Clara Regina Rappaport


Interação mãe-filho: modelo bidirecional de efeitos



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2.3 Interação mãe-filho: modelo bidirecional de efeitos
Clara Regina Rappaport
A hiperatividade, segundo Laufer e colaboradores, pode ser caracterizada por choro excessivo, marcantes distúrbios digestivos (freqüentemente referidos como cólicas) e de sono (dificuldade em adormecer, períodos curtos de sono), comportamento queixoso. Para a criança nessas condições, uma quantidade normal de cuidados maternos pode ser inadequada. Ou, como dizem esses autores, parece paradoxal que “uma mãe aparentemente normal e adequada, que criou, anteriormente, filhos saudáveis e alegres, agora, inexplicavelmente, a despeito de seus esforços, tenha uma criança tensa, cronicamente triste e exigente” (p. 465).
Segundo esses mesmos autores, “algumas mães têm um senti- mente inconsciente, às vezes consciente, sobre sua adequação como mulheres, esposas e mães. Uma criança com esse tipo de com portamento (isto é, a hiperatividade) parece oferecer a elas a prova concreta de sua inadequação. Isso gera na mãe intensas tensões e maiores esforços para moldar a criança a padrões mais aceitáveis”
(p. 465-4 66).
Para essas crianças, a mãe é usualmente malsucedida e a hostilidade inconsciente em relação à criança tende a se desenvolver, e esta, por sua vez, responde de maneira a causar distúrbios emocionais secundários.
Elas constituem um tipo de criança que não inclui em nenhum esquema familial. O padrão peculiar de respostas dessas crianças é explosivo e impulsivo, além do fato de ser particularmente intolerável a muitos pais, que acham difícil aceitar em seus filhos comportamentos impulsivos.
2.3.] Evidências empíricas dos efeitos da interação mãe-filho
Há algum tempo os psicólogos se preocupam com a interação mãe-filho (I-M-F) nos primeiros meses e anos de vida como determinante fundamental de certas características de personalidade, mais ou menos permanentes, que se manifestam no processo de desenvolvimento da criança.
Tão grande seria a influência destas primeiras experiências, que a ausência materna motivada por morte, abandono, guerra, hospi1 Esta seçãc- foi adaptada da tese de mestrado da autora, intitulada Interação
mãe-filho: nfluência da hiperatividade da criança no comportamento materno.
São Paulo. Universidade de São Paulo. 1978.

talização (da própria mãe ou da criança) levaria, sem dúvida, a distúrbios graves no processo de desenvolvimento da personalidade, conforme mostram os estudos detalhados de Freud e Burlingham (1949), feitos com crianças separadas dos pais e colocadas nos abrigos antiaéreos em Londres, durante a 2. Guerra Mundial.


Os distúrbios ocorriam em todos os aspectos da vida da criança em que o componente afetivo é o “motor do desenvolvimento”. Entre esses aspectos, Anna Freud cita a aprendizagem da linguagem e da noção de propriedade nos primeiros dois anos de vida.
Spitz (1945) chama a atenção para os atrasos de desenvolvimento que ocorrem em crianças institucionalizadas, atrasos estes que o autor atribui à ausência de contato, ausência de afetividade, ausência enfim da figura materna.
Baseado em pesquisas com crianças adotadas após um período prolongado de institucionalização (em torno de 30 meses) na infância inicial, Goldfarb (1945) afirma que este período, no qual as crianças recebem menos afeto e menos estimulação do que as crianças criadas no lar, é profundamente pernicioso para seu desenvolvimento psicológico.
Existe, ainda segundo Goldfarb, evidência da persistência deste efeito nocivo, mesmo após a colocação destas crianças em lares adotivos selecionados, com supervisão de pessoal especializado e em alguns casos até com tratamento psiquiátrico.
A experiência inicial com alto grau de privação (afetiva, social e de estimulação intelectual) na criança institucionalizada resulta, aparentemente, numa fixação quase constitucional nos níveis mais primitivos de comportamento conceitual e emocional; ausência de desenvolvimento na organização emocional, relacionamento social e na habilidade intelectual. Ocorre ainda uma passividade generalizada na personalidade, tão forte que impede a criança de se beneficiar com novos tipos de estímulos fornecidos pelo ambiente, incluindo os de relacionamento humano, e assim as reações emocionais e intelectuais iniciais se mantêm durante toda a infância e mesmo na adolescência.
Estudos deste tipo despertaram nos psicólogos, das mais diversas formações teóricas, o interesse e a necessidade de pesquisar, de observar e identificar quais os fatores presentes neste relacionamento mãe-filho, que determinam o subseqüente desenvolvimento de características de personalidade, ou, mais especificamente, do repertório de comportamento da criança.
Deu-se uma grande ênfase à influência que a personalidade da mãe exerce na da criança, uma vez que esta é ainda pouco estruturada.

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Podemos citar nesta linha, que Caldwell e Hersher (1964) chamam de modelo teórico monádico (isto é, unidirecional) de I-M-F, o estudo longitudinal conduzido no Felis Institute (Badwin, Kalhorn e Breeze, 1945), que enfatiza a influência dos pais, seu nível sócio- cultural, local de residência (cidade, campo), idade, práticas de criação adotadas, como determinantes de algumas características de personalidade da criança.


Na literatura especializada, Freud (1962) é considerado o introdutor do tema na Psicologia, pois teria mostrado como os padrões de conduta dos pais concorrem para a formação de ansiedades e neuroses. Mais recentemente, outros representantes da linha psicanalítica podem ser citados. De um lado, Erikson (1972) ressaltou a importância do tipo de atmosfera emocional criada pelos pais, no lar, desde a mais tenra idade, como fundamental para o desenvolvimento de uma personalidade saudável, bem estruturada. De outro, Melanie Klein (1973) salientou o tipo de relacionamento criança- seio que, no decorrer do primeiro ano de vida, lentamente se transforma na relação mais complexa, criança-mãe, como a base para um desenvolvimento saudável ou patológico da personalidade.
Psicólogos da linha da aprendizagem social, por exemplo, Mussen, Conger e Kagan (1974), também atribuem importância ao tipo de atmosfera oferecida pelos pais como determinante, nos filhos, de uma personalidade adaptada à sociedade, ou, por outro lado, não adaptada, com a presença de ansiedades, dificuldades de relacionamento, etc.
As afirmações de Mussen, Conger e Kagan baseiam-se em trabalhos anteriores, principalmente no modelo circumplexo de comportamento materno proposto por Schaefer em 1959. Este autor, considerando que a experiência global da criança é o fator realmente importante no desenvolvimento da personalidade, realizou duas pesquisas no sentido de classificar o comportamento das mães em relação a seus filhos do ponto de vista emocional e social.
Na primeira pesquisa registrou, através do método de observação direta, o comportamento de 56 mães em interação com seus filhos de 1 mês a 3 anos de idade e, na segunda, realizou entrevistas domiciliares com 34 mães de crianças cujas idades variavam de 9 a 14 anos.
Os resultados da primeira pesquisa, que foram confirmados pela segunda, levaram Schaefer a propor duas dimensões bipolares de comportamento materno, quais sejam: autonomia x controle e amor x hostilidade.
A primeira dimensão seria representada por autonomia num dos extremos e ansiedade materna, intromissão, preocupação com a saúde, exigência para realização, excessivo contato, promoção de de-

pendência e envolvimento emocional, no outro. O extremo positivo da segunda dimensão seria avaliação positiva da criança, igualitarismo e expressão de afeto; e o negativo seria ignorar, punir, usar de rigidez e do medo para controlar a irritabilidade.


Mussen, Conger e Kagan mantêm a designação de autonomia x controle para primeira dimensão, mas preferem usar aceitação x rejeição para a segunda, caracterizando os pais que aceitam a criança como aqueles que, criando uma atmosfera democrática, de respeito à personalidade da criança, e em que predominam práticas disciplinares de explicação e reforço, tendem a promover o desenvolvimento de uma criança segura, com bom ajustamento, etc. Já os pais situados no outro extremo da escala, os rejeitadores, ou seja, hostis em relação à criança, que fazem grande uso de punição física, tendem a promover o desenvolvimelto de uma criança ansiosa, insegura e com dificuldade de adaptação social.
Nesta mesma linha de investigação de comportamentos molares, embora reconhecendo que “as crianças vêm ao mundo com fortes predisposições genéticas” e que “as crianças interagem com seus pais e não são simplesmente as vítimas inocentes dos adultos”, Munsinger. já em 1 971, mostrou como diferentes práticas disciplinares adotadas pelos pais levam a diferentes tipos de personalidade emergente nas crianças.
Baseado também no trabalho de Schaefer, considera como dimensões fundamentais destas práticas as dicotomias:
Amor (mãe afetiva, aprovadora, compreensiva, que aceita a criança, usa exemplos e explicações na disciplina, dá respostas positivas aos comportamentos de dependência) x hostilidade (mãe rejeitadora, fria, desaprovadora, autocentralizada, usa punição física e reforço negativo) e controle (muitas restrições, rigidez) x autonomia (promoção de independência).
Segundo esse autor, várias combinações dessas categorias resultam em traços específicos de personalidade na criança. Assim, quando os pais usam .mor e controle “produzem” uma criança submissa, dependente, polida, obediente, que é vista e não ouvida e que tem pouca criatividade. Quando usam hostilidade e controle levam ao desenvolvimento de um comportamento neurótico, dificuldade de adaptação social, auto-agressão, baixo nível de heteroagressividade, pobre autoconceito e sentimentos de culpa. Os do grupo autonomia- amor tendem a “produzir a criança ideal”: boa adaptação social, criativa, agressividade adequada, independente, simpática.
Já uma atitude de hostilidade-autonomia desenvolve comportamento delinqüente: alta agressividade, pouco respeito pela autoridade, ausência de controles internos, ausência de culpa.

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Na área do desenvolvimento cognitivo, Tulkin e Kagan (1972) consideram que, embora os psicólogos estejam levando a sério a idéia de que as experiências da infância podem influenciar o desenvolvimento, as relações funcionais específicas entre as experiências iniciais e os estilos cognitivos permanecem desconhecidas.


Examinando as experiências específicas de crianças pertencentes a diferentes classes sociais, verificaram que mães de classe média se envolvem mais sem interações verbais com seus filhos e provêm maior variedade de estimulação. Verificaram ainda que as diferenças c1e comportamento materno encontradas situam-se mais na área de i:terações verbais e estimulação cognitiva, havendo diferenças mímas nos aspectos afetivos da interação.
Também Campbell (1973) refere-se a vários estudos recentes que focalizaram as relações entre tipos de interação pais-crianças e características cognitivas particulares da criança. De forma geral, os resultados indicam que intromissão dos pais impede o desenvolvimento da habilidade espacial (Bing, 1963), do controle da atenção (Bee, 1967) e de um estilo cognitivo independente do campo (Dyk e Witkin, 1965).
Quando estudou I-M-F numa situação de resolução de problema, Bing descobriu que mães de crianças com alto nível de capacidade verbal eram mais diretivas do que mães de crianças cujo nível de habilidade espacial era mais elevado.
Usando procedimento similar, Bee verificou que pais de crianças dispersivas ofereciam mais direção e estruturação do que pais de crianças não dispersivas.
Dik e Witkin verificaram que crianças menos diferenciadas em vários aspectos do funcionamento cognitivo, quais sejam controle de impulso e capacidade para experiências articuladas, são filhos de mães menos diferenciadas nestes mesmos aspectos.
Em suma, esse modelo monádico, que Bel! (1964) chama de unidirecional, dá ênfase à maneira como os adultos agem sobre a criança, não considerando a possibilidade de que a influência seja recíproca. Nesse trabalho, Bel! critica as teorias que enfatizam apenas
o papel dos pais no processo de socialização da criança, pois este tipo de abordagem unidirecionai de efeitos corre o risco de não reconhecer diferenças no comportamento dos pais devidas a cracterísticas congênitas da criança (diferenças de comportamento ntre grupos de pais foram atribuídas aos efeitos exercidos sobre eles por uma limitação na habilidade de lidar com o ambiente associada com desordens congênitas da criança afetada).
2 Tradução do termo “intr’siveness’, que significa intromissão, no sentido de interferências inoportunas e excessivas.

Essas idéias dão início a uma série de pesquisas que levam Bel!. em 1968, já com base em investigação experimental, a propor um novo tipo de modelo na área de I-M-F: o modelo bidirecional ou diádico (como chama A!ves, 1973), mostrando a necessidade de se considerar tanto o efeito dos pais sobre os filhos como a influência do comportamento dos filhos sobre os pais.


São exemplos de estudos desta natureza que a seguir serão revistos.
A partir da observação de um grupo de pares mães-criança, N4oss (1967) faz uma discussão teórica a respeito de quais os fatores determinantes da I-M-F.
Do ponto de vista materno, o estado psicológico existente antes do nascimento poderia determinar, em parte, a forma como a mãe irá responder à estimulação vinda da criança, como também os padrões de estimulação e resposta que ela irá oferecer à criança. Por outro lado, a criança tenderia a agir, atuar, de forma a aumentar ou diminuir o grau de estimulação que lhe está sendo oferecido pelo ambiente, especialmente pela mãe, que, para ela, é geralmente o elemento mais importante desse ambiente. Assim, a criança seria uma fonte de estímulos para a mãe, ao mesmo tempo que esta é uma fonte de estímulos para a criança.
Foram identificados vários “estados” da criança (sono, irritabilidade, susceptibilidade a emitir respostas) como importantes determinantes do comportamento materno no início da vida do bebê. Daí sua conclusão de que, “inicialmente, o comportamento materno tende a estar sob o controle dos estímulos e condições reforçadoras que partem do bebê” (p. 29).
Para fundamentar sua argumentação Moss cita os trabalhos de Levy (1958), que demonstrou que o comportamento materno varia em função do estado ou do nível de atividade do bebê, de Wolf (1959), de Brown (1964) e de Escalona (1962), que descreveram variações qualitativas no estado do bebê ou em seu nível de atividade, enquanto Bridger (1965) mostrou que os padrões de resposta do bebê são almente influenciados pelo seu estado.
A importância desses estados (choro, choramingo, acordado ativo, acordado passivo e sono) na determinação do comportamento materno foi também reconhecida por Moss (1967). Segundo esse autor, esses comportamentos atuam na modelagem da própria experiência do bebê, uma vez que se estabelece um sistema de interação de estímulos entre a mãe e a criança que determina o tipo de experiência a que a mãe irá mais tarde submeter a criança.
:i O estudo de Bel! ( l96) será apresentado mais adiante neste trabalho.

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“O fato de os bebês serem capazes, através de seus comportamentos, de modelar o tratamento materno, é um ponto que cada vez mais vem ganhando reconhecimento, O choro é um sinal para a mãe responder, e a variação deste comportamento entre as crianças pode levar a diferentes experiências com a mãe” (p. 23).


A maturação da criança, tornando-a, já aos três meses, um indivíduo mais interessante e propenso a responder, é também determinante do comportamento materno, pois este variou em função da idade da criança, isto é, as mães se comportavam de formas diferentes quando seus bebês tinham três semanas ou três meses de idade. Foram em geral baixas as correlações entre o comportamento materno nesses dois momentos evolutivos, exceto aquelas referentes às respostas do tipo afetivo e social que se mostraram consistentes.
O sexo da criança pode levar também a comportamentos diferenciais da mãe. Verificou-se, por exemplo (Moss, 1967, pp. 22-23), que os bebês masculinos dormem menos e choram mais do que os do sexo feminino e que há grande variação individual quanto às horas de sono. Isto tem implicações para a quantidade de experiência e contato que mantêm com a mãe.
Além disso, as mães responderam menos aos bebês mais irritáveis, o que levou Moss a especular que as mães foram negativameiite reforçadas ao se relacionarem com eles. As correlações obtidas mostraram que as mães se relacionaram cada vez menos com os bebês masculinos à medida que cresciam. As mães destes meninos podem ter aprendido que não estavam sendo bem-sucedidas ao aquietá-los e acalmá-los, passando então a ignorar seus comportamentos de choro e choramingo.
Outros comportamentos, como o de imitar vocalizações, foram mais freqüentes com as meninas, sendo, portanto, possível também um reforçamento diferencial neste sentido.
Dessas observações, Moss (1967) conclui que “à medida que a criança se torna mais velha, a mãe que se comportava contingente- mente em direção aos seus sinais, gradualmente adquire valor de reforço e aumenta sua eficácia corno reguladora do comportamento da criança”. “O ponto em que o controle da criança sobre o comportamento materno diminui e o valor de reforço da mãe emerge podem representar a primeira manifestação da socialização”. “Assim. inicialmente a mãe é modelada pela criança, e isso, mais tarde, facilita a modelagem da criança pela mãe” (p. 30).
Portanto, por suas características particulares, a criança contribui n,a determinação do padrão de interação que irá se estabelecer.
Posição semelhante à de Moss encontramos em artigo mais recente de BeIl (1974), que considera suas idéias especu’ativas e
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como um convite à comprovação experimental. Assim, diz ele: “Parece uma proposição razoável que a gravidez, a aparência do bebê e o seu comportamento interajam com o papel da mãe de criar o subsistema M-C da família. Pode-se acrescentar que essas características da criança, às vezes, apenas interagem com a existência da mãe como um adulto. Ela pode estar simplesmente tentando manter sua vida, sem nenhuma intenção de socializar ninguém” (p. 4).


Beli reconhece a importância de alguns estímulos fornecidos pelo bebê como pistas para atuação da mãe, embora afirme que os seus efeitos não devem ser superestimados. Por exemplo, quando responde ao choro do bebê, a mãe não atua apenas em função deste estímulo, mas leva em consideração as condições da última amamentação (horário, quantidade ingerida, etc.) Os pais atuam, então, em função de características situacionais e dos estímulos fornecidos pelo bebê, porém, em alguns casos, os estímulos são tão excessivos, que os limites dos pais são ultrapassados, modificando o sistema de cuidados dispensados ao bebê, o que pode ser verificado em relação ao choro.
Robson e Moss (1970), citados por BelI, relatam mudanças nos sentimentos subjetivos das mães para com seus bebês nos primeiros três meses após o nascimento, em função do excesso de choro, manha e outras exigências de cuidados fisiológicos.
“Durante o primeiro mês de vida”, diz BelI, “a mãe está em essência à mercê do choro de seu filho e, em alguns casos, no terceiro mês, o choro está no que parece ser o limite de tolerância de muitos pais. . Algumas crianças excedem estes limites, os esforços da mãe são inadequados, a criança continua a responder com choro” (p. 5).
Este tipo de comportamento da criança poderia, em alguns casos extremos, levar a punições excessivas, gerando um tipo de comportamento agressivo dos pais. Esta conclusão de Beil baseia-se nos estudos de Gil (1970), sobre crianças maltratadas pelos pais, pois algumas crianças colocadas em lares adotivos eram maltratadas por diferentes mães adotivas, enquanto outras nunca haviam sido maltratadas nestes mesmos lares. Os maus tratos, segundo Gil, seriam efeito tanto de características dos pais como das crianças, e das situações de srress emocional sob as quais viviam.
Estes fatos colocam questões sobre as qualidades de estímulo da criança e levaram Beil a pensar como os diferentes tipos de comportamento emergente na criança eliciam diferentes tipos de reação dos pais (por exemplo, a cólica maximiza as interações de cuidados e minimiza as interações sociais) e a concluir que “o sistema pais- criança é uma relação recíproca que envolve dois OU mais indivíduos

o

que diferem amplamente em maturidade, porém não em competência, no que diz respeito a afetar um ao outro” (p. 15).


Já Sander (1965), através de um estudo longitudinal de 30 pares M-F, cujo objetivo era descrever e analisar os padrões de interação que se estabelecem entre esses pares no início da vida da criança — portanto descrever, sistematicamente, a ontogênese das relações interpessoais da criança — constatou que, após um certo tempo de observação, o experimentador podia prever o que aconteceria em seguida, em termos de interação dos pares, supondo, pois, uma regularidade, uma série de comportamentos comuns aos vários pares, apesar das diferenças individuais, também existentes. Cada nível mais avançado de atividade da criança demandava um novo ajustamento da I-M-F, um novo equilíbrio precisava ser alcançado. Se um estado não alcançava um equilíbrio satisfatório, havia maiores dificuldades em alcançar o seguinte, o que mostra a importância da sincronia ou assincronia no desenvolvimento de padrões cada vez mais complexos de interação.
Outros autores preocuparam-se com o mesmo problema, embora o tivessem pesquisado apenas em relação a um ou alguns comportamentos específicos, principalmente o choro e o sorriso.
É o caso de Rheingold (1969), Moss (1967), Laufer e Denhoff (1957), que verificaram ser o choro do nené um estímulo bastante importante na determinação do comportamento materno, instruindo a mãe, de certa forma, sobre como deve agir para fazer cessar aquele comportamento. Da mesma forma que o choro, o sorriso é considerado como estímulo para a mãe, com a diferença de que o primeiro seria um estímulo aversivo e o segundo, reforçador.
Para Rheingold (1969), a criança, “por um lado, recebe dos pais todo o cuidado mas, por outro, ela ensina aos pais como dispensar esse cuidado através dos sinais que emite, como choro e sorriso” (p. 785).
Etzel e Gewirtz (1967) e Gewirtz e Gewirtz (1965) citam
estudos nos quais a emissão do sorriso, pela criança, aumentou a
probabilidade de permanência da mãe ou da substituta junto à
criança.
Brown e colaboradores (1975) partem do fato de que os primeiros encontros entre a mãe e o recém-nascido freqüentemente determinam a natureza de suas relações subseqüentes, porque as mães parecem particularmente sensíveis a seus bebês nos dias seguintes ao parto e seria nessa época que os padrões individuais de interação se estabeleceriam e passariam a ser relativamente duradouros.
A partir de observações de interações de um grupo de mães negras com seus respectivos bebês recém-nascidos, durante a ama

mentação, Brown (1975) concluiu que as mães agiam em funçào do sexo da criança (meninos eram mais beijados e acariciados), da posição ordinal (gastavam mais tempo na alimentação do primeiro filho), do estado de maior ou menor atividade (crianças cujas mães ingeriram mais drogas por ocasião do parto eram mais passivas, geralmente, e as mães gastavam mais tempo segurando-as, amamentando-as e estimulando-as) e do peso da criança (vocalizavam mais para as crianças mais pesadas).


Pesquisando o choro do bebê como uma forma de provocar aproximação materna, Ainsworth e Beli (1972) consideram que o choro aversivo para o adulto, causa desprazer ou alarme e elicia intervenção no sentido de interrompê-lo e de desencorajá-lo.
Estudando 26 pares M-C, em visitas domiciliares, verificaram que, no primeiro trimestre de vida, o choro é um sinal para promover aproximação e contato com a mãe, ativando seu comportamento.. Responder ao choro do bebê poderia reforçar este comportamento e fazer com que se transforme de respondente (no início) em operante. Bebês pequenos tendem a chorar mais freqüentemente quando longe do contato físico, visual ou auditivo da mãe, e tendem a se acalmar mais efetivamente por contato físico próximo. As mães tendem a usar mais o pegar no colo do que qualquer outra coisa, e por isso mãe e filho estão adaptados.
No quarto trimestre, o choro ocorreu com maior freqüência na presença da mãe, portanto, era dirigido para um objetivo. Assim, o choro é o primeiro sinal de um repertório de promover proximidade. O comportamento do bebê seria geneticamente programado para o protótipo de uma mãe propensa a responder. A resposta materna tende a fazer cessar o choro.
M-F formam uma díade de interação — quanto mais a mãe responde, menos o bebê chora e mais facilmente eles desenvolvem modos variados de comunicação. Mas, nem todas as mães, atualmente, respondem com muita freqüência às solicitações de seus bebês, e muitas fazem isso deliberadamente, pela crença de que farão um bebê exigente e dependente. Os dados desse estudo de Ainsworth e Beil (1972) provam o contrário, ou seja, que permanecem mais chorões os bebês que são de mães que tendem a responder menos, que ignoram mais o choro ou demoram mais para responder. Os bebês que receberam maior afeto nos primeiros meses, tornaram-se mais independentes e os que nesse mesmo período tiveram menor contato tornaram-se ambivalentes, isto é, não responderam positivamente quando levados ao colo e protestaram quando colocados no chão. As crianças que não choravam quando a mãe saía de casa, tenderam a ter mães mais dispostas a responder aos estímulos da criança do que as crianças mais choronas e manhosas; a) é re 52

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jeitada a crença de que responder ao bebé reforça o comportamento de choro; b) o tipo de relacionamento M-F nos primeiros meses pode determinar o tipo de interação subseqüente; c) mães que respondem ao choro podem dar segurança ao bebê para procurar utilizar outros modos de comunicação e assim ocorrerá uma relação inversa entre choro e competência.
Através de uma revisão da literatura comparativa, Harper (1971) mostra como filhotes de mamíferos fornecem estímulos que afetam o comportamento de seus pais e aponta evidências que sugerem a utilidade de adotar um ponto de vista semelhante na análise comportamental das relações pais-prole no homem, O autor considera que os estímulos provenientes dos filhotes funcionam tanto para aumentar (facilitar) como para diminuir (inibir) a probabilidade de qualquer comportamento dos pais, desde respostas específicas até padrões altamente complexos de ação. Assim, o choro interrompe uma refeição, e a rapidez e a eficiência do sugar determinam a duração da refeição; o autor cita exemplos semelhantes com bebês humanos.
Por outro lado, o desenvolvímento de um tipo de relacionamento pais-prole pode ser considerado um tipo de sensibilização. Wasz-Hockert (1964) verificou que as mães podem distinguir o choro indicativo de desconforto daquele indicativo de fome do bebê, e assim orientar-se com respeito às necessidades fisiológicas da criança. Por sua vez, Formby (1967) mostrou que a maioria das mães é capaz de distinguir o choro de seu próprio filho do de outras crianças poucos dias após o nascimento, o que leva à adoção de atitudes específicas.
Alguns outros fenômenos comprovados em animais ainda não o foram em seres humanos. Existe apenas urna literatura inicial, da qual se pode esperar que, num estágio mais avançado, venha a comprovar certos tipos de comportamentos emitidos por bebês humanos como responsáveis pela eliciação de comportamento dos pais.
Blurton Jones (1972) chama a atenção para a dificuldade de transpor diretamente para a Psicologia do Desenvolvimento os métodos tradicionais de estudo da etologia, visto derivarem estes mais das ciências biológicas e físicas. Enquanto que um estudo, uma observação relatada por um etologista pode ser repetida por outros para efeito de comprovação, o mesmo nem sempre ocorre no caso de crianças. Neste, segundo ele, até recentemente os comportamentos não eram descritos em termos do observado, mas de significados, ou ainda em termos que tinham um “status” também vago. Nos primeiros estudos sobre freqüência de agressão, por exemplo, os termos não eram bem definidos, podendo um mesmo comportamento ser classificado ora de agressão, ora de briga.

Esse autor sugere que os aspectos do método da etologia mais úteis aos pesquísadores da Psicologia do Desenvolvimento são aqueles referentes ao estudo do comportamento e das interações entre os indivíduos. Pesquisando interações entre animais, os etologistas fazem distinção entre causa e efeitos do comportamento, isto é, procuram tornar claro através da história do desenvolvimento o que leva o animal a apresentar um certo comportamento e qual o efeito que este comportamento exerce sobre outro animal.


Assim, na linha de desenvolvimento humano, Blurton Jones relata alguns estudos que procuram mostrar os efeitos da criança sobre a mãe e da mãe sobre a criança. Dada a complexidade do processo, admite ele que não se pode atribuir a responsabilidade da ocorrência de um comportamento a um só ou a poucos fatores, mas sim a uma multiplicidade destes, do que decorre a necessidade de um esforço conjunto, de várias ciências, desde a farmacologia até a sociologia. Só assim será possível melhor entender todos os fatores que agem e interagem no processo, ou pelo menos boa parte deles, evitando o perigo de explicações simplistas para um fenômeno complexo.
No mesmo sentido, propõe a utilização de categorias que definam comportamentos moleculares de forma suficientemente precisa e clara, para evitar o perigo de diferentes interpretações por diferentes experimentadores. Termos amplos como agressão, ou ligação afetiva, ou ansiedade ou ainda socialização, por incluírem diferentes formas de manifestação de comportamento, pouco esclarecem sobre suas relações com outros fatores ambientais. Para que se possa chegar a uma definição operacional destes conceitos, torna-se necessário utilizar todos os métodos e técnicas disponíveis, experimentais (controle de situação) ou não experimentais (estatísticos ou correlacionais).
Richards e Bernal (1972), num estudo de crianças durante o primeiro ano de vida, se propuseram, entre outros, o objetivo de verificar a influência recíproca de mãe e filho e oferecer medidas relativamente independentes dos elementos que cada participante traz para a situação.
Trabalharam com um grupo de mães de primeiro e segundo filho, da área urbana de Cambridge, de classe média, utilizando técnica de observação em alguns dias fixos para todos: o segundo, terceiro, oitavo e décimo dias de vida, que foram considerados como uma amostra adequada do período pós-parto, capaz de permitir uma avaliação das mudanças de comportamento que poderiam ocorrer durante este período.
Embora o objetivo principal tenha sido o de avaliar o desenvolvimento nas primeiras 60 semanas, de um tipo particular de bebê em interação com um tipo também particular de mãe, a obtenção

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dessas medidas foi considerada uma tarefa difícil. De um lado, porque em torno do oitavo dia de vida o comportamento da criança já foi moldado por suas interações prévias com a mãe, de outro lado, a mãe, mesmo ausente, é influenciada pelo bebê. Por isso, esses autores entendem que o único comportamento materno que nos permite avaliar sua disposição para responder e seu papel na interação é seu comportamento durante a própria interação.


Cada observação abrangia o tempo desde quando o bebê era carregado para ser amamentado até seu retorno ao berço, incluindo portanto a amamentação e a troca de fraldas do bebê. Em cada visita, o observador deveria responder algumas questões que descrevessem suas impressões a respeito do bebê e das atitudes da mãe em relação a ele. As categorias de comportamento emergiram após uma fase preliminar, que consistiu na investigação de 60 pares M-C durante 200 horas.
Os resultados indicaram que bebês alimentados ao seio ou à mamadeira podem diferir desde o nascimento (assim como suas mães) e ter com elas uma interação diferente nos primeiros dez dias de vida. Um outro fator em relação ao qual ocorreram diferenças no comportamento dos bebês foi a administração ou não de uma droga (Pethilorfan) às mães durante o parto. A importância desta constatação é que, se os efeitos diretos da droga continuarem, poderão advir conseqüências evolutivas para o bebê, pois admitem os autores que o estilo da interação é determinado nesta fase inicial.
Blurton Jones e Leach (1972) estudaram o efeito da separação
e do reencontro nas mães e nas crianças, quando estas eram deixadas
por algumas horas no “play-ground”. Outro objetivo era verificar
por que algumas crianças choravam e outras não, e o efeito do
comportamento da criança na mãe, em um grupo de 35 sujeitos de
21 a 60 meses.
Verificaram que as crianças que choravam enquanto suas mães iam se separando delas eram filhas de mães que: aproximavam-se mais freqüentemente da criança durante a separação; saíam mais freqüentemente sem que a criança percebesse; sorriam menos freqüentemente durante a separação, e no reencontro essas mães tocavam nas crianças com mais freqüência. O comportamento materno durante o reencontro parece ser altamente dependente do comportamento da criança, tanto no caso das que choravam na separação, como no das que não choravam; como exemplo, o levantar os braços pela
4 O trabalho publicado refere-se aos resultados preliminares de um grupo de
38 mães em interação com seus filhos recém-nascidos nos primeiros dez dias
de vida. Além disso, restringe-se à análise do comportamento das mães e de
seus bebês durante a amamentação natural ou artificial, bem como da influência
da medicação obstétrica.

criança esteve altamente associado com o comportamento da mãe em tocar a criança.


Já em relação à idade, verificaram que, no caso das que não choravam, a disposição da mãe para responder não variava com a idade da criança; e, no caso das que choravam após os dois anos e meio, obtinham menos respostas de suas mães e sorriam menos para elas.
Utilizando observação da interação social de crianças pré-escolares entre si e com as mães (10 crianças normais e 3 com problemas), Leach (1972) verificou que crianças com problemas (dificuldade em separar-se da mãe) mostravam interações reduzidas e insatisfatórias, tanto com os companheiros como com as mães. Além disso, iniciavam menos comportamentos e respondiam menos a outras crianças do que as normais, obtinham menos sucesso para eliciar respostas em outras crianças e também respondiam menos às suas mães do que as normais. Por sua vez, as mães dessas crianças pareciam evitar interações com seus filhos.
Desta forma, pode-se concluir, como o fez Harper (1971), que, dado o fato de a criança afetar o comportamento de seus pais de modos identificáveis e de que o estímulo vindo da criança pode ser analisado em termos mensuráveis, a relação pais-filhos, em seres humanos, pode ser vista e estudada como um processo de interação de estímulos.
A partir destas colocações da etologia, poder-se-ia pensar que as crianças são geneticamente programadas para eliciar estimulação em seus pais, da mesma forma que os pais, e principalmente a mãe, seriam geneticamente programados para oferecer proteção, que garante a sobrevivência da criança. A par desta influência, a nível mais biológico, ter-se-ia influência psicológica, responsável pelas diferenças individuais de reações e de seqüências de interação, bem como a influência cultural, responsável por uma certa uniformização de comportamento num determinado grupo de indivíduos.
Nessa mesma linha de considerações, Stayton, Hogan e Ainsworth (1971), ao discutirem o antagonismo criança x sociedade, argumentam que ele não deveria existir, porque as crianças teriam uma predisposição inata, natural, para adquirir certos tipos de comportamentos sociais, isto é, seriam geneticamente viesadas em direção a certos comportamentos sociais, ou ainda, seriam pré-adaptadas a um ambiente social semelhante, nos aspectos essenciais, ao ambiente no qual a própria espécie se desenvolveu.
Esses autores levantam a hipótese seguinte: se uma mãe aceita, Coopera e é sensível aos sinais da criança, esta tende a obedecer seus comandos e proibições verbais, mais consistentemente do que uma criança cuja mãe é rejeitadora e insensível. Além disso, a

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tendência da criança a aquiescer seria independente das táticas específicas de socialização ou dos procedimentos disciplinares. Em outras palavras, seria uma disposição geneticamente programada, que não requer treino.


Testaram a hipótese através da observação de 25 pares M-C, de cor branca e de classe média, durante o primeiro ano de vida. Chegaram à conclusão de que uma disposição para obediência emerge num ambiente social que responde aos comportamentos da própria criança, sem treino ou disciplina extensa ou outras tentativas de modelar o curso de desenvolvimento da criança. Isso confirmaria a hipótese de uma predisposição da criança para ser social e estar pronta para obedecer às pessoas que são mais significativas em seu ambiente social, como propõe o modelo etológico-evolutivo de desenvolvimento social inicial, sugerido por Bowlby (1958, 1969) e Ainsworth (1967, 1969). De acordo com esse modelo, a criança tem um repertório de comportamento característico da espécie que é mais prontamente ativado e/ou terminado pelas condições de estímulo oferecidas pelos adultos.
Portanto, a obediência não seria emergente a partir de reforço
ou punição, mas sim de uma programação biológica que levaria à
ligação afetiva: o próprio laço afetivo que se estabelece entre a
criança e seus pais, particularmente a mãe, leva à obediência.
Assim, a partir da observação de 32 mães que tinham dois filhos, Moss e Jacobs (1976), concluíram que: as mães gastam menos tempo em atividade social, afetiva e de cuidados com o segundo filho do que com o primeiro (não foram constatadas diferenças significantes especificamente para as que se referiam a atividades de alimentação e de comportamentos infantis para 21 das 41 variáveis consideradas); o decréscimo no tratamento maternal em relação ao segundo filho era maior para meninas quando o primeiro filho também era menina, e em segundo lugar para menina cujo irmão mais velho era um menino; o comportamento materno decrescia menos em relação ao segundo filho, se este fosse do sexo masculino do que se fosse do sexo feminino; o segundo filho recebia menos atenção do que o primeiro, se fossem ambos meninos, mas o decréscimo era muito menor do que no caso em que ambos os filhos eram meninas; e, finalmente, quase não ocorria decréscimo na atenção materna em relação ao menino cujo irmão mais velho era uma menina. O estilo de comportamento materno em algumas variáveis — atividades de alimentação do bebê e comportamentos de criação — foi basicamente consistente para o primeiro e o segundo filhos (ex.: imitar vocalizações, beijar e cuidados).
Moss e Iacobs oferecem algumas possibilidades de explicação para estas onstatações: a idade da mãe, mais velha por ocasião

do nascimento do segundo filho; exigências do primeiro filho quando a mãe está cuidando do segundo — portanto, o fato de ter dois filhos diminui o tempo disponível da mãe para cada um; a novidade e a excitação de ter um bebê diminuíram com o nascimento do segundo filho; a experiência com o primeiro filho aumentou a eficiência da mãe em atender às necessidades do bebê; o sexo diferente mantém a novidade; lidar com menino pode ter sido uma novidade tão grande que mantém o comportamento da mãe em relação ao segundo filho independentemente do sexo do filho mais velho; valorização cultural do sexo masculino; e exigências maiores por parte dos bebês masculinos.


Resultados anteriores obtidos por Hilton (1967) e Rothbart (1971) sugerem que a diferença de tratamento do primeiro filho em relação aos demais deve-se ao sexo da criança. Assim, Hilton (1967) verificou que os tipos de dependência dos primogênitos são diferentes conforme o sexo da criança, ou seja, que os pais podem tolerar esse comportamento em diferentes áreas conforme o sexo do filho.
Beckwith (1972) estudou diferenças nos padrões de comportamento social estabelecidos entre a mãe e seu bebê, do bebê em relação a ela e entre o bebê e estranhos em 24 pares de mães e seus filhos adotivos, metade dos quais era do sexo masculino e a outra metade do sexo feminino.
Dada a natureza da interação observada, Beckwith considerou difícil atribuir o início da interação a um dos membros do par. No entanto, alguns resultados podem ser destacados: quanto mais a mãe ignorava os sinais do bebê ou censurava seu comportamento. menos o bebê parecia orientado para ela e menos mantinha contatos com ela; se a mãe não permitia expressão de impulsos do bebê e exercia controle maior sobre eles, mais a criança ignorava a mãe; o choro do bebê era determinante do comportamento materno no sentido de fazer com que a mãe respondesse a ele ou o ignorasse; tanto o alto grau de choro como a maior freqüência com que a mãe o ignora estão associados com a diminuição do brinquedo social (com a mãe); o choro, nos primeiros meses, estimula a resposta materna, mas entre os oito e onze meses a mãe passa a ignorá-lo; portanto, o comportamento materno varia em função da idade da criança; a tendência da mãe em dizer não” a seu bebê estava associada, por um lado, com a diminuição da tendência do bebê a responder a ela, e, por outro, com maior quantidade de choro e maior tendência a responder a estranhos.
Já Carter e Bow (1976) manipularam a emissão de vocalizações de desagrado em bebês de ambos os sexos cujas idades variavam de nove meses e meio a onze meses. Um grupo foi deixado

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só num quarto com brinquedos, enquanto o outro permanecia também só, num quarto sem brinquedos, durante um breve período de separação (5 minutos). Nos dois grupos as mães permaneciam numa sala contígua provida de um monitor de televisão, por onde observavam o comportamento de seus filhos. De acordo com as instruções recebidas, as mães podiam interromper a separação a qualquer momento.


Os autores verificaram que os brinquedos adiavam a emissão de vocalizações de desagrado, isto é, os bebês deixados sem brinquedos emitiam estas manifestações em menor tempo do que os do grupo com brinquedos. Quanto às mães, constataram que a vigilância era função da presença de um brinquedo e da interação brinquedo-sexo (as mães dos meninos observaram-nos um pouco mais do que as mães das meninas, sorriram mais na situação de brinquedo presente) e que a ausência de brinquedo provocou mais rapidamente o término da separação, porém a diferença não foi significante.
Em nosso meio, podemos citar três autores que trabalharam a partir do modelo de influência recíproca mãe-criança.
Alves (1973) estudou, através da observação de pares mães- crianças, comportamentos de bebês considerados importantes fontes estimuladoras para a mãe, entre os quais choro, sorriso, verbalização e olhar mútuo.
Verificou que cada par mãe-bebê manteve um padrão comportamental e de interação constante, concluindo que mãe e criança formam um sistema e que nesse sistema o comportamento de cada elemento é freqüentemente estímulo para o comportamento do outro.
Também a partir do modelo bidirecional de influências recíprocas, Marturano (1972), focalizou uma dimensão de I-M-F, qual seja, as contingênciaS significativas entre comportamentos verbais dos membros da chade no curso da conversação.
Sollitto (1972) propôs-se observar e estudar a l-M-F, utilizando o modelo bidirecional de análise, em uma situação específica — ou seja, a do banho do bebê.
Em resumo, a literatura mostra que o comportamento da criança também tende a condicionar o comportamento da mãe, ou seja, que o comportamento do filho tem propriedades de estimular o comportamento materno. Mostra que a interação M-C é uma via de mão dupla, no sentido de que as influências dos agentes de interação são recíprocas e que esse processo de interação não é unilateral.
A literatura registra também alguns trabalhos em que tipos particulares de crianças e a interação com suas mães foram o objetivo do estudo. Para exemplificar, pode-se inicialmente apresentar o estudo realizado por Bel! (1968). Segundo este autor, existem
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fatores congênitos que contribuem para duas classes de comportamento da criança e que exercem influências diferentes nos pais:


fraco desenvolvimento sensório-motor e desordens de comportamento, entre as quais inclui a hiperatividade.
De acordo com Behl, os pais não têm técnicas fixas para socializar as crianças, mas sim “repertório de ações” que variam conforme o objetivo. A pressão cultural, de um lado, e a estimulação do objeto de aculturação, de outro, são as condições que ativam diferentes componentes desse repertório. Algumas características das crianças, como seu estado geral de dependência, servem de estímulos para conduzir a respostas na maioria dos pais. Outro efeito da criança sobre o comportamento dos pais revela-se na seleção que estes fazem de elementos do repertório de práticas para cuidar da criança.
Na teorização desse autor existem hierarquias de ações, e crianças diferentes ativam partes diferentes dessas hierarquias. As ações dos pais são de tal forma programadas por certas crianças que, num momento ou noutro, ou em seqüência, pode ser eliciada toda a hierarquia que é importante para uma certa classe de comportamento da criança. O comportamento dos pais, assim eliciado, pode ser reforçado ou não pela criança.
Segundo esse autor, ainda, há nos pais dois tipos de repertórios de comportamento que se prestam ao controle. Um deles, que Beil chama de “comportamento para controlar limite alto” , é aquele ao qual os pais recorrem para reduzir e redirigir comportamentos da criança que, segundo eles, ultrapassam os padrões de intensidade, freqüência e adequação para a idade da criança. Este tipo de atitude ds país ocorre em resposta a choro excessivo do bebê, ou comportamentos impulsivos, hiperativos ou assertivos da criança pequena.
O outro tipo de repertório é o que Bel! designou de “comportamento para controlar limite baixo” , através do qual os pais estimulariam comportamentos que considerassem estar abaixo dos padrões, e que seria estimulado pela letargia do bebê, hipoatividade, inibição excessiva, ou ausência de aptidões da criança pequena.
Quando os comportamentos dos pais são classificados sem que se tenha em conta a estimulação proveniente da criança, os do primeiro tipo podem ser erroneamente descritos como “punitivos” ou “restritivos” e os do segundo tipo como “exigentes” ou como pais que interferem em excesso.
Preocupada em verificar se o nível de atividade da criança poderia influir no tipo de prática de educação adotada pelos adultos,

Tradução proposta para a expressão “upper limit control behavior”.


Tradução proposta para a expressão lower limt control behavior’.

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Stevens-Long (1973) verificou que as crianças hiperativas recebiam disciplina mais severa, especialmente quando eram rotuladas como tal; quando não rotuladas, recebiam tratamento menos severo; as crianças hipoativas recebiam disciplina mais severa do que as crianças medianas, quanto ao nível de atividade; se o rótulo dado não condissesse com o comportamento efetivamente emitido pela criança, o efeito sobre a determinação das práticas adotadas era menor.
Por outro lado, os sentimentos manifestados pelos adultos em relação à criança também apresentaram correlação com a severidade das práticas. As crianças hiperativas, portanto, as que recebiam tratamento mais severo, também despertavam sentimentos negativos, eram consideradas más, agressivas e menos cativantes.
O estudo realizado por Campbell (1973), já citado anteriormente neste trabalho, representa, de um lado, uma tentativa de lidar com a direção dos efeitos da mãe sobre a criança e desta sobre aquela. Por outro lado, através dele, a autora procurou obter dados comparativos relativos aos padrões de I-M-F em tarefas cognitivas, usando grupos selecionados com base no estilo cognitivo da criança e no controle de impulso.
Para tanto, comparou padrões de I-M-F de três grupos de crianças — reflexivas, impulsivas e hiperativas — e concluiu que o grau de envolvimento da mãe na solução da tarefa foi determinado, em parte, pela habilidade da criança em completar a tarefa. Além disso, embora o grau de envolvimento materno fosse igual para os três grupos, o tipo foi diferente. Esse resultado corrobora o que foi obtido por Bee (1967), segundo o qual os pais de crianças distraídas e não distraídas diferem entre si mais quanto aos padrões de interação do que quanto à quantidade de interações.
No caso das crianças hiperativas (do estudo de Campbell), as mães forneciam mais ajuda física, mais encorajamento e sugestões de controle de impulso durante a tarefa difícil. Segundo a interpretação da autora, essas mães teriam aprendido a estruturar as tarefas como uma resposta à inabilidade de seu filho de focalizar a atenção, de controlar a impulsividade e de persistir. No entanto, ao contrário do estudo de Stevens-Long, essas mães não foram mais punitivas ou desaprovadoras na situação de interação. As crianças hiperativas interagiam mais e faziam mais comentários sobre seu próprio desempenho, o que sugere que a atividade verbal aumenta com a dificuldade da tarefa e com a dificuldade de atenção e persistência, que podem ser sinais para a mãe interferir e prover a ajuda necessária.
Para sua surpresa, a autora verificou que as mães das crianças reflexivas também deram mais ajuda física direta durante as tarefas difíceis e mais sugestões específicas durante a tarefa anagrama (considerada tarefa verbal difícil), do que as mães das crianças

impulsivas. Embora contrário ao que se poderia esperar, isto pode ser explicado em termos das expectativas dessas mães.


As mães das crianças impulsivas poderiam não estruturar as tarefas tanto quanto as mães dos outros dois grupos, porque elas poderiam ter expectativas mais baixas de realização e sentir que seus filhos poderiam satisfazê-las. Por outro lado, as mães das crianças reflexivas tendem a intervir quando observam que seus filhos precisam de ajuda, porque estão pressionando para um grau mais alto de realização.
Essas interpretações baseiam-se em dados de entrevista, onde as mães das crianças impulsivas referiram expectativas mais baixas para realização futura do que as mães dos dois outros grupos. Ë possível também que as crianças reflexivas tenham aprendido a pensar antes de responder, justamente porque suas mães interferiram em momentos cruciais e estruturaram as tarefas apropriadamente, enquanto que as mães das crianças impulsivas falharam na interferência, levando-as a adotar uma abordagem de tentativa-e-erro. Por outro lado, diferenças nas expectativas das mães podem refletir estilos cognitivos diferentes. As mães das crianças impulsivas podem ter expectativas mais baixas porque seus filhos tendem a uma realização inferior. Nesta questão, conclui Campbell, a direção dos efeitos está longe de ser identificada.
Ocorreu também que as crianças hiperativas geralmente eram de um grupo sócio-econômico um pouco mais alto, e assim as diferenças de comportamento das mães das crianças hiperativas e impulsivas poderiam refletir diferenças devidas à classe social quanto à manipulação do comportamento impulsivo.
Em trabalho posterior, Campbell (1975) propôs-se a comparar um grupo de 13 pares M-C (normais) com um grupo de 13 pares M-C (crianças hiperativas) e um grupo também de 13 pares M-C (crianças com dificuldades de aprendizagem). A idade média das crianças era de aproximadamente oito anos.
Em face dos resultados do estudo anterior, esperava-se que as crianças hiperativas eliciassem mais “feedback” e que houvesse mais estruturação da atividade por parte de suas mães do que nos outros dois grupos. De fato, as mães das crianças hiperativas deram mais sugestões não específicas, mais encorajamento, mais sugestões sobre controle de comportamento e mais desaprovação do que as dos outros grupos. Assim, elas estavam ao mesmo tempo respondendo na situação de interação, de forma a estruturar a tarefa e otimizar o desempenho, e respondendo ao estilo cognitivo de seus filhos. As crianças hiperativas eliciaram e mantiveram um alto grau de interação, por requisitar mais “feedback” e fazer mais comentários.

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Patterson, Jones, Whither e Wright (1965) sugerem que, sendo bastante aversivo para o adulto o alto nível de atividade da criança, aquele usará uma série de procedimentos (especialmente a punição) para moldar o comportamento da criança a um nível mais aceitável. A criança que opera num alto nível de atividade pode ser punida mesmo quando se comporta de forma socialmente aceitável, por exemplo, amigavelmente.


Sugerem ainda esses autores que o grau elevado de punição dado à criança hiperativa torna mais lento o processo de desenvolvimento de comportamentos socialmente desejáveis. Propõem então que algumas respostas específicas da criança sejam condicionadas através do uso de reforço e punição oferecidos por pais, professores e colegas, de forma a se conseguir um controle do comportamento hiperativo e um aumento do comportamento de concentrar a atenção durante as aulas.
Desta multiplicidade de abordagens e de possibilidades de investigação experimental, ou mesmo de interpretação teórica, decidiu-se optar pelo modelo bidirecional de influências recíprocas que, embora ainda recente como proposta para se entender o completo processo de I-M-C, parece bastante promissor e menos simplista do que o modelo monádico de interpretação.
Esse modelo, chamado bidirecional, parece, sem dúvida, representar um progresso em relação à forma anterior de se apresentar os dados. Isto é, de que a personalidade da mãe exerce influência marcante na da criança, sem que se considere a hipótese contrária.
Não se pode deixar de pensar, entretanto, que fatores externos à dinâmica específica estabelecida entre os membros da dupla M-C possam interferir e mesmo dirigir o tipo de relacionamento.
Isso porque, conforme sugestões de Blurton Jones (1972), é apenas a partir de uma abordagem mais ampla, que leve em consideração outras variáveis além das especificamente psicológicas, que se poderá chegar à compreensão do processo do desenvolvimento humano.
Entre estas outras variáveis uma delas é o nível sócio-econômico- educacional (NSEE) a que o sujeito pertence, que como demonstra a literatura pode determinar as reações e atitudes no desempenho do papel de mãe.
Como já foi visto, parte da literatura consultada, toda ela experimental e bem fundamentada, leva a esperar uma incisiva influência da criança na determinação de comportamentos maternos. Ou, melhor dizendo, procura explicar o processo de I-M-C em termos dinâmicos, de inter-relação de estímulos de interdependência do comportamento de cada um dos participantes do processo.

E o caso, por exemplo, das investigações realizadas por:


Horowitz e Lovel (1960), com mães de sujeitos esquizofrênicos do sexo feminino; Mark (1953), Freeman e Graryson (1955), Gerard e Siegel (1950) com mães de esquizofrênicos masculinos; Madoff (1958), com mães de crianças esquizofrênicas, rétardadas e portadoras de lesão cerebral; Peterson e colaboradores (1959), com pais de crianças com problemas de personalidade e conduta. Outros autores, entretanto, atribuíram as diferenças de comportamento dos pais, ou apenas das mães, à interferência do nível sócio-econômico/ educacional. Essa possibilidade realmente merece ser examinada, porque os estudos (Moss, 1967; Bell, 1968, etc.) que propuseram a I-M-C como processo de interdependência, de regulação recíproca de comportamento de cada elemento da díade foram feitos com sujeitos oriundos da classe média.
Sabe-se que, em segmentos mais baixos da população, a mãe atua de forma mais autoritária, ignorando os estímulos provenientes da criança. E neste sentido, é pertinente relembrar as maiores dificuldades metodológicas encontradas por alguns pesquisadores ao trabalharem com mães de classe baixa. Entre estes, Zunich (1971) mostra a dificuldade em se obter um perfil real da I-M-C em uma amostra de sujeitos de classe baixa, vinte mães de meninos e vinte mães de meninas de três a cinco anos de idade. através de um procedimento de questionário e também observando diretamente a interação. Embora o autor acredite que esta forneça mais subsídios (mesmo que a reticência ou inibição das mães interfira nos resultados) do que aquela onde os julgamentos são feitos por indivíduos (os próprios sujeitos) menos qualificados do que os observadores treinados e objetivos.
Especificamente, entre as investigações que concluíram pela alta suscetibilidade das atitudes maternas do NSEE estão as realizadas por Garfield e Helper (1962) com mães de crianças de três níveis econômicos distintos; Zuckerman, Barrett e Braginel (1960), tanto com mães de crianças portadoras de vários tipos de perturbações de conduta, como com mães de crianças normais; Freedheim e Reichemberg-Hacket (1959), com adultos de dois níveis educacionais diferentes — profissionais especializados em reabilitação e auxiliares de enfermagem. Por sua vez, Zuckerman, Oltean e Monaskin (1958b), trabalhando com mães de crianças esquizofrênicas e de crianças normais de um mesmo nível sócio-econômico e educacional, não encontraram diferenças de atitudes entre elas.
Vimos ao longo desta discussão que o processo de Interação- Mãe-Criança é complexo e depende de inúmeras variáveis. A esse propósito nos parece pertinente lembrar que, já em 1959, Peterson e colaboradores chamaram a atenção para o fato de que o compor-

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tamento infantil é condicionado pela interação de múltiplos fatores e para a dificuldade conseqüente de defini-los, mensurá-los e estabelecer o grau de influência de um ou outro.


Se, por um lado o comportamento infantil pode ser atribuído a múltiplas causas, o mesmo pode ser dit do comportamento das mães. Estas, sujeitas a vivências e tensões oriundas de várias fontes, irão atuar sobre seus filhos de acordo com todas estas influências. Inclusive, irão atuar de forma diferente em relação a cada um de seus filhos, em função das características diferenciais de cada um deles e das circunstâncias especiais que estejam vivenciando.


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