Clara Regina Rappaport



Baixar 295 Kb.
Página18/32
Encontro27.05.2018
Tamanho295 Kb.
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   32
2.2.1.3 As etapas orais
Karl Abrahan, psicanalista do grupo freudiano, aprofunda-se nas idéias iniciais de Freud sobre a fase oral e nela discrimina duas etapas básicas de desenvolvimento da libido. A primeira é chamada de fase oral de sucção, e corresponde a um período de relações

afetivas pré-ambivalentes, que cobrem basicamente o primeiro semestre de vida; ou, num correlato biológico, vai do nascimento ao período inicial da dentição. O segundo semestre do primeiro ano corresponderá à etapa oral sádico-canibal, iniciada a partir da dentição, onde as fantasias agressivas serão correlacionadas com a percepção do objeto inteiro, ou seja, com o surgimento da ambivalência (a mesma mãe é boa e má), e com a dentição, ou seja, a percepção do primeiro momento de agressão ou destrutividade real da criança.


A etapa oral de .sucção
A criança funciona basicamente incorporando o universo que a rodeia. Não o discrimina coerentemente, e o mundo de suas vivências é o mundo interno das fantasias. Não há vínculos com objetos externos inteiros. Eles são apreendidos de forma parcial e organizados pela realidade interna. O que é apreendido é sentido como parte integrante do eu. O mundo é buscado para ser incorporado, reduzindo-se a algo “digerido”, indissociado dos sentimentos bons ou maus que a relação desperta.
A relação incorporativa estabelecida é a base da introjeção. O seio, a mãe, as relações boas que deles emanam passam a fazer parte do mundo interno da criança. Ela sente que as coisas que recebe em seu interior são boas, e sente-se boa. Como o que importa é a realidade interna, este sentimento de amor ou de bom é utilizado para permear as primeiras percepções do mundo externo, ou seja, os objetos percebidos são sentidos como bons. Simplificando, o processo fica assim: incorporo e me sinto bom, projeto para ver o mundo “externo”, porque este só é percebido através da minha realidade psíquica; e, portanto, por me sentir bom posso ver a minha mãe boa; como eu a vejo especularmente, ligo-me a ela. Este processo, que chamamos de identificação projetiva, constitui a base da configuração dos vínculos de amor, da configuração inicial da identídade e do reasseguramento dos sentimentos positivos que permitirão a progressiva evolução da libido através das várias fases.
Embora a genitalidade domine a organização afetiva adulta, podemos perceber que vários traços orais são mantidos, permeando os relacionamentos afetivos dos adultos, O beijo é ainda o símbolo central do engajamento amoroso. Expressamos nele o traço do vínculo afetivo original mais forte que foi desenvolvido. O beijo não fecunda, não é elemento biológico necessário para a perpetuação da espécie. É, sim, vínculo do engajamento amoroso, constitutivo da organização afetiva familiar humana. Chamar a mulher amada de “docjnho” ou o homem de “pão” são verbalizações denotadoras dos traços orais que permanecem na genitalidade. Isto é igualmente vá-

32


33

lido para a expressão “comer alguém” como indicadora do relacionamento sexual. Homens mandam bombons para as namoradas. Mulheres prendem os homens “pelo estômago”; o traço oral persiste.


Ao nível masculino, o prazer obtido com o seio é mantido, expandindo-se para o prazer de se relacionar com o corpo e os genitais femininos. A mulher se estrutura como objeto desejado e fonte de prazer, Ao nível feminino, sentir que as coisas que recebe em seu interior são boas prepara-a para a sua futura genitalidade receptiva. Receber o homem em seu interior será sentido como fonte de prazer e gratificação.
A gratificação oral inicial também pode ter sido sentida como insatisfatória ou insuficiente. Isto criará permanentemente a expectativa de que receber o mundo externo, ou se relacionar com ele, será fonte de angústia ou de sofrimentos. Discutiremos algumas destas modalidades quando tratarmos da amamentação. Interessa-nos agora a mais grave delas: a esquizofrenia. Temos examinado que o mundo externo só pode ser progressivamente conhecido e amado a partir dos vínculos de maternagem. A criança pode nascer tão frágil, tão sensível à angústia ou, como dizemos analiticamente, com predominância do instinto de morte sobre o de vida, que quaisquer oscilações da maternagem repercutirão como processos destrutivos, fazendo-a regredir e isolar-se em seu mundo interno de fantasias. Também a criança com uma propensão normal ao desenvolvimento sadio pode sofrer uma maternagem tão desestruturadora e agressiva, que não seja capaz estabelecer vínculos significativos com a mãe e, portanto, com os demais objetos do mundo externo.
Nestes casos ocorre um isolamento. Não ocorre o desenvolvimento de vínculos, e a realidade externa passa a ser rejeitada. Todo prazer, ou melhor, toda segurança, só pode existir dentro do mundo interno de fantasias. O externo não forma um todo coerente, as discriminações são fragmentárias e parciais. As apreensões parciais são modeladas e integradas em uma realidade interna, de fantasias, que é sentida como a única realidade. Os processos mentais são os do inconsciente. O Ego não se fortalece, o processo secundário não se estabiliza. O desejo, o temor, as fantasias organizam-se como a realidade do pensamento. A configuração da identidade não se pode formar.
Este não é um fenômeno do “tudo ou nada”. Em maior ou menor grau, todas as pessoas sofreram frustrações orais que as marcaram de maneira mais ou menos profunda. Estatisticamente o pico da incidência dos surtos esquizofrênicos está situado no período final da adolescência. Isto significa que o indivíduo tem uma certa capacidade para resistir aos picos mais críticos das angústias iniciais e para continuar seu processo de desenvolvimento, que pode até

aparentar-se normal para a percepção externa e leiga. Mas um ponto de fixação foi criado, ou seja, grande parte da energia da libido foi imobilizada neste momento. Os desejos não satisfeitos conservam-se sempre, como uma energia presa que não pode ser elaborada. A repressão que se forma, para não permitir a emergência dos desejos ou da destrutividade que é sentida junto com eles, imobiliza outro tanto de energia. Com isto, ficam também presas a este ponto as fantasias deste momento e as modalidades de relação com o mundo que o caracterizam, e, mais particularmente, das defesas que foram mobilizadas contra a angústia.


Embora o desenvolvimento aparentemente prossiga, o indivíduo se torna frágil. Parte de sua energia vital está imobilizada, e seu desenvolvimento prosseguirá sendo estruturado pela energia restante.
O Ego será mais frágil e não terá tanta força para enfrentar as futuras crises. Assim, não é que a estrutura narcisista e cindida da criança permaneça linearmente. Melanie Klein mostra inclusive que o pensamento infantil é psicótico, mas neste momento isto representa uma etapa adequada do desenvolvimento infantil. E exatamente o que Freud chama de narcisismo secundário que irá configurar a doença. Freud utiliza um correlato biológico para exemplificar o processo. A ameba é uma massa fechada. Emite pseudopoder, para contactuar e incorporar os objetos externos, que são trazidos para dentro dela. Mas enquanto a ameba vai permanentemente fazendo suas incorporações por este contato, o psicótico recolhe para dentro de si as apreensões externas, recolhe suas possibilidades de novas ligações, e o mundo externo perde o sentido.


Baixar 295 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   32




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino médio
ensino fundamental
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
oficial prefeitura
Boletim oficial
Curriculum vitae
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
educaçÃo física
Poder judiciário
saúde conselho
santa maria
assistência social
Excelentíssimo senhor
Atividade estruturada
ciências humanas
Conselho regional
ensino aprendizagem
Colégio estadual
Dispõe sobre
secretaria municipal
outras providências
políticas públicas
ResoluçÃo consepe
catarina prefeitura
recursos humanos
Conselho municipal
Componente curricular
psicologia programa
consentimento livre
ministério público
público federal
conselho estadual