor as crendices

populares. Estudos neste sentido começaram com a constatação de que deformidades nas crianças deviam-se a vírus (como o da rubéola ou da sífilis); venenos, radiações, substâncias químicas (como drogas ou antibióticos) e ausência ou excesso de vitaminas levavam à cegueira, má-formação craniana, ausência de membros, debilidade mental, desordens do sistema nervoso central e outras deformidades grosseiras.


Do ponto de vista emocional, Sontag (1941) sugeriu que substâncias químicas que aparecem no sangue materno durante o stress emocional se transmitem ao feto, gerando neste efeitos adversos. Por exemplo, constatou que os movimentos fetais aumentam por várias horas e assim crianças nascidas de mães com stress emocional prolongado poderiam apresentar alto nível de atividade após o nascimento.
Em outro capítulo ter-se-á uma visão mais atualizada e mais complexa das influências dos estados emocionais da mãe durante a gestação.
Lembraremos no momento outros tipos de fator:
1) Idade da mãe. Algumas deformidades ocorrem com mais freqüência em mães muito jovens (menos de 20 anos — aparelho reprodutor ainda em formação) ou mais idosas (mais de 35 anos). Ex.: mongolismo.
2) Drogas. Quando ingeridas no estágio de formação podem provocar deformações físicas e mentais diferentes, conforme a quantidade ingerida e a etapa da gravidez. Como exemplo podemos citar as anfetaminas, os sedativos, cocaína, etc. Na década de 60 muitas gestantes, em vários países do mundo, ingeriram uma droga — Talidomida (sedativo) — no início da gestação e seus bebês nasceram com vários tipos de deformação.
Atualmente, existem estudos mostrando que o próprio cigarro e as bebidas alcoólicas não devem ser utilizados em excesso durante a gestação sob risco de provocarem anormalidades, embora menores. As próprias drogas anestésicas utilizadas durante o processo de parto estão sendo questionadas no sentido de provocarem uma certa letargia, uma menor capacidade de resposta aos estímulos.
3) Radiações. Raio X em excesso podem provocar deformações no cérebro. Quanto às radiações atômicas, é bastante conhecido o fato de que, além da destruição causada pelas bombas atômicas em Hiroshima durante a 2. Guerra Mundial, as crianças nascidas de mulheres que se encontravam gestantes naquela ocasião apresentaram vários tipos de anomalia.
4) Doenças infecciosas. Sífilis, rubéola e caxumba podem produzir abortos (fetos de má-formação, eliminados espontaneamente

pelo organismo) ou anormalidades físicas (cegueira, surdez, deformidades nos membros) ou mentais.


5) Fator Rh. Quando houver incompatibilidade entre os tipos sangUíneos da mãe e do feto, podem ocorrer abortos, natimortos, morte logo após o nascimento, ou mesmo paralisias parciais ou deficiências mentais. Felizmente estes problemas já são bastante conhecidos na clínica médica, facilitando medidas profiláticas. Existem, entretanto, outras incompatibilidades sangüíneas (como o caso:
mãe O, feto B) que podem produzir substâncias tóxicas no organismo (no caso, altas taxas de bilirrubina) e que estão ainda em fase inicial de estudos.
6) Dieta. Está atualmente comprovado que uma dieta pobre predispõe a maiores complicações durante a gestação e o parto, prematuridades, maior vulnerabilidade do bebê a certas doenças e mesmo atraso no desenvolvimento físico e mental. Daí a prioridade que o governo brasileiro vem dando ao atendimento materno, infantil. Embora ainda precário, esse atendimento ou está desaconselhando as chamadas gestações de alto risco, ou, quando ocorrem, procurando oferecer atendimento médico e complementação alimentar.
Tão grave é este problema na nossa população carente que o próprio jornal O Estado de S. Paulo, numa série de reportagens publicadas no final do ano de 1980, mostra que uma alta porcentagem das crianças de determinadas regiões da Grande São Paulo apresenta déficit tanto no crescimento físico quanto no intelectual, havendo uma média de 2 anos de retardamento no seu desenvolvimento. Esta defasagem é atribuída à má qualidade de vida e principalmente à alimentação inadequada e insuficiente da gestante, do bebê e da criança pré-escolar. Como solução para minorar ou pelo menos impedir que esta situação se agrave, sugere-se a orientação para um planejamento familiar mais adequado, bem como uma melhoria nas condições de alimentação e saúde no início da vida. Diga-se de passagem que, além das deficiências nutritivas, estas crianças vivem num ambiente sem estimulação adequada para o desenvolvimento intelectual. Pesquisas realizadas na Inglaterra mostraram que crianças, filhas de pais carentes e de 0.1. rebaixado, quando submetidas a estimulação adequada em instituições nas quais passavam parte do tempo, tiveram desenvolvimento superior àquelas de um grupo controle sem manipulação. Além do período que as crianças passavam na instituição, o programa previa atendimento e orientação às mães no sentido de autovalorização, melhoria em suas condições de trabalho e de relacionamento com as crianças. Completando ainda a experiência, as moças adolescentes desta comunidade eram treinadas no cuidado com bebês e crianças pré-escolares no sentido profilático, isto é, para quando fossem mães.

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Muitas instituições comunitárias e religiosas têm prestado algum tipo de assistência a mães e famílias carentes em nosso meio, embora não contem, geralmente, com os mesmos recursos que tinham estes pesquisadores ingleses.
Por esta breve exposição de alguns dos muitos fatores que podem predispor a diversos tipos de distúrbio durante a gestação, conclui-se pela importância da orientação médica durante a gestação ou mesmo do aconselhamento genético quando um dos membros do casal é portador de qualquer característica que possa afetar negativamente o feto; ou ainda quando, embora pai e mãe sejam sadios, possa existir algum tipo de incompatibilidade capaz de prejudicar o feto. O conselheiro geneticista faz um estudo do casal e orienta no sentido da desejabilidade ou não da procriação. Embora recente, no Brasil este tipo de atividade existe nos grandes centros urbanos, ligado geralmente a escolas superiores de medicina e genética.
Além dos fatores já enumerados que prejudicam o feto de forma grosseira, existem outros que, embora de maneira mais sutil, prejudicam o desenvolvimento e o bem-estar psicológico (e social, em última análise) tanto da mãe quanto do bebê. Quero me referir ao processo de parto tal qual vem sendo comumente realizado em nossa sociedade.
Vejamos como ocorre. Durante a gravidez a mulher, ávida de atenções especiais que a ajudem a ajustar-se ao novo papel de mãe, recebe assistência obstétrica de forma mecânica e impessoal. É recebida por um médico atarefado que a examina e receita vitaminas ou outros medicamentos necessários. Suas emoções, medos, ansiedades, alegrias e expectativas não são considerados.
O parto é realizado num ambiente hospitalar que, se traz benefícios à saúde pela sua assepsia, pode produzir efeitos emocionais danosos, os quais podemos denominar “esterilização emocional”. Analisemos a situação pari passu. A mulher parturiente, sofrendo as dores das contrações e as angústias de um momento desconhecido e crucial, é recebida fria e rotineiramente por pessoas estranhas. conduzida de uma sala para outra, sem participar de qualquer decisão, tomada em nome de princípios obstétricos que não lhe são transmitidos.
A indução do parto por drogas e o rompimento artificial das membranas feito por conveniência (para acelerar o processo) produzem aumento das contrações uterinas (e portanto das dores da mãe) e menor fluxo sangüíneo para o cérebro do bebê, o que pode causar anormalidades neurológicas, cardíacas, disfunção cerebral mínima, etc., além da necessidade de se administrar analgésicos e sedativos para aliviar as dores maternas. Estas drogas concentram-se na circulação fetal e no sistema nervoso central, o que pode levar a comportamento menos responsivo após o nascimento, menor sucção, proble ma

de respiração e disfunção cerebral mínima. Este estado da criança e a sonolência da mãe após o parto (decorrente das drogas) levam a alterações nas respostas maternas e, dependendo do par mãe- criança do grau e da duração, podem levar a conseqüências mais duradouras e imprevisíveis.


A posição da mulher deitada e amarrada torna o parto menos confortável, impede a mãe de participar no sentido de procurar a posição mais confortável; interfere e inibe o comportamento materno natural, o que pode também influenciar no estabelecimento da interação com seu bebê.
O corte que se faz na mulher durante o parto causa desconforto durante a amamentação, afeta o relacionamento sexual (e portanto conjugal) após o parto, dificultando ao casal a elaboração da nova situação familiar.
Vejamos agora o que ocorre ao bebê. Os cuidados pós-parto são executados de maneira mecânica, rapidamente, num ambiente tumultuado e de muita luz. As luzes fortes sobre os olhos do bebê podem prejudicar o comportamento de olhar mútuo que ocorre entre a mãe e a criança durante a amamentação.
O parto cesariano, realizado incontáveis vezes sem indicação obstétrica, com anestesia geral, pode levar a sentimento de incerteza em relação ao bebê (será mesmo seu filho?), sentimento de falha como mulher, além das dores e da separação subseqüente.
A etologia, a partir de estudos com animais e posteriormente da observação de bebês humanos, constatou que os primeiros dias e semanas após o nascimento constituem um período fundamental para o estabelecimento de uma ligação afetiva sadia entre a mãe e o seu bebê. As primeiras horas e dias se constituiriam no denc ninado período de reconhecimento, quando os dois membros da dftLde estariam explorando um ao outro, conhecendo-se. Daí a importârcia fundamental de um parto num ambiente de maior afetividade e de um contato Contínuo com o bebê nas primeiras horas. Caberia ao pessoal hospitalar um auxílio no sentido de ajudar a cuidar do bebê, pois que, ainda dentro dos princípios etológicos, qualquer mãe (humana ou animal) está apta a cuidar de seu filho desde que possa dar livre vazão às suas emoções. É como se as mulheres fossem programadas geneticamente para cuidar de seus filhos e estes nascessem com aspecto e comportamentos capazes de eliciar nelas o chamado comportamento materno. Assim, numa posição naturalista, basta que mãe e filho sejam deixados juntos, num ambiente adequado para que desenvolvam o attachment ou ligação afetiva. Inclusive. há quem ache que, quando o pai ou outras pessoas da família assistem ao parto, além de oferecerem segurança emocional para a mãe, estariam-se ligando afetivamente ao bebê.

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Quanto ao bebé, constatou-se que crianças nascidas em casa cuidadas, desde o início, pelas próprias mães, estabelecem um biorritmo próprio em poucos dias. Ao contrário, nas enfermarias demoram dez dias, além de apresentarem maior dificuldade de alimentação e mais choro.
Conclui-se, portanto, que este período pós-parto é muito delicado tanto para a mãe quanto para o bebê, podendo determinar a qualidade da ligação afetiva que se irá estabelecer entre os membros da díade criança-mãe.
O tratamento mecânico dispensado à mulher, que exige dela passividade, ausência de informações e pouco contato com o bebê, pode gerar sentimentos de culpa e frustrações que, quando prolongados, provocam depressão pós-parto, cujos reflexos podem durar muitos anos. Ela pode sentir-se privada de suas funções femininas, coagida e manipulada, embora do ponto de vista obstétrico o parto tenha sido um sucesso.
Sugere-se então que a assistência dada à gestante, à parturiente e à nutriz seja feita de maneira mais calorosa, mais humana, que inclua a participação do marido e dos outros filhos (ctuando houver), no sentido de promover uma interação familiar sadia.


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