Clara Regina Rappaport



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Fome, néuseas, diarréia e Constipação

Os processos psíquicos tendem a ser globalizantes. Quando algum modelo de relação se estabelece, não o faz, em geral, apenas para um segmento da personalidade, mas todas as relações internas e, portanto. toda decorrente interação com o mundo, passam a sofrer interferências desta modalidade de relação estabelecida. Vimos acima que o nascimento de um filho gera um triângulo familiar que faz com que o pai retome suas angústias edípicas passadas. No caso da mãe, a regressão que, a priori, está a serviço de uma maternagem adequada, fará com que, paralelamente, a estrutura afetiva regredida da mãe seja particularmente sensível à retomada de suas angústias passadas.


A criança, durante suas etapas iniciais de vida, nutre não apenas um grande vínculo de amor pela mãe, mas também apresenta crises de ódio e destrutividade. Tratamos introdutoriamente destes aspectos no primeiro volume desta coleção e o aprofundaremos progressiva- mente dentro de nossa proposta de acompanhamento evolutivo da criança. Por ora, basta-nos saber que não só a criança deseja o seio, como nas crises de fome e de dor fantasia ataques destrutivos ao seio, onde as armas são principalmente os dentes, as fezes e a urina. O seio, e depois a mãe, são ambígua e paralelamente assimilados como bons, e atacados como maus. Se as angústias despertam o instinto de morte e se a mãe constitui o objeto básico da relação inicial, quanto maiores as angústias do início da vida mais ficam fixadas as fantasias de que a mãe foi atacada ou destruída, e, em contraponto, pelo retorno da destrutividade projetada, mais ficam fixadas as fantasias de que a mãe atacou ou destruiu a criança
Toda gestante possui então uma história passada onde, paralelamente aos momentos de prazer, houve momentos onde aangústia e a destruição estiveram presentes em seu relacionamento fantasiado com a mãe. Estamos utilizando o termo relacionamento rantasiado porque para o desenvolvimento afetivo o que importa é a realidade psíquica. A realidade externa objetiva, exceto se muito patológica, serve em geral para concretizar as fantasias que o psiquismo está gerando. Nenhuma mãe “média” é totalmente boa ou má. A criança pode tomar como preponderante ou os seus aspectos bons ou os maus. Isto depende de vários fatores, como a capacidade congênita de crescimento (força de Eros, ou do instinto de vida), de fatores circunstanciais (doenças da criança ou da mãe, afastamentos acidentais, etc . .) e das atitudes globais da mãe.
Devemos ter claro que a gestante está com um filho presente. Ainda não nasceu, mas já há o relacionamento afetivo dela com um filho. Estamos portanto num binômio mãe-filho, tal qual a gestante

teve com sua própria mãe. Se ela está regredindo a modelos afetivos infantis, está também retomando as angústias vividas na relação com sua própria mãe. E estes conflitos são atualizados na relação que agora estabelece com seu próprio filho. Se em sua fantasia sente que atacou e destruiu sua mãe, agora terá o sentimento de que será atacada e destruída por este filho. Se a inveja e a voracidade foram sentimentos que a dominaram durante seu aleitamento, deve ter restado um sentimento de que, para crescer, esvaziou e destruiu a mãe. Este sentimento poderá ser agora atualizado, ficando a fantasia de que, para crescer, o filho a destruirá. As angústias geradas durante a gestação são basicamente organizadas como atualizações das angústias vividas pela gestante, quando ainda bebê, em seu relacionamento com a mãe.


Todos estes processos são inconscientes. Manifestam-se basicamente através de sintomas orais e anais, visto que estes períodos carregam os aspectos mais destrutivos (e também mais cheios de amor) da fantasia infantil. Ao nível oral a fome aparece como um sintoma de aceitação. A gestante come desbragadamente, alegando que está comendo por dois. Ora, no final da quarta semana o embrião tem apenas 5 mm de comprimento. Ao fim do 2.° mês, apenas 25 mm. Ë óbvio que a grande quantidade de comida extra não está sendo usada para alimentar o feto. A fantasia determinante é a de pôr coisas boas dentro do corpo, ou seja, a de ter coisas boas dentro do corpo. Daí as tarefas árduas dos maridos de procurarem raros e saborosos quitutes. às vezes fora de época e hora, para satisfazer suas esposas.
A náusea, ao contrário, surge como um sintoma de que algo inteiro é sentido como mau e precisa ser eliminado. Ë comum pessoas sentirem náuseas diante de situações deprimentes. Mas voltamos a frisar que, face à ambigüidade emocional diante da gravidez, é normal coexistirem tanto a fome (aceitação) quanto as náuseas (rejeição). Normalmente, a fome passa a estar sob controle e as náuseas desaparecem ou diminuem com a evolução do processo. A permanência de um nível alto de náuseas e vômitos é indicativo de que a gestante necessita atendimento psicoprofilático voltado para o parto.
A constipação e a diarréia são correlatos anais da fome e da náusea, A constipação se manifesta como uma tentativa de reter dentro de si um produto que é precioso. É um sintoma de aceitação mas, se exacerbado, além dos problemas físicos decorrentes, pode estar indicando uma tentativa de aprisionamento simbiótico do filho. Isto poderá ser um sintoma de problemas futuros, ou seja, a mãe não permitirá que a criança se desligue e construa sua identidade pessoal. Na diarréia, tal qual na náusea, há no sintoma físico a tentativa de expelir um processo interno ansiógeno. Note-se que o que se tenta

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expulsar é o processo que gera a angústia, e não o filho. Mas, quando estes sintomas de rejeição são intensos, há alto risco de aborto. O mecanismo de defesa psicológico foi inadequado e exacerbado.




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