Clara Regina Rappaport



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Estádio 5: a reação circular terciária e a descoberta de novos meios por experimentação ativa (12-18 meses)
Podemos considerar este subestádio como aquele em que observamos as formas mais elevadas de atividade comportamental antes do aparecimento da capacidade de representação interna (mental) dos acontecimentos. As possibilidades de adaptação ao meio em termos de comportamentos explícitos são muito maiores do que nos subestádios precedentes, uma vez que a subordinação dos meios aos

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fins é quase que total. A criança pode inventar novas formas de ação para atingir um objetivo almejado. Notamos inclusive uma atitude de experimentação ativa, onde não apenas o fim em si é importante, mas também a descoberta desses novos meios para atingi-lo.


A atitude de experimentação e a busca da novidade constituem as características essenciais das chamadas reações circulares rerciárias que aparecem nesta fase. Citemos um exemplo de reação circular terciária para depois retomarmos teoricamente suas características:
uma criança deixa repetidas vezes cair no chão um carrinho. Cada vez que o faz, experimenta uma nova maneira de jogá-lo: ora com mais força, ora com menos, de uma altura maior ou menor. Observa as posições em que o carro cai em função de seu lançamento ao solo. Por exemplo, pode observar que, lançando o carro em pé de uma altura pequena, esse carro cai em pé. Eventualmente repete uma forma de jogar o carrinho para conseguir que caia numa determinada posição “nova”, na qual nunca tinha caído antes. A trajetória da queda passa a despertar grande interesse.
Pela primeira vez, notamos a repetição de uma ação onde a criança visa apreender as novidades. Até então (na reação circular secundária, por exemplo) a repetiçâo tinha por “objetivo” chegar a um determinado fim. As variações que se fizessem necessárias não se constituíam alvo de interesse e pesquisa para a criança. Agora ela parece estudar a relação entre meios e fins. Como alterações nos intermediários podem levar a diferentes resultados? Passa a realizar graduações e variações nestes intermediários para descobrir flutuações nos resultados.
A reação circular terciária é inovadora por dois motivos: há repetição dos movimentos com variação e graduação, sendo que a repetição visa mais a uma compreensão do resultado do que apenas a chegar ao mesmo fim; há busca de novidade.
A reação circular terciária pode ser considerada como equivalente à estratégia de tentativa-e-erro utilizada conscientemente pelo adulto, para a solução de um problema. Para obter um certo resultado, a criança varia intencionalmente suas ações. No nosso exemplo, se a criança quer que seu carrinho caia na posição “em pé”, “normal”, testa várias maneiras de lançá-lo, até obter o resultado desejado. A reação circular secundária, característica do subestádio anterior, pode por sua vez ser comparada à solução acidental de um problema. Ainda em nosso exemplo, acidentalmente a criança joga o carro que cai em pé. Repetirá inúmeras vezes esta forma de jogar para conseguir o resultado de vê-lo cair em pé. Não há uma atitude ativa de experimentação e pesquisa para chegar a um fim desejado, ou mesmo a novos fins.
Neste ponto, já é notável a diferença entre um recém-nascido

— cujo repertório comportamental é composto basicamente por ações desencadeadas em bloco por estímulos externos — e uma criança com aproximadamente um ano e meio de idade, que apresenta uma mobilidade fnuito grande em termos de comportamentos. Temos agora uma criança com capacidade muito maior de variar, de graduar, enfim, de ter controle voluntário sobre suas ações. Os processos de assimilação e acomodação estão claramente dissociados, sendo que já ocorre o nítido predomínio deste último processo sobre o primeiro. A criança é capaz de mudar seus comportamentos, seus esquemas e estruturas para enfrentar uma situação nova.


Com o intuito de apresentar outros exemplos de comportamentos inteligentes que aparecem nesta fase, citaremos três condutas típicas, a do suporte, a do barbante e a do bastão.
Quando falamos de conduta do suporte, referimo-nos ao fato de a criança ser capaz de chegar a um objeto que esteja fora do alcance de suas mãos, deslocando para perto de si o suporte no qual este repousa. Esta conduta equivale à descoberta empírica da “lei”: o deslocamento de um suporte implica no deslocamento simultâneo do que nele estiver apoiado. Para apanhar um relógio que está sobre uma almofada, mas fora do alcance de suas mãos, a riança puxa para si esta última e assim alcança o relógio (experiência feita pelo próprio Piaget com seus filhos).
A conduta do barbante assemelha-se à do suporte. Apresentando-se à criança um objeto por ela desejado, mas também fora do alcance de suas mãos e prendendo-se o mesmo a um barbante, este ao seu alcance, notamos que a criança, após algumas tentativas infrutíferas de chegar diretamente ao objeto, descobre a relação:
puxar o barbante implica em puxar o objeto para perto de si. Feita esta descoberta, a criança passará a utilizar-se sempre do intermediário (barbante) para chegar ao fim (objeto).
A conduta do bastão, por sua vez, é a mais complexa das três constituindo-se no exemplo mais puro de subordinação dos meios intermediários aos fins. Isto devido ao fato de o bastão não ser mais um prolongamento do objeto (como no caso do apoio — o deslocamento do apoio implica no deslocamento do objeto; e no caso do barbante — o objeto está ligado ao barbante), mas simplesmente um instrumento. Como exemplo de conduta do bastão podemos citar a criança que, para pegar um carrinho de plástico que se encontra fora do seu campo de preensão, é ëapaz de se utilizar de um hstão (a seu alcance) para atraí-lo para perto de si e assim pega-lo.
Nos três casos, observamos que, no seu esforço para obter um objeto, a criança acaba descobrindo determinadas relações (por exemplo, que o movimento do suporte implica no movimento do que

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nele está apoiado) e passa a utilizá-las para atingir seus objetivos. Estas condutas são muito ilustrativas para entendermos melhor a natureza criativa e engenhosa das reações circulares terciárias às quais já nos referimos anteriormente. No caso da conduta do suporte, como qualquer outra, a criança pode ter descoberto a relação acidentalmente, mas acaba retendo esta descoberta e utilizando-a ou na própria situação ou para resolução de outras com as quais venha a se defrontar.




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