Clara Regina Rappaport



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2.2.1.2 A organização da libido
O reflexo de sucção é inato, sendo desencadeado pela colocação do mamilo ou outro objeto na boca da criança. Um toque realizado com o dedo, no rosto da criança, fará com que esta se volte para tentar sugar o objeto que a está tocando. Os toques em outras regiões do corpo com freqüência provocarão o mesmo reflexo. De uma maneira geral, podemos deduzir que, biologicamente, o impulso destinado à alimentação é um fator central da organização infantil inicial. E é exatamente ao nível dos reflexos alimentares que a busca de adaptação ao mundo e a procura de prazer são profundamente correlacionados.
Outros grupos reflexos coexistem neste momento. Dentro dos reflexos posturais vemos que a criança já possui estrutura automatizada para o andar. Um recém-nascido, seguro pelas mãos e conduzido de pé para a frente, apresentará a coordenação alternada e reflexo do movimento de pernas. Há um núcleo reflexo, posterior- mente dominado pela organização voluntária, sobre o qual se estruturará o andar. O reflexo tônico-cervical-assimétrico do recém-nascido, que o deixa na clássica posição de esgrimista, ou seja, tortinho, com uma perna encolhida e uma mão diante do rosto, servirá de suporte para as correlações mão-boca e conhecimento da mão, dados fundamentais para as praxias iniciais.
Mas este grupo de reflexos não tem a conotação de prazer apresentado pelos alimentares. O mesmo se pode dizer dos reflexos defensivos. Por exemplo, diante de um ruído forte o bebê se encolhe rapidamente e em seguida atira as pernas e braços para fora. Não é difícil ver a correlação com nossos processos defensivos físicos onde, num primeiro momento, nos protegemos e, num segundo, tentamos expulsar a fonte da agressão. Esta postura defensiva fica ainda mais clara quando picamos a planta dos pés de um bebê com uma agulha. Reflexamente ele retira o pé. Mas, se este pé estiver seguro, ele encolhe a outra perna e em seguida a estica na direção do pé magoado. Parece-nos claro que todos os grupos reflexos estão ligados ao progressivo processo de construção do real, notavelmente estudado e descrito pelo grupo de Piaget. Mas o vínculo do prazer, suporte para o desenvolvimento da aftividade, é neste momento uma correlação oral. Ë em cima do prazer inicial, da satisfação tida com a amamentação, que se aprenderá a amar e que se aprenderá a desenvolver Os vínculos de amor em seguida dissociados da exigência biológica básica de alimentação. Freud organiza a descrição das fases de evolução da libjdo em seu Três ensaios para uma teoria sexual (1903). Neles, o termo fase oral ainda não aparece, mas Freud já descreve Vários aspectos da afetividade oral, estruturados sobre a amamen 30

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(ação. Dá como suporte as descrições efetuadas pelo pediatra Lindner, onde os vínculos de prazer ligados à amamentação são excepcionalmente bem descritos. Quase que apenas lhe falta uma síntese teórica para se antecipar a Freud. Mostra Lindner como todo envolvimento, a expressão de prazer e êxtase durante o processo de amamentação são similares às manifestações orgásticas do adulto.
Vimos observando até agora que, tanto ao nível dos reflexos quanto ao nível dos vínculos de prazer externamente percebidos, a organização oral é o elemento central da motivação infantil inicial. Quando utilizamos o termo motivação, temos claro que estamos criando a impressão de uma dicotomia no ser humano, dicotomia que teria, diante das situações de vida, de um lado a capacidade cognitiva de elaborar e resolver problemas e, de outro, o impulso que dá a energia para que a situação de vida seja enfrentada. Não cremos pessoalmente nesta dicotomia humana, mas ao nível dos atuais conhecimentos da psicologia, Piaget (e seguidores) emerge como o teórico da construção do real, portanto da evolução da cognição humana; e Freud e seguidores são os responsáveis pela descrição evolutiva normal e patológica da afetividade. Nesta dimensão afetiva, o vínculo oral é claramente percebido como o ponto central do vínculo humano de prazer.
A evolução da libido é, portanto, o tema central do desenvolvimento para a psicanálise. A fase oral é então definida como a etapa de desenvolvimento onde a libido está organizada sob o primado da zona erógena oral, dando como modalidade de relação a incorporação. Isto significa que o centro da organização afetiva está determinado por processos introjetivos. Mamar e sentir prazer é sentir que o leite é bom, que o seio é bom, que a mãe é boa e que o mundo é bom. A sua sensação de que está bem é correlata à de ter colocado dentro de si objetos do mundo externo que são bons. O seio e a mãe podem ser sentidos como bons porque foram incorporados. A incorporação é a modalidade primitiva da introjeção, portanto dependente de referenciais concretos. Por isso, a maternagem é fundamental para que a criança se sinta adequada, amando e sendo amada. O vínculo básico da maternagem é a amamentação. Erik Erikson diz que neste momento a criança ama com a boca e a mãe ama com o seio.


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