Clara Regina Rappaport



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1.2.2.2 Outros momentos críticos da gravidez
Rachei Soifer acompanha cada etapa específica da gestação, analisando as fantasias e os sintomas correlatos. Apresentarei apenas três outros períodos críticos da gestação, por me parecerem os centrais na evolução psíquica da gestação: a placentação, a instalação dos movimentos fetais e os últimos dias antes do parto.
Placenta ção
A nidação e a placentação são processos que biologicamente poderíamos classificar de parasitismos. Não são processos de trocas, mas processos nos quais um organismo se instala no outro, sugando-o para prover seu próprio desenvolvimento. Fazem parte do psiquismo infantil fantasias de roubar (sugar, esvaziar pela voracidade e inveja) e ser roubado. Os processos psíquicos parecem sempre se originar de processos biológicos de base, pelo menos em sua origem. Por isso, sempre dizemos que o psicológico é anaclítico ao biológico. Se no desenvolvimento biológico da gestação existe um processo orgânico de parasitagem, isto criará condições de base para a emergência de fantasias persecutórias. Neste momento os sonhos das gestantes traduzem fantasias típicas de estarem sendo roubadas e esvaziadas. Este é um momento crítico dentro da gestação. Se os sintomas de rejeição (náuseas e diarréias) persistirem, um acompanhamento psicológico da gestação, bem como as orientaçôes e informações concretas às gestantes serão necessários como psicoprofilaxia do aborto.
A movimentação do feto
A motilidade surge no feto a partir do 4,0 mês. Em geral ainda não há a percepção consciente destes movimentos. Grande parte das gestantes os percebem durante o 50 e algumas só no 7•0, Várias ansiedades estão ligadas à percepção destes movimentos, e é um mecanismo defensivo normal o embotamento de sua percepção, ou seja, a negação. Assim, estes movimentos que são inconscientemente percebidos, podem ser negados no plano da percepção consciente. Nos casos mais graves, esta negação pode ser somatizada através da contração dos músculos abdominais, numa tentativa fantasiosa de impedir a movimentação do feto. Se estas contrações musculares, que são inconscientemente provocadas, persistirem durante a conti nuaçã

do processo, poderão interferir na rotação do feto, deixando a criança em posição atípica para o parto.


O conflito aceitação-rejeição que acompanha a gravidez será agora sintomatizado na verbalização. Algumas mães se utilizarão de frases carinhosas para indicar os movimentos. Dirão que a criança as está alisando, está se aninhando, ou que parecem borbulhas gostosas. Outras os descreverão como chutes, cutucadas, não sendo raro ouvir frases como “está me entortando a costela” ou “está me amassando o rim”. A verbalização pode ser tomada numa relação direta. As verbalizações positivas ou prazeirosas, como manifestação da dimensão de aceitação; e as negativas ou agressivas, como manifestação da rejeição.
Com a movimentação fetal surge também a percepção concreta de que o feto está vivo, ou seja, a consciência de que se está dando à luz uma nova geração que emerge. Esta consciência trará várias fantasias específicas que envolverão diferencialmente marido e mulher. Em primeiro lugar, emerge a responsabilidade materna, ou seja, a preocupação com as características que terá a futura criança. Note- se que, no plano da fantasia, a criança é sentida muito mais como produto da mãe do que do pai. Para isto podemos apontar, de um lado, raízes na evolução filogenética da fantasia, ou seja, a capacidade masculina de fecundar as mulheres só é descoberta tardiamente na história da evolução humana. Nos grupos mais primitivos a formação do bebê era de responsabilidade exclusiva das mulheres. De outro lado, raízes atuais, em que, pelo fato de carregar o nascituro no ventre durante 9 meses e por nutrir sua formação da concepção ao nascimento, o bebê acaba sendo fantasiado muito mais como um produto materno do que como um produto dual. Embora esta preocupação também surja nos pais, é notadamente intensificada nas mães. Um meio concreto de se confirmar este dado consiste em verificar como os pais suportam melhor o nascimento de uma criança lesionada do que as mães.
Quanto melhores tiverem sido as relações iniciais da gestante com sua mãe, em geral menor será o temor de deformação fetal. Digo em geral porque fatores concretos tais como malformação uterina e doenças genéticas na família agravarão o temor. Ernest Jones, já no início do século, havia caracterizado que, das relações hostis mãe- filha, pode ficar na criança o sentimento de que está destruída sua capacidade de sentir prazer ou de obter gratificação genital. Melanie Klein amplia depois a compreensão destas relações, mostrando que a estrutura central da fantasia decorrente é o temor de ter destruído os órgãos internos da mãe, ou de que a mãe destruiu os seus. À medida que predominou a angústia, ou seja, os ataques destrutivos fantasiados nas relações iniciais, perdurará na mulher a fantasia de

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que seu interior é destruído ou destrutivo, O filho, produto de seu interior, poderá ser fantasiado como atingido por esta destrutividade. Na prática, isto aparecerá por uma reação maníaca, ou seja, a mãe verbalizará e apregoará que terá um filho maravilhoso, forte, saudável, sensível, inteligente. E interessante como estas afirmações vêm precedidas claramente por mecanismos de negação dos temores. A mãe dirá coisas assim: “não estou preocupada, porque sei que tudo irá dar certo. . . jamais tive a preocupação de que será defeituoso e acho que será muito bonito. . “, etc. E senso comum em psicologia que as afirmações precedidas de negação normalmente indicam um temor que não está sendo percebido. Quando pedimos a estas mães que nos relatem seus sonhos, neles encontramos estes temores presentes de forma direta ou simbolizada.


A consciência de que se está produzindo uma nova geração desperta igualmente no pai e na mãe o temor de sua própria morte. A fantasia básica subjacente é a de que, uma vez posta no mundo a geração futura, a geração atual cumpriu sua tarefa e inicia seu trajeto rumo à morte. A sucessão de gerações, ou seja, o ciclo de vida. procriação e morte faz parte do ciclo evolutivo da natureza, O suporte para a fantasia é filogenético. Mas não deixa de apresentar modelos defensivos atuais, por exemplo, a postura filicida faz parte não só das mitologias (Cronos come seus filhos para que não cresçam e tomem seu lugar), como também das estruturas sociais modernas, onde a geração dominante cria barreiras à ascensão dos grupos jovens. O vestibular é um exemplo típico do modelo social de contenção da geração emergente.
Ao nível da mulher, a condensação destas ansiedades é o temor de morrer no parto. Ao nível do homem, o temor fica mais difuso, por falta de um suporte concreto. Temos observado que este constitui um momento crítico na estrutura psíquica do marido, sendo que muitos abandonos de lar ocorrem nestes momentos. A ansiedade não definida provoca uma defesa inadequada, e o marido foge.
A movimentação fetal acentua também a configuração de uma relação triangular pai-mãe-filho. Isto atualiza os conflitos passados referentes à fase fálica, ou seja, ao triângulo edípico. Muitas das expressões utilizadas pelas mães para descrever os movimentos soam como sensações masturbatórias. Se a ansiedade edípica aumenta, dois sintomas ficam típicos. O primeiro é evitar o relacioramento sexual, pois com isto afasta-se a idéia de sexualidade; portanto, evitam-se as fantasias incestuosas. O segundo é o “enfeiamento” da gestante. As roupas horríveis chinelos, anda mal arrumada e penteada. Esta deselegância traz simbolizada a mensagem de que “sou feia, portanto não sou sexualmente atraente, portanto não me envolverei numa sexualidade incestuosa”.

Ao nível do pai, a atualização do édipo traz vários conflitos e sintomas. Um primeiro é, como defesa, cindir a imagem feminina em mulher-mãe e mulher-sexual. Passa a evitar relacionamento sexual com sua esposa, idealizada como mulher-mãe, e inicia casos extraconjugais, em geral com prostitutas, onde é muito concreta e definida a imagem da mulher-sexual. Vejam que, se falamos em retomada das ansiedades edípicas, devemos ter presente que o temor de castração está presente. Nesta situação, o temor de castração se concretiza no temor de uma vagina dentada, que poderá castrá-lo na penetração. Discutimos em detalhes esta fantasia masculina no primeiro volume desta coleção, quando tratamos dos mitos das sereias e iaras. Esta fantasia, se exacerbada, poderá causar a impotência masculina diante da mulher grávida. Durante vários anos supervisionamos cerca de duzentas entrevistas anuais, realizadas por nossos alunos das Faculdades Metropolitanas Unidas, com gestantes e parturientes. E interessante como são freqüentes estes episódios de impotência e, em geral, racionalizados como um “temor de ferir a criança”.


Uma outra característica do psiquismo masculino neste momento é o aparecimento da inveja da fertilidade feminina. Da mesma forma que há na mulher uma inveja básica do pênis, tão exaustiva- mente explorada por Freud, outros psicanalistas, notadamente MeIafie Kleín, descrevem o correlato masculino como uma inveja da capacidade que a mulher tem de gerar um filho em seu interior. Esta inveja é inconsciente, aparecendo neste momento como uma curiosidade ou preocupação em acompanhar o que está acontecendo dentro da mulher. O pai então tenta escutar o bebê, falar com ele, apalpálo ou acompanhar seus movimentos. Este processo é fundamental para o desenvolvimento do sentido de paternidade. Podemos observar facilmente nos grupos mamíferos que em geral apenas a fêmea assume a cria. Parece que o instinto materno é inato. O paterno deve ser desenvolvido. E a inveja da mulher, ao motivar este acompanhamento da gestação, faz com que o homem também sinta a gestação como sua, assumindo portanto o filho como seu e desenvolvendo o sentido de paternidade.


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