Clara Regina Rappaport



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Estádio 1: exercício dos reflexos (0-1 mês)
Como sabemos, ao nascer o bebê conta com um conjunto de ações reflexas, que está pronto para funcionar. O reflexo pode ser considerado como a forma mais simples de comportamento uma vez que a estimulação de um conjunto de receptores provoca sempre a mesma resposta, pois as conexões sinápticas entre os neurônios são relativamente fixas e invariáveis. Como exemplo de reflexo humano, poderíamos citar a retirada da mão de uma superfície dolorosamente quente, o piscar dos olhos em resposta a um jato de ar no rosto, e o espirro quando os canais nasais estão irritados. Se um dado conjunto de receptores’ é estimulado, a resposta está determinada pelas conexões sinápticas “fixas” no percurso entre o estímulo e a resposta. O reflexo é assim preso-ao-estímulo, é determinado pelos receptores estimulados. Por exemplo, a estimulação dos receptores de dor da pata fará com que um animal retire reflexamente a perna. A estimulação dos receptores de pressão na mesma pata fará com que o animal estenda esta perna para suportar seu peso. Os receptores de pressão e dor levam a diferentes percursos reflexos de modo que resultam respostas diferentes.
Não objetivamos aqui nos aprofundar na fisiologia dos reflexos, ou nos diferentes tipos existentes, mas apenas enfatizar que é a partir de alguns deles que se desenvolvem comportamentos altamente complexos. E, percebendo esta evolução, do reflexo ao comportamento complexo, observamos, como Piaget o fez, que há uma continuidade entre o biológico e o psicológico. O que é “psicológico” surge em função de um substrato biológico e apenas para fins didáticos podemos tentar traçar as fronteiras entre biológico e psicológico.
Nesta primeira etapa do período sensório-motor, como o próprio nome já indica, ocorre o exercício dos reflexos. Não seria de se estranhar se o leitor, a esta altura, estivesse com uma dúvida e levantasse a seguinte questão: Se o reflexo está “pronto” desde o nascimento, se é tão fixo e previsível como nos pretende mostrar a fisiologia, por que então falar numa etapa inicial de “exercício” de reflexos?
Através de suas observações, Piaget mostrou que, apesar da “rigidez” e da “previsibilidade”, o reflexo também apresenta variabilidade e sofre o processo de adaptação (assimilação e acomodação). Basta observarmos a diferença existente, por exemplo, entre o bebê que está mamando pela primeira vez e esse mesmo bebê mamando em sua terceira semana de vida. O reflexo de sucção estava presente desde a primeira mamada (considerando-se uma criança sem anormalidades), mas é notável a “melhora” que notamos em termos de sua

eficiência com o decorrer das semanas. A interação com o meio é importante desde o início da vida, pois as potencialidades inatas só vão se realizar plenamente e desenvolver-se no contato organismo/meio.


Existem reflexos que praticamente permanecem inalterados desde o nascimento até a morte, como, por exemplo, o reflexo patelar, ou o pupilar, bem como os que desaparecem normalmente no decorrer do primeiro ano de vida, sendo que, nestes dois casos, fica mais difícil verificarmos a variabilidade e o processo de adaptação. No entanto, há outros como o de sucção, preensão, os reflexos de acomodações visuais e movimentos dos olhos, de audição e formação, nos quais estas mudanças são flagrantes. São esses os reflexos que se revestem de maior importância para nós, psicólogos, pois se desenvolvem em comportamentos complexos. É por isso que Piaget a eles se refere, deixando de lado os outros que são os mais revestidos de rigidez e previsibilidade.
Os reflexos que levam à aprendizagem apresentam circularidade intrínseca (repetem-se várias vezes), ao contrário dos outros (como o de Moro 1).
Talvez esta circularidade possa explicar a razão pela qual se desenvolvem em comportamentos motores voluntários.
Examinemos agora o caráter de variabilidade e de adaptação mencionado por Piaget, tomando como exemplo o reflexo de sucção. Fica implícito que as considerações a serem feitas serão válidas também para os demais reflexos já mencionados.
Contrarjamente a outros reflexos, onde apenas um estímulo determinado produz uma resposta específica (ver exemplo anterior do reflexo à dor), o reflexo de sucção apresenta variabilidade, porquanto pode ocorrer: quando tocamos os lábios, ou a boca, ou as maçãs do rosto do bebê; e sem qualquer estímulo aparente na região da boca. Pode não ocorrer mesmo como o bico do seio na boca.
Quanto ao processo de adaptação podemos dizer que se dá através de três formas de assimilação, que são: assimilação funcional (ou também repetição cumulativa), assimilação generalizadora e assimilação recognitiva. Ainda não podemos falar separadamente dos processos de assimilação e acomodação, pois estão confundidos. Usamos o termo assimilação porque o que predomina, apesar da
1 “o ‘reflexo de Moro’ é uma reação corporal maciça, subseqüente ao sobressalto determinado por vários estímulos que têm em comum a particularidade de induzir uma brusca extensão da cabeça, alterando sua relação com o tronco. Consiste na extensão, abdução e elevação de ambos os membros superiores, seguida de retorno à habitual atitude flexora em abdução.” Texto extraido de Coriat, L.F. Maturação psicomotora no primeiro ano de vida da criança. São Paulo. Cortez e Moraes Editora, 1977. p. 34-35.

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possibilidade de mudança, é a repetição, o enfrentar as situações novas, com os mecanismos de que o bebê já dispõe (não é capaz de criar novos mecanismos).
Por assimilação funcional ou repetição cumulativa entendemos que a própria repetição do reflexo possibilita sua maior eficiência, isto é, permite que sua função (no caso, a de sugar para obter alimento) se exerça plenamente, da “melhor” forma possível. Assimilação funcional, então, é a “melhora” que ocorre no mecanismo reflexo, pelo fato de ser colocado em prática inúmeras vezes. Como exemplo, já citamos anteriormente a diferença entre o bebê na sua primeira mamada e uma mamada depois de três senianas de vida. Neste exemplo, podemos dizer que ocorreu assimilação funcional.
Por assimilação generalizadora entendemos a incorporação de situações ou objetos cada vez mais variados ao mecanismo reflexo. Vejamos o que sucede então em termos do reflexo de sucção: inicial- mente ele ocorre com predominância na situação de alimentação, no contato da criança com o seio materno ou bico da mamadeira. Aos poucos, no entanto, observamos que o reflexo pode ser deflagrado diante de estímulos cada vez mais variados: quando o bebê mcidentalmente coloca seus dedos na boca, ou quando um pedaço da fralda toca a boca ou a região circundante, etc. Gradativamente vai se ampliando a gama de estímulos capazes de deflagrar o mecanismo reflexo. Ou, colocando em outras palavras: cada vez vai se “generalizando” o número de situações novas, que são enfrentadas com este mecanismo de que a criança dispõe. É a este fenômeno que Piaget denominou assimilação generalizadora.
A assimilação recognitiva refere-se ao início de reconhecimento prático e motor dos estímulos, que ocorre quando é acionado um mecanismo reflexo. Em certo sentido, podemos dizer que se trata do inverso do que foi descrito como assimilação generalizadora. Ao mesmo tempo que o reflexo incorpora um número cada vez maior de objetos ao seu mecanismo (assimilação generalizadora), também passa a discriminar as várias situações que o deflagram. Tomemos como exemplo um bebê que acorda chorando porque está na hora da mamada. Se, ao invés de dar o seio ao bebê, a mãe der chupeta, observaremos que o bebê poderá sugá-la durante alguns segundos, mas logo depois a rejeitará. Só ficará mais tranqüilo e sugará vigorosamente se lhe for oferecido o seio ou a mamadeira. Podemos dizer que houve assimilação recognitiva, pois o bebê utilizou de forma discriminada o reflexo de sucção (não sugou prolongadamente a chupeta, mas chupou a mamadeira, ou o seio). Quanto à assimilação recognitiva (associar a palavra recognitiva a reconhecimento), considerada neste exemplo, devem ficar claros dois pontos: o primeiro é que o estado motivacional de falta de alimento (fome) é
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condição necessária para que ocorra por parte da criança a distinção mamilo x outros estímulos (após a mamada raramente ocorre este reconhecimento, a criança sugará da mesma forma chupeta, o seio, ou outro objeto); o segundo ponto é que, quando falamos em reconhecimento, naturalmente nos referimos a um início de reconhecimento prático e motor, sem qualquer representação interna, pois neste primeiro mês de vida sabemos que a criança nem sequer tem noção dos limites do próprio corpo, da distinção eu x não eu.


Resumindo, podemos dizer que no subestádio denominado Exercício dos Reflexos, há uma estabilização, generalização dos reflexos, que se tornam mais discriminadores, embora limitados sempre aos resultados finais hereditariamente determinados.


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